II. BÖLÜM
6. HZ ALİ CENKNÂMELERİNDE VE YEMÂME CENGİ’NDE ANLATIM,
Para entender a adquirente, pode-se começar pela análise de comportamentos, posturas e falas dos entrevistados, dentro e fora das dependências da empresa, o que de imediato remete para a formação discursiva - que sintetiza o modo de pensar e ver o mundo, conceber o negócio, estruturar a empresa e produzir aço - e que é reproduzida pelos seus membros na produção de sentidos das suas ações. "As relações sociais determinam às pessoas parte do que elas podem dizer" (Faria; Linhares, 1993, p. 6), de tal forma que a fala de seus membros reproduz a formação discursiva da organização, já que o "discurso é mais o lugar da reprodução que o da criação. Assim como uma formação ideológica impõe o que pensar, uma
formação discursiva determina o que dizer" (FIORIN, 1988, p. 32). É bastante claro que a adquirente tem uma formação discursiva definida e forte, que cumpre à risca a função prescritiva do que se pode, não se pode dizer e o que se deve dizer (BRANDÃO, 2002), segundo um executivo da adquirente:
(001) ...o representante da [adquirente] você identificava logo; era o que estava mais bem preparado. Mas era o que estava mais bem preparado em todos os aspectos, não só tecnicamente, como também comportamentalmente falando, né. Ele ia lá sabendo o que ele podia falar, o que é que ele não podia falar, a [adquirente] sempre foi muito cuidadosa com as coisas... (E 01 A).
As interdições diziam respeito especialmente à formação e preservação de um território autonômico, contrapondo o discurso da controladora ou dos políticos de plantão:
(002) ...ela [adquirente] respeitava a holding, certo, a controladora, mas, ao mesmo tempo, ela queria preservar a autonomia dela, ela administrava muito bem essas questões (E 01 A) .
Esse território era um espaço respaldado pelo poder advindo do conhecimento técnico e da perícia profissional que os potenciais intrusos percebiam e atribuíam aos membros da adquirente (FRENCH JÚNIOR; RAVEN, 1960). Representava um núcleo de resistência que preservava a empresa dos interesses políticos, ao mesmo tempo em que, recursivamente, ratificava a privatização do espaço organizacional pelos empregados (FISCHER, 1994). Ainda, segundo French Júnior e Raven (1960), quando alguém avalia a competência técnica de outro, o faz em cotejo com o seu próprio nível de conhecimento. Nesse sentido, é muito provável que o reconhecimento da perícia de empregados e dirigentes pela classe política, ocorria pela comparação da própria condição de "político" com a qualidade "siderurgista" deles funcionários e dirigentes:
(003) ...cito o caso, por exemplo, do Dr. Rondon, que entrou como presidente todo
hospital. Na usina, ele não tinha influência ou pelo menos a turma que tinha
influência não se influenciava, não tinha nada que alterava o que a gente fazia. Então, trocava a diretoria, mas a turma que segurava a peteca embaixo mantinha aquele jeito que a gente já vinha trabalhando, então, foi praticamente zero a influência política no tempo todo da Siderbrás... (E 02 A, grifos nossos).
Há uma certa ironia depreciativa na expressão "presidente todo poderoso", cujo "poder" se limitou a "arrumar estrada e hospital", sem jamais conseguir invadir o território estratégico e operacional da empresa; eis que fora "alocado" num "espaço decorativo" confinado ao "mundo das aparências". A força "restritiva" do espaço "cosmético" fez com que as ações do "poderoso presidente" se enclausurassem no campo político, externo à empresa, e que, de certa forma, fortaleceram ainda mais a posição de resistência dos siderurgistas, já que se ocupou de arrumar estradas (mobilidade) e hospital (segurança nos cuidados com a saúde). Ou seja, o "político" restringe-se a "atividades políticas", uma vez que a capacidade de produzir aço "pertence" ao território da exclusiva e inalienável "competência" dos siderurgistas. Político "não pia" em território de siderurgista. É mudo, não tem voz, não fala, não pode ser ouvido. Se não fala, não pode comandar, não pode dar ordens, não pode ser ouvido e muito menos obedecido. E se o político é mudo no território exclusivo dos siderurgistas e não pode ser ouvido pelos siderurgistas, não pode "comandar" siderurgistas!
