A questão central aqui é por que o discurso do Pró-Licenciatura, na medida em que mostrou ser um dispositivo de aprendizagem, não atravessou a prática de educação a distância no programa UAB, aos seus regulamentos e dispositivos? Por que, quando “integrado” materialmente ao programa UAB, não foi reconfigurado e tangenciado pela inovação das TDICs trazidas, fazendo as tecnologias não apenas uma máquina de fazer aprender, mas um aprendizado tecnológico da aprendizagem? Tecnologia digital e saber pedagógico compartilhando um mesmo dispositivo de aprendizagem? Em nossa visão, o Pró- Licenciatura foi interrompido e silenciado pelo Programa UAB porque taticamente manobrado por um conjunto de argumentos da ordem do financiamento público, por uma estratégia de reorganização da gestão da UNIREDE _ que impactou neste financiamento _ e por um corpus de manobras políticas que tornou a Tecnologia digital hegemonicamente definidora de todo o Sistema UAB, responsável pela formação de um corpo de aprendizagem de grande parte dos professores da educação básica. A tática principal utilizada foi primeiro reunir os coordenadores dos dois programas _ UAB e Pró-Licenciatura _ a fim de comunicar, segundo Carvalho (2009), a migração do Pró-Licenciatura para o Sistema UAB. Aqui, o agente de mudança foi a imposição de uma norma, apesar de não a considerarmos um “avatar” do marketing “comercial” da UAB: O Decreto 6.755/2009.
Na ocorrência do decreto 6.755/2009, que ao reestruturar a CAPES, estrategicamente dispôs o Sistema UAB na sua recentemente criada Diretoria de educação a distância (DED), transferindo do MEC/SEED o papel de fomentar o Sistema e com isso, alguma possibilidade de controle por parte da SEED sobre o sistema UAB, retirando-lhe definitivamente a autonomia. O argumento jurídico desta mudança é que a CAPES, como agência que já tinha tradição na área de formação continuada e preparação de pesquisadores para atuar na docência, estaria melhor habilitada para ser um agência que iria aglutinar, além de suas funções tradicionais, a de agência de formação inicial e continuada, presencial e a distância. Na medida em que agregaria, na DED, todos os cursos de EAD ocorridos em IES, sendo o modelo do Sistema UAB adotado para os cursos a
distância, adotaram-se como modelo de avaliação de cursos os critérios originados com base na estrutura da EAD, conforme observado na seguinte notícia divulgada no Portal da CAPES, às 15:05, no dia 02 de novembro de 2009:
A Universidade Aberta do Brasil vai efetuar uma avaliação dos polos do programa Pró-Licenciatura em todo o País. O objetivo é integrar esses polos ao sistema UAB. Os avaliadores visitarão 45 polos, onde verificarão aspectos como infraestrutura, corpo docente, projeto pedagógico, posição geográfica entre outros. Nem todos os polos do Pró-Licenciatura passarão a fazer parte do Sistema. A informação foi dada em reunião realizada nesta quarta- feira (1), na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (UAB/MEC, 2009)52.
