Entendemos por indicação o processo pelo qual o recrutamento do servidor público ocorre por meio da livre nomeação por quem detém o poder e, portanto, exerce influência. Nesse sentido, a indicação baseia-se na prerrogativa do detentor do poder em indicar alguém para um cargo comissionado ou função de confiança no serviço público.
Considerado como um meio para premiar amigos, parentes ou conquistar aliados, o processo de provimento por indicação nem sempre se preocupou com a qualificação para o exercício do serviço público, cabendo à autoridade local determinar os habilitados ao serviço, imperando “a habilitação política para o exercício da função” (MENDONÇA, 2000, p.179). Configura-se, dessa maneira, um distanciamento da ordenação impessoal e abstrata, permeando, portanto, favoritismos pessoais, privilégios, trocas de favores decorrentes das raízes patrimoniais da formação do Estado brasileiro.
Pode-se afirmar com Faoro (2001) que a formação do Estado brasileiro esteve condicionada ao modelo português, no qual o rei era superior a tudo e a todos; logo, o Estado se configurou como uma extensão da casa do senhor.
Cabe lembrar, com Mendonça (2000), que a indicação dos servidores públicos prevaleceu como prática durante décadas e que na educação tende a materializar-se, ainda hoje, na indicação de diretores escolares, constituindo essa a segunda modalidade de seleção mais adotada no Brasil16.
Oliveira e Schwartzman (2002) apontam que a modalidade adotada para a escolha dos diretores das escolas públicas brasileiras se diversifica17: nas escolas municipais 73,6% dos diretores foram selecionados por meio da nomeação política (indicação); 13,2% por eleição, 9,4% por concurso público, e 3,8% por meio de uma modalidade mista (prova e eleição). Já nas escolas estaduais os percentuais são representados por 26%, 41,8%, 17,6%, e 6,6% respectivamente.
Nos anos de 1990, Dourado e Costa (1998), visando o delineamento das modalidades mais usuais de gestão, no cenário educacional brasileiro, de modo a mapear as alterações processadas no âmbito das experiências estaduais e nos municípios das capitais brasileiras18, conduziram uma pesquisa19 sobre a escolha dos dirigentes escolares. Os autores constataram que a modalidade mista é adotada em 37,7% dos entres federados, seguida pela eleição direta em 31,3%, livre indicação por parte da autoridade (22,9%), a entrevista com a apresentação do currículo do candidato (2,1%) e o concurso público (2,1%), sendo essa última a modalidade característica do estado de São Paulo.
A educação escolar pública implementada e patrocinada por este Estado sofreu os impactos de caráter patrimonial presente desde sua formação e cujo reflexo também se fez sentir no recrutamento do quadro de servidores, de modo que os detentores do poder do momento pudessem assentar e exercer sua influência, constituindo a escola, o local no qual poderia agregar
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As informações obtidas por Mendonça se referem às modalidades adotadas pelos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios das capitais por região do Brasil, num total de 53 entes federativos. Predomina nestes a eleição como modalidade (53%), seguido da indicação (34%), modalidade mista - seleção e eleição – (10%) e concurso público (3%).
17
A pesquisa realizada por Oliveira e Schwartzman em 2001 envolveu 148 escolas municipais, estaduais e particulares situadas em 51 municípios de 23 estados brasileiros, apresentando, aproximadamente, dois municípios por unidade da Federação.
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Este estudo envolveu 53 Secretarias sendo: 26 Secretarias Estaduais de Educação, 26 Secretarias Municipais de Educação e o Distrito Federal.
19 A referida pesquisa integra o programa de Pesquisa Política e Gestão da Educação no Brasil, da ANPAE (Associação Nacional de Políticas e Administração da Educação).
aliados. Para Mendonça (2000,p. 181) “ter um diretor como aliado e dependente político é ter a possibilidade de deter o controle de uma instituição que atende diretamente parte significativa da população por meio de um contato direto”.
Dourado (1993), analisando a indicação dos diretores no município de Goiânia /GO, constatou que:
[...] as escolas eram a expressão viva da interferência externa, pois, a contratação, lotação e modulação de professores e funcionários eram definidos a revelia da SME [...] os cargos de direção e vice-direção das escolas da rede, eram os mais cotados pelos vereadores, por se constituírem em canais de cooptação e manipulação da comunidade escolar.
O diretor configura-se como o grande ausente das questões pedagógicas, reduzindo sua atuação à interlocução e defesa dos interesses daqueles que o indicaram a função (DOURADO, 1993, p. 82).
Não é em vão que algumas medidas são tomadas para que essa situação não se altere e a escolha dos profissionais da educação, como os diretores escolares, continue sendo realizada por meio de indicações. Mendonça (2000) relata a realidade de Palmas/TO, na qual os impedimentos à implantação da eleição direta nas escolas do município estão atrelados aos interesses de políticos (deputados e vereadores).
Paro (2003) menciona que alguns estados (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) que optaram pelo processo eleitoral para a escolha de diretores escolares tiveram a iniciativa barrada por governos que entraram com Ações de Inconstitucionalidade, já que cargos em comissão e função de confiança são de livre nomeação e exoneração conforme determina a Constituição Federal de 1988 no inciso II artigo 37. Com esta atitude, os governos demonstraram nitidamente o interesse em proteger e manter seus favorecimentos aos aliados, utilizando o bem público em beneficio de interesses de grupos particulares. Configurando a prática do ‘para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei’.
Operando dessa maneira, vereadores, deputados, prefeitos, entre outros estão interessados em manter a influência na escolha dos servidores públicos para continuarem sendo favorecidos na barganha.
A indicação, como modalidade de seleção para o provimento, caracteriza-se como benesses oferecidas em troca de apoio, incidindo nos favorecimentos a parentes, amigos e aliados políticos, faltando-lhe um ordenamento impessoal e objetivo, sendo, por isso, muito criticada e
condenada por todos os interessados na gestão democrática da escola pública, já que ao adotar critérios subjetivos e pessoais para a admissão, a exoneração caminhará no mesmo sentido. O ‘favorecido’ tende a atender e a ser leal aos interesses da pessoa que o indicou, visando, sobretudo, garantir a sua permanência no posto. Nesse sentido, a indicação aproxima-se dos ordenamentos patrimoniais.