Assim, invadir o campo profissional de um "siderurgista" de reconhecida competência no cenário nacional torna um "político" um corpo estranho em ambiente hostil. Para tanto, ele teria que, no mínimo, desalojar "um doutor em siderurgia", o que estaria contrariando os interesses da máquina (território protegido), com poucas chances de sobrevivência para o invasor:
(004) ...não tinha pio pros políticos; primeiro, era tirar um doutor em siderurgia, era um dos poucos que existia no Brasil, pra botar um rastaqüera qualquer [...] a política sempre teve, mas a máquina que o LanariTP
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fez não deixava que as influências políticas preponderassem... (E 47 A, grifos nossos).
O fragmento discursivo (004) ratifica que a "voz dos políticos" era silenciada e, com isso, não "tinha pio" pra eles, já que não poderiam "piar" em território alheio, dominado pela competência exclusiva dos siderurgistas. Além disso, um inadmissível absurdo: "tirar" uma "raridade" para "botar" a "banalidade" de "um rastaqüera qualquer" (trecho 004) pertencente à depreciada classe dos "políticos", que vicejam como ervas daninhas, enquanto um doutor em siderurgia, com formação européia, constituía-se num dos valorizados e "poucos que existia no Brasil". Reaparece, ainda que não com a mesma robusta evidência, uma certa insubordinada inconformidade, pois, aparentemente, seria difícil ser "dirigido" (na condição de siderurgista) por um "rastaqüera qualquer" (004) oriundo da insignificância das hostes políticas, em vez de ser "liderado" por um sofisticado, culto e competente "doutor em siderurgia" que estudou na Europa e que fora moldado em competência e perícia no calor da lida nos "turnos", altos-fornos e aciarias e talhado no e para o domínio pleno das práticas de comando empresarial.
Do mesmo entrevistado, o testemunho de que a formação do bloco defensivo contou com o apoio do então sócio estrangeiro:
(005) ...a [adquirente] teve a sabedoria de se associar ao capital estrangeiro.[...] defesa política que a [adquirida] não teve, eu falo defesa política, porque a política do Brasil, com relação às empresas [estatais], sempre foi predatória... (E 47 A).
Na opinião de outro integrante do alto comando da adquirente:
(006) Então a [adquirente], tendo um parceiro estrangeiro forte, com os japoneses tendo quarenta por cento, inibiu muito a entrada de influência política, porque, nos dois primeiros anos, todos os cargos eram ocupados pelos japoneses e com treinamento específico de técnicos brasileiros para substituí-los... (E 38 A).
Além da presença de representantes do sócio estrangeiro, que ocupavam os espaços de trabalho críticos e que transferiam o indispensável conhecimento tecnológico em siderurgia
para os brasileiros, preparando-os para o exercícios dos mesmos papéis, questões meramente geográficas e ambientais também contribuíam para manter políticos a distância, considerando que o isolamento de IpatingaTP
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, então uma região inóspita, seria fatal para os interesses geralmente eleitoreiros dos políticos, que dependem das luzes da cidade e dos holofotes da mídia para sobreviver:
(007) ...o segundo foi por estar muito longe, colocada numa região inóspita, sem grandes interesses de políticos em trabalhar lá em Ipatinga. Então, isso facilitou muito, fez com que... Eu acho que os japoneses foram uma grande barreira nessa influência política e, por outro lado, a distância, a localização e pela própria característica do mineiro. O mineiro tem aspectos de influência política em algumas empresas, mas não com a intensidade que a gente observa em São Paulo e outros Estados (E 38 A).
É importante continuar explorando o depoimento do mesmo executivo considerando a sua importância na condução dos destinos organizacionais, cujo vínculo com a empresa se constituía de duas formas: pelo exercício de um papel (Foote, 1951; Burke; Tully, 1997; Rodrigues, 1997) e pela condição de acionista, via clube de funcionários.
(008) Então, a [adquirente] foi preservada nisso aí. E ela sempre caminhou, sobretudo na região operacional na usina, sem influências políticas. Nós tivemos aqui alguns presidentes que tiveram conotação política, mas fomos felizes na escolha. Nós tivemos apenas quatro ou cinco presidentes; o governador Rondon veio, ficou um tempo longo, mas não mexeu na organização, preservou toda a cultura, preservou os cargos-chave na empresa. Se ele introduziu alguma coisa, foi aqui na assessoria dele, assim mesmo muito pouco... (E 38 A).
