A interação social do homem na linguagem ou por meio dela caracteriza-se, fundamentalmente, pela argumentatividade. O ato de convencer está ligado à prática discursiva relacionada a certo grau de violência e, quase sempre à violência simbólica (BOURDIEU, 1989), uma vez que não se assenta em uma realidade dada como natural. É pelo discurso, ou ação verbal dotada de intencionalidade, que o homem tenta influir sobre o comportamento de seu semelhante ou fazer com que este compartilhe de suas opiniões. O ato de argumentar,
portanto, constitui-se em um ato linguístico fundamental, pois passamos a maior parte de nosso tempo defendendo nossos pontos de vista, falando com pessoas, tentando motivá-las.
No auge da democracia clássica grega, no século V a.C., a fala era a principal arma de intervenção na vida pública. Em Roma, a retórica conheceu seu ápice com Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.), que não só foi um brilhante orador, mas também um teórico de sua arte. O orador, dizia ele, devia alcançar três objetivos: docere (ensinar), delectare (deleitar, agradar) e movere (afetar emocionalmente, comover) (TEIXEIRA; MACEDO, 2010, p.100).
De acordo com Abreu (2001), em seu livro “A arte de argumentar”, somente a partir dos anos 60, a retórica voltou a ganhar crédito nos estudos da linguística, pragmática e a análise do discurso. Ela trabalha com diferentes ângulos, pontos de vista, mexendo com a criatividade. Para o autor, “[...] o verdadeiro sucesso depende da habilidade de relacionamento interpessoal, da capacidade de compreender e comunicar ideias e emoções” (ABREU, 2001, p.26). Para conquistar essa capacidade, precisa-se compreender que:
Argumentar é a arte de convencer e persuadir. Convencer é saber gerenciar informação, é falar à razão do outro, demonstrando, provando. [...] Persuadir é saber gerenciar a relação, é falar à emoção do outro. [...] Convencer é construir algo no campo das ideias. [...] Persuadir é construir no terreno das emoções, é sensibilizar o outro para agir (ABREU, 2001, p.25).
Como se vê, argumentar não é manipular e sim agir com ética e assertividade. Razão e emoção caminham juntas, cada uma com sua função. Gerenciar a informação é ser crítico, substituindo a mídia por outros meios de comunicação. É importante ressaltar que “o mais importante não são as informações em si, mas o ato de transformá-las em conhecimento” e, sobretudo, julgá-las, uma vez que “(...) a mídia nos oferece uma espécie de ‘visão tubular’ das coisas. É como se olhássemos apenas a parte da realidade que ela nos permite olhar, e da maneira que ela quer que nós a interpretemos” (ABREU, 2001, p.11-12).
Gerenciar a relação requer sensibilidade para adentrar no campo das emoções: “preocupar-se em ver o outro por inteiro, ouvi-lo, entender suas necessidades, sensibilizar-se com seus sonhos e emoções. [...] é saber falar menos de si e do que se quer, e mais do outro e do que é importante para ele” (ABREU, 2001, p.93). Para gerenciar a relação é preciso entender as emoções eufóricas que são as positivas, e disfóricas que são emoções negativas que atrapalham a vinda do novo.
Portanto, pode-se concluir que gerenciar informação (razão) é convencer, e gerenciar relação (emoção) é persuadir. Para Abreu (2001), deve-se saber dosar um e outro. Para convencer precisa-se de recursos verbais que são as técnicas argumentativas ou não-verbais que
podem ser um recurso de presença. Porém, não é o suficiente para conseguir um resultado satisfatório. Só convencer pode não trazer os resultados, porque deve completar o argumento por meio da persuasão e as palavras que escolhemos têm enorme influência em nossa argumentação. Veja o exemplo de Abreu (2001, p.100):
Um publicitário, encontrando um cego em uma das pontes da cidade de Londres e vendo que o pobre homem recebia muito pouco dinheiro dentro do chapéu que estendia aos passantes, pediu a ele autorização para virar ao contrário a tabuleta em que se lia a palavra cego e escreveu no verso outra mensagem. Algum tempo depois, passando pela mesma ponte o publicitário viu que o cego estava bastante feliz porque estava recebendo muito dinheiro do que antes diante do novo encontro perguntou ao publicitário:
- Conte-me o que você escreveu na minha tabuleta, que fez tanta gente ser generosa comigo?
