Segundo este autor, “[...] os novos estilos sociológicos da ciência são incapazes de entender a ciência” (BUNGE, 1999, p. 146, tradução nossa), porque, para ele,
[e]les nunca nos falam o que faz cientistas serem o que são, suas suposições filosóficas implícitas e normas éticas metodológicas são o que distinguem pesquisas científicas de outras atividades, qual seu lugar na sociedade, e porque a ciência tem sido dessa forma bem sucedida no entendimento da realidade e no subsídio à tecnologia – e desse modo, insucesso em decifrar (desalojar) pensamentos mágicos (Ibid., p. 146, tradução nossa).
Neste ponto, assim como Martins, Bunge parece considerar a ciência como algo que deve ser tomado de partida, sem muito questionamento, o que logo já denuncia seu caráter demarcacionista em defesa de um conhecimento considerado inquestionável (além de, obviamente, superior, no que concerne o acesso, conexão e cognoscibilidade da ontologia).
Ao tratar dos trabalhos de Hessen sobre Newton, acerca da relação da teoria mecânica do inglês com a economia e os processos sociais que caracterizavam a época em que viveu, Bunge questiona:
E por que, se Newton tinha tanto interesse em indústria, como Hessen reclama, ele não desenhou nenhuma máquina ou processo industrial? Por que foi ele um físico teórico e matemático e não um engenheiro? E porque a mesma classe social produziu o ateísta Hobbes e o deista Newton? (Ibid., p. 149, tradução nossa).
Consideramos que os argumentos de Bunge a respeito da relação das teorias de Newton com o contexto social em que estavam inseridas são muito superficiais. Pois se presume que esse estudioso saiba que a engenharia, como a conhecemos, no Ocidente, tem muito a dever às teorias mecânicas de Newton. Embora este não tenha desenhado nem projetado coisas referentes à parte prática da engenharia, não podemos negar que a relação entre força, movimento e massa muito contribuiu para a engenharia nos moldes em que ela se desenvolveu, como um entendimento básico, propedêutico ao pleno exercício desta atividade profissional. Além do que, desde quando grande interesse em algo significa que a “saída” profissional para tentar dar conta daquele interesse (o qual, aliás, pode ser um entre muitos outros, eventualmente mais pujantes para o envolvido, sem contar pressões ou condições de ordem social ou outra presentes) é única ou bem determinada, como Bunge parece supor? Note que não estamos com estas argumentações aderindo necessariamente à leitura e conclusões de Hessen sobre Newton e o desenvolvimento da mecânica. Estamos destacando diferentes facetas da superficialidade da contra-argumentação de Bunge àquelas. Ademais, se não bastassem os contextos históricos, sociais e culturais, há inúmeras idiossincrasias, aptidões específicas, gostos pessoais etc., atuando na escolha e exercício profissional, sem que esta ou aquela tendência, por fim concretizada em uma atividade preferencial, permita deduzir, daí, o maior ou menor interesse do profissional em questão por um ou outro assunto, direta ou indiretamente relacionado ao de sua escolha de trabalho.
Outro ponto a destacar é o fato de que para Bunge, constatar que uma certa época é caracterizada por determinada postura, proibiria o surgimento de outras manifestações em outras áreas. Ora, numa época de ruptura, ainda mais acentuada, nada mais normal do que termos concepções divergentes convivendo.
O autor parece entender a intervenção social na prática científica como se, de forma indubitável, obrigatória, a ciência seguisse os cânones de uma época, sem que tenha espaço
neste processo para as intervenções de agentes individuais. Sobre isso, defende que os sociólogos da ciência, os “externalistas radicais” seguiriam a seguinte máxima: “[...] fale-me em que tipo de sociedade você vive e eu te direi o que você pensa” (Ibid., p. 161, tradução nossa). Discordamos deste entendimento de Bunge acerca da corrente externalista, ou pelo menos não é esse o nosso entendimento do que venha a ser uma discussão sociológica da ciência. Acreditamos, como Foucault (2008), que o particular está presente no universal, e que, embora aquele esteja ligado de forma indissociável a este, apresenta singularidades.
