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6. F‹Z‹KSEL ALTYAPI

6.3. Homogen Olmayan Bir Ortamda Zaman

A Revolução Gloriosa na Inglaterra, associada à proclamação do Bill of Rights, desencadeou uma sanha revolucionária que varreria todo o planeta,

caracterizando a insurreição da burguesia contra a ordem absolutista e a consolidação de uma nova cosmovisão fundamentada no liberalismo econômico e no individualismo. Seus herdeiros imediatos irão se manifestar através das Revoluções Americana (1776) e Francesa (1789). Juntas, as “três revoluções” representarão a superação do Estado nacional-absolutista (primeira forma de manifestação política do Estado-Moderno), e a constituição de uma nova etapa da evolução estatal no ocidente – o Estado liberal- individualista.

Há que se ressaltar, contudo, que o contexto de derrocada da ordem absolutista não conheceu apenas a alternativa liberal-individualista apresentada pela burguesia em ascensão. Algumas monarquias européias, percebendo com mais clareza a força dos novos tempos, tentaram se modernizar a partir de cima, disputando com a burguesia o coração e as mentes das “massas”. Muitos dos monarcas que se entregaram a tal projeto ficaram conhecidos como “déspotas esclarecidos”, idealizadores de um “Estado Patrimonial”, que, segundo seus críticos, a partir de um discurso paternalista, tentou resistir à consolidação do universo ideológico da burguesia. Tais iniciativas chegaram a atingir, em determinados contextos, um grau razoável de apoio popular. Sobretudo, em face dos mecanismos de defesa, por ele estabelecidos, diante do aviltamento imposto aos setores mais frágeis da população em face do avanço do processo de industrialização. No entanto, o maior dinamismo econômico verificado a partir do pleno estabelecimento das relações de produção requeridas pelo conjunto da burguesia, pautadas em uma ampla liberdade para contratar a força de trabalho no mercado, legitimada pela ficção jurídica da igualdade formal entre os contratantes (princípio da autonomia privada), acabaria por se impor de forma generalizada por todos os quadrantes.

“Na verdade, no século XVIII, muitos Estados europeus (Áustria, Prússia, Rússia, Espanha) desenvolveram uma importante ação de assistência, mas antes ou independentemente da Revolução Industrial e dentro de estruturas de poder de tipo patrimonial. É Weber quem nos recorda que o poder político essencialmente patriarcal assumiu a forma típica do Estado de bem estar (...). A aspiração a uma administração da justiça livre de sutilezas e de formalismos jurídicos, visando a justiça material, é de per si própria de qualquer patriarcalismo principesco. Deste modo, foram precisamente os Estados patrimoniais mais distantes das formas de legitimação legal-racional que foram mais além nas formas de defesa do bem-estar dos súditos, enquanto que, nas sociedades em que se ia consolidando a Revolução Industrial, as normas de defesa das populações mais fracas surgiam como barreiras medievais opostas à livre iniciativa. O nascimento do capitalismo se reconhece, com efeito, mais facilmente na atitude que a ética protestante tem para com a caritas: ele deve, antes

baseada na livre concorrência, a assistência constitui um desvio imoral do princípio a cada um segundo os seus merecimentos.”16

Retomando o fio condutor de nossa matriz metodológica, podemos dizer que, se o Estado nacional-absolutista foi à forma jurídico-política ideal para a promoção plena do capitalismo mercantil, que se estruturou globalmente a partir da supremacia européia representada pelo “colonialismo”; o Estado liberal-individualista constituiu-se na forma jurídica por excelência para a viabilização e pleno desenvolvimento da Revolução Industrial, e a partir de sua consolidação na Inglaterra, no fundamento político e ideológico do “imperialismo”.

Os fundamentos econômicos necessários para a consolidação do Estado liberal-individualista, neste sentido, provirão inicialmente do comércio exterior e da supremacia naval obtida pela Inglaterra, e implicarão na derrota geopolítica dos dois Estados nacionais que lideraram a ordem mundial colonial: Espanha e Portugal.

