Marcos Maia no início estudou música formalmente no CMAN. Apesar de um ambiente musical favorável na família, o que acarretou em uma maior intimidade com o ambiente do CMAN, esse agente não concluiu o curso naquela instituição. A questão pode ser explicada sob a nossa maneira de entender: Existia um currículo formal a ser seguido para obtenção de um título, um programa a ser cumprido, um repertório a ser tocado. A pluralidade musical a que ele fora submetido desde cedo ocasionou um choque entre o gosto musical desse agente e o modelo de currículo daquela instituição . Em sua fala esse ponto é abordado da seguinte forma:
O curso fundamental, chamado na época, tinha oito anos de duração e eu no quinto ano abandonei permanecendo de 1975 a 1979. - Por que eu abandonei? Porque eu queria tocar outras coisas, outros gêneros de música
inclusive, eu queria tocar guitarra elétrica, e eu vi que no conservatório, na época, eu não teria essa possibilidade. Aí era uma coisa interessante porque eu escutava praticamente o que os meus pais e meu irmão ouviam. Meu irmão escutava um pouco de tudo; música, não queria só ficar ouvindo, eu queria passar essa coisa para o instrumento, e no conservatório não havia essa possibilidade, a não ser da música erudita e alguma coisa da música brasileira mais voltada para o choro (Marcos Maia).
Nesse caso o habitus incorporado se choca com o conteúdo programático que deveria ser apreendido em uma instituição dotada de um currículo específico. A música popular já estava muito presente na vida de Marcos Maia, assim como a vontade de estar em um ambiente musical que lhe proporcionasse outros aprendizados. Paralelo a essa realidade o CMAN não abria espaço para a música brasileira, a exceção eram os choros tocados ao violão, mas isso era pouco para a pluralidade musical que era buscada pelo agente em questão. Como já havia um gosto incorporado mediante experiências musicais prévias, o currículo fechado a novas possibilidades contribuiu para a saída do agente daquela instituição. A seguinte colocação nos faz refletir sobre o papel de casa na formação dos princípios geradores do gosto e dos julgamentos que fazemos dele:
O espaço habitado – e em primeiro lugar a casa – é o lugar privilegiado da objetivação dos esquemas geradores e, pelo intermédio das divisões e das hierarquias que estabelece entre as coisas, entre as pessoas e entre as práticas, esse sistema de classificação feito coisa inculca e reforça continuamente os princípios da classificação constitutiva do arbitrário cultural (BOURDIEU, 2009, p.126).
Um fato relevante é que o modelo conservatorial por muito tempo esteve restrito a um ensino tutorial e com finalidade de formar virtuoses. Nessa perspectiva buscavam valorizar os mais dotados de aptidões ou dito de outra forma, dom. Essa forma de compreender se choca com a inclusão da música popular no conservatório já que:
Geralmente, possuir um dom musical tem a ver com um quadro de apropriação de técnicas complexas, não aquelas populares, mas as impostas por padrões culturais eurocêntricos. Transmite-se e impõem-se, via de regra, padrões culturais que se tornaram modelos, através de um processo histórico-cultural de certos conteúdos como bem simbólico. Há legitimação de obras que representam a hierarquia dos bens culturais válidos dentro de uma sociedade, em um dado momento (KEBACH, 2007, p.41).
Contudo é verdade que Marcos Maia considerou importante esse período no conservatório, já que por meio das técnicas musicais adquiridas ele pôde se aventurar em outros estilos musicais, inclusive tocando guitarra elétrica. A fala do agente ilustra nossa exposição:
[...] o conservatório ficou como uma boa referência na questão da formação técnica, musical e me deu bases pra encarar outras vertentes musicais, outros gêneros com mais segurança, digamos, mais base. Deixa eu dar um exemplo mais prático: O choro brasileiro é uma música muito virtuosística, exige muito da destreza do músico e essa destreza a música erudita, a escola da música européia ela tem uma preocupação muito grande com isso, com a execução, com a postura, com questões relativas a psicomotricidade, leitura, então isso facilita muito para quando você quer se aventurar em outro gênero. Não quero dizer que vá garantir que você será um grande chorão, ou um grande jazzista, mas você terá condições de pelo menos se aventurar (Marcos Maia).
