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Hristiyanların Öteki Dinlere Karşı Tutumlarına Yönelik Eleştiriler

BÖLÜM 2: KUR’AN’IN HRİSTİYANLARA ELEŞTİRİLERİ

2.3 Hristiyanların Öteki Dinlere Karşı Tutumlarına Yönelik Eleştiriler

Dom Casmurro foi impresso em 1899 na França e lançado no Brasil em princípio de

1900. A história é ambientada na corte, e sua maior parte se concentra no período do Segundo Reinado. Trata-se de um romance que, à primeira vista, não parece o mais propício a um exame do ponto de vista histórico. Amplamente conhecido por tratar do pretenso adultério de Capitu ou do ciúme do narrador-personagem Bento Santiago, é bastante voltado para a vida privada, chegando a ser quase doméstico. Apesar de o protagonista viver momentos históricos significativos, como a abolição e a proclamação da República, não tomam vulto acontecimentos políticos e econômicos da época, o que explica por que esse romance não costuma figurar nos estudos sobre a escravidão na obra de Machado de Assis, por exemplo. Em um exame menos apressado, porém, percebe-se que a relação entre capital e escravidão tanto se manifesta diretamente, em breves passagens significativas, quanto de maneira sub- reptícia, na configuração das relações entre personagens.

A família do narrador-personagem foi criada, segundo ele próprio, para as ―serenas funções do capitalismo‖. Bentinho mora na ―casa dos três viúvos‖: seu tio Cosme, um advogado indolente; Justina, uma prima pobre que faz companhia à mãe de Bento; e a própria mãe de Bento, a proprietária ―Dona Maria da Glória Fernandes Santiago‖, perpétua viúva do fazendeiro e deputado ―Pedro de Albuquerque Santiago‖.

Junto da composição dessa família nos é apresentada, em linhas gerais, a de seu capital. Quando Pedro Santiago é eleito deputado, eles deixam a fazenda em Itaguaí e passam a residir no Rio de Janeiro. Com sua morte, em 1846, Glória escolhe permanecer na corte e investir seu capital de outra maneira. Ela ―vendeu a fazendola e os escravos, comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou, uma dúzia de prédios, certo número de apólices.‖ (Cap. 7) A reorientação de investimentos é drástica: abandona-se a esfera da produção, e o capital é tripartido em apólices (títulos que pagam juros ou dividendos), imóveis, e escravos para alugar ou pôr no ganho. A primeira ligação entre capital e escravidão é apresentada sumariamente no início do romance. A recomposição do capital familiar implica venda e compra de escravos e eles constituem uma parte significativa de seu total.

Posteriormente, a composição do capital de Glória é mais detalhada. Já cursando o seminário, Bentinho recebe um amigo em casa, trata-se de Escobar. Ele é filho de um advogado de Curitiba, por sua vez aparentado de um comerciante carioca. Está no seminário pela formação propiciada, já que sua verdadeira vocação é o comércio. Estreitar laços com uma família como a de Glória, para ele, ia ao encontro de sua determinação de ascender socialmente, estabelecer-se como comerciante na capital do Império e figurar na elite. Ambos os amigos vivem um momento de transição para a vida adulta, e a aceitação de Escobar pela família – passo fundamental para consolidar uma amizade recente, mas profundamente terna – provoca enorme prazer a Bento. Durante sucessivas visitas, Bentinho apresenta-lhe as propriedades: a casa onde moram e parte dos escravos, menciona também casas de aluguel. Sob o pretexto de demonstrar suas habilidades matemáticas, Escobar acaba por descobrir o total da renda advinda dos aluguéis, em passagem que lhe vale a fama de interesseiro:

– Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma, e se eu não disser a soma total em dous, em um minuto, enforque-me!

Aceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos aluguéis. Escobar pegou o papel, passou-os pelos olhos a fim de os decorar, e enquanto eu fitava o relógio, ele erguia as pupilas, cerrava as pálpebras, e sussurrava... Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito; em meio minuto bradava-me:

– Dá tudo 1:070$000 mensais.

