A transparência pode ser determinada por meio de diferentes abordagens. Em uma delas, referente à observação das atividades da organização no mercado, Board et al.122 definem a transparência como a capacidade de observar, de forma plausível, os níveis modernos e atuais das atividades do mercado.
Como iniciativa no Terceiro Setor de incentivo à transparência das organizações, destaca-se a criação pela Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG) do Prêmio Bem Eficiente, cujas centrais finalidades são o reconhecimento público das entidades que demonstraram trabalho e atuação nas suas áreas de desempenho, dentro de uma estrutura profissional e competente, operando com custos administrativos baixos, com transparência e administração externa; e estimular as entidades a procurar maiores níveis de produtividade, eficácia e transparência de suas atividades e noticiar o trabalho destas entidades mostrando sua importância e força123.
De acordo com Bushman et al.124, para a observação das atividades das organizações no mercado, é preciso que os dados permaneçam disponíveis aos interessados. A transparência, nesse caso, seria igual ao nível de disponibilidade e disseminação de informações, para isso deve-se ponderar a capacidade da
122 BOARD, John. et al. Transparency and Fragmentation: Financial Market Regulation in a
Dynamic Environment. New York: Palgrave Macmillan: 2002.
123 ASSOCIACÃO BRASILEIRA DE ORGANIZACOES NÃO-GOVERNAMENTAIS (ABONG).
Estatuto da ABONG. São Paulo: ABONG, 2003.
124 BUSHMAN, Robert M.; PIOTROSKI, Joseph D. What Determines Corporate Transparency?
organização em produzir, recolher, validar e disseminar informações às partes interessadas.
Segundo Bueno125, a prática da transparência exige, efetivamente, para muitas organizações, uma transformação intensa em seu processo de gestão. Dificilmente aquelas que se caracterizam por uma categoria rigorosa e decisões centradas rejeitam a participação como meio de sua cultura e estão preparadas para uma real interação com o mercado. Essas organizações, em geral, não conseguem abrir-se para os seus públicos por mera desconfiança, como se essa situação importasse uma ameaça. Ademais, a organização transparente deve priorizar o atendimento, favorecer o contato e, sob nenhuma hipótese, manipular dados ou informações, com o objetivo de conseguir vantagens. Ela pratica, como diz o mercado, o jogo limpo.
Existem várias diferenças relacionadas ao setor privado e ao Terceiro Setor. No caso ora em discussão, em relação à informação, enquanto no setor privado ela é privada e fonte do seu poder, no Terceiro Setor, a informação deve ser pública e compartilhada com outras organizações.
No setor privado, também, o pagamento de percentual sobre valores captados, bônus e distribuição dos lucros existe como um dos principais fatores motivacionais profissionais, enquanto, no Terceiro Setor, sob nenhuma hipótese essa prática é permitida. Os fatos que aqui dissertamos remete-nos ao que condiz com a ética e a transparência do Terceiro Setor.
125 BUENO, Wilson C. A Transparência na Comunicação Empresarial. Comunicação Empresarial
On Line – Artigos. São Paulo. Disponível em:
<http://www.comunicacaoempresarial.com.br/comunicacaoempresarial/artigos/comunicacao_corporati va/artigo7.php>. Acesso em: 25 nov. 2009.
As entidades sem fins lucrativos devem ter como premissa básica a missão de divulgar resultados, bem como a de disseminar aprendizados às demais entidades. Os recursos utilizados, assim como sua aplicação, devem ser demonstrados claramente para os doadores e para a sociedade.
A transparência referida não significa simplesmente apresentar relatórios financeiros, antes, buscar a fidelização do doador, o comprometimento e a corresponsabilidade na gestão dos recursos. Ao gerarem os recursos, conjuntamente, ambos permitirão um maior benefício social como resultado.
Em relação a isso, Bettiol Júnior126 comenta que, no Brasil, a demonstração de resultados nas entidades do Terceiro Setor é prejudicada devido:
[...] as demonstrações contábeis utilizadas pelas entidades sem fins lucrativos serem elaboradas a partir dos modelos especificados pela legislação societária e que foram desenvolvidas para atender às necessidades de usuários de informações ligados a instituições com fins lucrativos.
Outro ponto a ser analisado é que a falta de transparência, de acordo com Camargo127, pode comprometer a captação de recursos, já que uma onda de suspeita pode ser originada a partir da constatação de que há poucas informações ou dados pouco claros. A relação transparente é importante para a captação de recursos, pois nenhum agente racional designaria um valor de seu patrimônio a uma
126 BETTIOL JÚNIOR, Alcides. Formação e destinação do resultado em entidades do terceiro
setor: um estudo de caso. 2005. 116 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Contábeis) – Faculdade
de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, São Paulo.