Outro ponto relevante no percurso formativo desse agente é o fato dele ter decidido deixar de estudar no conservatório para se dedicar a guitarra elétrica. A influência do seu irmão Zé Maia é mais uma vez apresentada pelo agente como determinante; “[...] o Zé Maia tocou violão, tocou guitarra, violino, bandolim e eu também fui me interessando pela guitarra [...]” (Marcos Maia).
Foi possível perceber que eventos importantes que ocorreram na vida desse agente e que ganharam relevância no seu percurso formativo são relacionados a pessoas importantes para ele. Em um momento posterior o nascimento do seu filho acarretaria em outra mudança significativa, já que a partir desse momento ele não moraria mais com os pais e teria de buscar estratégias de sobrevivência. Dessa forma ele passou a desempenhar outras atividades profissionais como músico e sobre esse momento ele nos conta:
Isso tem uma influência direta na minha vida profissional porque eu ainda estava em formação, eu ainda fazia a licenciatura em música porque após o abandono do conservatório, quando eu concluí os estudos do colégio, fiz vestibular, entrei no curso de música, no curso superior, licenciatura em música da Universidade Estadual do Ceará. Então, não tinha ainda um emprego, estava ainda em formação, fui para as alternativas profissionais do músico, aquelas alternativas: tocar na noite, acompanhar artistas, ir para estúdio, gravar, e todas essas atividades que o músico se desdobra para poder pagar as contas (Marcos Maia).
É fato que o habitus pode influir nas escolhas e nos níveis de intimidade que se tem com os capitais, mas o que diferencia indivíduos que tiveram condições de vida similares são os eventos pessoais que são frutos de um percurso. As alternativas profissionais do músico que nos são apresentadas por esse agente como tocar na noite, acompanhar artistas ou gravar também compõem o seu currículo, já que consideramos que o processo formativo se dá nos múltiplos espaços e a partir de experiências diversas.
O que também nos chamou atenção na entrevista desse agente foi a dicotomia apresentada por ele entre ser artista músico e professor.
[...] não me interessei em desenvolver essa carreira acadêmica muito cedo porque eu também tinha a minha vida profissional como artista [...] Sou um professor universitário, mas eu sou também o Marcos Maia violonista, o artista, músico violonista Marcos Maia, que faz apresentações, que grava nos estúdios que acompanha cantores, cantoras, que grava CD´S e etc (Marcos Maia).
Nesse momento percebemos novamente que o habitus exerce grande influência no percurso desse agente. A dicotomia apresentada entre o professor e o artista músico Marcos Maia é sob a nossa forma de entender fruto de práticas anteriores que diferenciavam a figura do professor e do artista. No momento em que esteve no CMAN foi necessário sair daquela instituição para tocar guitarra elétrica e atuar como músico profissional. Outro ponto relevante é que no convívio familiar houve o incentivo para a música, mas isso sem maiores interesses para uma profissionalização.
Após um período de vinte três anos como professor de violão da UECE, Marcos Maia teve o interesse em cursar um mestrado acadêmico, tendo optado pela área de práticas interpretativas na UNICAMP. Esse fato merece destaque e abordaremos a questão após a fala do agente:
[...] estou na Universidade Estadual do Ceará desde 1988, acaba sendo praticamente 23 anos, mas só em 2006 eu fui fazer o meu mestrado, por conta disso, eu sempre estava dividido entre vida acadêmica e vida artística. Decidi investir mais na vida acadêmica, fiz o mestrado na UNICAMP em práticas interpretativas, no Departamento de Música popular, um trabalho de violão [...] (Marcos Maia).