O que se está colocando, de certa forma, como social no processo de desenvolvimento do conhecimento são as outras variáveis a se considerar neste processo. Isso porque até há pouco tempo, o processo científico era sinônimo de um método impessoal, a ponto de nem se considerar que pessoas e demais componentes de natureza humano-ideológica estavam envolvidas, influenciando os resultados de estatísticas, experimentos etc.
Na sua crítica aos sociólogos, Bunge declara ainda: “a escola de Merton peca ocasionalmente em concordar que quantidade pode compensar qualidade e, sendo estruturalista, ele ocasionalmente exagera o poder da matriz social” (Ibid., p. 155, tradução nossa). E prossegue:
Na minha visão, alguns deles têm sido excessivamente externalistas, e têm indevidamente minimizado as singularidades das contribuições de tais homens de gênio como Arquimedes, Newton, Darwin e Einstein. [...] Merton escreve que “cientistas de gênio são precisamente aqueles cujo trabalho enfim pode ser eventualmente redescoberto. Estas redescobertas podem ser feitas não por um único cientista, mas por uma associação de cientistas. Nesta visão, o gênio individual dos cientistas é o equivalente funcional de uma reunião considerável de outros cientistas de vários graus de talento” (Ibid., p. 154, tradução nossa).
Não desconsideramos que tais personagens citados propuseram questões instigantes e incomuns, mas, em concordância com Merton, gostaríamos de lembrar que, na história da ciência, há muitas proposições que não obtiveram êxito, justamente porque não foram retomadas, não foram aceitas pelas gerações futuras, ou mesmo por sua geração. E isso não quer dizer que tais proposições não eram igualmente interessantes, inovadoras e “geniais”. Chamar a atenção para o caráter social da genialidade de um indivíduo não é a mesma coisa que desconsiderar sua capacidade de inovação, de propor coisas novas; trata-se, como se vê, de coisas diferentes.
Neste ponto, gostaria de colocar uma opinião. Não é de se espantar que cientistas da área de exatas temam as questões de natureza social, porque embora estas tenham sofrido uma influência muito forte do positivismo, elas ainda possuem um caráter de imponderável, de não quantificável, tendo um cunho aberto. Afinal, os rituais e manifestações ligados ao caráter social do indivíduo sempre assombraram os homens das chamadas ciências duras. O medo do oculto sempre foi o maior fantasma dos homens das exatas e das naturais, em geral.
Nesse sentido, para Bunge, “[...] a nova sociologia da ciência, particularmente o “programa forte”, reclama que todo conhecimento [...] tem uma essência social – de onde ultimamente não haveria distinção entre essência/contexto” (Ibid., p. 155, tradução nossa). O entendimento deste autor sobre esta questão parece ser muito semelhante aos demais críticos opositores já analisados.
Segundo tal entendimento, o fato de se considerar a impossibilidade de definir uma divisão nítida entre o que é essência no processo científico e o que é contexto – tendo em vista que todo o processo está impregnado de decisões e procedimentos que interferem na proposição final, que não existe nada que não seja humano naquele processo, já que linguagem e tudo o mais depende de um contexto e de uma visão de mundo, são, enfim, práticas discursivas (FOUCAULT, 2008) –, leva esses defensores do realismo, e Bunge em particular, a considerar, meio que de forma descabida, que a sociologia só estaria considerando o contexto, o que seria totalmente sem sentido, já que teorias, proposições e conceitos realmente são criados acerca de algo.
