O BLSA (Baltimore Longitudinal Study on Aging)7 nos revela
que não existe um processo único de envelhecimento. A velocidade de envelhecimento de uma pessoa pode variar significativamente em relação ao que poderia ser previsto com base nas médias. Não existe um padrão geral de envelhecimento que possa ser aplicado a todos os nossos órgãos. O envelhecimento resulta da interação de fatores genéticos, ambientais e estilo de vida. Assim, existe uma ampla variação individual, a idade cronológica isolada não é um fator eficaz para a previsão do desempenho das pessoas em processo de envelhecimento. Alguns aos 80 anos podem ter um
desempenho tão bom quanto o desempenho médio daqueles com 50 anos.
O homem envelhece não só em função do corpo, mas também da mente e do olhar da sociedade. É preciso observar que a noção de envelhecimento não representa apenas somente a passagem do tempo cronológico, mas também a percepção que temos dessa passagem de tempo. A esse respeito Simone de Beauvoir afirma que:
Como todas as situações humanas ela [envelhecimento] tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história. Por outro lado, o homem não vive nunca em estado natural; na sua velhice, como em qualquer idade, seu estatuto lhe é imposto pela sociedade à qual pertence. O que torna a questão complexa é a estreita interdependência desses diferentes pontos de vista. Sabe-se hoje que é absurdo considerar em separado os dados fisiológicos e os dados psicológicos; eles se interpõem mutuamente. Veremos que, na velhice, essa relação é particularmente, por excelência, o domínio do psicossomático. Entretanto, o que chamamos de vida psíquica de um indivíduo só se pode compreender a luz de sua situação existencial: esta última tem, também, repercussões em seu organismo; e inversamente, a relação com o tempo é vivida diferencialmente, segundo um maior ou menor grau de deterioração do corpo. (1970, p. 15)
Nesse sentido, a psicanálise pode dar uma contribuição essencial aos estudos sobre o envelhecimento, notadamente sobre a subjetividade envolvida nesse processo. É pertinente ao campo da psicanálise a discussão de como se dá a mediação entre o social e os desdobramentos dos afetos e das interações psicossomáticas no plano individual. Segundo Freud, esses campos se articulam via uma ampla gama de dinâmicas, tais como a vida familiar, a linguagem, e diversos processos psíquicos específicos de cada fase do desenvolvimento.
Todo esse conjunto de operadores compõe a teoria psicanalítica e transita exatamente entre o somático e as representações sociais, objeto do quinto capítulo – que trata dos aportes psicanalíticos à compreensão do envelhecimento. Antes, contudo, será necessário trazer fragmentos de atendimentos clínicos de idosos que ilustrem como, na clínica contemporânea, a questão do envelhecimento se manifesta. Nesses fragmentos, serão reencontrados todos os elementos dos três capítulos anteriores: aspectos do envelhecer que se fixaram ao longo da história, tanto ecos milenares, como facetas dos últimos dois séculos, estereótipos da mídia que circulam socialmente no Brasil atual, e muitos dos efeitos do envelhecimento biológico do corpo e do cérebro (tanto diretos, como suas repercussões psíquicas).
4. FRAGMENTOS CLÍNICOS SOBRE O ENVELHECER
Os primeiros três capítulos visavam a dar um pano de fundo histórico, biológico e social ao tema do envelhecimento, neste capítulo, conforme mencionado na introdução, trata-se de apresentar fragmentos de sessões que ilustrem as questões mais recorrentes e estruturais dos pacientes idosos na atualidade.
Tais temas, todavia, se manifestam na clínica imbricados com outras questões do paciente, tais como déficits narcísicos, traços neuróticos, psicóticos, etc., impasses matrimoniais e vocacionais, questionamentos sobre o desejo, conflitos sexuais, e questões edípicas, entre outras. Não haveria, portanto, como apresentar a evolução de casos clínicos mais detalhados, sem descrever os problemas em bloco, uma vez que o método psicanalítico não é análogo ao de uma terapia focal e não permite pinçar um problema clínico e tratá-lo isoladamente, mas ao contrário, opera sempre inserido no fluxo de questões trazido pelas associações do paciente. Assim, ao invés de apresentar a evolução de um caso clínico que exigiria uma contextualização e formulação extensa, preferiu-se ilustrar, a partir de fragmentos de sessões, quais as questões estruturais da velhice mais recorrentes.
De antemão, contudo, uma observação se faz necessária: Se todo analista deveria passar por uma extensa análise pessoal, pode- se dizer que todo aquele que trabalha com o envelhecer deve lidar
com sua própria finitude, seus medos e seu próprio processo de envelhecimento. Uma vez que o analista não se sente emocionalmente mobilizado pelo tema (por ser demasiado jovem, ou negar a questão), e nesse caso ele não poderá criar empatia e sintonizar com o paciente, ou sente-se tocado pela questão e poderá entrar em ansiedade ou depressão ou, ainda, mobilizar outras defesas que impedirão um bom fluxo de trabalho.
Nesse sentido, ter ao menos entrado em contato com o seu próprio envelhecer e ter elaborado em algum nível a finitude são pré-condições fundamentais para esse gênero de clínica, uma vez que, constantemente, nos confrontamos com nossa impotência e limitação ante a angústia e o desespero dos que envelhecem diante de nós.
Seguem abaixo cinco relatos de casos individuais e um relato de atendimento de um grupo. De todos foram selecionados arbitrariamente alguns aspectos mais recorrentes e emblemáticos para o processo de envelhecer. Ao final do capítulo será apresentado um pequeno resumo dos principais pontos.