As folias do Divino são rituais de peditório de esmolas com que se percorrem regiões rurais em busca de donativos para os festejos urbanos, donativos que podem ser em forma de dinheiro, alimentos ou objetos para leilões.46 No Brasil, outra folia
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De acordo com a definição de Câmara Cascudo, folia era em Portugal uma dança rápida, ao som do pandeiro ou adufe, acompanhada de cantos, podendo ser também sinônimo de bailes. Posteriormente, foi adquirindo outros significados, como o de um grupo de homens, usando símbolos devocionais, acompanhando com cantos o ciclo do Divino Espírito Santo, festejando-lhe a véspera e participando do dia votivo. In: CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo; Melhoramentos; INL, 1979 p. 335-336.
Algumas das primeiras referências sobre as folias no Brasil foram dadas pela pesquisa de Mello Moraes Filho, segundo o qual “guarridos” foliões dispersavam-se em bandos no interior da Província do Rio de Janeiro, no século XIX, por vales e serras, estradas e povoados, meses antes da festa do Espírito Santo,
bastante conhecida é a de Reis, no mês de janeiro, que representa a peregrinação dos três reis magos até o lugar de nascimento do Menino Jesus. Ambas se diferenciam em vários aspectos; o principal deles é que, ao contrário da folia de Reis, que gira à noite, as folias do Divino giram durante o dia, sendo que a cada noite o grupo de foliões realiza um pouso em determinados lugares previamente estabelecidos.
Existem várias versões sobre a origem das folias do Divino. A mais consistente entre todas é a de que partiu da própria Igreja a iniciativa de instituí-las como uma forma de estender as cerimônias religiosas até os moradores de fazendas, sítios e chácaras. Acreditamos que em Pirenópolis47, elas sejam tão antigas quanto a própria festa
do Divino. Atualmente, a festa tem duas folias: uma, que percorre as ruas da cidade em busca de donativos para os festejos, e outra, que faz o giro por chácaras e fazendas. Niomar Pereira, que visitou essa festa nos anos 80, afirmou que a folia de rua, naquele tempo, saía no Sábado de Aleluia e no Domingo da Ressurreição e era dividida em duas partes. Uma saía com a banda de música, e a outra com a bandeira. A folia da “roça” saía mais próximo da Festa do Divino, embora não tivesse data fixa. Eram vários foliões acompanhados de violas, sanfonas, pandeiros e caixas; eram recebidos na cidade, ao fim
angariando esmolas para as festas das capitais dos municípios de acordo com os festeiros e segundo donativos das populações.MORAES, Mello Filho. Festas e Tradições populares no Brasil. Belo Horizonte; Ed Itatiaia; São Paulo; Edusp, 1979 p. 39
Outra referência à folia, desta vez literária, também do Rio de Janeiro, está no romance de Manuel Antônio de Almeida que se refere a ela descrevendo trajes, instrumentos, e peditório de esmolas, definindo-a como prenúncio da festa do Divino: ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de Milícias. (Texto Original: 1ª ed. 1854; 2ª ed. 1855) São Paulo, Ática, 31ª edição, 1998 p. 67.
Em Goiás a primeira referência à folia do Divino que encontramos foi em Saint-Hilaire, que em julho de 1819, ao voltar de Goiás para São Paulo, por Meia-Ponte, atravessou a floresta chamada “Mato Grosso de Goiás e, encontrou homens a cavalo, um deles com uma bandeira, outro com um violão e outro com um tambor os quais levavam burros carregados de provisões. Era a folia do Divino que saía de Curralinho a angariar donativos para a festa a se realizar em agosto. Segundo Saint- Hilaire, já naquele tempo, para atrair bastante gente, se celebrava a Festa do Divino em datas diferentes; observou, ainda, que a cada ano, no fim da festa, tirava-se a sorte para escolher o Imperador do ano seguinte. Para cobrir os gastos ia-se ou mandava- se um grupo de homens a colher ofertas em toda a região, levando músicos e cantores que, em cada habitação ou fazenda, com louvores do Espírito Santo, pediam ajuda; às tropas encarregadas de fazê-lo se dava o nome de Folia; SAINT-HILAIRE, August, op. cit, 1975 p. 24.
de mais uma folia, com um foguetório, e ao chegar à casa do Imperador cantavam, entregavam a bandeira e as esmolas para ele.48
Alguns depoimentos que recolhemos ao longo da pesquisa nos demonstram que a folia de rua (urbana) existe em Pirenópolis, pelo menos nos últimos 40 anos e, sem dúvida, teve desdobramentos bastante peculiares. No caso da folia rural, a sua existência remonta ao século XIX e possivelmente já acontecesse em períodos bem anteriores. Em outras cidades, nem sempre existiram duas folias, como em Pirenópolis; na cidade de Goiás, por exemplo, atualmente só existe uma folia, que percorre o perímetro urbano e as regiões mais longínquas. É possível imaginar que em Pirenópolis aconteceu um processo diferenciado, que indica tanto a dinamização de grupos em torno das folias, como a existência de conflitos que possivelmente resultaram na criação de dois grupos distintos, cada um ligado a interesses diferentes. O código de posturas desta cidade, aprovado no final do século XIX e que vigorou até as primeiras décadas do século seguinte (1888), nos dá algumas pistas da existência das Folias do Divino, embora não especifique se elas eram urbanas ou rurais. O artigo nº 86 desse código previa multas de 5$000 réis para todos aqueles que tirassem esmolas para as festas durante as folias, com exceção para as folias do Espírito Santo.49 Possivelmente, esta folia neste período representasse uma das principais entre as demais por fazer parte dos festejos do Divino ou por ser organizada diretamente pela Igreja.
