A perspectiva da organização como um conjunto, portfólio ou “feixe” de recursos tem suas origens nos estudos seminais realizados por Edith Penrose, no final da década de 1950. Buscando respostas para os fatores determinantes do crescimento das organizações em seus mercados e dos limites a este crescimento, a autora direcionou grande parte de seus esforços intelectuais para o ambiente interno das organizações da sua época, concentrando sua atenção no entendimento das relações entre a estrutura administrativa e os recursos produtivos contro- lados pelos seus gestores, estes considerados como necessários para a consecução adequada de suas estratégias de expansão por meio da diversificação.
A autora defende a tese de que o crescimento é limitado pelas oportunidades produti- vas decorrentes do portfólio de recursos controlados pelas organizações e pela estrutura admi- nistrativa utilizada para coordenar o uso desses recursos produtivos (PENROSE, 2006). Espe- cificamente em relação à organização, Penrose (2006) a considera como um reservatório de recursos materiais e humanos interligados em uma estrutura administrativa, cujas fronteiras são determinadas pela área de Coordenação Administrativa e por comunicações dotadas de autoridade.
Os recursos materiais, na perspectiva da autora, são objetos tangíveis, representados pelas instalações, equipamentos, refugos, subprodutos e estoques de produtos acabados que ainda não foram disponibilizados aos mercados consumidores. Os recursos humanos compre-
endem a força de trabalho qualificada, ou não, e o pessoal burocrático, administrativo, finan- ceiro, jurídico, técnico e gerencial. Um aspecto muito importante que se destaca dos estudos de Penrose (2006) é que os recursos em si não constituem os insumos do processo produtivo, mas os serviços que eles podem prestar.
Essa ideia ressalta, mesmo que de maneira implícita, a importância do conhecimento e da inteligência do corpo gerencial de uma organização e abre possibilidades interessantes para a realização de pesquisas no campo da estratégia, especialmente ao considerar o trabalho do estrategista na gestão e integração eficiente, eficaz, efetiva e dinâmica dos recursos, das capa- cidades e das competências organizacionais ao processo estratégico como objeto de pesquisa, o que pode ser verificado com a crescente adoção da perspectiva da estratégia como prática (WHITTINGTON, 1996), das capacidades dinâmicas (TEECE, PISANO e SHUEN, 1997; EISENHARDT e MARTINS, 2000) e da Knowledge-Based View – KBV (SPENDER, 1996; GRANT, 1991, 1996).
Ao entender a organização como estruturas administrativas coerentes, Penrose (2006) chama a atenção para a necessidade de manter recursos administrativos experientes em sua estrutura, especialmente porque eles podem ajudar na absorção de administradores externos a ela. Desse modo, a crescente experiência e a evolução do conhecimento da administração em relação aos demais recursos da organização, além do potencial de utilização desses recursos de diferentes maneiras, promovem as condições e os incentivos necessários para novas expan- sões, na medida em que a organização procura estratégias mais inteligentes sobre como usar os serviços de seus próprios recursos mais eficientemente e, portanto, mais lucrativamente (PENROSE, 2006).
Nesses últimos anos, grande parte das pesquisas realizadas no campo da estratégia de negócios tem ressaltado as contribuições seminais de Penrose (2006) seguindo uma nova a- bordagem teórica: a Resource-Based Theory (RBT), ou Resource-Based View (RBV), apesar de este conceito não ser consenso entre os autores do campo da estratégia contemporâneos. Após uma análise aprofundada da literatura, pode-se afirmar que a RBT inclui todas as abor- dagens teóricas que consideram os recursos e capacidades organizacionais como as principais fontes de vantagem competitiva, da qual a RBV faz parte.
O Quadro 3 resume algumas das principais contribuições de Edith Penrose para os au- tores da RBV, conforme apontado por Kor e Mahoney (2004), Lockett (2005) e Barney e Clark (2007).
QUADRO 3
Edith Penrose e a visão baseada em recursos da organização
Contribuições
Contribuições em termos de criação de vantagem competitiva:
• A organização pode criar valor econômico, não apenas pela simples posse de recursos produtivos, mas por meio de uma inovadora gestão dos mesmos (desenvolvimento idiossincrático das organizações).
• Necessidade de se compreender adequadamente a relação entre recursos e a geração de oportunidades produtivas para o crescimento e inovação (experiência dos gestores, novas combinações de recursos, ino- vação e criação de valor econômico).
