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Logo, sabendo-se que fatores ambientais, como temperatura, pH, tipo de solo, condições de oxi-redução, salinidade e concentração de sulfeto, controlam a formação da espécie química de mercúrio biodisponível, é possível, que dentro de uma mesma espécie, ocorram diferentes concentrações de mercúrio em diferentes locais ao longo do estuário (OLSON et al., 1976; FURUTANI & RUDD, 1980; DRISCOLL et al., 1995; BÔAS, 1997; SILVA-FORSBERG et al., 1999).

O aumento da forçante marinha e redução do fluxo fluvial, devido às modificações nos usos do solo como a construção de barragens, a intensificação da aquacultura, e períodos de chuvas mais escassos devido às mudanças climáticas globais, ampliam o tempo de residência da massa de água continental na região estuarina e, portanto, da mobilidade e reatividade de contaminantes. Contribuindo para a existência de diferenças na concentração de mercúrio ao longo da região

estuarina, podendo se refletir na biodisponibilidade do mercúrio e em sua concentração final nos organismos. As figuras 6.8, 6.9 e 6.10 apresentam gráficos comparativos entre as concentrações de mercúrio total presente em três espécies (Eugerres brasilianus, Litopennaeus vannamei e Callinectes danae) que ocorreram e foram coletadas simultaneamente nas zonas de influência fluvial e na zona de influência marinha.

Figura 24 - Representação gráfica das concentrações de mercúrio total presente na espécie Eugerres brasilianus coletada nas zonas de influência fluvial e marinha.

Figura 25 - Representação gráfica das concentrações de mercúrio total presente na espécie Litopenaeus vannamei coletada nas zonas de influência fluvial e marinha.

Figura 26 - Representação gráfica das concentrações de mercúrio total presente na espécie Callineces danae coletada nas zonas de influência fluvial e marinha.

Os gráficos apresentados demonstraram haver diferença significativa entre as concentrações de mercúrio total presentes nas espécies E. brasilianus (U = 6, p < 0,05), L. vannamei (U = 64, p < 0,01) e C. danae, apesar de não haver um número expressivo de amostras para realizar uma estatística comparativa para essa espécie.

É possível notar, analisando os gráficos, que as espécies coletadas nas zonas de influência marinha apresentaram maiores concentrações. Mesmo existindo uma média de comprimento maior de indivíduos de camarão-branco coletados na zona de influência fluvial, este padrão foi mantido. O padrão de variação da concentração de mercúrio exibida pelo camarão branco (L. vannamei), conforme apresentado em sua curva de bioacumulação (Figura 6.7), sugere fortemente uma maior biodisponibilidade do metal na região sob a influência marinha, onde estes organismos apresentaram taxas de incorporação do mercúrio 10 vezes mais intensas que nos indivíduos coletados na região sob a influência fluvial.

Entre as espécies analisadas, o camarão branco (L. vannamei) destaca- se por serem relativamente sésseis, em comparação a carapeba e ao siri, e, também, assim como outros invertebrados, serem os primeiros organismos afetados na cadeia trófica pela biodisponibilização do mercúrio (FORSBERG & KEMENES, 2006), devido a sua dieta e seu contato direto com a camada superficial do

sedimento, onde se encontra as maiores concentrações de mercúrio orgânico (LACERDA et al., 2012). Permitindo-nos observar, com maior clareza, as diferenças existentes entre as concentrações de mercúrio na zona de influência fluvial e marinha, mesmo havendo uma predominância de indivíduos de comprimento e peso superiores na zona de influência fluvial.

A variabilidade gradual nas características abióticas da região estuarina, como exemplo o gradiente de salinidade, o qual é elevado à medida que se aproxima da costa, zona de influência marinha, contribui, segundo Brandini et al. (2016), para uma variabilidade biogeoquímica das substâncias ao longo da região estuarina, o que poderia explicar a diferença nas concentrações apresentadas pelas espécies nas distintas zonas de influência na região estuarina do rio Jaguaribe. Além das influências de modificações na paisagem, conforme descrito por Dias, Marins e Maia (2013), ao avaliarem o impacto das modificações paisagísticas regionais nas descargas de material particulado e de cobre e zinco particulado, na Bacia Inferior do rio Jaguaribe, verificando uma diminuição no aporte continental devido a construção de barragens, havendo maior retenção de material particulado na região estuarina, principalmente em períodos secos.

Lacerda e Malm (2008), avaliando a influência de atividades antropogênicas na Baía de Sepetiba e variações na reatividade do mercúrio ao longo do gradiente estuarino, perceberam, assim como foi observado através da biota nessa pesquisa, uma variação nas concentrações de espécies reativas de mercúrio ao longo do estuário, com maior porcentagem de espécies reativas na área externa da baía. Demonstrando assim, haver uma relação entre as concentrações de mercúrio ao longo do gradiente estuarino, além de haver maior formação de espécies orgânicas em regiões próximas a zona de influência marinha.

Lacerda et al. (2013) ao avaliarem as concentrações e fluxos de mercúrio entre os anos de 2005 e 2009, em estações secas e chuvosas no estuário do rio Jaguaribe, ambiente de estudo dessa pesquisa, estimaram diferenças de acordo com a localização no estuário, e os resultados de hidrodinâmica indicaram uma presença intensa de água marinha em todo o estuário durante o período seco, o que demonstra a sobreposição do aporte marinho ao fluvial, prejudicado pelas modificações paisagísticas regionais, acarretando um aumento no tempo de residência das massas de água entre os períodos secos e chuvosos, com valores médios de 3,1 e 0,8 dias, respectivamente, com isso havendo maior retenção de

material suspenso, inclusive do mercúrio ligado a esse material, dentro do estuário. Possibilitando assim, maior reatividade e disponibilização para incorporação pela biota, conforme apresentado nos resultados das espécies avaliadas (Figuras 6.8 a 6.10).

Logo, observando todos os fatores ambientais apresentados anteriormente, modificações paisagísticas regionais e a escassez de chuvas da região semiárida, que contribuem para a variação nas concentrações de mercúrio ao longo do gradiente estuarino nesta região semiárida, Lacerda et al. (2012), comparando a efeitos análogos ao que acontecem na região Polar Ártica, desenvolvem a teoria do Paradoxo Ártico, que sugere que esses fatores ambientais contribuem para redução do aporte fluvial, aumentando, assim, o tempo de residência das águas continentais na região estuarina, promovendo alterações químicas nos poluentes, inclusive o mercúrio, podendo se refletir na biota ao incorporar esse metal em sua forma biodisponível. Com isso, analisando os gráficos 6.16, 6.17 e 6.18 é possível observar que as espécies coletadas na zona de influência marinha e que apresentaram maiores concentrações de mercúrio do que as mesmas espécies na zona de influência fluvial corrobora com a teoria proposta anteriormente, e que a redução do aporte fluvial, devido a mudanças climáticas globais e paisagísticas regionais, promovem uma maior concentração de mercúrio dissolvido, potencialmente biodisponível, em zonas de influência marinha.

Benzer Belgeler