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Neste capítulo tratamos das principais características dos professores/tutores presenciais e professores/tutores a distância no Ceará, analisando nessa pesquisa as quatro Instituições escolhidas (UFC, IFCE, UECE e FDR), em que focalizamos o critério de atuação em todo o Estado do Ceará e as publicações de editais públicos para processos seletivos na admissão de professores/tutores para cada uma destas Instituições. Nessa direção revisitamos a análise de estudos elaborados em relação à precarização do docente e seu desdobrando no desempenho das funções docentes exercidas agora por não professores, mas por professores/tutores.

4.1 A precarização do trabalho docente e a nova configuração da figura do professores/tutor como professor

A precariedade das condições de trabalho dos profissionais em educação é uma realidade em todos os níveis de ensino no Brasil. Em relação ao trabalho docente na universidade, podemos denunciar, em largas linhas, que a precariadade se apresenta pela falta de verbas para financiamento dos projetos de pesquisas dos professores/pesquisadores, mas, sobretudo, pelos limites impostos no cotidiano da sala de aula. Na maioria das faculdades brasileiras, as condições de trabalho são ruins, as salas são desconfortáveis e não há recursos tecnológicos suficientes, além do que a lógica do aligeiramento do ensino de graduação perpassa nas atividades do professor.

Dentro de uma lógica gerencial de administrar o setor da educação no atual momento do capital em crise estrutural, a universidade assume a concepção produtivista empresarial, em que os professores são praticamente obrigados a focar suas atividades na produção cientifica, reduzindo a questão da qualidade do ensino e da produção de novos conhecimentos.

Ao docente universitário está sendo atribuída uma imensa carga de trabalho provocada pelo acúmulo de vários fatores, desde a diminuição do tempo para mestrandos e doutorandos, em que os professores precisam agilizar as orientações, até a cobrança pela quantidade de publicações e de participação em colóquios e congressos, em que constitui o

principal critério de avaliação pelo CNPq e CAPES. Outrossim, o docente, com uma sobrecarga de trabalho, precisa se desdobrar em atividades burocráticas, destinando boa parte do seu trabalho à fabricação de projetos, relatórios e comissões.

Longe de apresentar toda a realidade vivida pelos docentes nas universidades públicas brasileiras, esses aspectos refletem a precarização do trabalho docente, que tende alcançar maiores proporções, levando-os, como alguns estudos denunciam, a problemas sérios de saúde, como também contribui para a redução da qualidade do ensino brasileiro.

Existe no Brasil uma nova modalidade de exploração do trabalho intelectual, o professor substituto ou terceirizado. O modelo de contratação dos professores é mediante contratos temporários relacionados, a princípio, a uma carência, em decorrência de uma liberação de o professor titular para doutoramento; no entanto, sabemos que a terceirização dos professores é uma forma de o Estado escapar da contratação de professores efetivos.

O impacto pedagógico na universidade é revelador, os professores situados nesse processo de rotatividade se sentem desvalorizados no espaço de pesquisa e reconhecimento da universidade, assumindo, geralmente, com carga horária elevada, restringindo as suas atividades ao tarefismo de ensinar aulas a alunos interessados apenas em concluir o terceiro grau.

Centrado em um modelo de educação que prioriza a gestão de projetos e ações afirmativas, a universidade brasileira também tem sido um lócus de conivência da exploração da força de trabalho intelectual precarizada, em que compromete, sobremaneira, a formação intelectual das novas gerações. Os professores deveriam se situar no topo da valorização profissional, não apenas no que se refere à melhora de salários e planos de carreira dignos, mas, sobretudo das condições de trabalho, haja vista que eles são os responsáveis diretos pela construção de uma formação humana e emancipada capaz de superar a atual condição de submissão do capital.

Segundo Capela, Cavalcanti e Moura (2010) existem, aproximadamente, 88% dos jovens brasileiros com idade entre 18 e 24 anos que permanecem fora da educação superior. Entretanto, essa reduzida quantidade de universitários não significa que ocorra uma qualidade no ensino superior no Brasil. Baseado nos aspectos definidos por Bosi (2007, p. 1503), os referidos autores afirmam que ocorre uma progressiva precarização do trabalho docente na universidade, situada dentro dessas facetas: (a) o crescimento da força de trabalho docente ocorrido, principalmente no setor privado e em novas universidades estaduais, em que as

condições de trabalho e de contrato existentes geralmente são precárias; (b) a mercantilização das atividades de ensino, pesquisa e extensão nas IES públicas; e (c) a adoção de critérios exclusivamente quantitativos para a avaliação da produção do trabalho docente e suas consequências.

Verifica-se uma “instabilização” e uma precarização dos laços empregatícios, com o aumento do desemprego prolongado e da flexibilidade no uso da mão-de-obra. Esse movimento de instabilização mostra-se mundializado, enquanto o segundo movimento, “precarização”, resultado do primeiro, no sentido de que a emergência do novo modelo produtivo, a especialização flexível, funda-se sobre a flexibilidade máxima dos processos, da tecnologia, do emprego.22

Percebe-se com isso que existe íntima relação entre a precarização, o (des)emprego, a flexibilidade e a tecnologia. Sendo a última usada exaustivamente para intensificar, ainda mais, a exploração da força de trabalho em escala mundial.

A principal diferença entre o atual impacto das inovações tecnológicas no tecido social e o das décadas anteriores é que os setores expulsos do sistema produtivo não são os mesmos que estão sendo incorporados pelo novo modelo. Sujeitos integrados tornam-se vulneráveis, particularmente em decorrência da precarização das relações de trabalho. (XXXX, lll, p.137)23

Para Coggiola (1998), a articulação das empresas dos países centrais, principalmente IBM, Microsoft, as empresas da mídia, como Time-Warner e os organismos internacionais, num mercado que envolve quatro milhões de professores, oitenta milhões de alunos e trezentos e vinte mil estabelecimentos escolares, constitui uma das principais estratégias para viabilizar o processo da utilização da educação à distância, através da venda de pacotes tecnológicos e/ou implantação de universidades virtuais parceiras de universidades norte-americanas e europeias24.

As reformas da educação superior via EaD são importantes estratégias para a abertura do “mercado educacional” brasileiro aos empresários norte-americanos e europeus, objetivando adequar o ensino superior à lógica do capital e criando as bases para a implantação da tarefa política de desmontar a educação superior brasileira.

Benzer Belgeler