Fiquei pasmado. Considera que eram não menos de nove casas, e que os aluguéis variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. (Cap. 94)

Escobar, com vocação para capitalista, demonstra rapidez de raciocínio lógico-matemático e, simultaneamente, perspicácia em descobrir o número de casas, o valor mínimo e máximo dos aluguéis, a renda mensal total.

Alguns escravos também são apresentados ao jovem visitante Escobar, e figuram literariamente na condição de capital, em condições análogas às dos imóveis. Os dois estão nos fundos da casa, quando Bento diz:

– Não, agora não voltamos mais [a viver na fazenda]. Olhe, aquele preto que ali vai passando, é de lá. Tomás!

– Nhonhô!

Estávamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço; chegou-se a nós e esperou.

– É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está? – Está socando milho, sim, senhor.

– Você ainda se lembra da roça, Tomás? – Alembra, sim, senhor.

– Bem, vá-se embora.

Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquele José, aquele outro Damião...

– Todas as letras do alfabeto, interrompeu Escobar.

Com efeito, eram diferentes letras, e só então reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um apelido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação como Pedro Benguela, Antônio Moçambique...

– E estão todos aqui em casa? perguntou ele.

– Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possível ter todos em casa. Nem são todos os da roça: a maior parte ficou lá. (Cap. 93)

A leitura da passagem dá dimensão do estatuto dos escravos. Bento os considera como casas de aluguel; interessam, nesse momento, somente à medida que incorporam riqueza e constituem investimento da família. Inserem-se na passagem como extensão do jovem proprietário, que se orgulha de suas posses diante do amigo, e servem como expressão de sua ―magnificência‖. A forma seca e grosseira como se refere ao fato de que Tomás é casado ou com a qual se dirige a ele: ―– Bem, vá-se embora‖, caracteriza a visão de Bento como a do proprietário a quem o que realmente interessa destacar é a quantidade de valor incorporada nele e nos outros escravos.

O tipo de apreciação com que Escobar comenta o número de casas e escravos é o mesmo. Ele declara do elevado número de escravos: ―todas as letras do alfabeto‖; e da grande quantidade de casas: ―não lhe hão de faltar tetos‖. Cada uma dessas frases é imagem da magnitude de capitais envolvidos em cada um dos investimentos e, simultaneamente, da dimensão total da propriedade da família. Imóveis e homens equivalem-se, da perspectiva da relação econômica estabelecida com seus proprietários: ambos são parte do capital. Em um momento posterior da narrativa, quando se estuda a viabilidade econômica de um projeto (a ordenação de um órfão em lugar de Bento), Escobar se lembra da totalidade da renda provinda das casas, e reafirma, na concisão de uma frase, a similaridade da condição de imóveis e homens: ―[Escobar] Citou a soma dos aluguéis das casas, 1:070$000, além dos escravos... (Cap. 96).‖

A passagem também reflete a diferença entre escravos rurais e urbanos. A família vende a maioria dos que trabalhavam na fazenda, comprando outros na cidade. A troca só se justifica pela distinção de habilidades. Muitos escravos urbanos exerciam atividades que exigiam maior qualificação, o que lhes elevava o preço.

Observa-se, junto do registro da atividade de se alugarem pessoas, a de explorá-las por meio do ganho. Situação em que, segundo Clóvis Moura, no Dicionário da escravidão negra

no Brasil, na maioria das vezes, os escravos trabalhavam por jornada, vendendo algum tipo de

artigo, pagando ao senhor uma quantia fixa por semana, tendo de obter, além desse valor, o necessário à própria sobrevivência. Como eles, ―com algumas exceções, andavam pela rua sem o controle direto de seus senhores‖ (MOURA, 2004, p. 150), é bem possível que nesse tipo de atividade fosse imperceptível a distinção entre negros livres e escravos. O romance é fiel a essa indistinção, quando no capítulo 18 ocorre uma breve participação do ―preto das cocadas‖, um vendedor ambulante que tanto pode ser livre quanto estar no ganho.

Interessa frisar, neste momento, a figuração de um modo particular de entificação do capitalismo que se conjuga com a escravidão, observada em um momento narrativo em que homens figuram como capital, e nessa qualidade servem à construção da imagem de seu jovem dono, diante do colega de seminário.