• Talento gerencial e técnico superior como determinantes da direção e taxa de crescimento das organiza- ções (ignorância desses fatores leva a perda de vantagem competitiva e de desempenhos econômicos supe- riores)
Contribuições em termos de sustentação de vantagem competitiva:
• A organização deve manter a sua base de recursos produtivos e o conhecimento adquirido em continua evolução.
• Ênfase na dimensão tempo e na proteção das vantagens conquistadas por meio dos esforços de inovação (patentes, grandes volumes de capitais, fidelidade à marca e reputação).
• Nenhuma organização está imune à competição schumpeteriana e ao empreendedorismo, por isso, ela deve se adaptar e responder criativamente aos desafios impostos por seus mercados em transformação. Fonte: KOR e MAHONEY (2004); LOCKETT (2005); BARNEY e CLARK (2007)
Segundo Barney e Clark (2007), ao direcionar a atenção para os aspectos internos das organizações, Edith Penrose trouxe uma nova perspectiva para o campo da estratégia. Uma das mais significativas decorreu da observação de que organizações diferentes, normalmente, controlam conjuntos de recursos produtivos e administrativos diferentes. Esta é a suposição básica da heterogeneidade de recursos defendida pelos autores da RBV e é considerada como uma das causas das diferenças de desempenho entre as organizações instaladas em determina- da indústria (BANDEIRA-DE-MELLO e MARCON, 2006).
Barney e Clark (2007) ainda destacam duas outras importantes contribuições de Edith Penrose para o campo da estratégia. A primeira refere-se à adoção de uma definição mais am- pla do que seria recurso produtivo e das implicações competitivas do controle de recursos inelásticos na oferta para o desempenho econômico, como é o caso das equipes gerenciais, dos grupos de administradores de topo e das habilidades e competências empreendedoras. A
segunda está diretamente relacionada com o destaque dado pela autora às habilidades empre- endedoras dos gestores como recursos produtivos, o que confere caráter mais dinâmico e a- daptativo ao processo de desenvolvimento dos recursos organizacionais e, consequentemente, à expansão das organizações em seus respectivos mercados. Essa perspectiva mais dinâmica da organização é defendida por Barney (2001) em resposta às críticas desenvolvidas por Pri- em e Burtley (2001a, 2001b) sobre o caráter estático da RBV e está em sintonia com o concei- to de “destruição criativa” proposto por Schumpeter (1934) ao analisar os temas “Inovação” e “Empreendedorismo”.
Importante destacar, ainda, as contribuições de dois outros autores que têm aparecido com frequência nas pesquisas realizadas sobre a RBV: Ricardo (1817) e Selznick (1957). O primeiro com a teoria da renda da terra, ou a teoria ricardiana e, o segundo com a proposição do conceito de “competências distintivas”, ao analisar o fenômeno da liderança. Sinteticamen- te, a teoria da renda da terra ricardiana tem suas bases fundamentais na teoria do monopólio, na produtividade e na teoria dos rendimentos decrescentes (BARNEY e CLARK, 2007).
Resgatando-se o conceito de renda da terra, Ricardo (1982, p. 65) o define como sendo “a parcela do produto da terra que é paga ao proprietário pelo uso das forças originais e indes- trutíveis do solo”. Para este autor, as terras de uma nação são desiguais, devido a suas diferen- ças naturais de fertilidade e às desiguais distâncias em relação aos mercados, o que reforça a importância de conceitos como renda diferencial e produtividade marginal (RICARDO, 1982).
Barney e Clark (2007), ao analisarem as contribuições de Ricardo para o campo da es- tratégia, especialmente para o contexto da RBV, argumentam que a terra é um recurso perfei- tamente inelástico na oferta, pois, “diferente de muitos fatores de produção, o fornecimento total da terra é relativamente fixo e não pode aumentar significativamente em resposta a altas demandas e preços” (BARNEY e CLARK, 2007, p. 8). Essa condição especial de determina- dos recursos controlados pelas organizações pode atuar como uma potencial fonte de vanta- gem competitiva sustentável, já que alguns tipos de recursos e capacidades não podem ser adquiridos ou imitados com facilidade pelos concorrentes, como é o caso do conhecimento tácito dos seres humanos (POLANYI, 1967; NONAKA e TAKEUCHI, 1995; GRANT, 1991, 1996).