3.7. Araştırma İle İlgili Bulgular ve Değerlendirmeler
3.7.6. Hipotez Testleri
A Proclamação da República não redundou em mudanças significativas nesse quadro. Ao contrário, a reforma bancária determinada por Ruy Barbosa em 17 de janeiro de 1890, criando bancos de emissão e permitindo a negociação de ações de sociedades anônimas com apenas 10% de seu valor integralizado, redundou numa superliberalidade que estimulou os especuladores e reavivou o Encilhamento (SCHULTZ, 1996:82-83).
Novos bancos foram agraciados com a autorização para emissão. O mais privilegiado deles foi, mais uma vez, o de propriedade de Francisco de Paula Mayrink que, como já relatado, havia recebido “generosos favores” do governo no final do Império e, inclusive, fora preso imediatamente após a proclamação da República mas, em seguida, foi admitido por Ruy Barbosa como um tipo de conselheiro ou consultor: Além dos direitos de emissão,
“o decreto de 17 de janeiro deu ao banco de Mayrink e a dois outros bancos de emissão regionais, privilégios em relação a terras públicas e contratos
9
empreendimentos imobiliários, comerciais e industriais.” (SCHULTZ,
1996: 84, grifos meus)
Com isso, o Encilhamento ganhava novo fôlego, especialmente alimentado pelo banco de Mayrink que, além de colocar suas notas em circulação, negociou ações de diversas companhias que, pouco depois, se mostraram fraudulentas. Esse empresário teve, inclusive, importante participação em atividades urbanizadoras em São Paulo, conforme relatado no CAPÍTULO 4.
Nesse movimento, o banco continuava a empregar, em especulações e na subscrição de empresas fraudulentas, fundos que deveriam financiar a agricultura e o comércio. Além disso, como o dinheiro emprestado pelo governo serviu à aquisição de bônus que, por sua vez, serviam como lastro para suas emissões, criou-se um círculo vicioso: “na realidade, o banco de Mayrink criou notas com base em nada” (SCHULTZ, 1996: 85).
O citado decreto foi considerado “um ato escandaloso de favoritismo” e, sob pressão do ministro Campos Salles, Ruy Barbosa concedeu um banco de emissão para São Paulo, recebendo em troca o apoio dos republicanos paulistas (SCHULTZ, 1996:85). De modo geral, o comportamento posterior de Ruy Barbosa não afiançou seu desinteresse pessoal. Em agosto de 1890, recebeu de Mayrink, como presente, uma mansão luxuosa e, nesse mesmo mês, concedeu àquele banqueiro o direito de dobrar suas emissões para 100 mil contos. Terminado seu mandato, assumiu cargos de diretoria em empresas daquele banqueiro (SCHULTZ, 1996: 86).
As tentativas de obtenção de recursos no exterior, entretanto, não foram descartadas no primeiro ano da República. Em 31 de julho, pelo Decreto no 612, foi estabelecida a faculdade de organização de um banco hipotecário, com capitais estrangeiros e definidos os parâmetros gerais para seu funcionamento.
No discurso de abertura que antecede à publicação do citado decreto, Ruy Barbosa teceu longas considerações sobre as tentativas de criação de estabelecimentos hipotecários no país ao longo do Império e seus fracassos, destacando em especial o parecer emitido em memorial por Josseau, o especialista francês sobre a matéria que, consultado a respeito do Decreto no 2387, de 06 de novembro de 1875, último que visava à criação de um banco hipotecário com capitais estrangeiros, apontou vários inconvenientes que, em sua opinião, se oporiam à fundação de uma instituição de crédito territorial no Brasil. O principal empecilho distinguido por Josseau referia-se à restrição da garantia às hipotecas rurais. A esse respeito é extenso o relato de Ruy Barbosa, mas sua transcrição é bastante esclarecedora sobre o papel assumido pelo urbano nesse início da República:
10 A restrição da garantia de juros aos emprestimos sobre propriedades ruraes,
inspirada aliás no pensamento de favorecer os emprestimos à agricultura, nem é util, nem practica: seria, pelo contrario, nociva, e actuaria contra o fim que se teve em mente.
E, para não se presumir que bebemos este juizo em impressões da occasião, transcreveremos do Memorial redigido por Josseau, uma das maiores autoridades européas na materia, as reflexões com que elle oppugnava, nesta parte, a lei de 1875.
