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Toda obra começa e termina por uma oração. (BAZIN, 1957, p.53) 12

A história do monaquismo é um dos temas centrais da historiografia da cultura ocidental, assim como da arquitetura. O mosteiro como metáfora da Civitas Dei, vai estar presente como tema principal em diversas manifestações da arte e da civilização, particularmente a européia. Do mesmo modo, é inegável a influência da Igreja na consolidação da arquitetura latino americana:

“Na América, estratificada hierarquicamente, o ponto de confluência não foi o Estado... foi a Igreja. O idioma e a religião constituíram historicamente os elementos de unificação cultural americana e em torno da Igreja floresceram as artes, a literatura, a filosofia e a própria arquitetura. Em torno do templo como espaço físico concreto se formaram os casarios e por sua vez esse templo era a expressão sublimada dessa mesma população”. (GUTIÉRREZ, 1983, pp.103-104)

A produção artística que foi desenvolvida e realizada no Brasil colonial confirma a maciça influência da Igreja, pois é quase que totalmente religiosa. Não havia no território brasileiro uma tradição cultural própria, “nada de velhas culturas, mas uma população dispersa de índios nômades. Mesmo o negro é trazido de fora; apesar da escravidão a que foi submetido, trabalhou no mesmo sentido que o português, isto é, para conquistar a terra selvagem, para domesticar a natureza virgem”. (PEDROSA, 1981, p.258)

As congregações religiosas foram, portanto, responsáveis por grande parte das construções mais representativas executadas no litoral. Durante o período colonial, estas construções foram edificadas com recursos próprios, muitas vezes de vulto, propiciados por suas matrizes européias, que também lhes forneciam projetos, modelos, orientações e

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O esudo de Germain Bazin – A arquitetura religiosa barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Record, 1956, é a obra de referência pioneira sobre as questões da arquitetura religiosa brasileira durante o período colonial. No que diz respeito à história e aos mosteiros da Congregação Beneditina no Brasil, seu autor contou com a colaboração de D. Clemente da Silva Nigra, monge da Ordem de São Bento e um de seus mais destacados cronistas.

até mesmo os elementos decorativos dos edifícios, tais como pedras, altares, imagens e pinturas, entre outros.

No final do século XVI e durante todo o século XVII, os portugueses eram na maioria das vezes os únicos especialistas na arte de construir e calcular. Conheciam o repertório formal em uso na Metrópole e buscavam introduzi-lo em seus “riscos”, contribuindo assim para a criação de formas artísticas autóctones, de caráter inter-regional. Disso resultou, segundo alguns críticos, uma arquitetura local que em muito pouco se distingue da portuguesa, da qual constitui uma continuação lógica quando não cópia autêntica, e se desenvolveu paulatinamente no decorrer dos séculos, acompanhando lentamente, e com atraso, a evolução artística européia. (VASCONCELLOS, 1997, p. 352-3) Logo, a arquitetura luso-brasileira do período colonial mantém fortes vínculos com os movimentos culturais europeus. Oscila entre o maneirismo e o barroco, influências manifestadas de forma pontual, descontinua e até simultânea, dado o caráter conservador da arquitetura portuguesa na Colônia,... de fundo românico e popular. (idem, ibidem)

Por outro lado, a necessidade de adaptação ao meio ambiente, as dificuldades materiais e o anseio por uma expressão própria foram impregnando de atributos autóctones a arquitetura da colônia, expressão de um modo de fazer daquela sociedade em formação, e não adstritos a um determinado estilo. Por isso, as construções religiosas do período colonial na América, singelas e pragmáticas, acolhiam influências culturais distintas, de origem erudita ou popular, sem que o sentido unitário e peculiar de sua evolução se perdesse. (CAMPELLO, 2001, p. 13)

Os mosteiros beneditinos coloniais seguem a tradição artística e construtiva desenvolvida por essa Ordem religiosa milenar, e contam com um programa arquitetônico próprio composto por cinco elementos principais: a igreja, a sala capitular, o refeitório, os dormitórios e o claustro, que dá unidade ao conjunto. Esse programa arquitetônico é similar aquele utilizado nas abadias européias desde o século XII até o século XVI.

O partido arquitetônico definido pelos beneditinos na baixa idade media, incluía os elementos essenciais da organização em torno aos pátios enclaustrados, um sistema de

vida e economia auto-suficiente e uma tarefa extrativa ou itinerante e mendicante que serviam à propagação da fé. A progressiva consolidação do mosteiro como centro de irradiação cultural (biblioteca, oficinas artesanais, farmácia, enfermaria), foi gerando as pautas de sua complexidade de funções”. (GUTIÉRREZ, 1983, p. 25-35)

Durante séculos, esse programa arquitetônico para mosteiros foi passando por diversas adaptações sem que um novo conceito fomentasse sua transformação. As mudanças eram feitas principalmente nos detalhes, sem jamais afetar a unidade do conjunto. O conceito adotado permanecia invariavelmente o de uma construção em blocos, que juntos formam o claustro. Nesses blocos estão situados a sala capitular, o refeitório, a cozinha e a celas dos monges. Diante deles se encontra o pátio de serviços e, algumas vezes, a residência abacial, o hospital ou enfermaria. 13

Essa postura é evidente nos mosteiros construídos pelos beneditinos no Brasil, desde o século XVI até o século XVIII, período em que se dá a fixação dessa ordem religiosa em nosso território.

Simultaneamente ao processo de construção dos mosteiros coloniais brasileiros, que seguem o padrão medieval amaneirado, já estavam sendo edificadas, na Europa, as abadias barrocas beneditinas – em especial na Áustria, Baviera, Suíça, França e região do Reno. Tratava-se de uma arquitetura nova e atrevida que de forma isolada, mas semelhante, também foi construída na Itália, Espanha e Portugal.

Essas abadias foram edificadas longe das cidades, quase sempre sobre colinas ou penhascos, de onde se dominava todo o território. Formavam um conjunto monumental no qual predominavam as linhas horizontais, acentuadas por um único elemento vertical, a igreja com suas torres e cúpulas. As abadias incorporaram a arte do paisagismo e, com isto, passam a ter seus acessos estruturados em meio a elaborados jardins. Apresentavam também uma importante inovação: a estrutura dos diferentes blocos do conjunto formava agora uma unidade, reunindo e integrando os vários corpos do mosteiro, de modo a facilitar o dia a dia da comunidade monástica.

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A história das abadias beneditinas européias assim como as particularidades de sua arquitetura são minuciosamente estudadas por Wolfgang Braunfels, professor do Departamento de Arquitetura da Escola Técnica Superior de Aquisgrán. (BRAUNFFELS, 1975)

Enquanto adquiriam a forma e a dimensão de verdadeiros palácios, abrigando uma comunidade que procedia da nobreza e da burguesia, os mosteiros europeus vão se convertendo em novos símbolos da perfeição. Sua arquitetura monumental pretendia unificar as ordens do mundo, do estado e da natureza. Essa tarefa ficou a cargo da ornamentação que, no século XVIII, tudo conjugava em movimentos ondulantes e sinuosos. Era inevitável, portanto, a influência e a assimilação da estética barroca na arquitetura monástica praticada no Brasil pelos beneditinos.

Benzer Belgeler