2.2. Suçun Unsurları
2.2.5. Hukuka Aykırılık Unsuru
2.2.5.2. Hukuka Uygunluk Nedenleri
No caminho dos diretores da peça é possível identificar pedras no sapato que incomodam suas relações gerenciais com os outros. Nas palavras dos alunos, observamos que a parte mais pedregosa é o lado das emoções, no saber “lidar” com as dificuldades impostas pelo “outro”. Essas se dão no envolvimento com o outro de forma passivo-ativa, já que o diálogo é constituído de diligência e passividade, confrontando as ideias e obrigando os envolvidos a abstrair conceitos: ordenando os saberes, desequilibrando definições, interagindo com os outros e reorganizando as novas ideias (MORIN, 2005). Nas sequências abaixo, observamos as dificuldades em harmonizar o ambiente, por muitos não dialogarem com os outros.
No começo foi meio difícil porque tinha gente que eu não falava tanto [...] depois todo mundo foi se falando pra saber sobre a peça [...] aí todo mundo foi se unindo. (AD01).
Tinha duas pessoas que num se falavam, aí depois da peça, começaram a se falar (AD02).
Teve problemas [...] uns não queriam fazer a peça porque era com quem num se dava bem, num falava. (AD05).
Esse processo grupal funciona através de relações equilibradas de força entre seus participantes ou pela presença de uma figura que detém o poder de determinar as obrigações e normas de regulamentação do grupo. O diretor, quando este se constitui como líder, estabelece essas relações de poder, determinando o grau de participação dos sujeitos nas decisões a partir de um processo de socialização que, intensificada pela troca de experiências com o outro, estimula a aquisição da linguagem ética em código.
A este propósito, podemos destacar formas distintas de direcionamento em um grupo escolar, principalmente quando se trata de um trabalho teatral envolvendo pelo menos 180 pessoas por ano num festival escolar de teatro. A “parceria” seria uma das primeiras maneiras e teria como base a harmonia entre os membros do grupo para alcançar um objetivo comum.
No teatro de grupo35 acontece um pouco do sistema deparceria, porém se diferencia do projeto, porque neste projeto temos duas pessoas ocupando uma mesma função simbólica, enquanto que no teatro de grupo isto só é viável quando os indivíduos possuem interesses em comum mantendo a cooperação, pois quando não, essas regras podem ser burladas com certa facilidade, a partir de alguém que se sinta injustiçado por outro, dando início a um problema de relacionamento.
No entanto, quando a pessoa tem a sensibilidade para perceber que não deve, pelo menos naquele instante, direcionar críticas negativas, também estamos exemplificando um sistema de parceria, já que existe um objetivo final pelo qual os fins não justificam os meios. Nas escritas abaixo existe um medo de perder a parceria daquela pessoa, resultando em um desastre no objetivo final.
[...] eu queria falar uma coisa pra uma pessoa, mas tinha medo dela ficar com raiva de mim, ficar triste. (AD07).
[...] ocorreu sim deu não falar pra aquela pessoa não ficar chateada [...] não querer mais fazer a peça, ter ficado com raiva, então preferi ficar calada [...] (AD11).
Há também a forma autoritária de coordenar os relacionamentos entre os sujeitos tendo este o direito de, pelas regras sociais, assumir determinado poder. No caso do projeto os diretores foram eleitos pelos próprios colegas. Assim, um indivíduo pode usar a violência verbal para ser reconhecido como autoridade, e determinar o que é certo e o que é errado pela ação do medo. Porém descobre que esta forma não leva ao entendimento no grupo. Sobre os conflitos de uma relação autoritária num grupo nos fala Koudela:
A relação autoritária percebe a regra como lei. Na instituição lúdica, a regra pressupõe processo de interação. O sentido de cooperação leva ao declínio do misticismo da regra quando ela não aparece como lei exterior, mas como o resultado de uma decisão livre porque mutuamente consentida. Evidentemente, cooperação e respeito mútuo são formas de equilíbrio ideais, que só se realizam através de conflito e exercício da democracia. O consentimento mútuo, o acordo de grupo determina as possibilidades de variação da regra. (KOUDELA, 1990, p.49)
35 O Teatro de Grupo constitui uma categoria de organização e produção teatral em que um núcleo de atores movido por um mesmo objetivo e ideal realiza um trabalho em continuidade e, estendendo sua atuação a outras áreas, principalmente no que diz respeito à própria concepção do projeto estético e ideológico, o grupo acaba por criar uma linguagem que o identifica. (ANDRADE, 2010, p. 225)
Nisso, existe a liderança em si, que seria então uma autoridade não imposta, mas, conquistada por um indivíduo dentro do grupo. O exercício da liderança é conseguido sem imposição, através do carisma, da harmonia de interesses, do companheirismo, do consentimento (SROUR, 1998). Abaixo exemplos autoritários:
[...] eles não entendiam por eu gritar por eu brigar [...] ficamos de mal durante dois, três dias [...] muita gente ficou com raiva de mim, mas é normal [...] (AD11).
