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Dalton Trevisan se apropria com maestria do que a literatura tradicional considera lixo. Nesse sentido, podemos dizer que ele é uma espécie de trapeiro literário. Na obra desse autor, tudo pode virar literatura. Mesmo

porque, como nos sugere Hutcheon com seu conceito de

“transcontextualização”, o que hoje não é considerado literatura, amanhã poderá ser. Tudo depende do distanciamento crítico.

Definir o "não literário" é uma questão complexa, que gera inúmeros embates críticos. Costa (2004, p.17), em sua dissertação O texto não literário

na aula de língua materna: perspectivas de abordagem didática do anúncio

publicitário impresso, nos diz que “é literatura o que consta das Histórias da Literatura, de antologias, livros de crítica e o que se considera digno de ser estudado nas escolas ou universidades”. A mesma autora nos diz que vê surgir no mesmo grupo um conjunto de textos com menos criatividade e menos elaboração linguística, literária e estética, e também textos cujos modos de produção, distribuição, divulgação, circulação e consumo se distanciam dos da literatura.

Já para Mouralis, sob a designação "não literário" agrupam-se textos variados, desde a banda desenhada aos textos jornalísticos (notícia, reportagem, entrevista), slogans publicitários, cartas, atas, requerimentos, currículos, relatórios.

Na procura de uma definição teórica para o assunto, Costa nos traz a definição de “não literário” por Tzvetan Todorov:

Assim, na obra Les Genres du Discours (1978), Todorov começa por apresentar, em síntese, um balanço da insistente pesquisa da literariedade, termo cunhado por Jakobson na década de 20, e à volta do qual se tinham multiplicado as tentativas para o conceituar de modo exacto e definitivo, ambição que do Formalismo Russo rapidamente se estendeu à Estilística e ao New Criticism. No seguimento de algumas considerações a propósito das mais repetidas conclusões dos vários investigadores: o discurso literário é mais conotativo, mais opaco, é autotélico, sistemático, plurifuncional e a ficcionalidade é uma marca da obra literária, Todorov parte de três critérios - estrutura, carácter sistemático e propriedades linguísticas -, para concluir que nenhum deles é por si só capaz

de levar a destrinçar o texto literário do texto não literário. (Costa, 2004, p.18)

Essa indefinição apresentada por Todorov é justamente o que presenciamos nos contos de Dalton Trevisan. Em O vampiro de Curitiba temos uma gama de textos, a princípio, considerados não literários, mas que acabam mudando de categoria quando inseridos nos contos. Temos aí exemplos claros do que Bakhtin nomeia romance (aqui conto) “plurilíngue, pluriestilístico e plurivocal”.

No conto “Último aviso”, como já vimos anteriormente, Nelsinho chantageia Olga para que adultere com ele, além de um tal de Múcio, sob ameaça de contar para o marido sobre a traição, caso ela não aceitasse sua proposta. Para tentar obter vantagem, alega que o marido também a traía. Na hora a moça não cedeu. Mal deu tempo de ela chegar em casa, Nelsinho já estava ligando para o marido, contando do adultério. A fim de armar intriga entre Artur, o marido, e Múcio, o amante, Nelsinho escreve a este uma carta em letra de forma, com a mão esquerda. Eis um trecho dela:

Dr. Múcio

Grande filho da mãe Previno-te! Cuidado!

De hoje em diante vou te perseguir

Já não fiz asneira porque não quis manchar o meu nome De hoje em diante farei meus pensamentos

Já considerei tua mulher e teus filhos

Mas como você é covarde só merece uma bala na cabeça. (UA, p. 33)

Em “Visita à professora”, quando entra no quarto de Alice, enquanto ela vai ao banheiro, observa as capas de discos ao pé da radiola: “Para a querida Alice, com amor do... À querida Alice, do seu querido... Alice, sempre querida, com amor do... Na capa, em cada dedicatória, um nome diferente.” (VAP, p. 43).

O conto mais expressivo, nesse sentido, é “Debaixo da ponte preta”. Nele, a personagem Ritinha da Luz, dezesseis anos, solteira, prenda doméstica, ao sair do emprego, dirigiu-se à casa da sua irmã Julieta, que ficava atrás da Ponte Preta. Na linha do trem foi estuprada por seis ou sete homens. O conto segue o molde de um depoimento policial, cada um dos estupradores,

entre eles, Nelsinho, narrando o fato à sua maneira. Seguem alguns trechos para ilustrar a narrativa:

Miguel de Tal, quarenta anos, casado, foguista, largou o serviço às dez e meia. Ao cruzar a linha do trem, avistou três soldados e uma dona em atitude suspeita. Sentiu um tremendo desejo de praticar o ato. Aproximou-se do grupo e, auxiliado pelos soldados, agarrou a desconhecida, retirando-lhe a roupa e com ela mantendo relação, embora à força. Derrubou-a e, para abafar os gritos, tapou-lhe o rosto como o casaco de foguista. Saciado, ajudou os soldados que, cada um por sua vez, usaram a moça, observados a distância por alguns curiosos, até que dois deles também se serviram da negrinha. [...]

Nelsinho de Tal, menor, treze anos, estudante, na noite de vinte e três, conversando debaixo da Ponte Preta com seu primo Sílvio e dois rapazes, deparou três soldados e um paisano atacando a negrinha, a qual foi atirada ao chão, em seguida desfrutada pelo civil e, por causa dos gritos, tinha um casaco na cabeça. Ele chegou-se meio desconfiado. Depois do paisano, a vez dos três soldados e, afinal, a de Nelsinho, seguido de Antônio. (DPP, p. 77)

Percebemos nos contos também um movimento inverso a esse que vimos estudando: a apropriação de histórias clássicas infantis. Aqui elas são dessacralizadas e se transformam em uma espécie de lixo literário. Primeiro a Branca de Neve: “Gênio do espelho, existe em Curitiba alguém mais aflito que eu?” (OVC, p.11). Depois João e Maria: “Linchado como tarado, a vergonha da cidade. Meu padrinho nunca perdoaria: o menino que marcava o miolo de pão a trilha da floresta” (OVC, p. 12). Também Chapeuzinho Vermelho: “Era a avozinha ou, no quimono fulgurante de seda, o próprio lobo?” e continua “Nada de avozinha, é mesmo o lobo” (CV, p. 73).

Existe uma infinidade de registros paródicos nos contos de Dalton Trevisan, sendo impossível abarcar aqui todos eles. Mas uma coisa é fato: o autor possui um diálogo de vasta extensão com a tradição literária.

Benzer Belgeler