Além de os "siderurgistas" terem sido "felizes na escolha" dos presidentes de "conotação política", eles também construíram barreiras que tornavam inacessível o reduto organizacional, levando esses presidentes a "não mexer" na organização, a "preservar" a cultura e os cargos-chave da empresa. E, sobretudo, a contentarem-se em fazer alterações no campo do cosmético, do superficial, da aparência, sem eficácia gerencial, sem capacidade de
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Localizada a aproximadamente 250 KM a nordeste de Belo Horizonte, numa região montanhosa, com acesso por estradas sinuosas e precárias.
intervir no operacional e muito menos no estratégico, ou seja, sem autoridade para a manipulação instrumental do território. Segundo o depoimento do mesmo executivo (fragmento 008), "se" o citado presidente político "introduziu alguma coisa", o fez "na assessoria dele", em nível de staff, que não tem importância diante do valor dado aos ocupantes dos postos de trabalho de linha. Vale ressaltar que as possíveis alterações estão na condicional "se", que deixa implícito que o executivo não tem certeza de que tenha realmente havido alterações. E "se" realmente as introduziu, foi "assim mesmo muito pouco" (fragmento 008). Logo, esse presidente político teria sido forçado contentar-se com um simples "jogo de faz-de-conta". O entrevistado também menciona questões interessantes, como a preservação de "toda a cultura" e dos "cargos-chave", que dão conta da extensão da imobilidade a que foi submetido o mencionado presidente: praticamente um papel figurativo, um espaço teatral no qual poderia permanecer e atuar, sem, contudo, invadir o território sagrado da "cultura" e dos "cargos-chave". A cultura como "jeito de fazer" e "cargos-chave" como canais que conectam os indivíduos à organização.
A despeito das alterações no cenário político, as necessidades de acordos partidários, a acomodação de correligionários, a distribuição de cargos também não conseguiram consolidar-se no espaço de trabalho representado pela adquirente:
(009) Depois, nós tivemos o... com a influência política, foi a presença do Paulino Cícero. Aí, realmente, deu uma conotação de uma distribuição de cargos, quando houve aquele movimento do PFL, do PMDB distribuindo cargos em Minas Gerais. Então, houve uma conotação política aqui, mas durou apenas um ano. Então, realmente, não... e mesmo assim o Paulino também respeitou muito a... [adquirente] (E 38 A).
O respeito à empresa parece ser, na verdade, mais um caso de imobilização inoperante, ou quem sabe, uma forma elegante de o entrevistado referir-se a um ex-presidente que também não conseguiu "penetrar" na organização, a despeito do "exercício formal" de um papel diretivo. Nesse caso, como nos outros, o "formal" é cosmético, e o "operacional" é
efetivo. O espaço formal pode ser ocupado por um "político", já o campo operacional é privativo dos "siderurgistas". Ou seja, a mudança só acontece pela ação que a opera. Não está no campo da formalidade, da intenção, mas no campo da ação. E para essa seria necessária a aquiescência dos ocupantes do território organizacional. Nas palavras do mesmo entrevistado, uma fortaleza intransponível:
(010) A organização era muito forte, a liderança da equipe, a preservação de valores que nos formatou é muito forte na [adquirente]. Não é muito fácil quebrar esses elos (E 38 A).
No depoimento de outro executivo:
(011) A usina tinha uma cultura forte, de resistência (E 75 AB).
Nesses depoimentos, os elementos-chave aparecem com notável robustez: organização forte, liderança da equipe, valores que formatam indivíduos e prescrevem ações (e re-ações de resistência), elos difíceis de quebrar, sintetizando o vínculo quase indissolúvel (PAGÉS et al, 1993) dos entrevistados com a adquirente: um território ocupado, defendido e preservado pela força da ocupação excludente.
E quando "diretores políticos" conseguiram furar o cerco de proteção, foram submetidos a processo de constrangimento diante da complexidade operacional e comercial e dos desafios reais de "tocar a empresa":
(012) ...vieram dois diretores, um administrativo e o outro comercial. Eu me lembro de que esse comercial, por exemplo, se sentiu constrangido, né, porque a turma, foi fazer uma viagem com ele. Eles levaram desse jeito... nem olharam, pelo mundo com ele, mostrando e tal, o sujeito não sabia nem falar inglês (risos), voltou, pôs o rabinho entre as pernas. Ele se dava por satisfeito, de ter a salinha dele lá; eles tratavam ele bem, água gelada, café, agora, a empresa, deixa que nós vamos tocar, né (E 39 A).
