Em uma célebre distinção que atravessa todo seu livro – La pensée sauvage – Lévi-Strauss marcava uma didática diferença, para nossa primeira questão, entre o “bricoleur” e o “engenheiro” (LÉVI-STRAUSS, 1962, p.7-50). O bricoleur, explica Lévi-Strauss inspirado pelo pensamento primitivo, é aquele que utiliza os instrumentos a sua volta, que os adapta as suas necessidades, que é capaz de se servir do que o cerca. Prática à qual os problemas do começo absoluto e da totalidade não fazem sentido algum. Já o engenheiro é aquele que busca ser senhor de seu próprio meio, de sua própria linguagem. Nesse intento, o engenheiro é o personagem de um mito, um começo total capaz de, por um ato de vontade, produzir sintaxe e léxicos próprios. Ilusão que ignora que antes de pensar e falar, o eu é pensado pelos mitos e falado pela linguagem. O engenheiro e sua engenharia são exemplos do trabalho do savant, mas como todo mito, eles já se encontram dentro de uma relação de bricolagem. O bricoleur, por outro lado, é mitopoético e, por isso, o engenheiro é uma de suas invenções. O engenheiro é um sujeito, já o bricoleur, a própria dinâmica do discurso mítico. O que há de belo nessa distinção de Lévi-Strauss é que ela sintetiza uma posição de investigação que se quer sem centro, sujeito, ou referência privilegiada de sentido, origem e arché absolutas: “Os mitos não tem autores” (Lévi-Strauss, 1962, p.25). Assim também com o discurso. Mas, como tal estilo impessoal de investigação irá aparecer na arqueologia de Foucault?
Comecemos a perseguir tal questão a partir desta pitoresca citação de Borges que encontramos no prefácio de As palavras e as coisas:
Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que e com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento – do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia – abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro. Este texto cita “uma certa enciclopédia chinesa” onde está escrito que “os
animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas.”
Tal fantástica taxionomia possibilita a Foucault expor seu problema. Pois, indaga de forma astuciosa, em que consiste a estranheza, ou melhor, a impossibilidade de tal classificação? “Não são os animais fabulosos que são impossíveis (...) o que transgride toda imaginação, todo pensamento possível, é simplesmente a série alfabética (a,b,c,d) que liga a todas as outras cada uma dessas categorias” (FOUCAULT, 2007, p.X). A enciclopédia chinesa de Borges, com seus absurdos categoriais, expõe a destruição do lugar de ordenamento do saber, sintaxe de classificação que permite o estabelecimento seguro de operações de identidade e diferença, fundamento para toda organização taxonômica. Não conseguimos nos orientar no pensamento neste caso, pois a série alfabética apresenta-se como pura opacidade: “A monstruosidade que Borges faz circular na sua enumeração consiste, (...) em que o próprio espaço comum dos encontros se acha arruinado” (FOUCAULT, 2007, p. XI). Em outras palavras, a impossibilidade não está nas coisas mesmas, ou em suas denominações – por mais reais ou imaginárias que elas pudessem ser - mas sim em sua vizinhança incompreensível. Como diz Rabinow e Dreyfus, em As palavras e as coisas Foucault irá buscar “(...) o espaço lógico na abertura do qual um discurso de produz” (RABINOW e DREYFUS, 1995, p.56). Esse espaço funciona tal como um plano de consistência para práticas discursivas - falar, classificar e trocar - características de determinadas épocas. É a ordem das coisas que o arqueólogo procura para compreender as descontinuidades históricas no campo das ciências humanas, pois para Foucault os saberes positivos de uma época encontram sua configuração dentro desse espaço relacional do enunciável. O que a enciclopédia de Borges nos lembra, portanto, é como não conseguimos encadear o raciocínio, ou mesmo dizer algo de forma coerente, sem apoiarmo-nos em uma tábua de identidades, similitudes e analogias que nos preexistem e através das quais adquirimos uma forma de pensamento como por hábito.
