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A população que ocupa a Amazônia brasileira é notadamente marcada por uma diversidade social composta por comunidades quilombolas, indígenas, comunidades extrativistas, etc. A apropriação do território por estas comunidades acontece de forma diferenciada devido às relações que mantêm com o mesmo, podendo ser produtivas ou não. Haesbaert (1997) enfatiza que a apropriação do território deve incorporar uma dimensão simbólica e, dependendo do grupo social a que estiver se referindo, também afetiva. Este simbolismo, a identidade e a afetividade gerada pela permanência de grupos em determinados territórios, por vezes não são considerados na construção de grandes empreendimentos. Tal atitude provoca graves consequências e interferem sobremaneira no modus

ocasionados às populações afetadas, a partir de suas diretrizes para o setor energético, não tem considerado as dimensões tidas como não valoráveis.

A figura a seguir evidencia na forma de gráfico as interferências sofridas pelos afetados pela instalação do AHE - Estreito.

Figura 18: Representação simples dos impactos advindos da implantação do AHE - Estreito

É importante salientar que aqui se optou por definir como impacto inicial a desterritorialização indireta. Porém e não menos importante, deve-se observar que os impactos sociais se iniciam a partir do momento da divulgação do empreendimento, como registram Amorim e Jesus (2006), haja vista que a sua informação gera um desconforto pela incerteza quanto à própria instalação do evento, adicionada à questão da indenização e do futuro espaço a ser ocupado pelos afetados. (AMORIM & JESUS, 2006).

A desterritorialização indireta envolve, como ilustrado, os seguintes impactos:

• Ruptura com a vizinhança - este impacto está atrelado basicamente à vida

social dos moradores de determinada comunidade onde os laços afetivos surgidos das relações sociais e do cotidiano marcado por estas relações são bruscamente interrompidos;

• Ruptura familiar - da mesma forma que a relação com a vizinhança é

interrompida, esta se repete entre os componentes familiares, só que de um modo ainda mais agravado, devido à relação de parentesco tornar mais forte as relações do grupo familiar;

• Perda de áreas de atividade extrativista - grupos que atuavam

especificamente da extração de coco babaçu perdem suas áreas, perdendo conjuntamente as relações de afetividade que mantinham com seu vizinhos e membros da família. A forma de trabalho também (em grupo) é interrompida;

• Perda de terras agricultáveis - vários espaços usados para plantação foram

perdidos, incluídos as áreas de vazantes onde existiam várias culturas. A relação técnica de produção com os lugares são perdidos. Esta perda induz, juntamente com a perda de áreas de atividade extrativista a uma desestruturação financeira familiar, por cessar a forma em que se dava a comercialização do excedente;

• Perda dos recursos pesqueiros, vez que, além de impactar na oferta de

alimento, muitos ribeirinhos tem o rio como espaço de contemplação da paisagem e seus animais. A passagem de um sitema lótico para lêntico

reduz consideravelmente a quantidade de peixes como o número de espécies;

• Várias atividades coletivas são eliminadas, como as representações

religiosas em espaços específicos para tal marcadas pela imaterialidade; • Da mesma forma os espaços onde são enterrados os ancestrais, também

perdidos. Tais espaços, são muitas vezes, considerados sagrados pelas comunidades tradicionais e neles são realizadas as visitas fúnebres;

• A interrupção das relações das comunidades com o território pode

provocar distúrbios psicossociais em seus componentes. Ao mesmo tempo os afetados passam a perder suas identidades, pois estas são construídas a partir das relações com indivíduos e os territórios.

De forma complementar os impactos arrolados podem ser ratificados nas próprias entrevistas, realizadas junto a comunidades e indivíduos afetados pelo empreendimento.

No depoimento abaixo pode-se depreender que as percepções relativas às questões territoriais estão mais vinculadas ao simbolismo e à imaterialidade,

Lá morava meu pai, minha mãe, meu avô, minha avó, estão todos enterrados lá. Eles [consórcio responsável pela construção] já arrancaram tudo. Arrancaram o pessoal de lá e foram enterrados em Babaçulândia. (E.M. Boa Esperança – Palmeiras do Tocantins).

A pessoa entrevistada era moradora da Ilha de São José no Rio Tocantins (Figura 18). No momento de sua fala ela não conseguia manter a cabeça erguida, ainda assim foi possível perceber as lágrimas que escorriam em sua face. Perceptível também o seu desconforto em falar do tratamento dispensado aos

antepassados da família que obrigatoriamente tiveram que ser removidos para outro lugar.

Figura 19: Ilha de São José (rio Tocantins) - lado maranhense

Noutro momento o mesmo sujeito faz um relato que incorpora não só a dimensão da relação do indivíduo com o ambiente, como também a mudança relativa às necessidades alimentares, traçando um paralelo entre o espaço vivido anterior com o atual. Assim ela expõe a territorialidade precária a que foi submetida.

Eu nasci e me criei na beira do rio. E todos os anos quase o rio entrava dentro da nossa casa e na hora que saía, nós fazíamos de novo. E agora a gente num lugar desses que nem água tem. Ainda não querem botar água na casa das pessoas. (Grifo nosso). (...) Eu não pescava, mas meus filhos pescavam. Pegavam peixe demais, e aqui não tem nada, nenhuma piaba. (E.M. – Palmeiras do Tocantins).

Outros trechos notificam a ruptura com a vizinhança, bem como com familiares que moravam próximos, mostrando também, a utilização do rio com a estrada:

Lá nós vivíamos de plantar feijão, abóbora, mandioca, nós fazíamos farinha, vazante de milho, sabe como é. (...) de plantar vazante, de plantar essas coisas todas, mexer com horta, quiabo, a gente colhia muito feijão, milho e abóbora. Nós morávamos e vínhamos lá da Fazenda Água Boa, vinha de motorzinho. Aí nós chegávamos e o pessoal ancorado na beira do rio era tudo conhecido nosso (...). Tinha uma senhora tipo o caso que morava com João Paulo, tinha a casa da outra cunhada assim e o meu sogro mais na frente. A gente vinha, logo que chegávamos nas casas começávamos a deixar as coisas. Quando o povo começou a mudar (retirados da área para enchimento do lago) era a pior dificuldade pra gente vir de lá pra beira do rio e de lá pra ponta da rua com tanta coisa. Lá a terra era boa demais. Meu cunhado morava lá também. Tinha dois irmãos do meu marido que morava lá, só que a água atingiu e ele comprou um pedacinho de terra, assim mais pra cima um pouquinho. (M.A. - Santo Estevão - Babaçulândia).

A exposição também revela aquilo que era produzido em seu território de origem era levado para a cidade. As relações estabelecidas entre as pessoas foram perdidas por conta do deslocamento das mesmas para lugares diferentes. A produção era realizada de forma conjunta e o deslocamento dos membros da família pelo empreendimento deslocou também suas vidas, seus hábitos e valores.

Observam-se a partir destes desdobramentos, que cada um dos novos territórios destinados para reassentamento, ocupados pelos desterritorializados, vai sendo transformado em algo minimamente próximo daquilo à realidade anterior (Figura 13). No entanto, os atributos presentes neste novo espaço, não possibilitam a reprodução fidedigna do anterior, configurando assim, o estado de reterritorialização precária, que produz efeitos psicossociais aos abrangidos pelos processos.

Figura 20: Tentativa de reterritorialização (hortas e criações de animais) e único poço com água doce na área do Assentamento Santo Estevão em Babaçulândia-TO

4.7. Territórios perdidos: implicações socioeconômicas ao grupo

Benzer Belgeler