Um ano depois das visitas, recebi o convite do prof. V*** para ir em sua escola (o que se deu no mês de abril de 2017) solicitando a minha presença enquanto pesquisadora, para acompanhar a visita dos Pataxó. A sua demanda era de que eu pudesse ir em dois momentos: antecedendo à visita dos indígenas, com o objetivo de trabalhar o assunto previamente com os professores (para que estes ficassem mais instrumentalizados para recepcionar os indígenas de uma forma mais produtiva e não apenas como uma atração para a escola), e que eu fosse também, no dia da visita do
121
A respeito dos livros encontrados (todos de cunho folclorista) farei reflexões a respeito no subcapítulo 5.2
grupo, para que pudesse ter uma fala a respeito da importância daquele trabalho, visto a consonância com a Lei 11. 645/08.
Considerei significativo esse pedido, demonstrando por parte do prof. V*** um engajamento ainda maior (embora já o achasse um professor comprometido) na medida em que se preocupou em preparar antecipadamente os professores.
Após acertarmos alguns detalhes por telefone122, referentes à localização da escola e duração da palestra prévia, eu pude comparecer na mesma, dia 4 de abril, dias antes da visita dos Pataxó, que se realizou dia 8 como um dos eventos componentes de um sábado letivo, no qual se comemoraria a festa da família.
No dia 4, pude apenas ter uma breve conversa com os professores, devido à dinâmica interna da escola, pois no dia, três professores haviam faltado, inviabilizando, portanto, por um tempo estendido, a presença dos professores que estavam interessados em minha fala.
Além do prof. V***, somente quatro professores compareceram à sala de vídeo, onde eu os esperava minutos antes de seu intervalo.
Devido à magnitude do assunto, e ao pouco tempo que tínhamos, deixei claro desde o início que era impossível que debates maiores sobre a questão indígena fossem praticados (tínhamos apenas meia hora) e neste sentido eu preferi focalizar na questão da diversidade e frisando para que os professores procurassem trabalhar com os alunos a quebra de estereótipos, desmitificação de algumas ideias ligadas à imagem de indígenas imutáveis e parados no tempo, contextualizando-os na contemporaneidade.
Pontuei brevemente sobre como era a dinâmica da visita e, por fim, frisei muito que trabalhassem com os alunos a questão do respeito aos indígenas que fariam a visita, visto que algumas vezes, em momentos informais, a Avelin e outra indígena componente do grupo do X*** tinham relatado alguns episódios em escolas, onde eles teriam sido vítimas de comentários preconceituosos.
Neste dia, estavam presentes dois professores de História, um de Geografia e uma professora de Ensino Religioso.
122
A princípio, quando solicitada a minha presença pelo prof. V***, disse a ele que não me sentia à vontade em comparecer na escola sem a presença da Avelin, sendo assim, pedi que ele primeiramente entrasse em contato com ela e solicitasse também sua presença. Partiu dela mesma (na impossibilidade de comparecer) a indicação de meu nome.
V*** havia mencionado que não tinha tido uma adesão dos demais colegas de trabalho, com exceção dos professores de Arte e Educação Física, que apesar de não estarem no dia de minha fala prévia, estavam engajados no projeto, procurando relacionar a temática indígena com suas disciplinas específicas. O professor de Educação Física no caso, estava trabalhando com os alunos alguns jogos indígenas e o prof. de Arte faria algumas dinâmicas com seus alunos no dia da festa, mas V*** não entrou mais em detalhes sobre estes trabalhos.
No dia 8, encontrei com X*** e seu pequeno grupo (neste dia, apenas mais um casal de indígenas) onde estavam hospedados, e de lá fomos de carona para a escola. Num dos carros, fomos eu e mais uma professora e todo o artesanato do grupo. Em outro carro, pertencente ao prof. V***, foi X*** e os outros dois indígenas.
Para mim, foi um encontro agradável, pois fiquei feliz em rever tanto o prof. V*** quanto X***, um ano após o meu campo.
Após chegarem à escola, foram encaminhados pela diretora (que os recebeu muito bem), para montarem sua exposição em um lugar adequado e logo em seguida foram chamados para apresentarem sua cultura.
A escola havia providenciado aparelhagem de amplificação de som, como eu havia pedido na terça-feira123 e os alunos e comunidade foram encaminhados para uma quadra coberta, onde seria feita a apresentação.
Rapidamente falei sobre a importância de se trabalhar a cultura indígena na escola124 e logo em seguida passei o microfone para X***, que se apresentou e passou o microfone para os demais para que se apresentassem também.
Após apresentarem-se brevemente falando seus nomes indígenas, o grupo começou o Awê, antes explicando ao prof. V***que era o momento de oração, de boas vindas, e onde o prof. V*** transmitiu a explicação para a comunidade125. Porém, tão
logo iniciaram o Awê, depois da oração inicial, o professor de Arte posicionou- se logo atrás, tentando acompanhar todos os movimentos corporais feitos. Em seguida, dirigiu-se à comunidade e voltou com mais três alunos, os quais o
123
A coordenadora havia solicitado que eu, após a fala com os professores, fosse em sua sala, explicar como aconteciam as visitas e o que seria preciso no que tange à infraestrutura oferecida pela escola. 124
Não quis ter uma fala demorada, visto que queria que a ênfase fosse dada à presença dos indígenas, e além disso, o som estava mal equalizado, com muita reverberação, dando a impressão de não estar tão claramente audível, o que também me fez não ficar muito à vontade para uma fala extensa. 125
A diretora da escola os acompanhou em todos os movimentos, segurando o microfone perto deles, para que os cânticos fossem audíveis, visto que a quadra era bem grande e os alunos encontravam-se na arquibancada, bem distantes de onde o grupo de X*** havia se posicionado para o Awê.
seguiram em seus movimentos, descompassados, e deslocados da performance dos indígenas126.
Após realizarem o Awê, X*** continuou por um tempo na quadra tirando foto com os alunos e não falou de aspectos de sua cultura. Em seguida, se dirigiu para o local onde já tinha organizado o artesanato, e ficou por conta da venda dos mesmos.