A supremacia inglesa e, a decadência ibérica, começou a ser selada no bojo dos conflitos religiosos que opuseram católicos e protestantes na Europa ao longo do século XVI até a assinatura do Tratado de Westfália em 1648. Em 1580, sob o comando de Felipe II, deu-se a chamada União Ibérica – com a incorporação de Portugal pelo Reino Espanhol. É o apogeu do poder ibérico. No entanto, os espanhóis sentiam-se acossados pela ação dos corsários ingleses que atacavam e pilhavam os galeões espanhóis do Oceano Pacífico até o Indico, passando pelo Atlântico no qual se localizavam as rotas que traziam a prata do Peru. Em razão disso, Felipe II - que buscou influenciar na sucessão do trono inglês apoiando a católica Maria Stuart contra a protestante Isabel I - tentou impor uma derrota definitiva aos ingleses, lançando sobre a costa da Inglaterra a mais poderosa esquadra até então reunida – que por isso mesmo ficou conhecida como a “Invencível Armada”. No entanto, os ingleses, comandados por Francis Drake, acabaram por impor um derrota avassaladora sobre os espanhóis na Batalha de Gravelines (1588), assumindo a partir de então, uma posição de controle inconteste dos oceanos em todo o planeta.

16 BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, N; PASQUINO, G. Dicionário de Política. Brasília: Editora

Ademais, diante deste poder naval, os ingleses continuaram a pilhar os navios espanhóis abarrotados de riquezas oriundas de suas colônias na América, constituindo uma fonte extraordinária de recursos que acabaria contribuindo em muito para viabilizar a própria Revolução Industrial por meio de um processo que, mais tarde, Marx denominaria por “acumulação primitiva de capitais”. Quanto a Portugal, uma vez recuperada sua soberania frente aos espanhóis, passou a depender umbilicalmente do apoio inglês para manter a sua independência. Nestes termos, a hegemonia comercial e política da Inglaterra sobre Portugal, foi obtida por meios diplomáticos, com a assinatura do Tratado de Methuen (1703), conhecido também como Tratado de Panos e Vinhos, que garantiu uma balança comercial francamente favorável à Inglaterra, que teria na indústria têxtil, um dos seus setores econômicos de vanguarda tão logo foi desencadeada a Revolução Industrial.

Todavia, é importante frisar que o desencadeamento da Revolução Industrial na Inglaterra – conditio sine quae nom para a constituição e

desenvolvimento do Estado liberal-individualista – deveu-se também a importantes processos de natureza política e social internos.

Desde meados do século XIV, a incipiente burguesia comercial inglesa, havia buscado uma aliança estratégica com o campesinato, pressionando a autoridade real a conceder-lhes uma grande quantidade de campos que deveriam permanecer livres para o cultivo e pastoreio comunitário e para a obtenção de lenha. Constituía-se então, uma classe de camponeses livres dos padrões estreitos da servidão feudal, razão pela qual, passaram a ser conhecidos como free holders. Em um momento no qual a burguesia era

essencialmente mercantil, interessava a ela não apenas proteger-se de uma eventual concorrência externa, mas garantir a certos estratos locais uma renda mínima para constituir o seu mercado consumidor – no que concorria tanto para a dissolução do velho sistema servil quanto no enfraquecimento dos Barões da Terra, os chamados LandLord’s.

Todavia, consumada a conquista do poder político pela burguesia com a Revolução Gloriosa de 1688, tratava-se agora de pacificar o País. Buscou-se um acordo político com os remanescentes da aristocracia de terras que viabilizasse a criação de condições para a exploração, não do seu mercado interno (limitado e já todo ele consolidado), mas do mercado mundial. Isto se

tornou possível através de uma nova forma de produção em massa, baseada na utilização de novas fontes de energia (o vapor) e de organização do trabalho humano (divisão fabril do trabalho).

Para atingir tal desiderato, a burguesia inglesa rompeu sua aliança histórica com o campesinato, aprovando uma nova legislação, juntamente com os representantes da velha aristocracia rural a quem foi entregue o comando da Câmara Alta (Câmara dos Lord´s) do Parlamento. Por meio desse compromisso político, devolveu-se ao lordes o controle sobre os campos outrora comunais, criando as condições jurídicas necessárias para a expulsão do campesinato no contexto de um movimento que ficou conhecido como

enclousures ou “cercamentos”.