Nesse momento a dicotomia entre “vida acadêmica” e “vida artística” ainda é apontada na fala do agente. Mas por que após esse longo tempo ele se interessou em investir sob o ponto de vista acadêmico, quando o seu habitus proporcionava uma maior disposição para outras práticas? Interpretar esse fato não é tarefa das mais fáceis, mas antes disso devemos entender “[...] que nosso modo de pensar deve ao fato de ser produzido em um espaço acadêmico” (BOURDIEU, 2011, p.199). Queremos com isso dizer que a escola influi na forma que se pensa e isso terá de alguma forma um reflexo nas práticas sociais.
A palavra escola, derivada de skholé, proporciona “ [...] uma forma especial, como situação institucionalizada de lazer estudioso. A adoção desse ponto de vista escolástico é o preço de entrada exigido por todos os campos do saber” (BOURDIEU, 2011, p. 200). Desse modo compreende-se que o fato do agente estar ocupando a posição professor do Ensino Superior traz consigo algumas vantagens no interior do campo, mas também algumas exigências. É verdade que não é o campo violonístico em si que irá exigir uma postura escolástica já que percebemos que antes mesmo do agente obter algum título do CMAN ou da
UECE este já desempenhava atividades profissionais. A exigência da escolarização em um nível mais elevado que o da graduação, que anteriormente foi a via de acesso como docente na UECE, vem da própria instituição. Essa exigência comumente não é explícita, não é algo que acontece formalmente como em um concurso público. Ela se dá por meio de estratégias nem sempre perceptíveis, mas que no final acabam induzindo os que integram as instituições, de forma consciente ou não, a buscarem por meio da skholé um reconhecimento das suas práticas e saberes, já que “o ponto de vista escolástico é inseparável da situação escolástica [...]” (BOURDIEU, 2011, p. 200).
Estando na posição de docente na universidade é comum a busca pelos títulos de mestrado e doutorado. As tabelas salariais (ganha mais quem tem maior titulação), os editais da CAPES59 ou CNPQ60 (concorrem em sua maioria os detentores do título de doutor), as bolsas de pesquisa para estudantes (tem maior chance de conseguir quem tem maior titulação); essas e outras são algumas artimanhas que fazem com que aqueles que estão nas instituições acadêmicas joguem o seu jogo e se submetam as suas exigências. A busca por titulação no caso de Marcos Maia que já ocupava a posição de docente foi uma exigência institucional não explícita, já que fazendo parte do universo escolástico, é possível entrar no jogo ou ignorá-lo. O que não se pode negar é o peso das exigências que se faz presente para ter um trabalho reconhecido no meio acadêmico e os incentivos proporcionados quando se está na posição de docente no Ensino Superior. A exposição de Bourdieu (2011) nos esclarece:
O homo scholasticus, ou academicus, é alguém que pode jogar a sério, porque seu estado (ou o Estado) lhe assegura todos os meios de fazê-lo, isto é, o tempo livre, liberado das urgências da vida; a competência, assegurada por um aprendizado específico com base na skholé; e, por último e de maneira especial, a disposição (entendida como aptidão e inclinação) [...] (BOURDIEU, 2011, p.201).
No caso do agente em questão é possível perceber que o Estado incentivou o agente em questão a cursar um mestrado quando permitiu o seu afastamento da universidade e que, isso se deu porque ele tinha suas competências com base em uma escola, além das disposições exigidas para tal. Nesse caso podemos constatar que as situações colocadas guiam as práticas e que estas por sua vez determinam as práticas do sujeito ou o que acreditam que devam ser suas escolhas no interior de um campo ou das instituições.
59 Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. 60 Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
Finalmente tentou-se elucidar o contexto em que se deu a chegada do professor Marcos Maia à docência do Ensino Superior da UECE. No momento da entrevista ele inicia sua fala discorrendo sobre a sua escolha em fazer música na universidade e nos conta que na lista de possíveis cursos da universidade que foi disponibilizada pelo colégio, o de música não constava. Ele relata esse episódio da seguinte maneira:
Quando eu fui fazer o vestibular, o colégio que eu estudei foi o ___61, localizado na Aldeota, Fortaleza. Na lista de cursos disponíveis e que foi fornecida por eles eu não vi música. E foi uma coisa que até hoje eu não entendo muito bem, eu não sabia que existia um curso superior de música em Fortaleza. Eu não fiquei sabendo através do meu colégio, meu colégio não informou isso (Marcos Maia).