- Nada de mais disse o publicitário. Escrevi apenas o seguinte: “é primavera e eu não consigo vê-la” (ABREU, 2001, p.100).
O fato de que o cego não conseguia ver a primavera é óbvio. O que o publicitário fez foi apresentar esse fato aos transeuntes, de um outro ponto de vista, por meio de outras palavras. Segundo Teixeira e Macedo (2010), do ponto de vista da clareza e da gramática, o primeiro debate dos candidatos à corrida presidencial de 2010, na emissora de televisão Band, “deixou a desejar”. Já que os três principais candidatos – Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva - afundaram-se em anacolutos, solecismos, frases inconclusas e inadequações gramaticais como se observa nos exemplos das figuras 14, 15 e 16 em destaque na reportagem da Revista
Veja (2010, p.96-97).
Figura 14 – O Português no Debate – Dilma Rousseff Fonte: Revista Veja, 11 de agosto de 2010, p.96-97.
Figura 15 - O Português no Debate – José Serra Fonte: Revista Veja, 11 de agosto de 2010, p.96-97.
Figura 16 - O Português no Debate – Marina Silva Fonte: Revista Veja, 11 de agosto de 2010, p.96-97.
Para Teixeira e Macedo (2010, p.94), na maior parte, o debate foi simplesmente “ininteligível”, o que é inaceitável, visto que disputam ofício público que exige a formulação clara de propostas concretas e princípios abstratos falharam todos, em maior ou menor medida, no uso de uma ferramenta básica: a linguagem.
Observa-se que dos três candidatos aquela que na avaliação da Revista Veja comunicou- se com mais vivacidade, clareza e imaginação foi Marina Silva que é um exemplo de superação pela sua trajetória de vida e educacional.
No livro “Marina: a vida por uma causa”, de Marília de Camargo César, tem-se o relato do seu progresso nos estudos.
[...] na adolescência sonhava em ser freira. “Minha avó dizia: ‘Minha filha, freira não pode ser analfabeta’”, lembra ela. O desejo de aprender a ler passou então a acompanhá-la. Aos 16 anos, deixou a floresta e mudou-se para a capital do Acre, Rio Branco, em busca de tratamento médico. Aproveitou a oportunidade para também se dedicar à vida religiosa e, ao mesmo tempo, estudar. Na capital acriana, para se sustentar, passou a trabalhar como empregada doméstica. Revia as lições durante as madrugadas. O progresso nos estudos foi rápido. Entre o período de Mobral, no qual aprendeu a ler e a escrever, até a graduação em licenciatura em História (Universidade Federal do Acre) transcorreram apenas dez anos. Sua formação foi complementada posteriormente com as pós-graduações em Teoria Psicanalítica e em Psicopedagogia (CÉSAR, 2012, p.23)
Assim, “tolerância significa virtude de convivência humana, da qualidade de conviver, de aprender e de respeitar o diferente” (FREIRE, 2004, p.24). “Por isso mesmo, na tolerância virtuosa não há lugar para discursos ideológicos, explícitos ou ocultos, de sujeitos que, julgando-se superiores aos outros, lhes deixam claro ou insinuam o favor que lhes fazem por tolerá-los” (FREIRE, 2004, p.24).
De acordo com Freire (2009b), como o opressor, para oprimir, precisa de uma teoria da ação opressora, os oprimidos, para se libertarem, igualmente necessitam de uma teoria de sua ação. E esse momento altamente pedagógico acontece “quando a liderança e o povo fazem juntos o aprendizado da autoridade e da liberdade verdadeiras que ambos, como um só corpo, buscam instaurar, com a transformação da realidade que os mediatiza” (FREIRE, 2009b, p.206).
4.2.1 Odoriquês, Odoricadas, Odoriquismos: a linguagem estereotipada da política O preconceito linguístico fica evidente nas ilustrações e expressões “asininas” como se observa na figura 17 e com o título da matéria: “Abaixo o Odoriquês!” publicado na Revista
Figura 17 - O português corrente no Brasil com seus “odoriquismos” Fonte: Revista Veja, 11 de agosto de 2010, p.101.
Ao eliminar as peculiaridades regionais e etárias da língua, a televisão acaba contribuindo para a formação de um português urbano padrão. “O recurso a gírias regionais, expressões grosseiras e erros de português é, sim, admissível, mas com parcimônia” (TEIXEIRA; MACEDO, 2010, p.100).
