• Sonuç bulunamadı

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos. José Saramago

A epígrafe acima aponta o humano como ser indecifrável. Em tempos pós- modernos a que estamos sujeitos, identidades cambiantes fazem-se presentes num mundo cada vez mais globalizado e interconectado. O processo de identidade entra em crise, e notar nossa formação como uma identidade fechada, não nos é possível. Nos dizeres de Bauman (2005), o ser em si, no modelo de sociedade atual é negociável e revogável. As decisões e escolhas dos indivíduos são o que o faz pertencer “aos lugares”.

Neste molde, a virtualização se faz presente em nossas vivências. A potencialidade de adquirir competências para um saber pedagógico qualificado instiga nos docentes a necessidade de se educar num mundo que se transforma. Nessa ação, o conhecer adquire sentidos que dantes não se percebia com tanta ênfase.

E, no tempo da informação, o que mais se vê são conflitos, regulando a geração de conhecimentos e por estes sendo afetados. Nessa via de mão dupla, pode-se pensar a formação continuada, a distância, percorrendo novos trilhos tecnológicos – aqueles advindos com a utilização da internet, para adquirir saberes que levem ao autogerenciamento da formação docente.

A internet auxilia num aprendizado mais interativo, em que o tempo se adéqua as disponibilidades do educador, desde que ele mantenha uma rotina diária de estudos. Ela auxilia a um aprendizado mais interativo.

Nossa dissertação pretendeu saber como se dão os saberes adquiridos pelas docentes participantes do EqP pelo uso da internet na gestão das situações de violência existentes na instituição escolar.

Inspirados pelos conceitos de Lévy (2007), Primo (2003), Castells (2010), Elias (1993, 1994), Abramovay (2003), entre outros autores, estudamos as intenções de quatro docentes no uso da internet. Evidenciamos, assim, os saberes por estas adquiridos, mediados pela interação do computador, levando em conta as informações por elas buscadas e as representações sobre a violência na escola e seu trabalho em razão dela, perguntando-nos, também, se o uso da internet as ajudou a aprenderem sobre a gestão pedagógica daquele fenômeno.

Pensando num processo de formação docente continuada, analisamos a partir destes caminhos trilhados, os hábitos de aprendizagem que as docentes tinham ao utilizarem da internet. Neste propósito, adotamos o método qualitativo e usamos entrevistas semiestruturadas, valendo-nos da análise de enunciação (BARDIN, 1977) para apreciação dos dados coletados nas entrevistas.

Os dados coletados apontaram para o uso diário pelas docentes da internet, por diferentes interesses: necessidades pessoais, interações sociais, reaprendizagem, procura de métodos de ensino para a aula, projetos para serem realizados na escola, entre outros. Porém, percebemos que a reflexão sobre a prática, a problematização de uma dada realidade não são muito frequentes nas aprendizagens envolvendo a internet como fonte de dados e como espaço de interações virtuais. O computador é uma ferramenta contínua em suas rotinas, assim como o uso da internet. Entretanto, a concepção que revelaram sobre o emprego da tecnologia em sua formação profissional ainda perpassa caminhos tradicionais: constatamos, então, um antigo modelo de aprendizagem numa nova roupagem.

Avaliamos que a internet não desenvolveu nas docentes competências para o gerenciamento da violência na escola. A ideia generalizada das docentes da violência ser vista como manifestação fora da escola é que faz, a nosso ver, com que elas não sentissem desejo de continuar pesquisando sobre o tema.

Em qualquer que seja a formação docente, como na continuada a distância, deve- se atentar para o discernimento da tecnologia como uma ferramenta técnica e a educação como um meio que a utiliza para conhecer. Nesse modelo, as relações tecnologia e educação precisam ser repensadas, nos usos que faço do computador, no que creio que posso conhecer por essa mediação sujeito – máquina – aprendizagem.

Na era tecnológica, paradigmas tradicional e digital convivem, não sem se provocarem. A revisão da literatura acentuou que a educação, às voltas com a virtualização, põe novos desafios aos docentes. A capacidade de discutir, de pensar, raciocinar, dialogar com o próprio saber, aceitar que o conhecer é um movimento em espiral, torna-se uma necessidade atual.

Os professores necessitam desenvolver essa percepção, ampliar o olhar, enxergar a mudança. A internet e seus não-espaços geográficos intensificam o conhecimento como produção imaterial e mutável que orienta as práticas humanas. A escola, como instituição social formal responsável por transmitir conhecimento aos alunos e

desenvolver neles comportamentos civilizadores, participa também destas transformações tecnodigitais.

A violência, em suas diversas manifestações (física, moral, psicológica, entre outras.) é um atentado contra integridade da pessoa humana. A formação docente para a gestão da violência na escola auxilia os professores na intervenção dos atos em que ela pode ocorrer.

