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Essa forma atual de trabalho da estatal é viabilizada pela governança corporativa, que é uma ferramenta de transparência para as empresas. Conforme descrito nos capítulos anteriores, a governança corporativa prescreve a constituição de um conselho de administração e a formalização dos contratos de acionista. Assim como no final do segundo mandato do governo Cardoso, a BNDESPAR difundiu a governança corporativa no capitalismo brasileiro. Nos relatórios do banco, é apontado que:

O BNDES acaba promovendo um desenvolvimento financeiro de longo prazo e de melhor governança corporativa, especialmente entre as empresas de pequeno e médio porte, o que estimula o mercado de capitais e as fusões e aquisições (BNDES, 2010).

No governo Cardoso, a difusão da governança corporativa estava associada (de início) com a ação de atores de banco de investimento, conforme demonstrado no capítulo anterior. Porém, de acordo com Grun (2016), no século XXI, devido ao caráter de democratização que a “boa governança corporativa” tinha potencial de receber, ela incorpora os discursos de outros grupos - dentre eles os fundos de pensão e organizações não governamentais. Os fundos de pensão enxergaram na governança corporativa a oportunidade de participar da gestão das empresas, enquanto as organizações não governamentais viram a possibilidade de incluir na pauta das empresas as preocupações com responsabilidade social e ambiental. Desse modo, à medida em que mais grupos se achegam à legenda da governança corporativa, maior legitimidade esta obtém no mercado financeiro: tais grupos, ao aderir a ferramenta gera novos formatos para ela. Esses grupos, ao interagirem no espaço financeiro, constroem os limites do aceitável em relação ao modelo de governança corporativa brasileira (GRUN, 2016). Nesse contexto, a BNDESPAR seria, junto com as demais instituições, uma fonte de força na formatação desse modelo brasileiro de governança corporativa.

No que se refere às orientações acerca de responsabilidade social e ambiental, a holding aponta (nos seus relatórios) que incorpora essas exigências nos contratos firmados com suas empresas investidas. Na presente pesquisa, não foi mapeado em que medida ela incorpora essas orientações nos seus contratos, mas foi estudado o caso da JBS – nele, empresa é possível entender quais são as cobranças realizadas através do quadro abaixo, que expõe algumas cláusulas firmadas entre BNDESPAR e JBS. Além destas cláusulas, como exigência do BNDES, a JBS produziu Relatórios de Diligência Ambiental e um Plano de Investimento para melhorar o desempenho ambiental nos frigoríficos. O quadro 16 aponta as exigências da BNDESPAR refletidas nos documentos firmados na época do investimento.

Quadro 15 - Contrato de acionista entre BNDESPAR e JBS

i) formação de um cadastro com a exclusão daqueles fornecedores de matérias- primas condenados judicialmente por trabalho escravo, desmatamento ilegal, ocupação ilegal da terra e interferência em terra indígena;

ii) implementação de um sistema de rastreabilidade dos produtos produzidos desde a fazenda;

iii) plano de incentivo e apoio ao atendimento ao Código Florestal por parte dos fornecedores;

iv) plano eficiência no campo, com vistas a aumentar o número de cabeças por hectare;

v) implementação de certificações socioambientais e gestão ambiental; v) estabelecimento de metas de racionalização do uso de água;

vi) estabelecimentos de valores mínimos para investimentos ambientais.

Fonte: BNDES (2011).

No Brasil, durante o governo Lula, a governança corporativa incorpora o discurso da sustentabilidade (GRUN, 2005). Nesse âmbito, a “mão visível” do governo no mercado de capitais (aqui referenciada através da BNDESPAR) trabalhou na legitimação dessa construção através de ações e estratégias. Dentre essas, inicialmente, estaria a proposta de fomentar a carteira do índice de sustentabilidade (ISE), da BM&FBovespa. Assim (conforme será descrito no próximo capítulo), em 2013, 70% das empresas listadas no ISE tinham a BNDESPAR em sua estrutura acionária.

Além de participar de maneira significativa do ISE, a BNDESPAR fomentou outro índice de sustentabilidade, trata-se do Índice de Carbono Eficiente (ICO2). Tal processo teria

ocorrido através da criação de um fundo constituído por ações da carteira da BNDESPAR, do qual suas cotas foram direcionadas para serem negociadas na BM&FBovespa. A holding alocou o gestor Black Rock Brasil para administrar o fundo. Após o devido registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o lançamento desse fundo ocorreu por meio de oferta pública, semelhante às realizadas em operações com ações, e foi destinada tanto às pessoas físicas e aos investidores institucionais. Desenhada pala BNDESPAR, esta carteira acompanhou a composição do índice, sendo formada pelas mesmas ações presentes no ICO2, com idêntica participação proporcional.

Além desse fundo, foram criados outros dois para atuarem na vertente sustentabilidade: “Empresas sustentáveis na Amazônia” e “Inovação e Meio Ambiente”. Para isto, a estatal alocou 80 milhões de reais e 270 milhões de reais em cada fundo, respectivamente. Além de empreender a criação dos fundos, a BNDESPAR também investiu em empresas que criaram fundos de sustentabilidade. Estes foram:

 FIP Brasil Sustentabilidade: contou com investimento de 100 milhões de reais da BNDESPAR (BNDES, 2012).

FIP Caixa ambiental: contou com investimento de 68 milhões de reais da BNDESPAR (BNDES, 2012).

 FIP Vale Florestar: contou com investimento de 121 milhões de reais da BNDESPAR (BNDES, 2012).

Desse modo, a BNDESPAR operacionalizou suas políticas de sustentabilidade por meio do mercado de capitais. Através de prescrições, a holding difundiu essa prática em empresas nacionais. De acordo com as contribuições de Grun (2005), a inserção das orientações de diferentes grupos (como os representantes da sustentabilidade e os fundos de pensão) no desenho da governança corporativa, gera maior legitimidade para essa ferramenta - pois quanto mais grupos se incluem nas suas pautas, maior dominação ela obtém. A partir disso, esse autor propõe que estamos diante da dominação financeira no capitalismo brasileiro contemporâneo. E na presente pesquisa, é possível verificar que a BNDESPAR se tornou um forte instrumento estatal de legitimações dos mercados de capitais e da governança corporativa, contribuindo para a dominação financeira.

Nessas disputas em torno da definição da pauta da governança corporativa brasileira, é necessário destacar a presença dos fundos de pensão. Estes ganharam maior legitimidade com a chegada do governo Lula, pois há uma aproximação histórica entre ambos. A queixa

central dos Fundos de Pensão está sobre a sua participação na gestão das empresas e fundos de investimento que recebem seus aportes. Com o apoio do governo Lula, os Fundos de Pensão enxergaram na governança corporativa a vereda para exercer sua participação na tomada de decisão das instituições que recebem seus investimentos. Diante dessa disputa, Grun (2009) aponta mais uma peculiaridade do capitalismo brasileiro: os fundos de private equity com governança, que será discutido no próximo tópico.

Benzer Belgeler