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2.B.
İÇ
GÜVENLİK
HARCAMALARI

As fontes históricas e a historiografia disponível não são tão precisas quanto à origem do município de Caucaia e do povo indígena Tapeba5051, o que torna bastante nebulosa

48 BNRJ – Manuscritos do Botânico Freire Alemão. I – 28, 10, 34. Novembro de 1860.

49 MOTA, Amabel Crysthina Mesquita. A efetividade do direito fundamental à identidade indígena no

Ceará. Monografia (Graduação em Direito). Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2008. p.62.

50 Conforme estudo de Henyo Trindade Barreto Filho, Tapeba também é um topônimo. É o nome de uma lagoa e um riacho periódico - afluente da lagoa da Barra Nova (ou do Poço) - da área rural do distrito da sede do município de Caucaia, na proximidade dos quais moram famílias Tapeba, numa área onde a sua presença é majoritária. Já em 1721, registrava-se o topônimo Tapeba para a referida lagoa. O emprego toponímico do termo tapeba, entretanto, é mais freqüente para designar uma área mais inclusiva, genérica e de limites vagamente definidos, abarcando a lagoa e o riacho homônimos, limitando-se ao sul com a lagoa dos Porcos, ao norte com a localidade de Pedreira e o povoado do Capuan, a oeste com a localidade de Cutia e a leste com o rio Ceará. Às vezes, contudo, estas localidades mesmas acabam sendo englobadas pelo topônimo Tapeba, dando ao observador a impressão de que - como eles dizem - "é tudo um lugar só, tudo é só uma terra só". Tapebano, assim, é uma locução adjetiva para "do Tapeba", "da lagoa do Tapeba". Perna-de-Pau, por sua vez, constitui uma referência ao apelido de um ancestral ao qual comumente remontam ao traçar a sua genealogia - no que diz respeito a pelo menos um segmento dos Tapeba, a família de Zabel. Ler mais sobre em BARRETO FILHO, Henyo Trindade. Tapebas, tapebanos e pernas-de-pau: da etnogênese como processo social e luta simbólica. Tese de mestrado (Antropologia Social). Programa de Pós-

Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, UFRJ, 1993.

a sua reconstrução histórica. Destarte, não é tão farta a documentação existente, bem como os estudos historiográficos quanto a essa matéria, o que torna dificultoso delimitar um lapso temporal absoluto quanto a essa formação.

O que se sabe é que o município de Caucaia teve origem a partir da organização do aldeamento missionário de Nossa Senhora dos Prazeres de Caucaia. A despeito de ter sido regularmente missionada por jesuítas entre os anos de 1741 e 1759, a data de sua origem é incerta, provavelmente ocorrida no século XVIII, no período compreendido entre 1607 e 1666. As fontes históricas também não são precisas quanto à sua fundação, sendo atribuída por alguns historiadores aos padres jesuítas Luís Figueira e Francisco Pinto52, enquanto que para outros surgiu do esforço não muito espontâneo da reunião de povos indígenas que se encontravam na região. Há os que defendem ainda que a sua origem encontre raízes no desdobramento de um grande aldeamento original, em torno de 1660.53

Igualmente, não se pode determinar com exatidão, a partir dos dados existentes, acerca da procedência e da composição do continente indígena reunido na Aldeia. Não se sabe, ao certo, se a região era ocupada pelos potiguaras que “por ali já se encontravam comerciando com os franceses quando da chegada de Pero Coelho”54; ou pelos potiguaras que integraram o próprio exército de Pero Coelho; ou por potiguaras e tapabajas “que o Pe. Luís Figueira logrou fazer acompanhá-lo no retorno da primeira missão à Serra da Ibiapaba”55. Há ainda até os que afirmam que todas as suposições acima levantadas são verdadeiras e explicam a procedência dos habitantes da região.