A escolha de cursar música na universidade nem sempre é bem aceita quando esta se associa a classes sociais. Bourdieu (2008) alerta para uma hierarquização existente entre disciplinas, e que o acesso a determinados cursos mais concorridos dependerá de um rendimento escolar prévio, de um capital linguístico e cultural adquirido ao longo da vida. A concorrência existente entre colégios é explícita quando eles expõem em outdoors propagandas com os primeiros lugares no ITA, IME e nos cursos de medicina. Nunca vi e acho difícil de acontecer na cidade de Fortaleza uma propaganda que destaque o primeiro lugar obtido em música, sociologia, serviço social, filosofia, etc. Esses cursos não estão diretamente ligados a um status social como as engenharias, a medicina, o direito, etc. Marcos Maia diz compreender nos dias de hoje o porquê de não ter sido apresentado a ele o curso de música no colégio quando diz: “[...] hoje eu entendo muito bem essa política dos colégios, tendenciosa, para você fazer medicina, engenharia; o colégio tal, os primeiros lugares [...]” (Marcos Maia). O fato é que Marcos Maia cursou inicialmente Engenharia de Pesca na UFC, o processo de escolha é por ele relatado:
E aí o que foi que eu fiz; uma coisa engraçada: Eu não queria fazer nada, você tem que fazer vestibular pra alguma coisa: Quando eu olhei assim, bom: - Eu não quero fazer nada, não quero ser engenheiro, não quero ser médico, e não tem música. Aí eu lembro que escolhi... – tem que fazer alguma coisa não é? Mundo capitalista. – Ah já sei, vou fazer Engenharia de Pesca, de repente vai rolar umas praias, foi o meu pensamento: - É uma coisa menos traumatizante, é, vou fazer Engenharia de Pesca. Aí fiz o vestibular, tirei o primeiro lugar [...] (Marcos Maia).
61Por questão ética optou-se por não mencionar o nome do colégio, considerando que essa informação não é
Considerando que esse agente por motivo de desconhecimento da existência de um curso de música ter escolhido engenharia de pesca e obtido o primeiro lugar constata que ele detinha um grau satisfatório de capital linguístico e cultural.
O ano de 1982 marcou o ingresso desse agente no curso de Licenciatura em Música da UECE. Ele ficou sabendo por meio de um amigo quando ainda cursava engenharia de pesca. Nesse momento optou por fazer outro vestibular e mais uma vez a família desempenhou um papel importante no que concerne a entender e apoiar essa decisão, ele assim nos conta sobre esse episódio:
Então entrei na turma de 82.1, o ano de ingresso no curso de música. Como sempre, voltando a falar da minha família: Meus pais compreenderam e foi outro vestibular, eu não era gênio, mas era estudioso e tirei outro primeiro lugar no vestibular de música da UECE e fui fazer música, licenciatura em música (Marcos Maia).
Diante do que já foi exposto aqui, Marcos Maia ingressou na graduação. Antes disso vale lembrar que ele teve os seus primeiros contatos com a música no ambiente familiar, posteriormente foi aluno durante cinco anos do CMAN, após esse período teve uma série de experiências profissionais como músico. O ano de 1988 marca o ingresso desse agente como professor do Ensino Superior da UECE por meio de concurso público. Três professores estavam presentes e um candidato de fora, no final Marcos Maia ficou com a vaga para ensinar a disciplina de prática instrumental (violão).
Os capitais necessários para pleitear a vaga de docente foram adquiridos ao longo de um percurso. Nesse caminho a música popular, o choro, o jazz e a música erudita estiveram presentes. Quero alertar que a música popular que tanto esteve presente no convívio familiar, contribuiu para a sua saída do conservatório e ainda hoje está presente na prática desse agente. Uma prova disso é o seu desejo em criar um bacharelado em violão popular, desejando inclusive levar trabalho semelhante para um estudo em nível de doutorado.