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Como se pode constatar, o artigo 79, da Lei Geral do Cooperativismo trata o ato cooperativo como sendo unicamente aquele praticado de forma bilateral, ou seja, existe a necessidade de participação ao mesmo tempo do associado e da cooperativa, ou desta com outras cooperativas associadas entre si, buscando o cumprimento do seu contrato social. O que não estiver dentro deste contexto, aos olhos da legislação mencionada, não será ato típico, portanto, receberá tratamento jurídico diverso.

107 Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário n. 672.215 RG/CE. Ministro Joaquim Barbosa. Data do julgamento 29/03/2012. Data da publicação DJE 30/04/2012. Plenário.

Em outros dizeres, o ordenamento jurídico somente estaria admitindo o ato cooperativo estrito senso, isto é, aqueles negócios internos da sociedade cooperativa. Todavia, não há a menor dúvida de que as cooperativas não realizam somente negócios jurídicos internos (com os associados), mas também, atuam no mercado, praticando negócios com outras pessoas (físicas ou jurídicas). Pela redação do artigo 79, da Lei n. 5.764/71, estes negócios praticados com não associados não estão cobertos pelo ato cooperativo.

Vale destacar neste ínterim que muitas vezes para a consecução dos negócios internos, também chamados de negócios-fim, a cooperativa depende dos negócios externos ou negócios-meio, i. e., aqueles praticados com não associados.

Melhor elucidando, dentro do universo do cooperativismo, os negócios jurídicos podem ser classificados nas seguintes categorias:

a) negócios-fim; b) negócios-meio;

c) negócios-auxiliares, e;

d) negócios secundários ou supérfluos. Explica Renato Lopes Becho:

Por negócios internos ou negócios-fim temos aquelas operações para as quais a cooperativa foi criada. São a consecução de seus objetivos sociais. Os negócios externos ou negócios-meio são aqueles necessários para a consecução dos negócios internos ou negócios-fim. Não são as práticas principais, entretanto são imprescindíveis para que essas se realizem.108

Exemplifica Walmor Franke, dizendo que:

Assim, nas cooperativas de produtores, o negócio interno, isto é, a entrega dos produtos pelo cooperado para serem vendidos pela cooperativa (in natura ou após transformados) necessita, para a sua total execução, de outro negócio, o negócio-meio, consistente na vendo do produto pela cooperativa no mercado, com reversão do respectivo preço, minus despesas, ao sócio.

Nas cooperativas de consumo, o negócio interno, isto é, o fornecimento de bens ou utilidades ao associado, somente é possível se, anteriormente, a cooperativa adquiriu tais utilidades ou bens no mercado, mediante outro negócio, o negócio-meio.

Embora se trate de negócios distintos, verifica-se, porém, que há nas cooperativas uma íntima conexão entre o negócio-fim e o negócio- meio.

Esta conexão entre as duas espécies de negócios jurídicos decorre precisamente da natureza orgânica da sociedade cooperativa, assinalada pela moderna doutrina.109

E mais:

Em consonância com a natureza dúplice da sociedade cooperativa, os negócios jurídicos em que ela é figurante têm, em regra, caráter bipartido.

O negócio-interno ou negócio-fim está vinculado a um negócio externo, negócio de mercado ou negócio-meio. Este último condiciona a plena satisfação do primeiro, quando não a própria possibilidade de existência (como, por exemplo, nas cooperativas de consumo, em que o negócio-fim, ou seja, o fornecimento de artigos domésticos aos associados, não é possível sem que antes esses artigos tenham sido comprados no mercado).

Nas cooperativas de consumo, como se viu, o negócio-meio é a compra de artigos domésticos; o negócio-fim é o fornecimento dos artigos aos sócios.

Nas cooperativas agrícolas, o recebimento de produtos de associados, para o efeito de sua comercialização, é o negócio-fim; a venda desses produtos, em estado de natureza ou industrializados, é o negócio-meio.110

Podemos ainda acrescer a estas lições o caso das cooperativas de crédito. A liberação de um crédito a favor do associado evidentemente se trata de um negócio interno ou negócio-fim. Na medida em que o associado paga o empréstimo feito, o dinheiro retorna ao caixa da cooperativa e a finalidade da sociedade vai sendo cumprida. Até aí não há qualquer dúvida.

Assim, quando um associado toma emprestado algum valor da cooperativa para a aquisição de um veículo, este negócio jurídico é classificado como interno, atingindo os objetivos sociais da cooperativa. Mas, quando o associado deixa de adimplir as parcelas do empréstimo e se faz necessário o ajuizamento de uma medida judicial para reaver o bem móvel, o juiz determina a busca e apreensão com a entrega do veículo à cooperativa.

109 FRANKE, op. cit., p. 24. 110 Id. ibid., p. 26-7.

Nesta situação, a cooperativa fará a venda do veículo, para que possa recuperar o dinheiro emprestado ao cooperado. Desse modo, este veículo poderá ser vendido tanto para um cooperado, quanto para um não cooperado. Por se tratar de uma cooperativa de crédito, o seu objeto societário é viabilizar crédito aos associados e não a venda de veículos automotores. Portanto, fazendo a venda para associado ou não associado, não estará praticando um negócio-fim.

Entrementes, nem por isso podemos deixar de qualificar a compra e venda do veículo como ato cooperativo, pois, este não é somente aquilo praticado em sentido estrito, nos moldes do artigo 79, da Lei Geral do Cooperativismo, mas também, todos aqueles negócios-meio praticados pelas cooperativas e que são vitais para a existência dos negócios-fim.

Dessarte, os atos cooperativos podem ser estrito senso ou lato senso.

