A antropologia de Santo Domingo entra em sintonia com as demais Conferências a ela precedentes. Realizada com a finalidade de comemorar os 500 anos de evangelização do Continente Latino-americano319 e rever a caminhada da Igreja320 os bispos reunidos na cidade de Santo Domingo na Republica Dominicana no ano de 1992, lembraram a necessidade de uma Nova Evangelização321 e destacaram a firmeza de se pensar na dimensão da Promoção Humana322.
Nova Evangelização e Promoção Humana323 devem estar em sintonia324, pois o E- vangelho de Jesus Cristo direciona-se a homens concretos e os bispos em Santo Domingo não esquecem a dimensão do sofrimento dos homens da América Latina325. Uma vez que em Pu- ebla se falava das feições sofredoras do Cristo, Santo Domingo se refere aos rostos sofridos do Senhor.
Descobrir nos rostos sofridos dos pobres o rosto sofrido do Senhor (Mt 25,31-46) é algo que desafia todos os cristãos a profunda conversão pessoal e eclesi- al. Na fé encontramos os rostos desfigurados pela fome, consequências da inflação, da dívida externa e das injustiças sociais, os rostos desfigurados pelos políticos que
319 Cf. CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. Conclusões da conferência de Santo Domingo. In:
documentos do CELAM. São Paulo: Paulus, 2005, 2; 16.
320 Cf. Ib. 2.
321 Cf. SD 6; 8; 23-30. 322 Cf. Ib. Cap. II.
323 Chama atenção o esquema de Santo Domingo, pois ao se falar de nova evangelização contempla as dimensão
da religiosidade como pratica celebrativa e ao tratar de promoção humana apresenta a religião como prática vivida. No entanto, essas dimensões não são vistas separadas uma das outras, na linguagem de Santo Domingo nelas há verdadeira simbiose (cf. SD 159) . Da mesma forma que não se evangeliza salvando só a alma, não se pode falar em evangelização restrita ao aspecto cultural. De igual modo, isso pode ser dito a respeito da promo- ção humana, não se promove o ser humano, pensando só na materialidade de seu corpo, mas dando a este ho- mem a condição ser homem na sua completude.
324 “Entre evangelização e promoção humana – desenvolvimento e libertação – existem de fato laços profundos:
laços de ordem antropológica, dado que o homem que há de ser evangelizado não é ser abstrato, mas é sim ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de ordem teológica, porque não se pode dissociar o plano da Criação do plano da Redenção, um e outro abrangem as situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços de ordem eminentemente evangélica, qual seja a ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o verdadeiro e o autêntico progresso do homem?” (EN 31).
prometem, mas não cumprem; rostos humilhados por causa de sua própria cultura, que não é respeitada, quando não desprezada; rostos angustiados dos menores aban- donados que caminham por nossas ruas e dormem sob nossas pontes; os rostos so- fridos das mulheres humilhadas e desprezadas; os rostos cansados dos migrantes que não encontram digna acolhida; os rostos envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho dos que não têm o mínimo para sobreviver dignamente (cf. CELAM, DT 163). O amor misericordioso é também voltar-se para os que se encontram em carência espi- ritual, moral, social e cultural326.
O homem, portador de transcendentalidade, nestas condições de sofrimento descritas acima e perceptíveis em seu corpo, acaba por ser mitigado. Nesse sentido, a promoção huma- na apresentada no Texto Conclusivo da Conferência de Santo Domingo, nada mais seria que libertar o homem da condição de aprisionamento e dar a oportunidade de ser o que ele real- mente é na sua essência327. Por isso se pode falar em Santo Domingo de uma visão antropo- lógica integral libertadora e promotora de vida328.
Santo Domingo apresenta a partir dessa antropologia o problema da negação e o a- prisionamento do ser humano. Nessa situação se evidenciam duas classes, opressores e opri- midos. Tanto um quando outro acaba por ser a negação da condição humana. Aos oprimidos, essa negação, vem, pois, lhes tiram a dignidade de ser homens, impõem-lhes pesos e amarras negando-lhes subjetividade, destroem seus sonhos e não lhes dão devido valor transcendental, elemento presente no profundo do ser humano. Quanto aos opressores, tais ao oprimirem não agem como homens, pois faz parte da natureza humana ir ao encontro do outro para fazer o bem, isso também pertence ao fator transcendentalidade. Ao se fechar em si e exercer a o- pressão o homem nega-se a si mesmo, portanto, não reconhece em si próprio a imagem e se- melhança de Deus.
Em virtude disso o caráter de promoção humana apresentado em Santo Domingo possui ambivalência. Da mesma forma a nova evangelização, dentro dessa visão, deve recu- perar a ordem antropológica integral em todos os homens, tanto nos oprimidos como também
326 SD 178.
327 Em Santo Domingo, 159 se salienta que Jesus foi ao encontro dos homens e mulheres sofridos e deu a eles
dignidade os promovendo e a ação de Jesus estava motivada pela dignidade de todo homem, ou seja, ser pelo qual ele se encarnou. Por isso que na reflexão do Vaticano II na Gaudium et Spes 22 se diz o seguinte: “O mis- tério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão o primei- ro homem era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, Cristo se manifesta Ple- namente ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação”.
nos opressores. Requer-se para isso antropologia sadia, sem dualismo e nem reducionismo humanista, pois, do contrário não há a possibilidade de promover a pessoa humana.