127 CAMARGO, Mariângela F. et al. Gestão do Terceiro Setor no Brasil: Estratégias de captação de
entidade confusa e sem destaques de que sua aplicação está sendo feita de forma apropriada.
No que concerne ao comprometimento no Terceiro Setor, convém recordar que esta secção da economia global surgiu a partir da identificação de intenções e capacidades individuais e coletivas dos outros. Tal apreciação pode ser considerada como objetiva, por meio de fatos e dados, e subjetiva, por meio de julgamentos e opiniões. Vale ressaltar que uma das condições do domínio passa por uma atitude de distanciamento em relação ao seu próprio sistema de representação e às finalidades almejadas.
No Terceiro Setor, é de suma importância que os indivíduos estejam preparados para se submeter constantemente a um exame de consciência, propondo-se também a interiorizar o Terceiro Setor como algo que é diferente do Primeiro e do Segundo Setores. Não se trata de haver similaridades de uns com os outros e sim de algo totalmente individual, porém com seu valor próprio e característico. Ficamos incumbidos, neste caso, de preencher essa lacuna, transferindo o conhecimento adquirido no dia a dia e na perspectiva de uma vida melhor, doando suporte ao Terceiro Setor, permitindo a gestão responsável. A profissionalização do Terceiro Setor não só garante empregos e empreendedores sociais, como também é considerada garantia da continuidade da raça humana e do planeta que lhe dá sustento por mais algum tempo, com uma dosagem qualitativa positiva.
Para decidir sobre a escolha na gestão do Terceiro Setor, é importante observar o que podemos fazer, de modo a realizar escolhas ativas e conscientes a todo e qualquer momento em que surgirem oportunidades. Tais escolhas são determinantes, inclusive, para o sucesso de qualquer fato realizável. Se partirmos da
lógica, a escolha ativa certamente produz autonomia ou mesmo pode ser considerada como a própria autonomia conquistada. O que não se recebe, terá de ser conquistado, eis então a lógica do Terceiro Setor, a partir do conhecimento adquirido com vontade, comprometimento, iniciativa e capacidade de ação. Ao discorrer acerca deste assunto, claramente se entende que é exigível a participação efetiva para aquisição de um saber sobre tudo e sobre todos.
Para Iorio128, o termo transparência expressa “[...] as responsabilidades das organizações por suas ações e o conjunto dos meios pelos quais informam e prestam contas sobre as ações e recursos a elas confiados”. Em sua opinião, essa definição corresponde ao termo inglês “accountability”, o qual remete à noção de prestar contas de forma responsável, seja uma empresa, um órgão de governo ou uma organização do Terceiro Setor.
Ainda de acordo com Iorio129,
[...] a maior parte dos esforços dirigidos à prestação de informações estão voltados para o governo nacional, atendendo a obrigatoriedade da lei; para os sócios ou associados, atendendo as disposições estatutárias; e para os doadores internacionais não-governamentais, governamentais e multilaterais, atendendo aos contratos firmados entre as partes. Este “modus operandi” focaliza principalmente a fiscalização sobre as organizações da sociedade civil e busca responder perguntas tais como: as organizações estão operando de acordo com a lei? Estão mantendo atualizadas as informações? Demonstram sua situação financeira e patrimonial? Os recursos estão sendo gastos apropriadamente?
128 IORIO, Cecília. Normas, procedimentos e instrumentos de transparência das organizações da
sociedade civil sem fins lucrativos do Brasil. In: BRITO, Márcia Brito; MELO, Maria Emilia (Orgs.).
Hábitos de doar e captar recursos no Brasil. Ciclo Assessoria para o Desenvolvimento. São Paulo:
Peirópolis, 2007, p. 71.
Segundo Olak e Nascimento130, “por muitos motivos, as entidades sem fins lucrativos no Brasil não cultivam a transparência”. Entretanto, de acordo com Falconer131, este cenário tende a mudar. O autor lembra que, “em um contexto onde as organizações passam a competir de forma mais direta por recursos públicos e privados, deverá ser com a capacidade de demonstrar posições claras e resultados concretos que as organizações conseguirão se destacar”. Nesse sentido, a transparência tende a se estabelecer como estratégia competitiva.
Assim, nesse cenário, observa-se que o conceito de transparência é bastante abrangente. No entanto, para efeitos do escopo deste trabalho considera-se a transparência como estando diretamente relacionada à divulgação pública das prestações de contas. Por pública, entende-se divulgação em jornal, na web e em relatórios de grande circulação.