As folias do Divino, como todo ritual de religiosidade popular, estabeleceram determinadas relações simbólicas, que estiveram associadas aos grupos que com elas se envolveram. Muitos desses símbolos, no entanto, pertenceram a uma atávica herança cultural, como é o caso da bandeira do Divino, de cor vermelha com a pomba
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PEREIRA, Niomar & JARDIM, Mára Públio de Sousa Veiga. Uma Festa Religiosa Brasileira: Festa do
Divino em Goiás e Pirenópolis. São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978,p. 73
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branca, que representa essa divindade, bordada ou pintada ao centro. Outras bandeiras parecidas são usadas também nas festas urbanas, mas nas folias elas assumem a centralidade do ritual.
O início de uma folia obedece sempre a etapas previamente estabelecidas pelos grupos envolvidos. A primeira delas é a escolha das fazendas que darão os pousos para os foliões; esses pousos são negociados por representantes da folia, que em Pirenópolis receberam o nome de alferes. Dias depois, esses grupos iniciam o giro, na cidade ou nas fazendas. Geralmente são oito pousos que compõem os giros das folias rurais. A distância entre uma propriedade e outra é também previamente analisada, de modo que os giros percorram progressivamente da propriedade mais distante para a mais próxima da cidade.
Durante o giro, são carregadas duas bandeiras do Divino por dois alferes à frente do grupo. Segundo a tradição oral local, essas bandeiras nunca se cruzam: se a propriedade fica do lado esquerdo, a bandeira que entra na casa é a que está do lado esquerdo; se está do lado direito, é a bandeira da direita que toma a frente. Ainda na chegada, os foliões realizam uma cavalgada em forma de S, obviamente sem deixar cruzar as duas bandeiras. Em seguida, os músicos da folia, em versos musicados, pedem ao dono da casa que os deixe entrar e levar até ele e seus familiares a bandeira do Divino. O dono da casa, que já está preparado para receber os foliões, aceita o pedido, e aí começa a festa. Algumas variações desses eventos acontecem, quando o dono da casa guarda um segredo para os foliões logo na entrada. A existência desse segredo está identificada com um símbolo qualquer em arco de flores na entrada da casa. O segredo, que é uma garrafa de cachaça, fica enterrado numa cova e deve ser procurado pelos foliões. A bandeira que conduziu o ritual é colocada em um altar, e ali várias pessoas vão beijá-la, rezar e doar esmolas.
Embora o objetivo firmado por esses grupos precatórios seja a coleta de esmolas, a cerimônia não se resume só a isso, pois, para os foliões, ela representa tanto a oportunidade de prestar homenagem a esta divindade como de festejar a oportunidade de encontro de amigos. Algumas danças também compõem o ritual, como é caso da catira, dança muita difundida por todo o interior de Goiás; a outra é o xá. Outras danças também incorporaram-se a essas folias, como o forró. No entanto, o catira e o xá são danças de apresentação dos foliões, das quais o público assistente normalmente não participa. Um pouco mais tarde, depois de os foliões terem tomado banho e descansado um pouco da longa cavalgada durante todo o dia, o dono da casa oferece a eles um farto jantar, o qual é precedido e finalizado com o agradecimento da mesa por todos os presentes. Desse jantar normalmente participam o dono do pouso e os foliões (as mulheres, com poucas exceções, não participam desse momento; a elas são reservadas as tarefas de organização da casa, dos enfeites e do jantar). Nos dias atuais, essa cerimônia se restringe a essas pessoas, pelo fato de, na maior parte dos pousos, estar presente um grande número de moradores da cidade, o que abriu “mercado” para as barraquinhas e quiosques. Porém, pelos depoimentos que coletamos, esse fenômeno é uma característica dos últimos vinte anos, o que possivelmente fazia dos pousos anteriores uma oportunidade de congregação de diversas pessoas em torno de lautos jantares promovidos por fazendeiros locais para a comunidade. Após o jantar e o agradecimento da mesa, uma última cerimônia ritual acontece na noite: durante ela, interrompe-se qualquer tipo de som, reservando-se espaço apenas para o toque das violas e violões dos músicos, que vão pedir esmolas para o Divino. O pedido de esmolas estende-se de acordo com a participação das pessoas. Cada um que pegar ou beijar a bandeira ganha um verso improvisado pelos músicos que a ele pedem a esmola. Ao fim dos versos cantados, a pessoa entrega qualquer quantia em dinheiro ou objeto aos foliões e novamente é agradecida pelos músicos. O fim dessa cerimônia indica o começo de uma
grande festa que não tem hora para acabar; dela participam todas as pessoas presentes, dançando, cantando e bebendo. Esses desdobramentos da folia que, ao que nos pareceu, tiveram sempre o mesmo desfecho, serão profundamente criticados por padres da Igreja Católica, os quais, a partir do final do século XIX, irão ser orientados por posições mais ortodoxas em relação a essas questões que eles chamaram de “excessos” e “abusos” da fé. Sobre isso discutiremos nos próximos capítulos.
A Folia do Divino, tornou-se um dos eventos de maior popularidade em Pirenópolis. Nela, os limites da religiosidade popular expressa nas rezas, nos cânticos e na fé na bandeira do Divino estiveram imbricadas com a prática de danças e do consumo excessivo de bebidas alcóolicas. Para as pessoas que estiveram envolvidas ao longo de suas vidas com essas folias todas essas questões compuseram a sincrética fé no Divino Espírito Santo, evidenciando-se aí que os limites entre o sagrado e o profano não podem ser definidos.