“Os cercamentos foram chamados, de forma adequada, de revolução dos ricos contra os pobres. Os senhores e nobres estavam perturbando a ordem social, destruindo as leis e costumes tradicionais, às vezes pela violência, as vezes por intimidação e pressão. Eles literalmente roubavam o pobre na sua parcela de terras comuns, demolindo casas que até então, por força de antigos costumes, os pobres consideravam como suas e de seus herdeiros. Aldeias abandonadas e ruínas de moradias testemunhavam a ferocidade da revolução.”17

Os cercamentos expressam com muita clareza o significado da mudança ideológica de uma ordem outrora fundamentada em valores comunitários e, agora, subitamente reordenada com base em valores ultra-individualistas sobre o prisma do chamado liberalismo econômico. A desocupação avassaladora por ele provocada empurrou as massas camponesas para a periferia das grandes cidades. Nestas, destituídas de tudo, sobrou-lhes apenas a sua força de trabalho – avidamente adquirida pelos primeiros industriais a um preço cujo valor deveria ser o necessário apenas para a reposição das energias do trabalhador, exposto a jornadas de trabalho infindáveis, a condições extremas de insalubridade e ao uso indiscriminado de trabalho feminino e infantil. Nascia ali a infraestrutura econômica do Estado liberal-individualista.

No âmbito da superestrutura jurídico-ideológica, o Estado liberal- individualista radicou-se na separação entre a sociedade (esfera privada/mercado) e o Estado (esfera pública/política). Tal percepção será

melhor assinalada por nós quando apresentamos na segunda parte desse trabalho o pensamento de John Locke - especialmente nos comentários que fizemos à sua obra Segundo Tratado sobre o Governo Civil. Fica evidente pela concepção lockeana do “estado de natureza” a fundamentação jurisnaturalista de sua filosofia do direito. Em seu viés racionalista, os homens no estado de natureza nascem bons na medida em que nascem racionais, e respeitam os direitos alheios na medida em que esperam igual comportamento em relação aos seus próprios interesses. A propriedade privada surge também ela como um direito natural, radicada nos postulados da ética protestante assim associada ao trabalho – fundamento de legitimidade da propriedade privada segundo Locke.

Para ele, o contrato social pelo qual os indivíduos – já plenamente constituídos enquanto tais no estado de natureza – transitam para o Estado civil decorreria fundamentalmente de imperativos de segurança externa decorrentes do progresso e da prosperidade da comunidade natural. Tal evolução passou a requerer a organização de meios preordenados para a defesa dos seus interesses em comum – além de admitir a necessidade de proteção de uns em relação aos outros na medida em que, com o aumento da prosperidade de alguns, outros poderiam, por inveja, ambicioná-la sem dedicar o mesmo grau de esforço e diligência atreves de ações criminosas. Neste sentido, as funções estatais, que deveriam estar claramente demarcadas no contrato ou na Constituição (como mais tarde se designará), deveriam se resumir ao mínimo, como, por exemplo, a garantia da ordem pública, a defesa contra ameaças (econômicas e militares) externas e o cumprimento dos contratos por meio dos quais empresas e indivíduos se obrigaram. Sendo assim, liberdade de indústria e comércio e liberdade individual, liberalismo econômico e liberalismo político, constituíam duas faces de uma mesma moeda.

"Para los liberales clásicos, el liberalismo político y el económico eran las dos caras de una misma realidad. La libertad de industria y comercio era con una forma particular de la libertad individual y de la igualdad entre los ciudadanos. Estaba garantizada por la debilidad del Estado, lo cual era garantizada a

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su vez, por aquella. El Estado liberal podía así ser limitado a unas pocas funciones: asegurar el orden público, interior, proteger contra las inversiones exteriores y garantizar eventualmente el cumplimento de las reglas de competencia entre los individuos y las empresas."18

Mas o receio em relação ao Estado é evidente, tanto que é o contrato estabelecido entre os indivíduos – e não entre estes e o soberano como em Hobbes – que cria o Estado. E mais ainda, enquanto para Hobbes o contrato social constitui-se em um pacto de submissão por meio do qual se confere ao soberano um poder absoluto, ilimitado, pelo contrato proposto por Locke a sua razão de ser é defender os indivíduos das pretensões absolutistas do soberano estatal. O contrato existe para limitar o Poder. E é nesse sentido que, o contrato (e as primeiras cartas constitucionais que se seguirão às declarações de direitos) resume-se basicamente na estruturação dos órgãos fundamentais do poder estatal e da administração pública e à introdução de uma pauta (exígua) de “direitos fundamentais”. Direitos de defesa ou “negativos” como ficariam conhecidos posteriormente.