O que se está querendo dizer é que não existe a essência, como comumente é representada. Diferentemente do que se vê em geral, a teoria de forma hegemônica e a história da teoria como algo completar – ou, usando a terminologia de Bruno Latour, a caixa preta e o relato da caixa preta –, aqui se está falando de teoria e história tudo junto, sem separação nem hierarquia. Isso porque a história de uma teoria conhece muito bem o nascedouro daquela ideia!
Para Bunge, não se pode entender o social ao estudar a teoria eletromagnética de Maxwell, concluindo que, portanto, a “[...] ciência natural não é construída à imagem da sociedade e com o objetivo de reforçar a ordem social: ciência natural espera explorar e representar a natureza” (Ibid., p. 161, tradução nossa). E ainda que,
[e]m ambos os campos intelectuais [ciência básica e tecnologia] criatividade é uma propriedade de cérebros, não de grupos sociais. Os últimos podem somente estimular ou inibir a criatividade intelectual. [...] Radicalmente, novas invenções, sejam em tecnologia ou em ciência, são ultimamente por
curiosidade, por paixão de resolver problemas e a alegria de consertar (Ibid., p. 165, tradução nossa).
Mais uma vez o autor nos mostra a sua concepção de ciência, em que esta parece ser feita sem propósito, de modo isento e/ou neutro, ou – se há que se polarizar, então ela parece ser feita – apenas para o bem, para resolver problemas das pessoas, como se ela se processasse quase que fora da vida, num paraíso epistemológico idílico, totalmente independente e a salvo de perturbações ou ingerências espúrias que ameaçariam conspurcar aquela autônoma propriedade criativa dos cérebros. Da forma que o autor expõe, poderíamos muito bem conceber uma ciência atemporal, impessoal, uma entidade separada de tudo, apenas a ciência e seu método para o bem da humanidade – ou eventualmente, quem sabe, até para o mal da humanidade, afinal (ainda mais para quem comunga com o tipo de concepção realista de ciência abraçada pelo autor), sempre pode ocorrer que aquele empreendimento, tido como neutro e puro, possa ser corrompido por homens; contudo, nunca por sua própria essência; o importante para quem defende tal concepção é, acima de tudo, explicitar que a ciência é uma criação em nada contaminada, e muito menos definida ou caracterizada, por contingências históricas, sociais, culturais. Não discordamos que na ciência existe paixão, que ela se reporte à natureza, que seja motivada por curiosidade. Mas defendemos que isso não pode ser utilizado para desconsiderar um caráter subjacente a isso que são as ideologias, os interesses e as diretrizes que a envolvem – e que caracterizam muito de essencial de sua forma de ser, da definição de seus programas de pesquisa, de seus resultados, das convenções que vão definir quais destes serão acatados e quais refutados, da atribuição do valor de verdade etc.
Na sua linha de argumentação habitual, Bunge declara que, “[n]a verdade, se fatos e teorias forem o mesmo, nem o fato pode ser usado para testar uma teoria, e nem a teoria pode ser usada para guiar a busca por novos fatos” (Ibid., p. 174, tradução nossa). Novamente, ele esboça o mesmo (des)entendimento que já discutimos. Ao conceber que fatos e teorias são totalmente separados, ele acredita que o desenvolvimento da ciência se processa num intercalamento de fatos e teorias, ainda dentro de um panorama cartesiano, digamos.
Ele parece entender aquela colocação de Nietzsche – “[c]ontra o positivismo, que para perante os fenômenos e diz: „Há apenas fatos‟, eu digo: „Ao contrário, fatos é o que não há; há apenas interpretações‟” (NIETZSCHE apud ZANETIC, 2006, p. 61) –, como se as teorias fossem tecidas sobre fatos que não existem, o que indica a já comentada impossibilidade de entender que uma coisa está imersa na outra e vice-versa; que não há fatos separados de uma
concepção de mundo, visto que os fatos são recortados e inscritos por determinados grupos humanos, que possuem inevitavelmente idiossincrasias culturais.