“Precisamente” (são palavras suas) “ella” (essa restricção) “tem um alcance maior de que se parece crer; pois o seu resultado immediato será, não só limitar a garantia do Estado ao juro das obrigações emittidas em representação de emprestimos ruraes, como reduzir exclusivamente a essa
categoria de emprestimos as obrigações da sociedade. Por esse systema,
com effeito, si a sociedade quizesse tambem emprestar sobre immoveis urbanos, teria de emittir dous generos de obrigações: as ruraes, de juro
assegurado pelo Estado, e as urbanas, privadas dessa vantagem;
reunindo as primeiras como penhor o conjunto dos bens ruraes, sobre que se juntassem os emprestimos, e as segundas como garantia os immoveis urbanos, umas procuradas pelos capitalistas, outras refugadas, ou
circulando apenas sob cotações inferiores.
“Será isso possível? Evidentemente não. Uma sociedade de credito territorial não pode emprestar a taxas vantajosas para o mutuario, sem que por sua vez tome emprestado o dinheiro a taxas favoraveis. Ora, para que os capitalistas acceitem sob uma cotação vizinha do par os titulos que ella emitte, indispensavel é uma condição: a unidade da garantia em relação a todos.
Cumpre que todos os titulos tenham por penhor o complexo dos immoveis hypothecados, e que todos esses titulos assentem na garantia de juros, a que o Estado se compromette.
“Por outra: o descredito dos titulos urbanos interessaria ao credito dos titulos ruraes, e o desenvolvimento da sociedade embaraçar-se-hia, em detrimento dos mutuarios: ella seria, pois, inevitavel e, isenta de embaraços a discriminação entre os bens ruraes e os urbanos. Não se acha traçada por
toda a parte a linha divisoria entre a cidade e o campo. Havemos de
attribuir a qualificação de bens ruraes unicamente ao solo, recusando-a as construcções, ainda quando estas demorem no campo? Como se classificaria uma vivenda ajardinada na aldeia, uma casa utilisada no serviço da exploração de uma herdade, etc.?
“Supponhamos, porém, que se aplainem essas difficuldades. Pois não se percebe o inconveniente, que haveria, em limitar os emprestimos unicamente aos bens ruraes? Nos primeiros annos os pedidos de emprestimos viriam com extrema lentidão. Sabe-se, com effeito, quão difícil é fazer penetrar no campo a idéa das vantagens oferecidas pelas instituições de credito. Por
toda parte onde se teem creado sociedades de credito real, os proprietarios das cidades são os primeiros a comprehender os serviços que ellas podem trazer, e os primeiros a aproveital-os. Não é, certamente,
esse o fim final de instituições taes; mas, emquanto não acodem os emprestimos ruraes, a sociedade faz transações, adquirindo assim o credito de que mais tarde os campos aproveitarão.
“E não ha, demais, notaveis serviços que prestar tambem á propriedade urbana? Por que excluil-a do beneficio de uma instituição que assume o título geral de credito immobiliario? E’ assim que, em toda a parte onde se teem fundado sociedades desta especie, na Allemanha, na Hespanha, na Polonia e na França, ellas teem estendido as suas operações a todos os
11
primeiros annos, sobre construcções urbanas do que sobre immoveis ruraes, acabaram por comprehender que os emprestimos desse instituto sobre edificações cooperam poderosamente para o elevar á situação financeira que hoje ocupa. E’ essa situação que, assegurando ás suas
obrigações um credito de primeira ordem, allivia, pelo seu curso estavel ao par em tempos normaes, os onus que o emprestimo impõe aos proprietarios agricolas.
“Restringir, logo, a garantia de juro às obrigações emittidas sobre emprestimos ruraes, seria constranger a sociedade, que se fundasse, a reduzir as suas operações; seria, por consequencia, paralysar-lhe o desenvolvimento e prejudicar-lhe o credito de modo tão serio, que, apezar do meu firme desejo de ver estenderem-se aos campos os beneficios deste systema, eu não aconselharia nunca a um grupo financeiro que se submettesse a semelhante clausula.”
(...)
Superiores são de certo os direitos da agricultura a todos os outros, em materia de credito hypothecario, attenta a primazia dos interesses nacionaes que com ella prendem. Mas nem por isso é licito esquecer o papel notável, essencial, que toca a essa especie de credito em relação ao desenvolvimento da propriedade urbana, e os beneficios que esse ramo do commercio bancario é destinado a grangear, por este lado, ao paiz.