Com a auto-imagem abalada, o "diretor" também recolheu-se à insignificância de um "papel" decorativo, de "faz-de-conta", satisfeito com "mordomias", excluído que fora do espaço da condução dos negócios. Afinal, tendo voltado com o "rabinho entre as pernas" (012), não poderia pleitear muita coisa, muito menos "comandar". Quanto à condução da empresa, "deixa que nós [siderurgistas] vamos tocar".
A construção da "fortaleza" empresarial da adquirente reúne elementos e personagens que, mais tarde, tornariam-se contraditórios, sendo a oposição central e duradoura constituída por "políticos" versus "siderurgistas". Para começar, é produto do ideal realizador de um "político" destacado: Juscelino Kubistchek, mesclado com o desejo de um povo ansioso por mostrar suas competências: os "siderurgistas" japoneses. Nessa fase importante de industrialização do Brasil, convergiram as forças organizadas da sociedade mineira, a disponibilidade de matérias-primas, as demandas da incipiente indústria mineira dependente da produção de aço, com um toque de postura reativa às iniciativas já tomadas em São Paulo:
(013) É preciso voltar atrás, em 1956, a indústria, ou melhor, as classes chamadas produtoras de Minas Gerais resolveram, para forçar o governo Juscelino, que era então governador do nosso Estado e que já ensaiava ser presidente a... a ajudar a fazer aqui uma siderúrgica. Dois anos antes, a mesma coisa, vamos dizer, a iniciativa particular em São Paulo já havia fundado a [adquirida], todos dois tinham muito boa vontade, não tinha nenhum know-how e nenhum dinheiro, então eram sonhadores de quimeras (risos) e... esses sonhadores de quimeras aqui começaram a trabalhar pra ver se dava eh... como tornar isso viável em Minas Gerais, porque a verdade que sem aço pesado, nós não desenvolveríamos jamais indústrias pesadas, bens de capital, máquinas, navios, vagões, automóveis, etc; então, era preciso sonhar pra frente e pra isso Juscelino servia muito, porque ele era um homem eh... que eu chamo de sonhador de quimera, que são esses os homens que, a meu ver, constróem alguma coisa na vida né, então um grupo de... gente nascida a Sociedade Mineira de Engenheiros, eh... Federação das Indústrias, Associação Comercial, junto com sindicatos, com eh... menino, meninada de escola de...de engenharia, os órgãos de representação, etc, todos eles se juntaram pra fazer um, uma sementinha que era um capitalzinho vamos dizer assim eh... eh... simbólico; na [adquirida] foi feito um pouco mais, dois anos antes, porque lá São Paulo já era um Estado bem mais adiantado, tinha uma indústria mais ou menos adiantada para aquela época, tinha agricultura adiantada, tinha portos, não tinha minério e... e tinha industriais que para aquele tempo eram ricos, mas que não tinham idéia nenhuma de que montante do que seriam essas duas, ou da [adquirida] ou da [adquirente], o montante de necessidade de recursos, monetários, recursos tecnológicos, recursos de especial etc, etc, etc, então, as duas nasceram mais ou menos juntas, com o mesmo escopo, fabricar exatamente a mesma coisa, chapas não revestidas largas para esse, para essa gama de mercado, bens de capital, etc, etc, fábricas de automóvel que não existiam, fábrica de vagões que não existia, tudo era importado, então elas nasceram mais ou
menos juntas e começaram a se viabilizar também juntas, porque quando Minas Gerais apertou Juscelino, e ele prometeu que se fosse presidente, iria prestigiar aqui, São Paulo, com o poder dele, forçou para que ele também fizesse em São Paulo, desse a São Paulo o mesmo apoio que daria aqui em Minas e isso foi feito, com uma diferença muito grande, é que São Paulo passou do poder particular quase para o poder estatal imediato... (E 47 A).
Por outro lado, havia a realidade pós-guerra dos japoneses, os quais procuravam mostrar sua capacidade produtiva no Ocidente. Nesse encontro de objetivos e vontades
(014) ...a [adquirente] teve a sabedoria de se associar ao capital estrangeiro. Trouxe um capital minoritário que queria se afirmar no pós-guerra no Ocidente, que era o japonês, povo extremamente competente e que estava, vamos dizer assim, desabrochando do pós-guerra e nós nos associamos a eles e eles nos serviram de grande apoio financeiro, tecnológico e defesa política... (E 45 A).
A convergência de japoneses e mineiros parece produto de um determinismo quase fatalista, ou quem sabe, efeito de mútua atração de semelhantes, reforçada pela possível ausência de alternativas, já que
(015) ...os japoneses com os baianos, provavelmente, poderiam não dar uma formatação adequada (E 38 A).
