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Na análise quantitativa, “o que serve de informação é a frequência com que surgem certas características do conteúdo. Na análise qualitativa é a presença ou a ausência de uma característica de conteúdo” num determinado fragmento de mensagem que é tomada em consideração (BARDIN, 2011, p.26).

Esta pesquisa utilizou métodos qualitativos e quantitativos para a constituição dos dados, que, cada qual na sua amplitude e profundidade, complementam-se para apresentar o cenário do uso e do conceito de analogias quantitativas por licenciandos de Biologia e Física. Assim, é possível verificar como a sua apresentação como estratégia didática aos licenciandos colabora com a formação inicial de professores.

Para tanto, são explicados aqui dois tipos de análise que foram utilizadas: a Análise Estatística Descritiva empregada na análise dos questionários e a Análise de Discurso empregada na análise das oficinas de Estágio Supervisionado.

5.2.8.1 Análise Estatística Descritiva dos questionários

Depois que os dados já foram observados, podem-se utilizar análises estatísticas “para mostrar a relação entre variáveis por gráficos, classificados por categorias e medidos por cálculos de parâmetros característicos ou para mostrar a relação entre variáveis” (CHIZZOTTI, 2010, p. 69). A análise dos dados supõe a quantificação dos eventos para submetê-los à classificação, mensuração e análise.

De acordo com Barbetta (2012), o objetivo da Análise Estatística Descritiva (ou Análise Exploratória dos Dados) constitui-se na organização, resumo e apresentação dos dados para que sejam interpretados à luz dos objetivos da pesquisa. O autor afirma que com os dados, adequadamente resumidos e apresentados em tabelas, podem-se observar determinados aspectos relevantes e delinear a estrutura do universo em estudo. “A estatística é a parte da matemática que investiga os processos de obtenção, organização e análise de dados sobre uma

população ou sobre uma coleção de seres quaisquer e através de métodos próprios, permite tirar conclusões e fazer predições” (FERRÃO; FERRÃO, 2012, p. 113).

Depois que os dados foram constituídos e selecionados, ocorre a etapa da codificação. É por meio dela que se agrupam os dados em categorias, atribuindo um código, número ou letra a cada categoria, “transformando o que é qualitativo em quantitativo, tornando mais clara a sua representação” (FERRÃO; FERRÃO, 2012).

Para Bardin (2011), esse é o momento quando se estabelecem quais são as unidades de codificação. Estas podem ser palavras, a frases, expressões ou outras não relacionadas à palavra. Palavra e tema são as unidades de registro mais utilizados. Um tema é uma afirmação acerca de um assunto. É uma frase ou um conjunto de frases por influência das quais podem ser afetadas formulações singulares. Tema é a unidade de significação.

Bardin (2011) recomenda que no texto, sejam transcritos de forma diferenciada os objetos sobre os quais recai a avaliação, chamados objetos de atitude. Estes, geralmente substantivos, são anotados em maiúsculas. Os termos avaliativos com significação comum são anotados em itálico. São termos que qualificam o objeto da atitude. Em Linguística, chamar- se-iam predicados.

A partir daí, inicia-se a análise categorial, onde as unidades de codificação passam pelo crivo da classificação e do recenseamento. Esta técnica “consiste em classificar os diferentes elementos nas diferentes gavetas segundo critérios suscetíveis de fazer surgir um sentido capaz de introduzir alguma ordem na confusão inicial” (BARDIN, 2011, p. 43).

Nesta etapa, os dados são agrupados considerando-se a parte comum existente entre eles. Classificam-se por semelhança ou analogia, segundo critérios previamente estabelecidos ou definidos no processo (MORAES, 1999). “A categorização é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação e, em seguida, por reagrupamento segundo o gênero (analogia), com os critérios previamente definidos” (BARDIN, 2011, p. 147). Os critérios podem ser semânticos, originando categorias temáticas. Podem ser sintáticos definindo-se categorias a partir de verbos, adjetivos, substantivos, etc. “As categorias são rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registro) sob um título genérico, agrupamento esse efetuado em razão das características comuns destes elementos” (BARDIN, 2011, p. 147). As categorias podem ainda ser constituídas a partir de critérios léxicos, com ênfase nas palavras e seus sentidos ou podem ser fundadas em critérios expressivos focalizando em problemas de linguagem (MORAES, 1999). Cada conjunto de categorias, entretanto, deve fundamentar-se em apenas um destes critérios.