Quanto não deve, nesta parte, a França ao seu Crédit Foncier? Um dos livros mais recentes sobre o assumpto assignalava, ainda o anno passado, esses grandes e insuppriveis serviços, cuja ausencia teria prejudicado em proporções incalculaveis a expansão do progresso naquella nacionalidade. “Importantes serviços”, diz o autor desse estudo, “tem prestado o Crédit Foncier aos departamentos e municipios. O modo do emprestimo a longo prazo, amortizavel por anuidades, adapta-se particularmente bem ás precisões e aos recursos dessas collectividades. E' menos oneroso para ellas do que os emprestimos a longo termo, contractados com particulares.
Grandes obras devem a sua consumação a esse concurso do Crédit
Foncier. É graças aos adeantamentos feitos por elle sobre os bons de delegation que Pariz se transformou completamente sob a administração
de Hausmann, abrindo-se novas ruas, espaçosas, amplas, que levaram ar e luz ao coração da cidade. Não fallando nos trabalhos, que aformosearam a capital, muitas são as communas que devem a emprestimos contrahidos nesse estabelecimento a construcção de casas de camara, edificios escolares e templos.
(...)
O (...) argumento allegado pelos propugnadores da lei de 1875 consistia na inconveniencia de distrahir, a beneficio da propriedade urbana, uma parte mais ou menos avultada dos recursos da companhia, desfalcando assim, sem utilidade, os estabelecimentos ruraes do capital que elles demandam. Mas esta observação quando pudesse proceder a respeito de um estabelecimento dotado de quarenta mil contos de capital, não colheria em relação a um, como este, cujo capital se eleve a cem mil contos, com a faculdade, ainda em cima, de ampliar-se ao dobro. Em uma emissão hypothecaria de um a
dous milhões de contos cabem, e caberão evidentemente, por muito tempo, as necessidade de credito da nossa propriedade rural e urbana, e não será lesão á primeira o quinhão do cabedal bancario applicado em auxiliar a segunda”. (BARBOSA, 1890, grifos meus).
12 crédito hipotecário oficial. Não apenas como lastro para a obtenção dos empréstimos mas inclusive como destino dos recursos, previstos para serem empregados não só em atividades tipicamente urbanas, como principalmente na sua produção material.
Além disso, servindo oficialmente como garantia para a obtenção de recursos financeiros, a propriedade imobiliária urbana, ensejou um movimento no qual a riqueza nela imobilizada podia passar a operar como um equivalente de capital, marcando a passagem de um contexto em que se constata a realização de simples negócios com imóveis (compra venda, aluguel, arrendamento) para um contexto que implicava mediações mais intrincadas, que lhe concediam maior mobilidade e potencial para ser empregada como capital, o que permitiria o desenvolvimento da indústria, por exemplo.
A proposta republicana, em contraposição, àquela feita sob Império, visava a uma valorização do urbano, ao mesmo tempo em que este era condição necessária imposta pelo capital estrangeiro para a injeção de recursos creditícios na praça brasileira.
Na mesma preleção já mencionada, Ruy Barbosa pondera que:
“(...) [há os] que imaginam que a organização geral do crédito hypothecario pode cogitar em viver da propriedade existente, dos valores já consolidados e immobilizados hoje na terra, na agricultura, na edificação urbana. Mas a
grande funcção do crédito hypothecario não é subsistir do que achou feito: é crear a propriedade hypothecavel.
Elle extrae de si, por assim dizer, os seus elementos de vida. (...) Transforma, pela desapropriação e pela edificação, nas velhas cidades, e improvisa pelos processos modernos cidades novas, mediante simplesmente as transacções da hypotheca aperfeiçoada e adaptada à rápida circulação commercial da propriedade immovel, pelos títulos de crédito emittidos como uma espécie de moeda internacional, aceita em todas as praças do mundo. Entre o trabalhador e o solo medeia um obstáculo desesperador: a indigência de capitais de exploração (...). O credito hypothecario supre-lhes essas necessidade, cuja satisfação, desentranhando-se em renda, lhe compensará com usura os sacrifícios adeantados. Entre o architecto, edificador de cidades, entre o hygienista, saneador dos grandes centros populosos, e os seus projetos magníficos em belleza, em utilidade, em opulência, em
conforto, em saúde e vida para as populações urbanas, interpõe-se uma impossibilidade invencível: a escassez do credito. A hypotheca oferece-
lh´o, recebe, em troco das sommas que lhe facilita, a garantia dessas
mesmas creações, que ella vae levantar, e que serão amanhã a retribuição
da sua liberalidade. É assim que se faz o progresso na Austrália, na Nova Zelândia, na América do Norte, na Republica Argentina.