Se, nesse ponto, conjuntos de homens e casas equivalem-se, em outro, uma analogia aproximará indivíduo e objeto: o envelhecimento de Pai João é comparado ao desgaste e à obsolescência de uma carruagem. O capítulo é intitulado ―A sege‖, carruagem já obsoleta na época, mas a que Glória era apegada, uma vez que pertencera a seu finado marido. A função central desse capítulo no romance é caracterizar a mãe de Bento como uma pessoa apegada ao passado, conservadora em todos os sentidos, inclusive os mais literais. Chama a atenção ainda o fato de que o núcleo do capítulo é a velha carruagem e a situação do escravo é caracterizada por analogia:

Em pequeno, lembra-me que ia assim [de sege] muita vez com minha mãe às visitas de amizade ou de cerimônia e à missa, se chovia. Era uma velha sege de meu pai, que ela conservou o mais que pôde. O cocheiro, que era nosso escravo, tão velho como a sege, quando me via à porta, vestido, esperando minha mãe, dizia-me rindo:

– Pai João vai levar nhonhô!

E era raro que eu não lhe recomendasse: – João, demora muito as bestas; vai devagar. – Nhã Glória não gosta.

– Mas demora!

Fica entendido que era para saborear a sege, não pela vaidade, porque ela não permitia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um óculo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fora.

– Senta, Bentinho! – Deixa espiar, mamãe!

E em pé, quando era mais pequeno, metia a cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a rédea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo incômodo, as botas, o chicote e as mulas, mas ele gostava e eu também.

(...) Quando havia impedimento de gente ou de animais, a sege parava, e então o espetáculo era particularmente interessante; as pessoas paradas, na calçada ou à porta das casas, olhavam para a sege e falavam entre si, naturalmente sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: "É aquela senhora da Rua de Mata- cavalos, que tem um filho, Bentinho..."

A sege ia tanto com a vida recôndita de minha mãe, que quando já não havia nenhuma outra, continuamos a andar nela, e era conhecida na rua e no bairro pela "sege antiga." Afinal minha mãe consentiu em deixá-la, sem a vender logo; só abriu mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. A razão de a guardar inútil foi exclusivamente sentimental; era a lembrança do marido. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele, um resto da pessoa, a mesma alma integral e pura. Mas o uso, esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas. (Cap. 87)

Novamente, o escravo não constitui o interesse central do capítulo, que é o ―carrancismo‖, o apego de Dona Glória ao passado: ―a fidelidade aos velhos hábitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas‖. A família não só não participa do dinamismo social da segunda metade do século XIX, como representa o que havia de mais conservador na época. Além disso, o trecho caracteriza Bentinho como um menino cerceado, criado muito isolado do mundo. Daí ele querer olhar para fora, pelo vidrinho da cortina da sege, para além dos limites que ―a vida recôndita‖ da mãe impunha, e ela querer impedi-lo: ―– Senta, Bentinho! / – Deixa espiar, mamãe!‖ Vemos ainda, na passagem, que o cerceamento a que é submetido é acompanhado da inculcação de uma superioridade humana em relação ao universo que o rodeia. Daí a vaidade da personagem, vendo as pessoas falarem da sege, especulando sobre quem estaria nela.

Apesar de estarem no primeiro plano o conservadorismo de Dona Glória, os limites impostos ao universo de Bento e a formação de sua vaidade e do seu ar de superioridade de classe, o escravo não tem inserção desprezível na cena. As péssimas condições de trabalho a que é relegado são registradas: ―com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a rédea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo incômodo, as botas, o chicote e as mulas‖. Além disso, no sorriso de João, ao dizer: – Pai João vai levar nhonhô!, há a manifestação de que, por mais que a relação fundamental entre senhores e

escravos seja de um utilitarismo desumano, esse utilitarismo nunca é tal que não dê margem a momentos que o ultrapassem.

