6. İçerik Oluşturma
6.6. Haber Ekleme
(TURGEON, 2014, p. 72). Essa característica dinâmica expressa pelo autor nos auxilia na compreensão dessa diversidade que pode ser observada nos grupos, inclusive na discussão do que é tradicional e do que é moderno, pois é possível observar que alguns grupos possuem práticas d
iferenciadas quanto à preparação das “fantasias” e cordões e na sonoridade, variando
com ritmos lentos e acelerados.Sobre a diversidade rítmica dos maracatus, pode-se identificar através dos discursos dos brincantes e das afirmações dos locutores que mediam as apresentações do dia 25 de março uma forte identificação quanto ao ritmo cadenciado, adotado pelos maracatus mais antigos de Fortaleza, considerado o ritmo tradicional, marcando sua batida cadenciada com o ferro de maracatu. Entretanto, essa batida dita tradicional não é adotada por todos os grupos, devido às variações quanto aos ritmos mais acelerados. Sobre isso, Militão (2007), em suas investigações acerca do Maracatu Az de Ouro, afirma que até 1959 o ritmo do maracatu Az de Ouro era mais acelerado, fato que o autor constatou através de uma gravação encontrada de Raimundo Alves Feitosa, no ano de 1943. Essa configuração mais lenta utilizada hoje teria surgido, segundo o autor, a partir do Maracatu Rei de Paus, influenciando outros grupos e tornando o ritmo cadenciado como tradicional. As possíveis motivações para essa alteração teria sido as fantasias, que se tornavam cada vez mais volumosas, e a tentativa de fazer uma diferenciação mais marcante em relação ao ritmo dos maracatus de Recife.
Independente das motivações dessa alteração, é importante salientar que a mesma foi aceita e incorporada pelos grupos, que até meados da década de oitenta utilizaram predominantemente o ritmo cadenciado, sendo modificado mais expressivamente a partir do maracatu Nação Baobá. Sobre essa aceleração do ritmo, o brincante R.P.A.R. afirma que:
Você nunca viu uma festa de negro que a batida seja triste, tudo que você vê sobre o africano são ritmos alegres, que mexe com as pessoas, mexe com o espírito com o corpo. Aí montaram essa pancada que não era assim no começo, era alegre realmente. Aí foram aparecendo os bichões sem pesquisar e foi aparecendo essa batida que tem aí, que é a lenta, que eles dizem que é tradicional, não existe batida tradicional, a batida era alegre. Aí foram baixando dizendo que as roupas estavam ficando pesadas, mas não tem nada disso. 23
Já o brincante S.G.M.A. afirma que:
Do az de ouro foi formatando outros maracatus para chegar de forma até acentuada na questão do ritmo, porque para fazer a diferenciação, por exemplo, no Recife lá
existem dois tipos de maracatu, baque virado, baque solto, aqui a gente tinha uma batida, e dessa batida sugiram outras. A célula primeira foi a da batida do maracatu Az de Ouro, e as outras foram anexadas. Por isso que tem maracatu hoje com batida acelerada, lenta, e também uma batida mais dolente, cortejo mesmo, de procissão, porque na verdade o maracatu é um cortejo de rua, que vem homenagear uma rainha que vem no final, o rei e a rainha do maracatu, como tinha também nos congos.24
Os dois relatos revelam elementos importantes, como o uso da batida mais acelerada ligado as demais manifestações afrodescendentes que utilizam ritmos mais acelerados, a questão da sofisticação das fantasias, como foi evidenciado anteriormente, e a associação da batida dolente ao cortejo enquanto procissão, evidenciando suas proximidades com os cortejos de coroações de reis e rainhas negros. Todos esses elementos mostram que a pluralidade existente hoje vai surgir da apropriação que cada grupo faz a partir do entendimento que estes possuem em relação a manifestação.
O que se verifica hoje é uma pluralidade sonora tanto em relação aos ritmos quanto aos instrumentos utilizados, pois independente dessas variações e discursos, o maracatu é, enquanto bem patrimonial imaterial, antologicamente transmissível (RAUTENBERG, 2014), podendo apresentar elementos diferenciados que vão ser incorporados por cada ser brincante, compondo um universo rico de múltiplas possibilidades, sem que este deixe de representar o cortejo de coroação da rainha negra, pois fechar seus elementos constitutivos dentro de uma conceituação limitaria a manifestação enquanto patrimônio que passa constantemente por reelaborações. Assim, o elemento marcante que está presente no ritmo, tanto no acelerado quando no lento, e que demarca a singularidade do maracatu cearense quanto a sua sonoridade, de acordo com o relatório para patrimonialização, seria o ferro de maracatu,
O uso do negrume, que também é uma característica marcante nos grupos, apresenta diferentes posicionamentos e significados, de acordo com os brincantes. Pintar o rosto é elemento obrigatório segundo as normas de pontuação do carnaval de Fortaleza, bem como do edital de financiamento da SECULTFOR. No ano de 2016, o edital da SECULT-CE de fomento ao carnaval estabelecia a pintura do negrume como opcional, contrapondo-se ao edital municipal. Entretanto, no ano de 2017, o edital passou novamente por modificações, incluindo novamente a obrigatoriedade do uso do negrume.
Existem múltiplos relatos que atribuem sentido ao uso. Segundo alguns relatos dos brincantes, o uso do negrume teria sido incorporado por Raimundo Alves Feitosa inspirado nas
cambindas, que segundo S.G.M.A. eram “homens vestidos de mulheres, tipo baianas, e aí ele
se influenciou também não só cultural da manifestação em si. [...] Ele diferenciou, aqui ele