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Encontram-se, na literatura sobre meio ambiente, ambientalismo, ecologismo e educação ambiental, alguns elementos que caracterizam o educador ambiental e sua prática. Entretanto, da mesma forma que há diversas matrizes em EA, aquilo que define e constitui o educador ambiental não é rígido, imutável, nem tem formato definido.

Carvalho (2001a) analisou as trajetórias de “sujeitos ecológicos” brasileiros, destacando suas múltiplas origens, motivações, conseqüências da opção pelo ambiental na construção da identidade e imagem desse atores. Para a autora, a experiência dos educadores ambientais nesse universo altamente heterogêneo é “a de compartilharem a identidade de sujeitos ecológicos, tendo como especificidade o fazer educativo no campo ambiental” (CARVALHO, 2001b, p.109). Todavia, destaca que não significa que partilhar dessa identidade ecológica seja um pré-requisito para tornar-se um educador ambiental.

Em vários casos [...] o caminho pode ser o inverso, ou seja, da EA para a identidade ecológica. A EA tanto pode ser fruto de um engajamento prévio como se constituir num passaporte para o campo ambiental. Dessa forma, identificar-se como sujeito ecológico e formar-se educador ambiental podem ser processos simultâneos, no sentido simbólico, mas estruturarem-se em diferentes tempos cronológicos (CARVALHO, 2001b, p.111).

Nesse contexto, a autora anuncia o que denomina de uma interpretação, mais do que a definição do educador ambiental. Uma das características que ele carrega é do arquétipo do herói, “um guerreiro, mistura de força e de fraqueza que vive na fronteira entre dois mundos” (HERCULANO6, 1996 apud CARVALHO, 2001a). Carvalho (2001a) complementa o espectro de atributos e valores que compõem as múltiplas faces do sujeito ecológico.

Um sujeito que pode ser visto em sua versão grandiosa como um sujeito heróico, vanguarda de um movimento histórico, herdeiro de tradições políticas de esquerda, mas protagonista de um novo paradigma político-existencial; em sua versão new age é visto como alternativo, integral, equilibrado, harmônico, planetário, holista; e também em sua versão ortodoxa, na qual é suposto aderir a um conjunto de crenças básicas, uma espécie de cartilha – ou ortodoxia – epistemológica e política da crise ambiental e dos caminhos para 5

HERCULANO, S. O campo do ecologismo no Brasil: o Fórum das ONGs. In: REIS,E.; ALMEIDA,M.E.; FRY,P. (Orgs.). Política e cultura: visões do passado e perspectivas contemporâneas. São Paulo: Editora Hucitec e Anpocs, 1996.

enfrentá-la (CARVALHO, 2001a, p.74, grifos nossos).

O sujeito ecológico refere-se ao modo ideal de ser e viver orientado pelos princípios do ideário ecológico, de maneira que esse ideário vai se constituindo como um parâmetro orientador das decisões e escolhas da vida. Assim, os ecologistas, os educadores ambientais e as pessoas que aderem a esse ideal vão assumindo-o e incorporando-o, buscando experimentar em suas vidas cotidianas essas atitudes e comportamentos ecologicamente corretos. Nesse sentido, a militância do sujeito vai além da atuação política, num sentido de ativismo contracultural que se situa, entre outras esferas, na coerência entre o ser e o fazer, tendo como conseqüência “uma grande exigência sobre os indivíduos, de quem se espera uma adesão integral e a antecipação da sociedade utópica desde sua experiência íntima e suas ações cotidianas” (CARVALHO, 2001a, p.93).

Gutierrez e Prado (2002, p.42), por sua vez, adotam um referencial teórico- metodológico baseado nas obras de Paulo Freire, Moacir Gadotti e Vío Grossi.