Essas variações aparecem em situações humorísticas, motivadas por falantes estigmatizados. É tendência, na mídia, principalmente a televisiva, criar imagem pejorativa de variedades do interior de certas regiões do Brasil, como falantes nordestinos, mineiros, paulistas, cariocas, paraibanos, entre outros, e principalmente de regiões rurais. Essa postura influencia o preconceito que os telespectadores desenvolvem sobre as variedades estigmatizadas, possibilitando a manifestação de avaliações negativas em relação a essas variações (SCOPARO; MIQUELETTI, 2014, p.10).
Fato é que na mídia televisiva, por exemplo, normalmente os personagens de nível socioeconômico cultural baixo são desempenhados por sujeitos que não dominam a norma culta, o que nem sempre condiz com o real. Além disso, muitas vezes, a variabilidade linguística “é motivo de piada a exemplo do que ocorre com o personagem Nerso da Capitinga, Adelaide, no programa Zorra Total, entre tantos outros” (SCOPARO; MIQUELETTI, 2014, p.10).
Para o novelista Silvio Abreu (2010), “deve-se deixar claro para o espectador que aquele linguajar é uma licença da ficção para retratar um tipo peculiar” (apud TEIXEIRA; MACEDO, 2010, p.100). Como o Odorico Paraguaçu, criado pelo dramaturgo Dias Gomes, vivido por Paulo Gracindo na televisão e por Marco Nanini no filme “O Bem Amado” (BRASIL, 2010) que “atropela a gramática” no afã de “falar bonito” em seus discursos políticos.
Segundo Viveiros (2013a), os supostos “erros” nos discursos políticos do personagem Odorico Paraguaçu ficam em segundo plano, já que acabam elevando o sentido que o personagem pretende passar em suas falas, pois consegue deixar amplo seu vocabulário trazendo neologismos para seus discursos com um jeito muito particular e humorado para convencer e persuadir seus eleitores. Na figura 18, tem-se a cena do filme do discurso de posse do candidato.
Figura 18 – Discurso de Odorico Paraguaçu Fonte: Filme “O Bem Amado” (2010)
- Povo de Sucupira, meus conterrâneos, venho de branco para ser mais claro. Tomo posse como prefeito dessa cidade com as mãos limpas e o coração nu, despido estripiticamente de qualquer ambição de glória nesta hora tão exorbitante, neste momento extrapolante, eu ergo os olhos para o meu destino e vendo no céu a cruz de estrelas que nos protege peço a Deus que olhe por nossa terra e abençoe a brava gente de Sucupira e o meu governo para que juntos possamos transpor a região do sol (O Bem Amado, 2010).
Quando o personagem diz “meus conterrâneos”, ele tenta ficar mais íntimo, mais próximo do seu eleitorado para mostrar que é igual a todos, e que veio do povo. Já ao dizer que “venho de branco para ser mais claro”, quer passar a ideia de “ficha limpa,” ou seja, que ele não é desonesto. Isso também é perceptível na expressão “mãos limpas”. Para Abreu (2001,
p.126), essa comparação do branco utilizada pelo personagem chama-se metáfora de claro e
escuro que se contrastam para passar a ideia de uma situação vantajosa.
Ao falar: “coração nu despido estripiticamente de qualquer ambição”, quer mostrar que está ali por amor pelo povo e na sua vida não existe ambição, ainda nesse trecho o personagem usa o recurso da figura de som, paronomásia, que é uma figura de som chamada homeoteleuto, que termina da mesma maneira, definida por Abreu (2009, p.112), quando usa as palavras “exorbitante” e “estrapolante,” para através do som chamar a atenção do povo para uma parte do discurso que é persuasivo, pois ele usa da religiosidade citando céu, cruz, Deus para convencer a população. Ainda nesse parágrafo, Odorico utiliza a metáfora pastoral conforme Abreu (2009, p.122) para persuadir a população pedindo a proteção de Deus, quando diz: “[...] Deus que olhe por nossa terra e abençoe a brava gente de Sucupira”.
