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O surgimento do curso Promotoras Legais Populares, na década de 1970, faz parte de um processo amplo de experiência conhecida como legal literacy ou capacitação legal. Segundo Ricoldi (2005), o termo foi apresentado pela primeira vez em documentos oficiais nas resoluções finais da Conferência da Mulher nas Nações Unidas11, em Nairóbi (1985), com a recomendação para fomentar iniciativas de educação de adultos no sentido de elevar as taxas de alfabetização entre as mulheres. O conceito remete-se ao “processo de compreensão sobre a ligação das leis de empoderamento, [...] experiências de utilização das leis para ‘empoderar’ mulheres” (RICOLDI, 2005, p.36).

Em sua dissertação, Ricoldi (2005) apresenta a publicação do Comitê Latino Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM), de 1991, que descreve oito experiências de capacitação legal em países da América Latina, promovidas por organizações feministas, a maioria ligada ao direito. A primeira foi realizada pela entidade feminista “Flora Tristan” do Peru, com aulas de capacitação e difusão dos direitos das mulheres e o Servicio Legal, um centro de orientação e resolução de conflitos. O curso de capacitação legal tinha por um de seus objetivos diminuir a distância entre “mujeres de sectores populares y mujeres con formación em derecho” (id. ibid., p.39).

11 Segundo a página da internet da ONU no Brasil: “Em 1985, a “Conferência Mundial para a Revisão e

Avaliação das Realizações da Década das Nações Unidas para a Mulher: Igualdade, Desenvolvimento e Paz” foi realizada em Nairóbi (Quênia). Ela foi convocada num momento em que o movimento pela igualdade de gênero finalmente ganhou verdadeiro reconhecimento global, e 15 mil representantes de organizações não- governamentais participaram em um Fórum paralelo de ONGs. O evento foi descrito por muitos como o “nascimento do feminismo global”.”. Disponível em: http://www.onu.org.br/a-onu-em-acao/a-onu-e-as- mulheres/, acessado em 04/10/2013.

Já o Servicio Legal, em um primeiro momento, consistia em atendimentos às mulheres para a resolução de conflitos. Posteriormente, foi reformulado e passou a desenvolver, além dos atendimentos individuais, grupos de reflexão para casos de violência, separação, abandono e maternidade (id. ibid., p.39).

Desta forma, Ricoldi (2005) aponta que

[...] a capacitação legal, a princípio, surge de uma necessidade de informação sobre direitos, passando por um processo de questionamento dos próprios princípios legais, que, ainda que garantidos, não asseguram as mudanças sociais das representações sociais de gênero que as organizadoras julgavam necessárias (id. ibid., p.42).

A autora apresenta, ainda, mais duas experiências de capacitação legal no Peru, da organização “Manuela Ramos”, que desenvolvia o curso de “Orientadoras legales”, em 1987 e outra da “Peru Mujer”, já com o nome de “Promotoras Legales Populares”, em 1984. Nessa última, as mulheres formadas implantavam os Servicios Legales por meio dos quais se realizavam atendimentos às mulheres.

No Brasil, a ideia da implantação do Promotoras Legais Populares teve início em 1992, após militantes feministas brasileiras participarem de uma capacitação legal popular realizada pelo CLADEM12, onde tiveram a oportunidade de conhecer iniciativas de educação em direitos humanos de países da América Latina como Argentina, Peru e Chile (OLIVEIRA, F.F. de, 2006).

Ricoldi (2005) apresenta um relato de Maria Amélia de Almeida Teles, mais conhecida como Amelinha Teles, da União de Mulheres sobre o seminário do CLADEM e a motivação em realizar o curso no Brasil:

Então, esse seminário [realizado pelo CLADEM] era latino-americano, não era brasileiro. Então elas estavam, as peruanas, Costa-Rica, acho que bolivianas, tinha umas quatro. Quatro ou cinco países lá, contando a sua experiência, então nós falamos “puxa, mas é isso que nós temos que fazer...” Isso era o ano de 92. E nós tínhamos, há quatro anos atrás, conquistado uma Constituição, que tinha dado garantias e direitos pras mulheres, e que a gente temia que se perdessem, uma vez que não foram implementados... direitos, assim, de forma mais contundente, mais objetiva, né, mostrando, “olha, a