(...) Vemos pensar-se em dar às capitaes desacreditadas pela sua insalubridade, pelo anachronismo da sua edificação, pela insufficiencia da viação que as serve, uma reputação honrosa ao paiz e seductora para o
estrangeiro. E não se lembra senão em impetrar o milagre ao credito do Estado. Mas constitui-se o credito hypothecario e elle dará às emprezas particulares, à iniciativa individual, os meios de transfigurar, de
13 (...)
Não se logrou, até hoje, valorizar a letra hypothecaria, que se arrastará rara, depreciada e infecunda, pagando os agricultores 10 a 12% de premio em empréstimos tão onerosos quanto regateados. É que o capital do paiz não pode empregar-se em valores de juro inferior a essa taxa (...). Da mais alta conveniência será, pois, desentranhá-lo da hypotheca, substituindo-o pelo capital estrangeiro, que o juro de 4 e 5% pode encaminhar copiosamente para o Brazil. (...).
Si, como é de esperar, este projecto se traduzir brevemente em séria realidade, será, depois da lei de 13 de maio, o maior passo dado, entre nós, para a reconstituição da lavoura, o desenvolvimento da colonização e a
transformação da propriedade pelo crédito associado ao solo e ao trabalho.” (BARBOSA, 1890, grifos meus)
A inclusão das propriedades urbanas como fundamento para o crédito hipotecário institucionalizado deve ser entendida como parte da organização de projetos mais amplos e abrangentes, que envolviam tanto os interesses referentes à captação de recursos externos, que não se aventurariam a realizar operações de crédito hipotecário não fosse garantida a valorização crescente dos bens que os fundamentavam.
Também outros interesses estavam envolvidos com a idéia de melhoramentos e valorização do urbano, concernentes à viabilização da imigração, com melhores condições de salubridade, à construção de um cenário civilizado e moderno, em contraposição ao atraso do regime imperial recém destituído. Além disso, tendo em vista a previsão de crescimento de algumas das cidades mais importantes e as conseqüências disso sobre o mercado imobiliário e sobre as oportunidades de exploração de atividades referentes à construção, aos melhoramentos e serviços urbanos, a produção material da cidade criava condições para se obter da propriedade imobiliária a remuneração em forma de juros, lucro e renda, ao mesmo tempo em que a propriedade alimentava a produção da própria cidade.
Todo esse processo de elaboração institucional do registro de propriedade e de hipotecas e de tentativas de captação de recursos no exterior, com a emissão de títulos hipotecários, reforçou uma relativa autonomia formal que caracteriza a propriedade imobiliária no movimento de acumulação. Autonomia que decorre das características de sua inserção social e econômica, que acaba por lhe conferir condições de “(...) captar e transferir riqueza de outros setores da economia da sociedade para integrar circuitos próprios”. Isto porque, embora convertida em produto, a propriedade não deixa de ser, também, suporte das relações de valorização e, portanto, uma necessidade fundamental para a reprodução capitalista (SEABRA, 2003: 334-336).
Segundo Seabra, o processo pelo qual a propriedade fundiária adquire essa autonomia na reprodução das relações de produção estaria intimamente ligado ao
14 2003: 338), por meio de uma “densa rede de negócios que atuava na produção do espaço urbano”.
Já durante o Império, como será visto no CAPÍTULO 4, para o caso da cidade de São Paulo, há uma tendência à constituição de uma rede dessa natureza, ainda que o grau de complexidade por ela assumido possa ser considerado bastante incipiente. A composição dessa tessitura não se deu espontaneamente mas, ao contrário, foi fruto da organização em torno de projetos que visavam a sua fusão, num espectro bastante amplo de ação e de interesses, sobretudo políticos e econômicos, estreitamente associados à propriedade fundiária, à implementação de melhoramentos urbanos e de grandes obras de infra-estrutura (REIS, 2005).
O contexto que a acompanhou, como acabou de ser descrito, a natureza dessa fusão permaneceu fortemente caracterizada pelas práticas ancestrais de troca de favores e a indistinção entre público e privado, em iniciativas que não condiziam com os alvitres de ordem e progresso que integravam o refrão republicano, marcadas pelos privilégios, dilapidação do patrimônio público, especulação e fraudes.
