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André Dalmas, em 1965, realizou a tradução do latim para o francês, tendo como base a edição de Claude Perrault, de 1673. Dalmas apresenta uma opinião bem interessante sobre a época em que Vitrúvio viveu. Vimos que alguns autores, por exemplo, Mortet e os irmãos Newton, concordam com a proposta que, para Perrault, o arquiteto Vitrúvio viveu na época de Tito. Porém, Dalmas, nos seus comentários, reconhece que Vitrúvio viveu no primeiro século antes da era comum e sua morte ocorreu no ano 26 antes de Jesus Cristo429. Contudo, mais adiante concorda em seu texto que na literatura em geral as datas são bem variáveis acerca dessa questão430.

Nos Estudos Vitruvianos, de Eduardo Tuffani, publicado em 1993, o autor nos indaga sobre “quando Vitrúvio redigiu o De architectura?”. Porém, logo após o questionamento, sugere que “desconhecido o momento exato, pode-se estabelecer duas datas limites: 727 e 738 a.u.c.431 (26 e 15 a.C.)”432. Mais à frente, durante a defesa da sua tese, Tuffani considera que:

Vitrúvio se enquadra no contexto da segunda metade do século I a.C. por defender com Cícero e Horácio o idealismo estético que encarava a arte do modo conservador.433

O estudioso Francesco Pellati, no seu livro Vitrubio El Gran Arquitecto de La

Antigüedad Greco-Romana, publicado em 1944, considera que “é lícito supor que [Vitrúvio] nasceu no começo do século I antes de Júlio César”434.

428 Maciel, introdução para Tratado de arquitetura, 12.

429 Dalmas, prefacio para Vitruve, les dix libres d’architecture, 19. 430 Ibid.

431 A sigla a.u.c. significa anno urbis conditae. Consiste no ano da fundação da cidade de Roma, 753 a.e.c,

data proposta por Marco Terêncio Varrão. Para realizar o ajuste do ano com o calendário gregoriano, subtraímos 753 com o ano apresentado em a.u.c. Ver página 129.

432 Tuffani, Estudos Vitruvianos, 23. 433 Ibid., 26.

Outro estudo interessante é o artigo Vitruvius: writing the body of architecture, de Indra Kagis McEwen, publicado no ano 2000. Logo no início da sua introdução, McEwen afirma que em meados dos anos 20 a.C., os dez livros de arquitetura de um experiente arquiteto militar, sobre quem pouco se sabe, é apresentado a Augusto César, o novo governante do mundo Romano435. É muito interessante observar que nessa mesma menção, em nota, McEwen apresenta um rápido e objetivo estudo sobre a visão da datação de Vitrúvio, apresentados por diversos estudiosos. Ela afirma que:

O trabalho deve ter sido iniciado no ano 30, mas provavelmente não foi completado antes do ano 20. Para vistas recentes sobre a datação de Vitrúvio e revisões de literaturas antigas sobre o assunto, ver Baldwin (1990) que, apesar de um pouco equivocado, tende a sustentar uma publicação datada entre 29 e 25 a.e.c; Fleury (Vitrúvio 1990, pp. Xvi-xxiv) escreve que o trabalho foi escrito entre 35 e 25 a.e.c; Romano (1987, pp. 17-20), argumenta que foi escrito entre 27 e 23, com os prefácios escritos mais tarde, para cada um dos dez livros.436

Com base na afirmação de McEwen, analisamos a introdução de Philippe Fleury. Constamos que Fleury afirma que “o alcance da redação dos diferentes estratos de De

Arquitetura pode ser razoavelmente estabelecido entre os anos 35 a 25 a.C.”437. Afirma ainda, que os escritos de Vitrúvio poderiam até ter sido redigido antes de 35438.

Como vimos, muitos estudiosos apresentam datas exatas, outros, datas aproximadas e alguns, com certa prudência, preferem inserir um determinado século ou épocas de imperadores, como nos casos dos imperadores Augusto e Tito. Sobre a questão da história política de Roma, na obra Grécia e Roma, de Pedro Paulo Funari, o autor afirma que:

Tradicionalmente, a história de Roma na Antiguidade é dividida em três grandes períodos: Monarquia, da fundação da cidade em 753 a.C., segundo a tradição, ao ano 509 a.C.; República, de 509 a.C. a 27 a.C.; e Império, de 27 a.C. a 395 d.C., ano 434 Pellati, Vitrubio: el gran arquitecto de la antigüedad greco-romana, 27.