Mas, “que coerência é essa – que se vê logo não ser nem determinada por um encadeamento a priori e necessário, nem imposto por conteúdos imediatamente sensíveis?” (FOUCAULT, 2007, p.XV). Questão estranha e, a primeira vista, anti- intuitiva. Afinal, nada parece ser mais empírico e evidente que nossas ordens de classificação, ordem que supostamente repousa em uma percepção evidente das coisas e uma linguagem transparente ao mundo. E, porém, basta um olhar desavisado, uma cacofonia momentânea, para que certas figuras sejam reaproximadas, que novas dessemelhanças surjam. “De fato não há, mesmo para a mais ingênua experiência, nenhuma similitude, nenhuma distinção que não resulte de uma operação precisa e da
aplicação de um critério prévio” (FOUCAULT, 2007, p.XV). Com esta suspeita profunda de qualquer empirismo ingênuo, ou do poder irrestrito da representação, uma definição de segmentos e relações, um espaço de antemão entrecortado em semelhanças e diferenças que permite ver as coisas e falar sobre elas se impõe. Circunscreve-se, então, o já aludido problema da ordem das coisas:
A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas, de uma certa forma, se olham entre si e que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é apenas nas casas brancas deste esquadrinhamento que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. (FOUCAULT, 2007, p.XVI)
Foucault define a noção de “ordem” de forma próxima ao estruturalismo. A boa compreensão deste difícil trecho passa pela definição da ordem como “casa branca”. Lévi-Strauss nos lembra de forma rigorosa que os elementos de uma estrutura não têm significação intrínseca e nem mesmo designação extrínseca. Eles têm apenas um sentido que é definido de forma relacional a partir única e necessariamente de sua posição (LÉVI- STRAUSS, 1963). Obviamente não se trata de uma extensão real, mas sim de um topos estrutural: “Aquilo que é estrutural é o espaço, mas um espaço inextenso, pré-extensivo, puro spatium constituído cada vez mais como ordem de vizinhança, em que a noção de vizinhança tem precisamente, antes, um sentido ordinal e não uma significação de extensão” (DELEUZE, 2002, p.225, grifo nosso). Em outras palavras, esse espaço não é uma forma vazia dentro do qual as coisas se encontram, pelo contrário, ele é um espaço constituído e entrecortado por relações entre seus elementos. Por isso, o que importa a Foucault não são as palavras em si, ou as coisas nelas mesmas, mas sim suas vizinhanças, o espaço pela qual elas se refletem e se entrecruzam, sua topologia, suas relações definidas em termos sistemáticos:
“É o espaço do fora (...) espaço no qual nós vivemos, pelo qual somos lançados fora de nós-mesmos, no qual se desenrola precisamente a erosão de nossa vida, de nosso tempo e de nossa história, este espaço que nos tormenta e nos marca é em si-mesmo também um espaço heterogêneo. Dito de outra forma, não vivemos dentro de uma espécie de vazio, ao interior do qual poderíamos situar os indivíduos e as coisas. Não vivemos no interior de um vazio que se colore de diferentes reflexos, vivemos no interior de um conjunto de relações que definem posições irredutíveis umas as outras.” (FOUCAULT, 2001b, p.1575)
Uma arqueologia do pensamento deve ser capaz de nos desvelar essa “região mediana”, heterogênea e impessoal “anterior às palavras, às percepções e aos gestos, incumbidos então de traduzi-la com maior exatidão ou sucesso (razão pela qual essa
experiência da ordem (...) desempenha sempre um papel crítico”) (FOUCAULT, 2007, p.XVII). Tal empreitada, como rapidamente percebemos, é indissociável de uma crítica à posição fundante do sujeito e a conquista de uma perspectiva que recuse a consciência como unidade fundante de toda síntese possível. Daí o confronto polêmico, por parte de Foucault, com a tautologia inscrita no coração da modernidade: o homem.