Há forte discussão quanto às vantagens e desvantagens ensejadas pelo exercício do poder normativo no âmbito das relações coletivas de trabalho. Por isso, urge analisar os
415
ARAÚJO NETO, José Nascimento e MENEZES, Cláudio Armando Couce de. Op. cit., p. 5.
416
VIANNA, Francisco José de Oliveira. Op. cit., p. 45, 47 e 49. Diz o autor, na página 48 desta obra, respeitada a grafia da época: “O princípio da livre associação é uma bela cousa; mas, a experiência mostra que, entendido de uma maneira muito latitudinária, é antes um mal do que um bem.”
417
ARRUDA, Hélio Mário de. Op. cit., p. 47.
418
argumentos doutrinários de forma a tornar mais claros os efeitos úteis ou nocivos da utilização desse instrumento jurídico no Brasil419.
A principal vantagem alegada concerne à necessidade de superar o impasse diante da tentativa frustrada de autocomposição. Dessa forma, a sociedade não arcaria com eventuais ônus causados pelo movimento grevista e seria possível, às partes, obter solução ao impasse em que estivessem envolvidas.
Concordamos com o fato de que o conflito não pode perdurar indefinidamente, causando danos à coletividade, especialmente quando a greve ocorrer em determinados setores. Tal constatação, entretanto, não leva à conclusão de que o poder normativo é necessário para resolver o desentendimento entre os atores sociais, pois há diversas outras formas de resolver a questão, como a conciliação, a mediação ou a arbitragem, por exemplo. Além disso, deve-se observar que a utilização dos serviços do juiz na criação de condições de trabalho, a despeito de apresentar vantagem imediata, na medida em que resolve a pendência entre trabalhadores e empregadores, provoca, de modo mediato, efeitos deletérios, pois desestimula o aprofundamento do processo de negociação coletiva e, consequentemente, dificulta o fortalecimento das entidades sindicais.
Entre as desvantagens, a primeira a ser analisada é o desconhecimento, pelo juiz, das verdadeiras condições do setor produtivo, sobre o qual incidirá a decisão resultante do exercício do poder normativo. Há natural despreparo do magistrado para lidar com a situação por faltar-lhe vivência no cotidiano produtivo que lhe é submetido à apreciação420. As partes divergentes possuem as melhores condições para aferir as necessidades no ambiente laboral. Caso não seja possível o entendimento direto, podem ser utilizados os serviços de um conciliador, um mediador ou um árbitro.
Outra desvantagem alegada atine à demora nas decisões. Esse é, indubitavelmente, um grande óbice à utilização dos serviços do juiz na criação de normas e condições de trabalho, pois o ambiente produtivo é caracterizado por seu caráter dinâmico,
419
Quanto às vantagens e desvantagens do poder normativo, cf. MARTINS FILHO, Ives Gandra da Silva. Processo coletivo do trabalho, p. 35-37; ARAÚJO NETO, José Nascimento; MENEZES, Cláudio Armando Couce de. Op. cit., p. 16-21; MANUS, Pedro Paulo Teixeira. Mediação judicial de conflitos coletivos de trabalho: forma eficiente de exercício do poder normativo, p. 259 e 260; SILVA, José Ajuricaba Costa e. Op. cit., p. 171 e 172.
420
Com visão semelhante, cf. SANTOS, Roberto Araújo de Oliveira. Sete considerações sobre o poder normativo jurisdicional e a conveniência de superá-lo, p. 625, in PAMPLONA FILHO, Rodolfo (coord.) Processo do trabalho: estudos em homenagem ao professor José Augusto Rodrigues Pinto. São Paulo: LTr, 1997.
sendo, portanto, incompatível com o decurso de longo prazo para que o impasse seja resolvido.
O tratamento generalizado que é dispensado a trabalhadores e empregadores é mais um fator negativo contra o exercício do poder normativo. O mencionado instituto é, por natureza, marcado por elevado grau de abstração e generalidade, fazendo com que diferentes realidades sejam tratadas da mesma maneira, situação que pode acarretar grandes prejuízos aos atores sociais em conflito.
A inadequação ao ambiente democrático é outro aspecto negativo apontado em relação ao poder normativo. A possibilidade de o juiz regular a relação de trabalho a partir da criação de normas e condições laborais é situação que foi implementada quando o Brasil vivia sob a égide do governo autoritário de Getúlio Vargas, apesar de o reconhecimento constitucional do mencionado instituto jurídico somente ter ocorrido com a edição da Carta Magna de 1946, já durante a retomada democrática. A utilização desse poder pelo juiz foi idealizada em um momento histórico de aversão à pluralidade de pensamentos, dominado pelo ideal corporativista. Nesse contexto, a natural dialética entre trabalhadores e empregadores era vista como algo nocivo à sociedade, buscando-se evitar o conflito pela intervenção do Estado com a atuação do Judiciário.
Há ainda, por parte da doutrina421, a alegação de outras desvantagens do poder normativo, como o enfraquecimento da vontade de negociar e a maior tendência de descumprimento da sentença normativa. Entendemos, entretanto, que os dois aspectos apontados melhor seriam enquadrados como efeitos nocivos da atuação judicial na criação de normas e condições de trabalho. São fatores que não estão na essência do instituto em estudo, mas que surgem como corolário da intervenção judicial nesse âmbito. Há menor vontade de negociar em decorrência da opção de utilizar os serviços do juiz na acomodação de interesses de trabalhadores e empregadores, situação que diminui a responsabilidade dos entes sindicais diante do resultado que será obtido. A tendência a inadimplir obrigação criada pelo juiz deriva do fato de a solução para o conflito ter sido imposta, fator que implica menor adesão das partes e fomento de uma conflitividade reprimida.
Há, ainda, quem arrole a inexistência de um sindicalismo robusto no Brasil entre as vantagens atreladas ao exercício do poder normativo422. Parece-nos, entretanto, que melhor seria caracterizar a mencionada situação como explicação ou pressuposto para a
421
MARTINS FILHO, Ives Gandra da Silva. Processo coletivo do trabalho, p. 35 e 36.
422
manutenção da possibilidade de intervenção judicial para criar normas e condições de trabalho. Note-se que, ao alegar a debilidade como motivação para a sobrevivência do instituto em análise, reforça-se a referida característica dos entes sindicais, pois cria-se uma válvula de escape de fácil utilização diante da natural tensão que permeia o processo de negociação coletiva. Dessa maneira, o sindicato, destituído da responsabilidade quanto à solução do conflito, deixa de amadurecer naturalmente no cotidiano laboral, marcado por pressões e demandas.
Amauri Mascaro Nascimento menciona, outrossim, o fato de o exercício do poder normativo poder ser uma inspiração positiva para o legislador na criação de direitos e regulação de situações, além de o dissídio coletivo no qual o juiz cria normas e condições de trabalho ser mais uma oportunidade para debates dos agentes em conflito423. Parece-nos, entretanto, que não compete ao juiz, no bojo de sua atuação processual, ser fonte de inspiração ao legislador. Ademais, a intervenção judicial nesses temos é dispensável a fim de que haja o aprofundamento da conversação entre as partes divergentes.