Nesta reunião, ocorrida em Brasília, foi informado que a DED/CAPES ficaria responsável pelo gerenciamento do sistema UAB, em que, entre suas primeiras iniciativas, seria a criação de um grupo de discussão que definiria os critérios e parâmetros de avaliação dos cursos. Este grupo se formou com coordenadores UAB, estrategicamente dispostos. Vê-se que quem definiu o que seria considerado nas avaliações foi quem já estava na gestão do sistema UAB e, pela própria constituição dos sujeitos, já é possível compreender a que grupo os critérios favoreceram. Na prática, o decreto que reestruturou a CAPES funcionou como um dispositivo de poder que ordenou o sistema UAB numa outra ordem, em que ocupou a posição de sistema maior que iria controlar, regular e integrar outros sistemas em funcionamento, ditando regras e critérios avaliativos, tendo seus cargos ocupados por quem participava do sistema UAB. Temos aqui um exercício bastante particular do poder: o poder usado como lei e ao mesmo tempo como tática de guerrilha, pois foi por força de lei que o sistema UAB foi realocado para uma secretaria da CAPES, para, de cima de uma instituição que ocupa posição tradicional na produção de educação e pesquisa de qualidade no Brasil, poder funcionar com relativa tranquilidade acadêmica diante das IES. Daí essa necessidade da norma como imposição para validar a normatização jurídica do decreto supracitado, porque este decreto, tanto aplicou-se ao corpus de táticas de incorporação dos cursos e programas de EAD ao Sistema UAB, na forma de convocação por email para realização de reunião em Brasília, como também se
52 Disponível em: <http://www.ciar.ufg.br/v3_ant/index.php?option=com_content&view=article&id=
393%3Aavaliadores-externos-da-uab-visitarao-polos-de-pro-licenciatura&Itemid=94>. Acesso em : Maio de 2012.
resguardou legalmente amparando-se num documento jurídico. Foucault afirma sobre a sociedade normalizadora _ a qual se ampara num tipo de poder que é o de fazer viver ou de criar e manter estratégias de controle da vida – que a norma e a normalidade “pode aplicar-se tanto a um corpo que se quer disciplinar como a uma população que se quer regularizar. [...] A sociedade da normalização é uma sociedade onde se cruzam, segundo uma articulação ortogonal, a norma da disciplina e a norma da regulação”. (FOUCAULT, 2008, p. 190). Esta forma de poder é uma característica fundamental do poder moderno _ o poder que individualiza e que também totaliza _ o que Foucault chama de biopoder.
Porém, o biopoder, é uma espécie de transfiguração do poder, de multiplicação e irradiação aleatória de suas forças, e, portanto, possibilita o funcionamento materializado do poder-saber de muitas formas. Devido a isso, afirmamos que o pró-Licenciatura é um dispositivo de aprendizagem, apesar de não se tornar discurso de verdade no contexto da UAB, porque buscou construir as etapas de implementação como política pública para a formação de professores da Educação Básica, para questões de aprendizagem e identidade docente, dialogando com as diversas entidades, instituições e representantes da rede pública de ensino. Sobre isto afirma ainda que
A complexidade do percurso pode ser observada na necessidade de relatar os movimentos dos sujeitos envolvidos e as suas estratégias que, em alguns momentos, se caracterizavam pelo apoio e colaboração e, em outros momentos, como resistência às propostas apresentadas. A análise desse movimento é fundamental para a nossa compreensão da EAD como uma estratégia governamental para promover mudanças na educação, mudanças essas que perpassam a questão cultural e que aqui foram sinalizadas, a partir das inovações das permanências em relação às categorias fundamentais para a reflexão no campo da EAD: tecnologias, avaliação, projeto político-pedagógico, tutoria e materiais didáticos. (CARVALHO, 2009, p. 138)
No entanto, na medida em que o Pró-Licenciatura dispôs articuladamente aprendizagem, docente, cidadania e cultura, o sistema UAB prometia ser mais, prometia funcionar como uma biopolítica, uma política que organiza de forma mais qualificada dispositivos, executando o que viria ser uma “verdadeira” aprendizagem, uma nova política que iria organizar todos os sistemas de EAD em funcionamento a partir da suposta garantia de fazer aprender a partir da tecnologia digital, considerada menos falível, mais eficiente. Buscando tornar-se
mais eficaz no atendimento de uma urgência – formação de professores em educação básica, o Pró-Licenciatura foi absorvido, segundo CARVALHO (2009) em sua estrutura física, pelo sistema UAB, dispensando-se sua estrutura pedagógica porque a tecnologia digital seria o maior articulador, responsável pela formação de professores da educação básica.
É este caminho, que não é linear, que pretendemos enfocar com a forte inserção das TDICs no centro de todo o sistema UAB e descrever seus efeitos.