A venda do veículo pela cooperativa de crédito é primordial para a realização do negócio-fim, pois, faz-se necessário recompor o seu patrimônio principal que é o dinheiro. O mesmo pode acontecer em qualquer outro procedimento judicial em que se vise o recebimento do crédito e ocorra a penhora de algum patrimônio do associado. A adjudicação desse patrimônio e a venda pela cooperativa, por se tratar de negócio-meio, não desnatura o ato cooperativo.111

Não obstante, as cooperativas podem praticar negócios-auxiliares e negócios- secundários ou supérfluos.112

É cediço que para a execução dos objetivos sociais das cooperativas, estas sociedades precisam se valer de negócios operacionais, como a locação de um imóvel, a contratação de mão de obra e fornecedores, compra de material de escritório e de limpeza. Em determinadas circunstâncias, a cooperativa tem que vender um patrimônio que já se tornou dispensável ou substituí-lo por um novo.

111 Em sentido contrário Vergílio Frederico Perius:

“Os negócios-meio, decorrentes de intermediação mercantil ou eventualmente de contratos de natureza civil, não se constituem em atos cooperativos. Como atos mercantis ou civis, sujeitam-se à plena tributação, como prevê o art. 111 da Lei n. 5.764/71. O mesmo não ocorre com os negócios-fim, para os quais há tratamento fiscal diferenciado, por serem atos cooperativos.” Cooperativismo e lei. São Leopoldo: Unisinos, 2001, p. 86.

112 Walmor Franke se refere aos negócios-secundários ou supérfluos como negócios acessórios. Seguindo o mesmo entendimento de Renato Lopes Becho (Elementos de Direito Cooperativo, p. 163), a expressão negócios-acessórios causa confusão com os negócios-meio, pois, estes últimos são os verdadeiros negócios-acessórios dos negócios-fim.

Enfim, muitos negócios podem ser realizados pelas sociedades cooperativas, porém, não são considerados como atos cooperativos, estrito senso ou lato senso, pois são de segunda ordem, denominados de negócios auxiliares ou secundários/supérfluos. Neste sentido caminha a doutrina de Walmor Franke:

As próprias cooperativas que adotam, no seu funcionamento, o

princípio de exclusivismo, operando unicamente com associados,

necessitam praticar, além dos negócios internos (negócios-fim) e negócios de mercado (negócios-meio), outros negócios jurídicos, que não se confundem com aqueles, a saber:

a) Negócios auxiliares, que são ‘todos os negócios que, em dado caso, precisam ser realizados por motivos especiais e imperiosos no interesse da persecução do objeto da sociedade, os quais, por conseguinte, se tornam necessários à execução dos negócios-fim.’ Incluem-se nos negócios auxiliares a locação de imóveis para uso da cooperativa, a aquisição de material para escritório, a compra de combustível para máquinas agrícolas de uso comum, o fornecimento de caixas e cestos por uma cooperativa de fruticultores para uso dos sócios no acondicionamento de sua produção etc.

b) Negócios acessórios113, ‘os quais não se encontram em relação

imediata com o fim da sociedade. Verificam-se, eventualmente, na esfera operacional da empresa e, conquanto se trate de negócios acessórios, não se equiparam a uma fonte autônoma de receitas (por exemplo, a venda de uma máquina imprestável ou tornada obsoleta etc.)’.114

De tudo quanto visto, a nova ordem constitucional não mais admite a literalidade do artigo 79, da Lei n. 5.764/71, de tal sorte que, inobstante os negócios- fim praticados pelas sociedades cooperativas, em respeito aos seus objetivos sociais, não se pode deixar de considerar os negócios-meio como essenciais à consecução das finalidades da cooperativa, de forma que estes também devem ser considerados atos cooperativos (lato senso).

Somente não podemos admitir como ato cooperativo os negócios auxiliares e os negócios secundários ou supérfluos, pois, estes não visam à concretização imediata dos objetivos societários da cooperativa. São negócios de segunda ordem, realizáveis pelas cooperativas, entretanto, sem ligação direta com o seu objeto social.

113 Atentar para a nota de rodapé acima, pois não concordamos com o uso da expressão negócios-

acessórios. A definição dada pelo autor está de acordo, apenas o uso desta expressão que julgamos

não ser adequada.

Esta ideia foi captada pelo legislador na apresentação inicial do Projeto de Lei do Senado n. 03, de 2007, de autoria do Senador Osmar Dias, onde foi sugerida a alteração do artigo 79, da Lei n. 5.764/71, nos termos que seguem:

O Capítulo XII regula o sistema operacional das cooperativas. Define, para tanto, o ato cooperativo, ao qual a Constituição prevê tratamento tributário adequado, como “aquele praticado entre a cooperativa e seu sócio ou entre cooperativas associadas, na realização de trabalhos, serviços ou operações que constituam o objeto social”. Equipara ao ato cooperativo “os negócios auxiliares ou meios, indispensáveis à consecução dos objetivos sociais”. Cria a possibilidade de cooperação entre cooperativas e outras pessoas, naturais ou jurídicas, mediante o estabelecimento de contratos de parceria. Prevê, ainda, um mecanismo de capitalização das cooperativas mediante emissão de Certificados de Aporte de Capital, adquiríveis por não sócios. Estabelece, finalmente, as condições nas quais a cooperativa poderá operar com não sócios, bem como os procedimentos para a cobertura das despesas, das perdas e prejuízos, assim como a destinação das sobras.115

Apesar do Projeto de Lei ter comparado negócios-meio com negócios auxiliares, o que não concordamos, conforme exposto alhures, não podemos deixar de registrar que a intenção foi boa. Porém, esta parte do Projeto de Lei acabou recebendo um parecer da Comissão no sentido de que o assunto deveria ser debatido em outro momento, mais especificamente na condução dos trabalhos do Projeto de Lei Complementar n. 271/2005, que trataremos adiante.

Benzer Belgeler