Posto isso, resta pensar o papel da sege, central no capítulo, figurando por isso no título. Ela é o elemento capaz de ligar todos os aspectos anteriormente mencionados: o conservadorismo da mãe, o cerceamento do menino, a vaidade do rapaz de classe alta, as péssimas condições de trabalho do escravo e sua alegria ao levar o menino a passeio, apesar do tipo de relação que os une.

Essa sege é lembrança do finado, daí a necessidade de conservá-la, mesmo que obsoleta. Observando mais detidamente, a ligação entre ela e o escravo é direta. A começar pelo fato de que figuram como termos homólogos em uma comparação: ―O cocheiro, que era nosso escravo, tão velho como a sege‖, e depois por ser ele o responsável por cuidar da carruagem e dos animais, e de guiá-los, por grande parte da vida. A comparação entre a carruagem e o cocheiro que envelheceu cuidando dela e dos cavalos, guiando-a e aos cavalos, ou seja, entre um homem e suas ferramentas de trabalho, sugere um destino vivido em comum: sege e escravo serviram, envelheceram, ficaram obsoletos. O termo de comparação é o objeto, expressão sintética e pura da violência sofrida. A velhice do escravo e a obsolescência do veículo revelam seu traço comum: o desgaste, causado pelo uso, de duas mercadorias. No balanço final, a sege ainda desfruta de maior consideração, já que é lembrança do proprietário, e o escravo não. Fica ainda evidente o caráter classista da perspectiva de Bento Santiago, que enxerga como obsoleto o trabalhador idoso, sendo ele mesmo o último membro de uma família de parasitas.

No romance como um todo, a tônica da relação entre senhores e escravos é o utilitarismo. Eles constituem instrumentos, extensões dos proprietários, o que se reflete em que a maioria de suas intervenções consista no breve cumprimento de tarefas. Buscar o animal que será montado, servir de pajem ao jovem Bentinho, acender o lampião, levar recados são exemplos dessas breves participações. No entanto, como o escravo é irredutível a instrumento, por vezes na própria realização dessas tarefas percebemos a existência de sentimentos que transcendem o utilitarismo. Um exemplo já observado foi a alegria de Pai João11 ao dizer que iria levar Bentinho para passear. Em outro momento, uma das escravas surpreende-o a cochichar com Capitu, quase às escuras:

11Pai João, segundo Clóvis Moura, é o nome de um ―personagem meio histórico meio lendário, criado pelos

senhores como símbolo a ser seguido pelos demais escravos, uma espécie de ‗operário-padrão‘ de nossos dias‖. Segundo ele, esse personagem foi criado em toda área onde existiu a escravidão e nos Estados Unidos chamou- se ―Uncle Remus‖. (MOURA, 2004, p. 300)

Uma preta, que veio de dentro acender o lampião, vendo-nos naquela atitude quase às escuras, riu e murmurou em tom que ouvíssemos alguma coisa que não entendi bem nem mal. Capitu segredou-me que a escrava desconfiara [do namoro deles], e ia talvez contar às outras (Cap. 39)

O casal é surpreendido em atitude que evidenciava o namoro. A reação é de simpatia, um riso, um murmúrio. Num momento posterior, quando da partida de Bentinho para o seminário, conta o narrador:

Os moleques cochichavam; as escravas tomavam a benção: ―Benção, nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!‖ (Cap. 53)

Nos poucos momentos da narrativa em que algum sentimento rompe a frieza da relação de prestação de serviço, parte dos escravos a manifestação desses sentimentos. Sua participação no enredo não desmente a tese de Eduardo Assis Duarte, segundo a qual

Machado fala de seus irmãos de cor como sujeitos marcados por traços indeléveis de humanidade e por um perfil que quase sempre os dignifica, apesar da posição secundária que ocupam nos enredos. (DUARTE, 2007, p. 275)

Com isso, tivemos o essencial da participação direta dos escravos no romance, com certa ênfase à reificação retratada, quer pela analogia entre o envelhecimento do escravo e a obsolescência de seu instrumento de trabalho, a sege; quer pelo fato de que os escravos são encarados por Bento e Escobar na condição mesma de capital; quer pelas múltiplas tarefas em que figuram na condição de instrumento de seus donos.