À política monetária e financeira de Ruy Barbosa, que dava fôlego novo ao Encilhamento e que procurava promover investimentos no urbano, com a finalidade de obtenção - e ao mesmo tempo o apoio - de recursos creditícios, associaram-se as ações do Ministro da Agricultura, Francisco Glicério, que fez extensas concessões de terras públicas e contratos para imigração. Privilegiando alguns especuladores, colocava-os como intermediários entre o governo e os imigrantes, que assim perdiam a oportunidade de adquirir terras pelos preços mínimos praticados pelos órgãos oficiais. Glicério não só beneficiou os especuladores com esse expediente, como também os grandes fazendeiros, uma vez que os imigrantes se viam obrigados a trabalhar por mais tempo como assalariados para conseguirem poupar recursos para a compra de terras próprias (SCHULTZ, 1996:90)3.
A respeito das concessões realizadas por Glicério, o Rio News de 17 de março de 1891 publicava:
“É inútil argumentar que o governo provisório (...) poderia fazer muita coisa sobre essa autoridade, mas certamente não o confisco total dos bens públicos, nem a dissipação indiscriminada da receita nacional com especulações como contratos de imigração, privilégios bancários e empreendimentos privados garantidos (...). Por mais (...) que nós pudéssemos querer ocultar os fatos, não se pode negar que esse primeiro ano
3 Além disso, em diversos casos, as terras concedidas eram bastante próximas a áreas urbanizadas,
acabando por servir à especulação imobiliária urbana, como ocorreu no caso de São Paulo, relatado no
15 De acordo com os dados coletados pelo jornal, não menos do que 210
concessões de terras têm sido feitas, o que cobre uma área de 30.691.000 hectares (...) ou 119.887 milhas quadradas – uma área aproximadamente igual á da Grã Bretanha e Irlanda (121.115 milhas quadradas) (...)”. {apud SCHULTZ, 1996:93).
A introdução de imigrantes também passava a ser concedida como privilégio, por meio dos contratos de imigração, que dispensaram a 330 empresários a prerrogativa de admitir, com exclusividade de direitos, nada mais nada menos que 7.078.750 trabalhadores (SCHULTZ, 1996: 93).
Ficava assim, em mãos de alguns poucos agraciados pelo governo, os três fatores fundamentais da equação da produção: terra, capital e trabalho.
Esse caráter, altamente restritivo e concentrador, foi agravado pelo teor profundamente especulativo resultante dessas políticas. O movimento da economia nos anos 1890-1891 caracterizou-se pela fundação de companhias, por empresários de renomada respeitabilidade no mercado, que se dispunham a desenvolver uma determinada atividade, fosse ela bancária, industrial, ferroviária, de serviços urbanos. Sempre que possível, os fundadores procuravam obter uma concessão de terras junto ao governo, para imprimir algum valor intrínseco ao negócio. Em geral, esse direito era repassado pelos organizadores à companhia por um valor irreal, superior ao efetivo, servindo como seu aporte de capital. Em seguida, colocavam à venda ações ao público, precisando dispor de apenas 10 ou 20% de integralização do capital nominal. Desse modo, para uma companhia cujo capital nominal fosse de 10 mil contos, bastavam mil contos em dinheiro para subscrevê-la. A partir desse exemplo hipotético, detalha SCHULTZ (1996:88):
“Os diretores do novo empreendimento abririam suas contas pagando 5% do total emitido, ou 500 contos, ao grupo fundador, que incluía esses diretores. O leitor não deixará de perceber que 5% do capital nominal corresponde a não menos do que 50% do capital integralizado. Para criar um clima favorável para atrair os restantes 90% do capital subscrito, os diretores usariam então os outros 500 contos em dinheiro para adquirir ações da Companhia na bolsa. Consequentemente, o preço das ações do empreendimento aumentaria, atraindo mais o interesse do investidor. Tão logo quanto possível, os diretores chamariam outros 10% ou mil contos, que eles precisavam agora para pagar seus próprios salários e começar as operações. A jovem sociedade precisaria de uma sede, que o grupo organizador venderia à companhia por um valor consideravelmente maior do que o real. Após um semestre em operação, os diretores declaravam um dividendo grande, para aumentar mais o valor de suas ações. Como a companhia não tinha lucros, o dividendo também sairia do capital