Da mesma forma, os
(016) ...japoneses com os cariocas também... o carioca vê as coisas diferentemente (E 38 A).
Nas palavras de uma pessoa nascida em São Paulo que, embora com formação em Sociologia, não se livra de certos estereótipos atribuídos aos nipo-descendentes:
(017) ...mineiro com japonês deu muito certo, paulista com japonês não dá tão certo, embora tenha mais japonês aqui do que lá, os japoneses que têm aqui, em São Paulo e tal, é para ter fábrica de televisão, disto, daquilo, eles são bons, mas nós não temos uma afinidade muito grande de funcionar que nem japonês funciona não é? E lá deu certo, deu uma química boa... [...] eles lá se entendem com japonês, não adianta, nós não vamos fazer esse negócio assim, por passo e a [adquirente] absorveu muito essa cultura. Hoje nós melhoramos muito né, o relacionamento com a Nippon Steel é
bom, a Nippon Steel valoriza o jeito de o cosipano trabalhar, mas nós não assimilamos isso, sabe, não está na pele, não está, na pele do pessoal da [adquirente] está, na nossa, não. O pessoal ainda brinca com os símbolos japoneses que eles põem aí, agora pinta um olho, depois que cumpre outra etapa, é só gozação, porque o pessoal não é assim, né, não absorveu esta cultura...[...] e a [adquirente] foi uma química com os japoneses, fantástica, né (E 25 A).
Esse depoimento (fragmento 017) parece evocar uma possível aversão histórica aos japoneses e a seus descendentes, embora a presença maciça deles no Estado de São Paulo com suas manifestações tenham levado a implicações muito mais amplas que a simples ostentação de preconceitos. Nesse sentido, eqüivaleriam à idéia weberiana de efeitos sociológicos não esperados, tendo em vista a amplitude das conseqüências diante de um fato aparentemente banal:
Um dos homens-chave do grupo [industrial japonês] esteve em São Paulo e entrou em contato com o pessoal de lá. Eu entendi que ele havia entrado em contato com o grupo da [adquirida], que já existia como uma pequena empresa-piloto. Acho que ele havia sido muito infeliz nas negociações, pois disse de uma forma caricata que os
paulistas tinham dito que em São Paulo já existia japonês demais e que eles não precisavam da usina. Então, eles [japoneses] estavam muito magoados, e eu disse:
'Dê-me um pouco de prazo, que eu vou conversar com o Presidente Juscelino, e talvez haja uma oportunidade de os senhores mandarem esses homens a Minas'. Juscelino, imediatamente, apoiou a idéia e falou com o Dr. Bias FortesTP
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PT que organizasse a questão (Lopes, 1986, p. 13, grifo nosso).
O tratamento preconceituoso no período pós-guerra foi percebido pelos japoneses como ato de hostilização, afastando-os de São Paulo e abrindo oportunidade para que direcionassem seus interesses e investimentos para Minas Gerais. No fragmento discursivo (017), praticamente 40 anos depois, está presente a mesma forma pejorativa de referir-se aos japoneses e seus descendentes, colocando em dúvida a sua competência para construir e administrar usinas siderúrgicas e produzir aço, já que "...os japoneses que têm aqui, em São Paulo e tal, é para ter fábrica de televisão..." (017). E, segundo a mesma passagem, "paulista com japonês não dá certo", mas "lá [em Minas] deu certo, deu uma química boa..., eles lá se
entendem com japonês... foi uma química com os japoneses, fantástica...", até para produzir aço, além de "televisores" e outras quinquilharias. A história se repete.
Nesse sentido, as características do mineiro se aproximam do que é valorizado pelos japoneses. No depoimento de um mineiro (018):
(018) E o mineiro também tem algumas características importantes, ele é mais reservado, ele trabalha em silêncio, ele tem as raízes fortes com a terra, ele fixa muito na terra, na família (E 38 A).
Do amálgama de traços culturais de dois povos orientados por valores idênticos, a
(019) ...[adquirente] foi formatada e ela buscou uma cultura, criar uma cultura própria, que é uma mistura dos valores da cultura japonesa com a estrutura dos mineiros. Então, você tem aí valores importantes como trabalho em equipe, que é muito forte na cultura japonesa, a hierarquia muito respeitada, o desenvolvimento, o treinamento e a formação das pessoas se fazem sobretudo dentro da própria empresa