O sistema de categorias não é fornecido antes da classificação analógica e progressiva dos elementos, mas justamente resulta desta. “Este é o procedimento por ‘acervo’. O título conceitual de cada categoria somente é definido no final da operação” (BARDIN, 2011, p. 149). Daí, então, é possível realizar o tratamento dos resultados por meio de operações estatísticas.

Operações estatísticas simples (percentagens), ou mais complexas (análise fatorial), permitem estabelecer quadros de resultados, diagramas, figuras e modelos, os quais condensam e põem em relevo as informações fornecidas pela análise. (...) O analista, tendo à sua disposição resultados significativos e fiéis, pode então propor inferências e adiantar interpretações a propósito dos objetivos previstos – ou que digam respeito a outras descobertas inesperadas. (BARDIN, 2011, p.131).

Ferrão e Ferrão (2012) afirmam que, para maior facilidade na verificação das inter- relações entre os dados, compreensão e interpretação, deve-se realizar a tabulação, isto é, dispor os dados em tabelas.

O próximo passo é o da interpretação. Moraes (1999) afirma que a interpretação tem duas vertentes, empregadas juntas ou não, de acordo com o nível de pioneirismo da pesquisa: i) relacionar os dados a uma fundamentação teoria a priori; ou ii) ser construída com base nos dados da análise. Na primeira, a interpretação é feita por meio de uma exploração dos significados expressos nas categorias da análise em contraste com esta fundamentação. Na segunda, a teoria emerge das informações e das categorias. Neste caso a própria construção da teoria é uma interpretação. Teorização, interpretação e compreensão constituem um movimento circular em que a cada retomada do ciclo se procura atingir maior profundidade na análise.

Resumidamente, os questionários respondidos pelas duas turmas de licenciandos de Biologia e pelas duas de Física foram analisados com a metodologia Análise Estatística Descritiva (BARBETTA, 2012). As respostas de cada uma das dez questões foram codificadas, categorizadas e descritas de acordo com uma análise temática e delas foram feitas as interpretações pertinentes com relação à natureza das analogias empregadas e o uso que esses licenciandos fazem delas.

5.2.8.2 Análise de Discurso das oficinas

O discurso se constitui como uma unidade linguística, que, por sua vez, é constituída por uma sucessão de frases. Ele possui características que podem ser analisadas por vários ângulos (MAINGUENEAU, 1998): de um posicionamento (o discurso comunista, surrealista...); de um tipo de discurso (discurso jornalístico, administrativo, romanesco, discurso do professor na sala de aula...); de produções de uma categoria de locutores (o discurso das enfermeiras, das mães de família...); de uma função da linguagem (discurso polêmico, prescritivo’...). Foucault (1969, p. 153 apud MAINGUENEAU, 1998, p. 45) chama de “discurso um conjunto de enunciados que dependem da mesma formação discursiva”. Iñiguez (2004) concebe discurso como um conjunto de enunciados: falados em um contexto de interação, em um contexto conversacional, no qual é possível definir as condições de sua produção.

De acordo com Manhães (2009), analisar significa dividir, logo, a Análise de Discurso (AD) é, na verdade, a desconstrução do texto em discursos, ou seja, em vozes. A técnica consiste em desmontar para perceber como foi montado. Maingueneau (1998) vai mais além e especifica a AD como a disciplina que, em vez de proceder a uma análise linguística do texto em si ou a uma análise sociológica ou psicológica de seu contexto, visa a articular sua enunciação sobre um certo lugar social.

Para se analisar qualquer discurso, deve-se ter em mente que a linguagem nunca é transparente e que as condições de produção têm papel muito importante na formulação dos discursos, com destaque para a ideologia de quem fala e as representações sociais em jogo. Na década de 1960, Michel Pêcheux inicia uma nova vertente de entendimento do discurso quando questiona a transparência da linguagem (ALMEIDA, 2007). “Ele propôs uma forma de reflexão sobre a linguagem que aceita o desconforto de não se ajeitar nas evidências e no lugar já-feito. Ele exerceu com sofisticação e esmero a arte de refletir nos entremeios” (ORLANDI, 2006, p. 7). Pêcheux fala da investigação das relações do descritível e do interpretável ao mesmo tempo em que percorre as formas de se fazer ciência: as sobredeterminantes e as de interpretação.