Quando eu cheguei pra eles, eu tive que ameaçar, foi na base da ameaça. Eu disse “olhe, é o seguinte, se não fizer, não vai passar de ano”. E aí eu disse “olhe, só falta menos de um mês”. E aí eles mesmos se desesperaram. (AD20)
As relações estabelecidas nos grupos das peças formam um misto destas maneiras, tendo em vista que nenhuma das funções teatrais exercidas pelos alunos é individualizada, ou seja, em todos os grupos há pelo menos duas pessoas assumindo funções iguais. Assim, enquanto um diretor é permissivo o outro estimula a parceria; em outros momentos o autoritarismo briga com a liderança, e assim vão sendo construídos os métodos teatrais neste processo. E é aí, quando eles têm sensibilidade para perceber que pelo menos num instante, não devem agir pela força, que ilustramos um sistema de parceria, pelo qual fins não justificam os meios.
Criar novos conceitos, metodologias virgens, espaços inexplorados estando consciente destes processos, não é tarefa fácil. Nisso, para estes adolescentes é importante a figura do professor, não como um diretor, ou explanador de conceitos e sim como um problematizador que possa estabelecer outras crises, incitando-os a se assumirem num processo de descoberta, onde “segundo o veredicto nietzschiano, você não conhecerá nada por conceitos se você não os tiver de início criado, isto é, construído numa intuição que lhes é própria” (DELEUZE/GUATARRI, 2004, p.15).
Assim, saber é fazer, e fazer é saber, como nos induz o pensamento de Maturana (1997). Duarte Júnior diz que “se, um problema inusitado aparece neste cotidiano, procuro resolvê-lo a partir do conhecimento já cristalizado pelo meu dia-a- a-dia, buscando integrar esta nova realidade problemática àquela não problemática.” (1990, p.31). E é por isso, que podemos vislumbrar princípios metodológicos – a serem destrinchados na dissertação – pelos depoimentos dos alunos-diretores:
Admiro Selton Melo um cara novo que quando ele interpreta um personagem ele se entrega pra aquilo, eu sinto isso. (AD05)
[...] tem que dar exemplo. Como é que você pode dizer “faça isso” se eu não faço? Então acho que, acima de tudo, ela tem que ser a liderada, pra depois ela poder liderar. (AD16)
Já apresentei uma peça na igreja, faço parte do grupo de Teatro e apresentei uma pantomima anteontem. O nome da peça é Everything, é massa, da banda Lighthouse. (AD13)
[...] tomando como exemplos de animais, as características dependem do habitat, então pras características dos diretores, depende da turma. Se for uma turma unida, não precisa ter muita coisa, precisa só ter vontade de fazer e pronto. Se for desunida, precisa ter moral, precisa ameaçar, por isso que depende da turma pra ter as características que o diretor precisa ter. (AD09)
A peça se passa no nordeste do Brasil, então tem certas coisas que significam, por exemplo, um personagem, um velho que gostava muito de beber, é uma coisa, as mulheres, essas coisas de cabaré também, tem muitas aqui, eu não freqüento, (risos) tem aquele homem bravo, feroz que gosta de brigar, então eu já vi muitas dessas figuras aqui no bairro. (AD07)
Com isso, Lopes fala que “o conteúdo expresso espontaneamente [...] está direta e intimamente ligada com o ambiente que cerca o indivíduo. Isto acontece mesmo que os elementos a serem reelaborados pela expressão e pela criatividade não estejam presentes, retidos apenas pela memória” (LOPES, 1989, p.60)
Por fim, temos de aceitar que o ser humano vive em sociedade, e coexistir nesta é permitir corpos se comunicando a todo instante. Entendendo essa necessidade de comunicação, devemos compreender que em toda comunicação há valores divergentes, níveis culturais variados, entrando em constante choque de desorganização, reorganização e organização, num dinamismo impossível de se desvencilhar o individual do coletivo. Nas reflexões de Capra (2003) uma teia indivisível que interliga a todos, uma teia invisível que não nos deixa sair do todo para o ser solo, sem que ou ação do artista tenha gênese no coletivo, ou a consequência de suas criações repercuta no conjunto social.
Eis a importância de um teatro que educa; que estimula o pensamento humano a reflexionar sua existência enquanto ser social. Com isso no século XXI não existe espaço apenas para o teatro da fantasia, necessário quando dá lucro ou prazer, como também para o teatro informativo, reflexivo, educativo que contribui para a informação e formação do ser humano globalizado (SEVCENKO, 2001).
Assim, os alunos se envolveram acreditando serem personagens de uma realidade diferente das suas, com outros problemas e alegrias, compreendendo que seu mundo não se resume ao concretismo materializado das dificuldades, e sim num sistema que aparenta ser caótico, mas possível de ser manipulado. Quanto aos alunos-diretores descobriram que a “Terra do Nunca” não diz respeito à ação de não conseguir algo na vida real ou ficcional. Como Peter Pan, cada um conseguiu imaginar estar num local diferente do habitual e sentir-se capaz de ampliar o horizonte além da “ilha periférica” de Felipe Camarão.