“Na doutrina do liberalismo, o Estado, foi sempre o fantasma que atemorizou o indivíduo. O poder, de que não pode prescindir o ordenamento estatal, aparece, de início, na moderna teoria constitucional como o maior inimigo da liberdade. Foi assim que o trataram os primeiros doutrinários do liberalismo, ao acentuarem, deliberadamente, essa antinomia. A Sociedade, representava historicamente, e depois racionalmente, com Kant, a ambiência onde o homem fruía da plena liberdade primitiva. Com a construção do Estado jurídico, cuidavam os pensadores do direito natural, principalmente os de sua variante racionalista, haver encontrado formulação teórica capaz de salvar, em parte, a liberdade ilimitada de que o homem desfrutava na sociedade pré-estatal, ou dar a essa liberdade função preponderante, fazendo do Estado o acanhado servo do indivíduo. Com o advento do Estado, que não é de modo algum um prius, mas,

necessariamente, um a posteriori da convivência humana,

segundo as teorias contidas na doutrina do direito natural, importava, primeiro que tudo, organizar a liberdade no campo social. O indivíduo, titular de direitos inatos, exercê-los-ia na sociedade, que aparece como ordem positiva frente ao Estado, ou seja, frente ao negativum dessa liberdade, que, por isso

mesmo, surge na teoria jusnaturalista rodeado de limitações, indispensáveis à garantia do circulo em que se projeta, soberana e inviolável, a majestade do indivíduo. (...) A sociedade por sua

18 DUVERGER, Maurice. Derecho Constitucional e Instituciones Políticas. Barcelona: Editorial Ariel,

vez, na teoria do liberalismo, se reduz à chamada poeira atômica de indivíduos.”19

De fato, mais do que separação entre sociedade e Estado, o que passaremos a ter é separação entre indivíduo e Estado. Separação instituída com o intuito de proteger o indivíduo “empreendedor” e de punir os indivíduos que, por algum motivo, ligado às suas escolhas ou à previdência, não quisesse ou não pudesse se adaptar aos novos valores trazidos pela ideologia do trabalho (assalariado). Daí porque, promove o Estado liberal-individualista nos seus primórdios um desmonte radical de toda sorte de rede de proteção anteriormente instituída pela comunidade ou pelo Estado para a proteção dos mais necessitados. Ajuda pública ou comunitária aos pobres, só era admissível ao custo da renúncia/supressão ao beneficiário dos seus direitos civis,20 sendo justificada esta nova condição de desabrigo, como uma necessidade de superação dos padrões paternalistas arcaicos legados pelos estamentos medievais e pelas corporações de ofício.

No entanto, o que para nós resta de mais curioso, é exatamente o fato de que, tanto nos argumentos articulados em apoio ao Estado nacional- absolutista, quanto naqueles dispensados para a defesa do Estado liberal- individualista, encontramos um forte apelo à justiça e à igualdade. Em Hobbes, ela consiste exatamente na possibilidade conferida pelo Estado-leviatã de impor-se uma mesma ordem (jurídica) a todos, possibilitada pela supremacia e pela superioridade (militar) absoluta da soberania conferida pelo povo através do contrato ao ente estatal. Justiça e tratamento igualitário se confundem. Todos, igualmente, constituem a soberania, e todos a transferem para o soberano – na expectativa de receberem, deste também, um tratamento justo (porque igualitário). Em Locke mudam-se os termos, mas os sinais

