Uma questão fundamental no pensamento de Donnellan é que o ator precisa se desprender da primazia do ego. O “eu” costuma ser o mantra do ator bloqueado, pois o excesso de olhar para si mesmo tende a anular o olhar para os outros e para as coisas interessantes que possam estar bem ao seu lado.
Nesse sentido, o encenador inglês faz uma metáfora com as oito patas de uma aranha, para representar oito questionamentos egocêntricos relacionados ao bloqueio. Cada questão decorre de algum temor específico, podendo ser a sua causa e também o seu sintoma. Conheçamos, então, as “patas da aranha”:
‘Eu não sei o que eu estou fazendo.’ ‘Eu não sei o que eu quero.’
‘Eu não sei quem eu sou.’ ‘Eu não sei onde eu estou.’
‘Eu não sei como eu deveria me mover.’ ‘Eu não sei o que eu deveria sentir.’ ‘Eu não sei o que eu estou dizendo.’ ‘Eu não sei o que eu estou interpretando.’ (DONNELLAN, 2006, p. 12, aspas do autor)95
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Tradução nossa. No original: “There is nothing as unpredictable as the past”. 95
Tradução nossa. No original: ‘I don’t know what I’m doing.’ ‘I don’t know what I want.’ ‘I don’t know who I am.’ ‘I don’t know where I am.’ ‘I don’t know how I should move.’ ‘I don’t know what I should feel.’ ‘I don’t know what I’m saying.’ ‘I don’t know what I’m playing.’
Para Donnellan, o ator estará mais ou menos bloqueado dependendo do nível em que essas questões o estejam perturbando. O ator deve, em primeiro lugar, identificar em qual tipo de bloqueio se encontra. Em seguida, poderá recorrer à estratégia mais adequada para dirimir o problema. Isso pode ser feito com a ajuda do diretor, do instrutor, do professor ou do colega de cena.
Ainda que, na presente dissertação, estejamos focados na formação do ator, podemos imaginar que a “metodologia” do alvo também pode ser útil a outros profissionais do teatro. Poderíamos supor que cenógrafos, sonoplastas e maquiadores, por exemplo, também pudessem ficar confusos e travados pelas perguntas das patas da aranha.
A aranha, um dos animais peçonhentos mais temidos pelo homem, aparece como uma feliz metáfora de Donnellan, pois representa bem o que é uma imagem criada pelo Medo. Animais como a aranha, quando se sentem ameaçados, procuram se defender com seu veneno natural e se refugiam num local seguro. O ator, de certa forma, também busca um refúgio seguro quando sente a sua atuação ameaçada. Parafraseando Donnellan (2006), o ator tem como falso mecanismo de defesa refugiar-se em casa. Isto é, o ator foge do mundo exterior, isolando-se de seus parceiros de cena e ignorando as sutilezas do texto e até mesmo da luz, do figurino, da sonoplastia.
O ator que vai para casa é aquele que busca atuar enclausurado em si mesmo, abusando de clichês e cacoetes pessoais, livrando-se das palavras, com tamanha rapidez e sem critério cênico algum, para cumprir logo com a sua obrigação. Ou, por outro lado, em sua fantasia pessoal, isola-se de tudo o mais que compõe a cena e alonga, exageradamente, cada palavra de seu texto, como se pensasse que o seu “eu” é a única coisa importante da peça. Esse tipo de ator julga que quanto mais se pavoneia, mais os espectadores se deliciam com sua atuação falseada. Por isso, o diretor inglês sempre recomenda: “Não vá para casa” (DONNELLAN, 2006, p. 29)96. No teatro, como
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vê Donnellan, precisamos nos predispor à relação efêmera e vigorosa do instante presente, sem temer o erro ou o fracasso.
Donnellan dedica várias páginas de seu livro O Ator e o Alvo para explicar as particularidades de cada uma dessas patas da aranha. No presente trabalho, destacamos a questão “Eu não sei o que eu estou dizendo” (DONNELLAN, 2006, p. 12). No entanto, é bom lembrar, uma aranha ainda pode se movimentar mesmo com uma pata a menos. Podemos pensar, seguindo o raciocínio de Donnellan, que se nos bloqueamos com alguma dessas perguntas do “eu”, acabamos por abrir uma brecha à aranha inteira. Daí por diante, se não tomarmos nenhuma atitude, todas as outras questões também podem passar a nos perturbar.
O bloqueio é, na visão de Donnellan, uma atitude de inatividade: ficamos paralisados. Essa paralisia não está só relacionada ao nosso corpo imóvel no espaço, mas também está vinculada a nossa atitude cênica. O excesso de movimentos afobados e despropositados também pode se caracterizar como uma situação de paralisia cênica. Quando estamos bloqueados, não nos afetamos com nada ao nosso redor, porque não prestamos atenção às coisas que podem tocar nossos sentidos. Enquanto ficamos assim, bloqueados, a aranha vai tecendo sua teia à nossa volta, atormentando-nos com suas interrogações venenosas.
O raciocínio de Donnellan acerca do bloqueio nos faz refletir sobre uma triste realidade: temos o vício de vincular a ideia de sucesso ou de fracasso ao indivíduo e não ao coletivo. Quando tudo vai bem, seja numa peça de teatro ou numa partida de futebol, costumamos dar todos os créditos a apenas um ou a outro indivíduo, desconectando-o do todo.
Com base nessa reflexão, podemos dizer que o ator não deveria desejar destacar-se numa peça, pois “destacar-se”, como o próprio termo sugere, implica uma desconexão, uma independência dos demais. Por outro lado, é natural que o ator almeje atuar bem. Mas, para fazer um bom trabalho, a sua meta não deveria ser “atuar bem”. Não é a ambição pelo sucesso que deveria
mover o ator, mas sim o interesse pelos temas e assuntos que circundam a obra artística, a curiosidade pela relação singular que experimenta com seus companheiros de cena e com o espectador.
Noções como a curiosidade e a singularidade do ator são defendidas por Donnellan (2006) em suas escolhas incômodas, que abordaremos a seguir.