A partir desse referencial, buscam definir o perfil de pessoas que constituiriam a “sociedade planetária”. Podemos resumir o que os autores denominam de “pessoas planetárias”:

1) buscam sentir-se em contato e comunhão com a natureza, fazendo parte dela mas não dominando-a;

2) vivem a vida como processo, com fluxos permanentes e são capazes de viver a incerteza, fugindo das concepções rígidas da vida;

3) preocupam-se e suspeitam do poder, da hierarquia e de sua utilização para dominar os demais;

4) procuram a integração entre ciência e senso comum, ação e reflexão, homem e mulher, mente e corpo, objetividade e subjetividade;

5) interessam-se mais por fazer perguntas do que dar por aceitas as respostas;

6) são pessoas não dogmáticas nem rígidas; permitem-se avançar sobre territórios ignotos do conhecimento e da vida;

7) são solidárias;

8) desconfiam da burocracia como forma que privilegia os burocratas sobre os outros;

9) têm autoconfiança, no sentido de acreditar no valor de sua própria experiência.

Com vistas a este “perfil”, parece que os autores tendem a enfatizar a dimensão “romântica” e apolítica do educador ambiental. Entretanto, concordo que, para além da dimensão individual, a “pessoa planetária” precisaria desenvolver a dimensão coletiva, a criação e a recriação permanentes de relações do indivíduo com os grupos, coletividades, instituições, governos locais nas quais se deve concretizar a cidadania ambiental.

Nessa direção, poderíamos inquirir: quem é o educador ambiental? Aquele que se diz como tal? Aquele que é reconhecido com um? Aquele que vivenciou processos formativos “formais” em EA? O “herói” das causas ambientais? Os sujeitos que experienciam processos formativos em EA consideram-se educadores ambientais? Suas práticas são reconhecidas como de educadores ambientais? Como acreditam que se tornaram educadores ambientais?

Ao tentar enumerar as características desejáveis de um educador ambiental e as competências necessárias para sua plena atuação, correríamos o risco de delinear um campo muito restrito ou de desenhar o perfil de um sujeito ideal, com características muitas vezes de um “super-educador”, à semelhança do que já tem sido proposto (e criticado) como perfil ideal de um docente.

Torres7 (1999 apud MIZUKAMI et al., 2002) elaborou uma lista do que seria o docente desejável ou docente eficaz com base em autores e obras relacionados ao debate educacional. As competências desejadas do professor incluiriam: sujeito polivalente, profissional competente, agente de mudanças, prático-reflexivo, professor investigador, intelectual crítico ou intelectual investigador que domina os saberes, provoca e facilita aprendizagens, interpreta e aplica um currículo e tem capacidade de recriá-lo e reconstruí-lo, exerce seu critério profissional para discernir e selecionar as pedagogias e os conteúdos mais adequados a cada contexto e a cada grupo e outras quinze competências.

Recorremos aos questionamentos levantados por Torres6 (1999) apud MIZUKAMI et al., 2002, p.35), anteriormente citada, para traçarmos um paralelo com o perfil desejável do educador ambiental:

A qual modelo educativo e a qual tipo de sociedade ele serviria? Esses valores e competências são universalmente aceitos e

6

TORRES, R.M. Nuevo rol docente: qué modelo de formación, para qué modelo educativo? In: Fundación Santillana. Aprender para el futuro. Nuevo marco de la tarea docente. Documentos em Debate. Madrid, p.99-112.

desejados nas diferentes sociedades e culturas? Todos eles dizem respeito a um modelo educativo coerente ou correspondem a modelos diferenciados e até mesmo contraditórios entre si? Quais funções correspondem às instituições e às instâncias de formação docente, quer sejam iniciais, quer em serviço e quais correspondem a outras instâncias, como a família, o sistema escolar, os meios de comunicação, as bibliotecas e diversas formas de auto-aprendizagem e interaprendizagem entre os pares?

Apoiando-me nessa inquirição, aproveito para observar que os artigos aqui estudados acerca da formação de educadores raramente referenciam-se nas experiências e construções teóricas do campo da formação de professores. Exceções são vistas para casos específicos em que o objeto de estudo é a inserção da EA na escola e na formação de professores.

Benzer Belgeler