Só se conhece o real sentido da linguagem de num discurso quando se leva em consideração a natureza dos interlocutores, a situação na qual aquele discurso foi produzido e todo o pano de fundo dessa situação, que é o contexto histórico-social. Essas considerações são as condições de produção (ALMEIDA, 2007). A ideia de condições de produção adveio da Psicologia Social e foi reelaborada, no campo da AD, por Pêcheux para designar não somente o meio ambiente material e institucional do discurso, mas também as representações

imaginárias que os sujeitos do discurso fazem de si. Essas representações se constituem por meio do que já foi dito e do que já foi ouvido (MAINGUENEAU, 1998).

Quando se diz algo, alguém o diz de algum lugar da sociedade para outro alguém também de algum lugar da sociedade e isso faz parte da significação. Como é exposto por Pêcheux, há nos mecanismos de toda formação social regras de projeção que estabelecem a relação entre as situações concretas e as representações dessas situações no interior do discurso. É o lugar assim compreendido, enquanto espaço de representações sociais, que é constitutivo da significação discursiva. É preciso dizer que todo discurso nasce de outro discurso e reenvia a outro, por isso não se pode falar em um discurso, mas em estado de um processo discursivo, e esse estado deve ser compreendido como resultando de processos discursivos sedimentados, institucionalizados. (ALMEIDA, 2007, p.19).

Lugar é um termo que diz respeito à identidade dos parceiros do discurso. Flahault (1978 apud MAINGUENEAU, 1998, p. 93) utiliza lugar para designar de maneira bem ampla os papéis instituídos no discurso, instituindo sobre o fato de que o lugar deve ser pensado como relação de lugares. “Não há palavra que não seja emitida de um lugar e que não convoque o interlocutor a um lugar correlativo”.

Sendo assim, a AD implica em tentar determinar o lugar e as condições de produção dos dizeres e os efeitos de sentido produzidos, isto é, quem, para quem, quando e onde disse, considerando que as posições a serem analisadas são as imaginárias e não as concretas.

A discursividade implica a compreensão de que a mensagem é construída por um emissor que tenta mostrar o mundo para um interlocutor, numa determinada situação, a partir de seu ponto de vista, movido por uma intenção. O emissor, com seu papel ativo no discurso, constitui-se o sujeito da ação social. Para se expressarem, contudo, os humanos têm de respeitar regras e mecanismos linguísticos e se relacionam com códigos e falas já instituídas. Nesse caso, são considerados sujeitos assujeitados (MANHÃES, 2009).

No universo discursivo, isto é, no conjunto dos discursos que interagem em um dado momento, a análise do discurso segmenta campos discursivos, espaços onde um conjunto de formações discursivas estão em relação de concorrência no sentido amplo, delimitam-se reciprocamente. [...] Um campo não é homogêneo: há sempre dominantes e dominados, posicionamentos centrais e periféricos. (MAINGUENEAU, 1998, p. 19).

Em determinados campos discursivos, essas relações podem ser mais ou menos homogêneas. Numa sala de aula, por exemplo, o que se observa é uma interação complementar. Os participantes não se colocam em pé de igualdade, como, por exemplo, na conversação entre

dois camaradas de jogo. Nesse tipo de interação, a diferença entre professor e um aluno é fortemente marcada. Um dos participantes ocupa a posição alta, o outro, a posição baixa (MAINGUENEAU, 1998).

A AD francesa10 caracteriza-se pela “ênfase no assujeitamento do emissor, que se expressaria mediante a incorporação de discursos sociais já instituídos: o religioso, o científico, o filosófico, o mitológico, o poético, ou o jornalístico, o publicitário, o corporativo etc.” (MANHÃES, 2009, p. 306). O discurso é, assim, ideologicamente estruturado e historicamente situado. Segundo Resende e Ramalho (2006, p. 26), “entender o uso da linguagem como prática social implica compreendê-lo como um modo de ação historicamente situado, que tanto é constituído socialmente como também é constitutivo de identidades sociais, relações sociais e sistemas de conhecimento e crença”. É aí que o discurso e a sociedade se modelam e se completam: o discurso é moldado pela estrutura social, mas é também constitutivo da estrutura social.