A maneira como os fatos são estruturados enquanto fatos já demonstra um comprometimento deles com o meio onde são construídos. Em um determinado estudo, as concepções, suas significações sociais, determinam a forma como o fato é posto. Ou seja, a significação que é dada para um certo tema é que determinará como ele será enquanto fato de estudo, como será estruturado enquanto fato e quais os encaminhamentos de estudo, quais os objetivos se quer alcançar como tal estudo. Portanto, o fato se mostra, realmente, como uma primeira explicação.
A colocação que ele faz de ícones da história da ciência como sendo baseados em fatos – como teoria heliocêntrica, circulação do sangue, teoria eletromagnética e campos, átomos, genes, evolução das espécies etc. (BUNGE, 1999, p. 183 – 184, tradução nossa) –, é mais um indício de que esse autor considera que há descobertas científicas, como se os fatos surgissem de uma dimensão extra-social. Mas, pelo que acabamos de discutir e vem sendo discutido em todo este trabalho, sendo apontado, entre outros, por Feyerabend (2007), Collins e Pinch (2003), Maturana (2001), Latour (2000), os fatos, à medida em que são estruturados, parecem trazer consigo toda uma gama de entendimentos, determinantes ideológicas e bases conceituais que vão gerar a estrutura conceitual do fenômeno. Ou seja, o fato, é o início de toda a conceituação.
Não é de se estranhar que Mario Bunge conceba, assim como Tom Bottomore, que:
[s]e todas as proposições são existencialmente determinadas [como Mannheim usa falar] e nenhuma proposição é absolutamente verdadeira, então esta proposição ela mesma, se verdadeira, não é absolutamente verdadeira, mas é existencialmente determinada (BOTTOMORE apud BUNGE,, 1999, p. 184, tradução nossa).
Realmente, se não se considera a sociabilidade, a base, o substrato que dá legitimidade à teoria, corre-se o risco de, inevitavelmente, cair no total relativismo, como nessa citação de Tom Bottomore. Acontece que, considerando-se a antropologia e demais estudos que abordamos, como aqueles propostos por Joanna Overing, Milton Santos, Michel Maffesoli, dentre muitos outros, podemos ver que a história, o território e as manifestações dos povos que ali vivem, imprimem conhecimentos pelas necessidades, e isso nos faz entender que existem muitas formas de conhecimento igualmente válidas – sendo cada uma as verdades desses povos. Vejo o social como convivência que permeia tudo, o meio, as pessoas etc. O
sujeito e o social são indissociáveis, assim como o sujeito e o objeto. Portanto, considerar que “as proposições são existencialmente determinadas” é um dado da convivência, da consideração assertiva e efetiva das diversas culturas humanas, e não uma regra lógica.
Não obstante, por uma concepção demasiado realista, Bunge continua defendendo que o “[...] Instrumentalismo ou pragmatismo não „trabalham‟ para a ciência porque teorias e experimentos científicos têm como objetivo construções maximamente consistentes, verdadeiras, e relatos profundos do mundo real” (Ibid., p. 189, tradução nossa), expondo que existem linhas “construtivas e destrutivas” em sociologia da ciência (Ibid., p. 204 – 205 tradução nossa) e que os externalistas empreenderam uma “revolta contra a ciência” (Ibid., p. 207, tradução nossa).
Na verdade, o que a vertente externalista da sociologia da ciência quer – pelo menos este é o entendimento que temos e que concordamos, encorajamos e defendemos –, é recolocar a prática discursiva científica – mais uma vez usando a terminologia foucaultiana – em contato com as demais práticas discursivas, revitalizar o debate entre os diferentes saberes, o que inevitavelmente gerará críticas e inadequações recíprocas. Ou seja, recolocar a ciência no embate da vida diária. Nesse sentido, não é de se estranhar que os defensores da ciência como empreendimento fora de questionamento e considerado à parte, considerem que este entendimento, defendido por aquela vertente – e aqui –, é apenas um ataque à ciência.