435 McEwen, Vitruvius writing the body of architecture, 1. 436 Ibid., 305.

437 Fleury, Vitriuve de l´architecture: libre I, 23. 438 Ibid., 23-4.

da divisão do Império em Ocidental e Oriental, com capitais em Roma e Constantinopla.439

Sobre o início do governo de Augusto, Funari afirma que:

outros generais sucederam a César e em 31 a.C. seu sobrinho e herdeiro, Otávio, após vencer seus opositores, acabou por torna-se o único grande general, logo reconhecido pelo Senado como o “principal”, sendo chamado, por isso de Príncipe. Recebeu, ainda, o título de Augusto, “o venerável”. Este regime passou a ser conhecido, por isso, como Principado ou Império, pois o governante era o príncipe, um general vitorioso do exército (imperator, em latim).440

No caso, Tito Flávio Vespasiano Augusto (em latim: Titus Flavius Vespasianus

Augustus), nasceu em 39 e faleceu em 81 da nossa era. Foi imperador romano entre os anos de 79 a 81, sendo o filho mais velho e sucessor de Vespasiano.

Além de tentar determinar a data de redação dos Dez Livros de Arquitetura, alguns pesquisadores sugerem a data de falecimento de Vitrúvio. É claro que, sobre esse tema também existem algumas divergências. Na nota de tradução de Cato Maior De Senectute, publicada em 1923 pela Loeb Classical Library441, é afirmado que, de acordo com os romanos da época de Vitrúvio, a vida de uma pessoa poderia ser descrita em cinco fases, sendo:

1ª - do nascimento até que ele pudesse falar; 2ª - da fase anterior até os 15 a 17 anos; 3ª - da fase anterior até os 30 anos; 4ª - da fase anterior até os 30 a 40 anos; 5ª - da fase anterior depois dos 45 anos.

439 Funari, Grécia e Roma, 82. 440 Ibid., 89.

441 Cicero, Cato the Elder on Old Age, http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cicero/Cato

O termo utilizado na tradução para os homens que passam dos 45 anos é “old man”, ou seja, uma pessoa idosa. Tendo como postulado essa afirmação, diversos estudiosos utilizam como base o prefácio do livro 2, verso 4, para datar a morte de Vitrúvio. Nessa passagem, Vitrúvio afirma que “a mim, porém, ó Imperador442, não ofereceu a natureza boa aparência, a idade desfeou-me o rosto e a doença me subtraiu as forças”443.

Para McEwen, o arquiteto Vitrúvio viveu, aproximadamente, até os 50 anos. Essa afirmação tem como base a idade que os romanos consideravam como avançada, sendo essa a partir dos 46 anos444. Esse argumento está em conformidade com os escritos de Cícero, no De Senectute, verso 60. Afirma Cícero que:

Por exemplo, há uma tradição que Valerius Corvinus, depois de passar o período normal de vida, viveu em sua fazenda e cultivou, e continuou sua perseguição da agricultura para o seu centésimo ano. Quarenta anos intervieram entre seus consulados primeiro e sexto. Assim, tanto espaço de tempo, por conta dos nossos avôs, marcou o início da velhice, apenas que o espaço foi o curso de sua honra pública; e último período da sua vida foi mais feliz do que a extensão do meio, porque sua influência foi maior e seus trabalhos foram menores445.

O presbítero Don Joseph Ortíz y Sanz, na sua tradução do latim para o espanhol, de 1787, comenta que:

Sobre o ano que Vitrúvio morreu nada podemos dizer se não que, quando escreveu o prefácio do livro II, já era homem de idade avançada, e aparência de mais de 60 anos446.

O mesmo autor complementa, mais adiante, que ao considerar sua idade e a pouca saúde não deve ter sobrevivido muito. Supôs, ainda, que sua publicação deva ter ocorrido no ano 736 de Roma (17 a.e.c.) e lhe atribui a idade de 70 anos, morrendo cerca de 12 a 10 anos antes do nascimento de Cristo.

442 A tradução de Joseph Ortíz y Sanz, utiliza “César” no lugar de “Imperador”. 443 Maciel, Tratado de arquitetura, 111.

444 McEwen, Vitruvius writing the body of architecture, 305.

445 Cicero, Cato the Elder on Old Age, http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cicero/Cato

_Maior_de_Senectute/text*.html.

Benzer Belgeler