Os dispositivos de comunicação sócio-historicamente definidos são denominados por gênero de discurso: os fatores diversos, o editorial, a consulta médica, o interrogatório policial, os pequenos anúncios, a conferência universitária, o relatório de estágio, etc. A AD, por relacionar falas a lugares, atribui-lhes um papel central. Essas limitações para a definição de um gênero estabelecem: as circunstâncias temporais e locais da enunciação; o suporte e os modos de difusão; os temas que podem ser introduzidos; a extensão, o modo de organização o status respectivo dos enunciadores e dos coenunciadores (MAINGUENEAU, 1998).

Os coenunciadores comunicam também quando o enunciador fala. Durante os discursos orais, o enunciador pode modificar no curso da enunciação se o coenunciador emite sinais divergentes. O coenunciador se esforça para pôr-se em seu lugar para interpretar os enunciados e influencia-o constantemente por meio de suas reações. Além disso, “todo enunciador é também seu próprio coenunciador, que controla e, eventualmente, corrige o que diz”. A noção de coenunciador inscreve-se perfeitamente na concepção interacional da linguagem, para qual todo discurso é uma construção coletiva (MAINGUENEAU, 1998, p. 22).

10 A Escola Francesa de Análise de Discurso iniciou-se com “um conjunto de pesquisas que, emergindo na metade dos anos de 1960, foram consagradas, em 1969, pela publicação do número 13 da revista

Languages, intitulado ‘A análise do discurso’, e de Analyse Automatique du Discours, de Pêcheux

(1938-1983), o autor mais representativo dessa corrente”. Denunciando a ilusão que tem o sujeito do discurso de estar ‘na origem do sentido’, a Escola francesa privilegiava os procedimentos ‘analíticos’, que desestruturavam os textos (MAINGUENEAU, 1998, p. 70). Estudam, preferencialmente, formações discursivas que apresentam interesse histórico; refletem sobre a inscrição do sujeito no seu discurso; atribuem um papel privilegiado ao interdiscurso.

Para enunciar, o locutor é obrigado a construir para si uma representação de um coenunciador modelo (dotado de certo saber sobre o mundo, de certos preconceitos, etc.).

Numa interação, cada participante traz sua contribuição de forma a responder às expectativas do coenunciador, em função da finalidade da troca e do momento. Existe uma cooperação no discurso. De acordo com Maingueneau (1998, p. 39), o “princípio de cooperação não implica em uma harmonia perfeita entre os interactantes: toda interação é perpassada por tensões. Contudo, mesmo na interação mais polêmica, deve existir um mínimo de cooperação, uma vontade comum de respeitar as regras”. O autor conceitua essa relação de discursos como interdiscursividade. Ao tomar o interdiscurso como objeto, se ultrapassa a noção de apenas entender uma formação discursiva, mas a interação entre formações discursivas diferentes.

Para caracterizar o interdiscurso, a AD baseia-se basicamente em: uma descrição detalhada do fenômeno, conhecendo-se o máximo possível, os sujeitos participantes (emissores e receptores, dialogantes) e as suas condições de produção; codificação dos dados; estabelecimento de tipologias de discurso (quando conveniente); e interpretação.

Nesta pesquisa, foram verificados e codificados os seguintes itens, sugeridos por Gibbs (2009): atos e comportamentos específicos (o que as pessoas fazem ou dizem); eventos (eventos ou coisas que a pessoa tenha feito, geralmente breves e isolados); estratégias, práticas ou táticas (atividades visando algum objetivo); sentidos (ampla variedade de fenômenos no centro de muita análise qualitativa, como conceitos, sentido ou significado, símbolos); condições ou limitações (o precursor ou a causa de eventos ou ações, coisas que limitam o comportamento ou as ações); contexto (o quadro completo dos eventos em estudo).

Benzer Belgeler