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Hz Musa’nın Hayatı, Şahsiyeti ve Beşerî Özellikleri

Tanto “O Bispo Negro”, ambientado em 1130, como “A morte do Lidador”, em 1170, apresentam contextos subsequentes àquele retratado em O Bobo, apresentando, inclusive, personagens históricos em comum, como Afonso Henriques, figura central também de “O Bispo Negro”, e Gonçalo Mendes da Maia, que protagoniza “A morte do Lidador”. Este conto, conforme indicado no título, retrata o

último dia de vida do Lidador. Na data em que comemora os noventa e cinco anos de seu nascimento, ele decide realizar, juntamente com seus amigos, uma celebração, cujo objetivo é lutar contra os mouros fronteiriços. Assim, inicia-se a narrativa pela voz do próprio protagonista:

Senhores cavaleiros, hoje contam-se noventa e cinco anos que recebi o batismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavaleiro, e quero celebrar tal dia fazendo uma entrada por terras da frontaria dos mouros. (HERCULANO, 19--, p.81)

Sabe-se, pela narrativa, que, tempos atrás, Gonçalo Mendes da Maia fora nomeado por Afonso Henriques fronteiro da cidade de Beja. E, nesse contexto, são apresentadas algumas referências à ocupação moura na região do Alentejo, ocorrida anteriormente, e à necessidade de ainda se protegerem as fronteiras dos invasores, conforme exposto a seguir:

Nesta luta de vinte gerações andavam lidando gentes do Alentejo. O servo mouro olhava todos os dias para o horizonte, onde se enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava ele salvação ou, ao menos, vingança; ao menos, um dia de combate e corpos de cristãos estirados na veiga para pastos de açores bravios. [...] E este ameno dia de julho devia ser um desses dias por suspirava o servo ismaelita. (HERCULANO, 19--, p.85)

Dessa reflexão passa-se diretamente à descrição das ações de Almoleimar, um chefe mouro que se encontrava nas cercanias de Beja, e do lidador, que juntara uma comitiva de trinta cavaleiros com intento de duelar contra os infiéis das fronteiras. Assim, à medida em que o grupo liderado por Almoleimar se aproximava da fronteira em direção à Beja, Gonçalo Mendes da Maia e seus seguidores dirigiam-se do interior da cidade para um ponto comum, conforme justaposto no mesmo parágrafo: “Almoleimar descera com os seus cavaleiros às campinas de Beja. [...] Ao romper

d’alva, os cavaleiros do Lidador saíam a mais de dois tiros de besta além das muralhas de Beja.” (HERCULANO, 19--, p.85). Compondo-se, desse modo, de forma alternada, as ações dos dois opositores, um cristão outro muçulmano, a narrativa vai constituindo uma atmosfera de expectativa em relação ao provável confronto.

O encontro entre os dois grupos é descrito a partir de uma assimetria numérica, que destaca a situação privilegiada dos mouros já no início do conflito. Comparam-se, também, as armas dos cristãos e dos muçulmanos, destacando-se aí a oposição entre a força rude dos portugueses, extraída de sua ascendência gótico-romana, e a engenhosidade mais refinada dos árabes:

Enfileirados em extensa linha, os cavaleiros árabes saíram à rédea solta de trás da escura selva que os encobria: o seu número excedia cinco vezes o dos soldados da cruz; as suas armaduras lisas e polidas contrastavam com a rudeza dos cristãos, apenas defendidos por pesadas cervilheiras de ferro e por grossas cotas de malha do mesmo metal; as lanças destes eram mais robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras mouriscas. A rudeza e a força da raça gótico-romana iam, ainda mais uma vez, provar-se com a destreza e com a perícia árabes. (HERCULANO, 19--, p.89)

É curioso que logo no seguinte parágrafo, retoma-se a descrição da mesma cena, mas considerando-se, agora, o quadro geral de combatentes, apresentando-se, nesse ponto, o elogio absoluto dos portugueses, sem nenhuma ressalva à valentia árabe. A desproporção entre os mouros e os portugueses torna-se, aí, ainda mais discrepante, contando-se apenas um soldado cristão para cada dez mouros, conforme o seguinte excerto:

Quem visse aquele punhado de cristãos diante da cópia de infiéis que os esperavam, diria que não com brios de cavaleiros, mas com fervor de mártires, se ofereciam a desesperado trance. Porém não pensava assim Almoleimar, nem os seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças portuguesas e a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra dez devia ser o inimigo combate; mas se havia ali algum coração que batesse descompassado, algumas faces descoradas, não era entre os companheiros do Lidador que tal coração batia ou que tais faces descoravam. (HERCULANO, 19--, p.90)

O procedimento presente na narrativa, ao descrever de forma desproporcional a luta entre cristãos e mouros, privilegiando a valentia e coragem dos primeiros que conseguem vencer o exército muçulmano mesmo em grande desvantagem numérica, mimetiza um padrão recorrente nas lendas populares relativas ao assunto. Alexandre Parafita depreende da análise de um corpus bastante significativo de lendas com tema referente às disputas entre cristãos e mouros as seguintes constatações:

Não menos significativo é o sucesso bélico dos cristãos, em situações de correlação de forças radicalmente anômala. Na verdade, no confronto entre as duas etnias/religiões, o corpus apresenta-nos diversos exemplos de minúsculos exércitos cristãos que alcançam vitórias arrasadoras e decisivas sobre os mouros. (PARAFITA, 2006, p.69)

Mas, retomando a narrativa herculaniana, acompanha-se, a seguir, o duelo entre Gonçalo Mendes da Maia e Almoleimar. E, depois da descrição bastante detalhada do violento embate ocorrido, o Lidador acaba por vencer o mouro:

As espadas reluziram no ar; mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar, que cedeu à violenta estocada; e o sangue saindo às golfadas, cortou a última maldição do agareno. (HERCULANO, 19--, p.93)

Continua-se, assim, a narração do combate com formas bastante distintas de apreciação das ações dos mouros, que estavam em grande vantagem numérica, e dos

portugueses, muitíssimo mais corajosos e valentes, como se pode ter uma idéia no seguinte trecho: “Se os mouros, porém, levavam, fugindo, vergonha e dano, a vitória não saíra barata aos portugueses. Viam perigosamente ferido o seu capitão, e tinham perdido alguns cavaleiros de conta [...]” (HERCULANO, 19--, p.95). E, nesse contexto, surge, com o seu exército, a figura de Ali-Abu-Hassan, o rei de Tanger, para apoiar os combatentes muçulmanos.

O final da narrativa conta, ainda, com descrições do esforço sobre-humano de Gonçalo Mendes da Maia, que, embora gravemente ferido e à beira da morte, consegue combater muitos soldados mouros. Também sua morte é narrada de forma grandiosa, sendo desencadeada por um golpe que ele próprio impõe a um mouro e não, exatamente, pelo ataque de seus opositores:

Depois de deixar assinadas muitas armaduras mouriscas, o Lidador vibrara pela última vez a espada e abrira o elmo e o crânio de um cavaleiro árabe. O violento abalo que experimentou fez-lhe rebentar em torrentes o sangue da ferida que recebera das mãos de Almoleimar e, cerrando os olhos, caiu morto ao pé do Espadeiro e de Afonso Hermigues de Bayão, que com eles se juntara. Repousou, finalmente, Gonçalo Mendes da Maia de oitenta anos de combates! (HERCULANO, 19--, p.99)

E, como vingança à morte do Lidador, Lourenço Viegas consegue, ainda, matar o rei mouro, Ali-Abu-Hassan. Com essa perda, os mouros, embora fossem agora absurdamente mais numerosos que os portugueses – sessenta cristãos entre mais de mil muçulmanos –, acabaram por fugir do campo de combate, distanciando-se, finalmente, das terras portuguesas.

Em uma justificativa, um tanto irônica, para os fatos tão espantosos e improváveis apresentados no texto, o narrador faz a seguinte colocação:

Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mês de julho de 1170 se deram na veiga da frontaria de Beja, notá-los-á de fábulas sonhadas; porque nós homens corruptos e enfraquecidos por ócios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso ânimo e forças as forças e o ânimo dos bons cavaleiros portugueses do século XII; e todavia esses golpes ainda soam, através das eras, nas tradições e crônicas, tanto cristãs como agarenas. (HERCULANO, 19--, p.99)

Se a explicação não parece, de fato, ter o intento de comprovar, muito seriamente, as inverossímeis peripécias apresentadas na narrativa, ela remete, entretanto, a uma concepção, geralmente atribuída à obra de Herculano, segundo a qual o passado heróico abordado na narrativa serviria de modelo para o presente em decadência. Sobre tal relação entre passado e presente, na obra herculaniana, Ana Cristina Correia Gil, na mesma linha de diversos outros críticos, declara o seguinte:

O romance histórico e a arte em geral estão, em Herculano, ao serviço da pedagogia da nação, pondo a nu a apatia e a decadência do tempo presente por comparação com o vigor e a glória passados. (GIL, 1999, p.78)

Os mouros assim retratados, como os inimigos da nação portuguesa e da religião cristã, assumem neste conto o papel de antagonistas, cujas ações são contempladas apenas na medida em que servem como contraponto para as atitudes heróicas dos portugueses. O próprio leitmotiv da trama já é bastante curioso: um duelo, entre portugueses e mouros, promovido como forma de celebração do aniversário do heróico fronteiro da cidade de Beja. De fato, parece haver aí um apagamento dos mouros, que, se não são considerados como combatentes corajosos, tendo em vista a desproporção dos exércitos, também não são retratados por designações negativas referentes a sua religião e costumes. Esse inimigo, quase abstrato, que já havia sido expulso, inclusive, da cidade de Beja, foi retomado, das fronteiras do Alentejo, como

elemento antagônico essencial para se constituir uma lenda sobre os feitos heróicos dos portugueses e, entre eles, especialmente, da figura histórica e lendária de seu passado medieval, Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador.

Benzer Belgeler