Constituição manda fazer isso, então a partir de agora, nós vamos fazer isso”. Mas, como nunca aconteceu no Brasil, o que a gente pensou: se as mulheres perderem esse conhecimento, não adquirirem esse conhecimento, a nossa Constituição pode ficar só no papel, nós não vamos efetivar. Então nós temos que aproveitar esse projeto e trazer p’ro Brasil. E nós saímos com a

12 O CLADEM teve papel importante no caso de Maria da Penha Fernandes, mulher vítima de violência de

gênero, que deu popularidade à Lei no. 11.340/06, legislação que tipifica a violência doméstica e familiar contra as mulheres. Foi o CLADEM, junto com outras organizações feministas, que apresentou à OEA (Organização dos Estados Americanos) a denúncia contra o estado brasileiro de negligencia e omissão em relação ao caso de Maria da Penha e a violência contra as mulheres.

incumbência de resolver isso, cada uma no seu estado, da melhor forma, e tal. (RICOLDI, 2005, p. 58-59)

No contexto da redemocratização no Brasil, a Constituição de 1988 representou e ainda representa um marco na garantia dos direitos individuais e coletivos. Porém, os entraves na área jurídica prejudicam a efetivação desses direitos, principalmente para as mulheres, que já possuem outras tantas barreiras. Como aponta Feix (2002, p.158):

O conhecimento das leis e dos direitos, a falta de recursos para o pagamento de advogado, a sofisticação e hostilidade do ambiente judiciário às camadas pobres da população e o descompasso entre o direito positivado e a realidade em que se estabelecem as relações jurídicas são alguns desses obstáculos. Com o desafio de transpor esses obstáculos, após a experiência do CLADEM, duas organizações não governamentais feministas começaram os cursos de PLPs. A primeira iniciativa foi a da Themis – Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero de Porto Alegre – RS, com a primeira turma em 1993. No mesmo ano, a União de Mulheres de São Paulo ofereceu o “Seminário Nacional de Introdução ao Curso de Promotoras Legais Populares”. No ano seguinte, iniciou o curso na cidade de São Paulo. As formações foram nomeadas como Promotoras Legais Populares, porém com algumas diferenças na execução do projeto (OLIVEIRA, J.G. da S., 2001).

De maneira geral, o curso de Promotoras Legais Populares possui três características marcantes: formar mulheres para que sejam multiplicadoras dos direitos humanos e especialmente da população feminina; apresentar uma abordagem multidisciplinar do direito, incorporando aos tópicos do direito outras questões como cidadania, relações de gênero, saúde, entre outros, e ser uma ação afirmativa para as mulheres, como defende Feix:

A proposta, sustentada pela metodologia utilizada, não é “formar advogadas”, mas pessoas capacitadas para intervenção social. Ou seja, possibilitar a multiplicação de conhecimentos na perspectiva de criar novos instrumentos e facilitar o acesso à justiça, transformando a realidade de exclusão de milhares de mulheres (FEIX, 2002, p.159).

Em um primeiro momento, o Curso de PLPS, foi uma ação do movimento feminista, posteriormente também por iniciativas do poder público (como prefeituras e pelo financiamento do Governo Federal), por entidades não governamentais e de classe (como a OAB e sindicatos) e por universidades.

No portal eletrônico da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal há uma recomendação do curso de PLPs, como um instrumento de enfrentamento à violência contra as mulheres e uma iniciativa do campo da educação jurídica popular. Constam ainda algumas entidades que organizam o curso no Brasil (Anexo 1).

Há experiências de PLPs que, após o curso, criaram organizações não governamentais, como o Centro Dandara de Promotoras Legais Populares de São José dos Campos, o PROLEG de Santo André e as Promotoras Legais Populares Cida da Terra de Campinas. Outras experiências de cursos são focadas em públicos específicos, como para trabalhadoras domésticas, organizado pela Universidade Católica de Brasília e para mulheres dirigentes sindicais, organizado pela Central Única dos Trabalhadores – CUT do estado de São Paulo.

No próximo item, farei uma explanação sobre as experiências da Themis de Porto Alegre e da União de Mulheres de São Paulo, tanto pelo pioneirismo na organização do curso, como pelo formato, especificidades e atuação das PLPs.