De se falar, todavia que, apesar da incerteza em relação a algumas informações quanto à procedência dos Tapeba, o levantamento e a comparação sistemática da

Thomaz Pompeu Sobrinho), constituindo uma variação fonética de itapeva (de itá/tá, i. é, "pedra"; e peva, i. é, "plano", "chato"): "pedra plana", "pedra chata", "pedra polida", etc. O nome do município em que se encontram também é de origem tupi, representando uma variação de ka'a-okai (de ka'a, i. é, "erva", "mato", "bosque", "floresta"; e okai, i. é, "queimar"): "mato queimado", "bem queimado está o mato", "queimada", "mato que se queima". A toponímia local é quase toda ela de origem tupi: Capuan, Iparana, Icaraí, Jandaiguaba, Paumirim, Pabussu, Tabapuá, etc.

52 LEITE, Serafim. 1943. História da Companhia de Jesus no Brasil, v. 3. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional.

53 STUDART, Carlos Pereira. 1926. "Contribuição para a Etnologia Brasileira: As Tribus Indígenas do

Ceará". Revista Trimestral do Instituto do Ceará [Fortaleza], v. 40. pp. 39-53.

54 OLIVEIRA, João Pacheco de. (Organizador). A viagem da volta: etnicidade, política e reelaboração

cultural no Nordeste Indígena. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1999, p. 96.

historiografia, das fontes disponíveis e dos relatos e referências ao passado, presentes nos testemunhos dos índios Tapeba que guardam forte coerência com os registros históricos, mostram que a presença indígena na área do que hoje é o município de Caucaia é indiscutível, o que caracteriza a imemoralidade da ocupação indígena nesta área e a continuidade entre os Tapeba de tradições culturais pré-colombianas, além da incorporação e da reelaboração de elementos culturais que passaram a identificar os seus usos e costumes.

Em 1759, com a expulsão dos jesuítas da Aldeia de Nossa Senhora dos Prazeres e a sua elevação à categoria de “Vila Nova de Soure”, os Potiguaras que ali estavam reuniram- se com os Kariri, os Tremembé e os Jucá, povos advindos dos deslocamentos forçados do interior em um só território, que posteriormente deu origem aos índios Tapeba. O povo Tapeba é, portanto, resultado de um processo de desterritorialização e desagregação cultural implementado pelos colonizadores aos contingentes indígenas originários e de um posterior processo de territorialização56.

Com a implantação da política pombalina e a expulsão dos jesuítas, a Aldeia de Caucaia foi elevada à categoria de “Vila Nova de Soure, identificada e referida como "vila de índios", tanto em documentos oficiais, quanto em relatos produzidos por viajantes, autoridades leigas e religiosas, desde sua criação até o segundo terço do século XIX. Os documentos coetâneos ao início do século XIX referem- se a uma superfície de uma légua em quadra para a vila de Soure e nesse período consolida-se também o entendimento que o patrimônio territorial da Vila pertencia à Santa.

A formação dos índios, a partir da reunião de tais povos no Aldeamento supramencionado, é sustentada pela tese de que os índios Tapeba são fruto do lento processo

56 Trata-se a territorialização segundo João Pacheco de Oliveira de “movimento pelo qual um objeto político- administrativo – nas colônias francesas seria a 'etnia', na América espanhola as 'reducciones' e 'resguardos', no Brasil as comunidades indígenas – vem a se transformar em um coletividade organizada, formulando uma identidade própria, instituindo mecanismos de tomada de decisão e de representação, e reestruturando as suas formas culturais (inclusive as que o relacionam com o meio ambiente e com o universo religioso. (…) As afinidades culturais e ou lingüísticas, bem como os vínculos afetivos e históricos porventura existentes entre os membros dessa unidade político-administrativa (arbitrária e circunstancial), serão retrabalhados pelos próprios sujeitos em um contexto histórico determinado e constrastados com características atribuídas aos membros de outros unidades, deflagrando um processo de reorganização sociocultural de amplas proporções”. Ler mais em OLIVEIRA, João Pacheco de. Uma etnologia dos "índios misturados". Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. http://www.scielo.br/pdf/mana/v4n1/2426.pdf.