Assim, uma formação continuada que se volta para a gestão da violência na escola pauta-se no diálogo e no respeito das diversas identidades entre seus pares. Para Sennet (2003), a falta de respeito, embora soe menos agressiva do que um insulto ou uma agressão física é do mesmo modo uma forma de violência. “Nenhum insulto é feito ao outro, mas ele tampouco recebe reconhecimento; ele não é visto – como um ser humano pleno, cuja presença tem importância” (p.17). Quando a escola e os professores em suas modelos de educação tradicional ignoram as diferentes vozes, as diferentes identidades ali presentes praticam violência.

Como pudemos ver nos relatos das professoras, atribuir a violência presente nas escolas à falta de educação doméstica, e a incidência maior desses fatos em comunidades carentes demonstra o preconceito contra a maioria de seus alunos, já que boa parte do alunado advém de comunidades de baixa renda.

Ainda nos dizeres de Sennet (2003), a falta de reconhecimento do outro, de mais subjetividades existentes, faz eclodir a escassez do respeito. Como se, nos dias atuais, não houvesse o suficiente para todos. A falta do respeito é produto do homem e, “ao contrário da comida, o respeito nada custa. Por que, então, haveria uma crise de oferta?” (p.17).

Assim, desenvolver habilidades para a gestão da violência na escola vai além das pesquisas por assuntos na internet: remete à mudança do pensar sobre ser educador. Proporcionar o diálogo, as relações interpessoais, num método dialético, da troca de correspondências, de opiniões, defendendo ainda uma educação dialógica, no melhor espírito freiriano.

A formação numa modalidade a distância muda o paradigma de educação. A formação neste novo formato dispõe do conhecer como um fluxo permanente. Um contínuo estudo sobre a arte de se educar. Nesses modelos, ensinar é atividade complexa e envolve a cooperação de todos os envolvidos no processo educativo.

Gerir a violência neste contexto da cooperação e utilizar as redes interativas da internet como ferramenta de prevenção da violência são metas pouco discutidas. Assim

acreditamos que deve haver uma reflexão sobre a relação entre tecnologia, formação docente e gestão da violência na escola.

Para lidar pedagogicamente com a violência na escola é necessário, entre outras tarefas, reconhecer a escola como espaço em que ela também acontece; estar atento às diferentes identidades e subjetividades existentes em seu entorno; e promover diálogo, reflexão acerca das diferentes manifestações culturais e do respeito entre elas.

Pensamos que a criação de chats e fóruns, com discussão e depoimentos de especialistas e professores, pode auxiliar na criação de ideias e projetos de intervenção na realidade escolar. Criar sites para apoio pedagógico dos professores que tratam das problemáticas da violência.

Apenas o acesso à internet não muda a representação dos professores sobre a violência. A internet está presente nas vivências dos docentes e ainda assim suas representações continuam sendo as de sempre. A mudança requer um pensamento questionador, afinado com as necessidades atuais de mudança e também crítico delas.

Pensamos, com Morin (2005), que o principal papel da educação é nos ensinar a enfrentar as incertezas da vida: o problema do conhecimento torna-se ainda mais acentuado nesta era digital, em que o conhecer parece estar disponível em um clique. O papel da educação, no sentido duplo de educar(-se), é reconhecer e manejar as incertezas do mundo, de modo a selecionar aquilo que o faça progredir em seu trabalho.

Os métodos de ensinar precisam ser reinventados (estimulados), convidar as docentes a problematizar as questões (tanto na teoria quanto na prática) que circundam nosso trabalho, além de incentivar a questionarmos o sistema educativo, para que não devamos dar brecha ao conformismo; para que, enquanto educadoras, que a busca pelo conhecimento seja algo incessante e prazeroso. Com isso devemos entender que o ensino não se dá apenas pela mera transmissão de conteúdos, é necessário desenvolver/provocar esse desejo pelo conhecimento, pois, ninguém nasce com o talento disso ou daquilo. Esse prazer pode e deve ser estimulado desde cedo para que possamos formar indivíduos letrados, reflexivos e críticos.

Outro ponto importante é desenvolver as diferentes linguagens na escola, orais, escritas, figurativas, corporais, artísticas, etc., para a minimização dos atos de violência. Todos esses tipos de linguagem representam um modo de comunicação com que os alunos vão atribuindo significado à sua existência, além de um dos mais significativos meios que discentes possuem para produzir cultura.

Compreendemos a prática educativa como um exercício de reflexão de liberdade em contexto de alteridade: o valor do outro deve ser levado em consideração para que o processo educacional flua livremente, envolvendo o ato de educar como um efeito de construção e elucidação de saberes dialogados e compartilhados. Para tanto, a formação docente continuada através da internet precisa ser aperfeiçoada, de modo a incorporar habilidades e saberes indispensáveis ao ensino da convivência pacífica na escola.

Benzer Belgeler