19 BONAVIDES, Paulo. Do Estado Liberal ao Estado Social. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 40. 20 “Não se tratava apenas de disputa ideológica, mas de uma orientação de claro significado político,

revela-o a análise das medidas adotadas na Inglaterra em fins do século XVIII, medidas com que se abolia toda a regulamentação sobre o salário mínimo, que tinha sua origem no sistema medieval das corporações e que, agora, era considerada lesiva à liberdade de contratação. A oposição entre direitos civis (de expressão, de pensamento e também de comércio) e o direito à subsistência, torna-se totalmente explícita com a lei dos pobres, aprovada em 1834 na Inglaterra, pela qual, se obtinha o mantimento às expensas da coletividade em troca da renúncia à própria liberdade pessoal. Como acentua T. H. Marshall, para ter a garantia da sobrevivência, o pobre tinha de renunciar a todo o direito civil e político, devia ser colocado ‘fora do jogo’ em relação à sociedade. Se o Estado provia às suas necessidades, não era como portador de qualquer direito à assistência, mas como tendentemente perigoso para a ordem pública e para a higiene da

permanecem os mesmos. O sentido da justiça é encontrado na razão natural, que em condições normais (estado de natureza) predispõe os homens para uma vida feliz e virtuosa, fundada no trabalho e no respeito mútuo (igualdade enquanto reciprocidade). A igualdade estatal resultaria da aplicação formal e isonômica da lei, naturalmente genérica e abstrata, e que, ao ignorar qualquer tipo de favor ou privilégio de natureza estamental ou corporativa, atingiria pela primeira vez, um grau de tratamento absolutamente igualitário a todos. A concretização de um sentimento de justiça vinculado à criação de uma ordem jurídica igualitária é o elemento de legitimação comum a essas duas formas iniciais de manifestação do Estado-Moderno – como já o tinham sido na Antigüidade e como continuará sendo nos seus desdobramentos posteriores.

Todavia, é preciso que se diga também que, no âmbito da ordem estatal liberal-individualista, se a justiça e a igualdade se apresentam como pressuposto ou fundamento de legitimidade dessa ordem, elas na verdade constituem mera condição de possibilidade para o desenvolvimento a contento de um valor superior: a liberdade.

Esta pressupõe uma igualdade formal radicada na ordem jurídica e imposta até coercitivamente, se necessário for, pela autoridade estatal. Pois é exatamente a igualdade formal o pressuposto de validade para a instituição do princípio da autonomia privada. A disposição conferida pela ordem jurídica para que, indivíduos iguais, possam dispor de sua liberdade da forma que melhor lhes aprouver, constituindo entre si, normas jurídicas mediante a livre e soberana manifestação de sua vontade, obrigando-se assim, uns mediante os outros, através dos “contratos”.

Ao Estado caberia apenas fazer cumprir as normas que os indivíduos livres e soberanos se deram por mútuo consentimento. Por ser expressão absoluta da liberdade de todo homem capaz, é que todo contrato constitui-se em verdadeira lei entre as partes que se obrigam – pacta sunt servanda. No

contexto da ordem jurídica do Estado liberal-individualista, a radical separação entre Estado e sociedade se manifestará também na separação entre Direito Público (plano da necessidade) e Direito Privado (plano da liberdade). Tal fenômeno se mostrou evidente, especialmente na França, a partir da vigência

coletividade”. BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, N; PASQUINO, G. Dicionário de Política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1986, p. 416.

em 1804 do Código Civil, o Código de Napoleão, apresentado ao mundo como “a Constituição do homem privado”, sendo notória já por essa época a comparação entre o caráter provisório, cambiante, e volúvel das Constituições frente à natureza perene, estável, segura, do Código Civil.

Neste ponto, a fundamentação liberal-individualista da ordem estatal atingiu o seu ponto culminante (sob a perspectiva “formal”), ao mesmo tempo em que, dialeticamente, fez surgir os germes que determinaram o seu esgotamento e a necessidade de sua superação (sob a perspectiva “material”). Isto porque, a igualdade formal (jurídica), acabou por redundar em uma profunda desigualdade material (sócio-econômica), conduzindo a uma progressiva perda de legitimidade do Estado liberal-individualista.

A igualdade meramente formal entre os chamados “sujeitos da relação jurídica”, considerados estes enquanto entes abstratos, e completamente apartados de suas condições reais (materiais) de existência, acabou por conduzir a sociedade do Estado liberal-individualista a um novo “estado de natureza”. Uma espécie de “lei do cão” fundamentada em uma ordem jurídica civil. Uma ordem jurídica que autoriza a exploração brutal do mais fraco pelo mais forte. Isto porque, em determinados âmbitos, como por exemplo, uma compra e venda entre um grande industrial e um grande comerciante atacadista, ou entre dois trabalhadores, a idéia de equivalência projetada a

Benzer Belgeler