Nomeiam-se como “Odoriquês” os neologismos criados pelo personagem Odorico Paraguaçu, que o dicionário eletrônico Houaiss (2010) define etimologicamente neologia + -
ismo como o emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, na
mesma língua ou não atribuição de novos sentidos a palavras já existentes na língua, unidade léxica criada por esses processos. No filme “O Bem Amado”, o personagem de Odorico cria- as para deixar seus discursos aparentemente mais “suntuosos”, Na tabela abaixo, há alguns dos neologismos encontradas na análise do filme por Viveiros (2013a).
Quadro 4 – Exemplos de Odoriquês
Achasmente Baguncista Construimento Encupridamento de pequenos salários
Passarmente Adulância Bivocabular Corregedionria Esquerda badernista,
desaforista e subversenta
Patifentos Patiforte Adupício Borboletamentos Correramantes Ideia desapretechada de
sensatismo
Pecadilhista Aforamente Cachacistas Covartista Inauguratiços Prafrentemente Agonizantista Calunienta,
Calunismo
Debochistas Inovidável Puxa-saquista Aguerrento Cangacista Defamanista Jenipapação
Jenipapista
Renuncismo Alma lavada e
enxaguada
Canhotistas Desconfirmar Licolista Licoração Sofação Sofatista Anais e menstruais da história Chegar aos finalmentes
Desculpento Maquiavelento Somentemente Apenasmente Atreístas Deverasmente Merecemente,
Merecência
Supervercente, Supervercistas Apodrecento Ciumentosa Diversionismo
desgastativo Noval Talqualmente Cemitério na sua virgindade defuntícia Coloquiamento sigiloso, com todos
os acautelatórios
Emboramente Pacatista Valentodo
Em abril de 2011, Reinaldo Azevedo divulgou em seu blog uma análise política na qual relata que a presidenta Dilma Rousseff viveu o seu momento Odorico Paraguaçu no discurso lido na primeira reunião do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). Conforme as análises mostraram, Odorico gostava de inovar no uso dos advérbios bem como Dilma Rousseff, de acordo com Azevedo (2011), ao dizer que o governo está “noturnamente” atento à inflação. O trecho do discurso está a seguir.
Todo aumento da inflação vai exigir que o governo tenha uma atenção bastante especial sobre as suas fontes e causas. Então eu quero dizer a esse conselho: o meu governo está diuturnamente, e até noturnamente, atento a todas as pressões inflacionárias, venha de onde vier, e fazendo permanente análise dela (DILMA ROUSSEFF, abril de 2011).
Segundo análise feita por Reinaldo Azevedo (2011), Dilma “erra” no significado, embora a sua “Odoricada” possa merecer uma apreciação etimológica. O adjetivo “diurno” não se refere a “dia” – não e sinônimo, por exemplo, de “diariamente” ou de “dia após dia.” O “diurno” é aquilo que se prolonga no tempo, que subsiste, de dia ou de noite. Uma preocupação diurna vai além das 18h, atravessa a noite e a madrugada. É o mesmo significado do adjetivo “diutinus”, em latim. Como ensina Francisco Torrinha, no “Dicionário Latino Português”, que o adjetivo “diuturnus”, sinônimo de “diutinus”, sofreu a influência de “diurnus.” Resulta do cruzamento dessas duas palavras, mas o significado permanece inalterado: é aquilo que se prolonga no tempo, jamais o que acontece durante o dia. Assim, prafrentemente, Dilma pode se contentar com o “diuturnamente” para designar o modo como ela se ocupa da inflação (AZEVEDO, 2011, s/p).
Indubitavelmente, Odorico Paraguaçu em toda a trama satiriza e parodia os políticos da vida real, trazendo para a obra o cômico, para que a trama fique “leve”. Através dos estudos de Viveiros (2013a), identificou-se que o prefeito utilizava as técnicas da arte de argumentar como infinitas metáforas, figuras de som e neologismos para “enfeitar” seus discursos e assim conseguir com elegância alcançar seus objetivos e persuadir a população a seu favor, sem deixar transparecer a inversão de valores que estava embutida em seus pronunciamentos.
Amparado pelas possibilidades da paródia, o discurso de Odorico, ora proferido oficialmente, ora informalmente, traduz, por meio do cômico e absurdo, a realidade brasileira. No microcosmo Sucupira, os valores são os mesmos que aqueles sustentados no macrocosmo Brasil, porém licenciados pela livre fantasia e pela excentricidade. O prefeito, por meio de seu discurso opulento e neológico, perpetua seu poder e difunde as ideias que o legitimam.