• Sonuç bulunamadı

3. FAALİYETLERE İLİŞKİN BİLGİ VE DEĞERLENDİRMELER

3.1. MALİ BİLGİLER

3.1.2 Mali Denetim Sonuçları

3.1.2.2. İç Denetim

Em meio a uma ciência que foi esvaziada das metanarrativas que os discursos de espiritualidade alimentavam, como pôde surgir uma atividade que se veste das máscaras e

figurinos do médico, este personagem tido como principal, isto é, o jaleco, a maleta, o estetoscópio, a fim de, tirando graça deles, pervertendo sua lógica habitual, invadindo o espaço de vida da medicina moderna, o hospital, gerar riso nas relações com os pacientes e pretender produzir saúde daí? Quem são os atores que dão vida a este projeto? Que espírito

os move? O da humanização da saúde, dizem eles. Que humanização é esta? De que saúde se está falando? E por onde saiu a espiritualidade, ou nunca deixou de estar aqui, embora agora silenciada?

Trabalhamos, nos dias de hoje, sob o risco de submergir na técnica que se fecha em si mesma, onde se hipertrofia a razão instrumental manipulatória, que alija os fins emancipatórios e éticos do humano. O sentido das nossas práticas tende a se esgarçar quando se alia às estruturas de produção dominantes atreladas ao esquecimento do ser e de seus devires. Ao redor, há um sistema de pensamento hegemônico que se efetiva no corpo social, induzindo uma hipertrofia da técnica sob a encomenda do mercado, e uma história que aparenta estar longe de concretizar as promessas de justiça social de que é prenhe, ameaçada de perder seu curso nessa direção (DUARTE, 2002).

Até mesmo a atividade médica, que tem o ser humano como foco e a relação como palco, sofre os efeitos de uma universidade cujas ações, subjugadas pelos ditames da sociedade pós-moderna,

30

[...] são de agora em diante solicitadas a formar competências, e não mais ideais: tantos médicos, tantos professores de tal ou qual disciplina, tantos engenheiros, administradores, etc. [...]. Ela fornece ao sistema os jogadores capazes de assegurar convenientemente seu papel junto aos postos pragmáticos de que necessitam as instituições. (LYOTARD, 1986 apud MARINHO, 2008, p. 346).

Há um mal-estar na civilização que se vê órfã de seus grandes sistemas de escritos e oralidade, de ritos e relações com o sagrado que tinham a missão de conferir sentido para a aventura humana. Perguntam os filósofos, quase afirmando, se as religiões e seu acervo de produção de sentido para a vida teriam entrado em seu crepúsculo (PIRES, 1976).

A lógica, doravante, é a da produção infinda rumo à acumulação de capital, em prol de um sistema cego que eleva sua mão invisível, conduzindo o concerto de um globaritarismo (ENCONTRO..., 2006). Dimensões do humano diretamente relacionadas à sobrevivência, como é o caso da saúde, são aproveitadas pelo mercado no intuito de se tornarem mercadorias, submetidas à lei de oferta e procura e taxadas segundo a densidade do bem que se vende, a tal ponto de obstaculizar o acesso dos doentes caso estejam privados de dinheiro.

Nesse movimento, vê-se um processo de invisibilização dos saberes sobre saúde, cuidado e cura que circula no corpo social, dificultando ao sujeito a apropriação dos recursos que o tornariam coprodutor da sua saúde e da saúde do coletivo a que pertence (CAMPOS; CAMPOS, 2012; SANTOS, 2004).

Todavia, feito o casal de Francisco Buarque de Hollanda (1969) que se ama ao som do samba6, indiferente à buzina da fábrica que madruga e à reclamação dos carros, a arte acontece seguindo esse espírito de resistência à mecanização da vida. Ou ainda, como “Pedro Pedreiro”7 (HOLLANDA, 1965), que, esperando ciclos infindos de metas que o algemam na condição social de quem parece desprovido de direito e se põe sempre na estação de trem que o leva diariamente para o ganha pão, vê surgir, da boca do poeta, a visão do íntimo ignorado, em que a esperança aponta para algo “mais lindo que o mundo, maior do que o mar”. A arte,

6

A música chama-se “Samba e Amor” que corre em uma cadência lenta como se o eu lírico estivesse embriagado, ao acordar, pelo amor a que se entregou durante a madrugada. O compositor cria uma sensibilidade contrastante, em que a ardência e a correria do dia e das ruas se choca com o corpo da melodia ainda preguiçosa, despertando. A relação amorosa continua alheia às buzinas dos carros, da fábrica, como que inatingível, partícipe de outra ordem de existência. Não é um esforço nem resistência, é um viver sob outra lógica, a da delicadeza, que se entrega ao prazer de viver.

7

Em Pedro Pedreiro, Francisco Buarque de Holanda constrói uma cadência que lembra a sonoplastia de uma estação ferroviária. A cena é única: o trabalhador esperando o trem para o trabalho. Todavia, a espera de Pedro se mistura com as várias esperas da vida, o ganho salarial, a mudança de estamento social. Mistura-se ainda com outras esperas vizinhas que tornam a de Pedro um peso e uma urgência a mais: a mulher grávida, expectante de um rebento que dará continuidade à espera do pai. A roda do trem roda em ciclos que imitam as voltas da espera infinda de Pedro. Mas, em meio a tanta espera, uma revelação: no inconsciente de Pedro há uma esperança de outra ordem social que transcende àquela: uma “mais lind[a] que o mundo, maior que o mar”.

31

portanto, também surge com a função de reler a realidade, revelando os esconderijos das possibilidades de mundos melhores.

No contexto das reflexões sobre a humanização da assistência em saúde em nosso país, advindas da Reforma Sanitária, comparecem, tornando-se visíveis, as ações artísticas que lidam com o riso, a dor e o cuidado em um construto que se tem chamado de palhaçoterapia. A que se faz presente nesta reflexão percorre as zonas de passagens dos prédios da faculdade de medicina, calçadas e corredores, deixando sorrisos nos sulcos cavados por seus pés por onde passam.

32

Benzer Belgeler