de individuação étnica ocorrido, com a junção dos elementos constituintes desses quatro povos originários e autóctones, sob o comando do Poder Colonial. Seguindo tal interpretação, sustentada especialmente pelos agentes envolvidos na disputa em torno dos critérios taxonômicos da “identidade Tapeba”, não restam dúvidas quanto à origem e ao “status” indígena dos Tapeba. Explica-se, assim, a partir de tal tese, a continuidade histórica e os traços de ancestralidade com a cultura pré-colombiana, elemento considerado fundamental pelo Estado para atestar se determinado grupo é indígena ou não57, encontrando-se demonstrada a imemorialidade de sua ocupação.

Em uma análise mais rigorosa dos registros historiográficos disponíveis, todavia, percebe-se o caráter conjetural das explicações acerca da formação dos índios Tapeba, em razão dos poucos registros de fontes primárias e dos dados existentes na literatura etnográfica e histórica, ainda mais quando comparada com a de outros povos indígenas no Nordeste. Um dos principais obstáculos a esse veredito oficial de legitimidade quanto à continuidade no tempo é que, no caso dos Tapeba, quaisquer que tenham sido os seus espaços de ocupação, eles não lograram a sua manutenção até os dias de hoje, e, por outro lado, não foi possível ser reconstituída a cadeia dominial das terras, dada a informalidade que revestiu a transmissão de suas posses. A despeito disso, existem de qualquer forma elementos formais que indicam a existência de índios na região, conforme aduz Henyo Trindade Barreto Filho ao mencionar a existência de:

[...] registros de concessões de terra à Missão de Caucaia e aos índios e seus principais, registros estes que guardam coerência com referências do passado contidas em relatos de tapebas e regionais, notadamente a noção de 'terra santa'; as fontes autorizam a postulação de uma variada composição étnica da Aldeia; e Vila Nova de Soure, em que se transformou a Aldeia de Caucaia, é mencionada como 'vila de índios', até meados do século XIX.58

Ressalte-se, ademais, que não está em discussão se a natureza da continuidade histórica é um critério fundamental para se definir se um grupo é indígena ou não. Para a presente análise, tal discussão é desconsiderada, uma vez que tal continuidade é afirmada, como ponto de partida, considerando a disputa pela definição de critérios legítimos de

57 Conforme definição estabelecida pelo Estatuto do Índio (Lei 6001/73), em seu artigo 3º, inciso I, que define índio como “[...] todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional [...]” 58 OLIVEIRA, João Pacheco de. (Organizador). A viagem da volta: etnicidade, política e reelaboração

reconhecimento da identidade. Destarte, o que se pretende é analisar de que forma se dá o processo pelo qual essa definição é construída e colocada nessa disputa identitária.

A volumosa correspondência oficial entre autoridades governamentais de distintos níveis é valiosa por revelar múltiplas dimensões da vida dos índios da Vila de Soure, fazendo referência a: trabalho escravo e alugado de índios e índias; distribuição deste trabalho entre particulares; castigos e punições para os que fugissem ou se recusassem a cumprir determinações que lhe eram impingidas; atividades econômicas promovidas e incentivadas, tais como plantio de algodão, mandioca e outros gêneros alimentícios, e pesca e venda de caranguejos, ostras e mariscos (atividade econômica que é desenvolvida pelos Tapeba no estuário do rio Ceará); recrutamento forçado de contingentes indígenas para lutar contra e em movimentos políticos emancipacionistas e autonomistas; nomeações sucessivas de capitães- mór e de sargentos-mór dos índios de Soure; realocação de segmentos populacionais indígenas entre vilas de índios, Soure inclusa; controle estatístico da população indígena; e prisões de índios.

Com efeito, os documentos não só confirmam a expressiva e importante presença indígena em Soure em fins do século XVIII e no primeiro terço do século XIX, mas também mostram como o estilo de vida dos índios foi configurado pelo molde repressivo e disciplinar do poder colonial - o que elucida as razões pelas quais a herança indígena foi dissimulada.

Benzer Belgeler