Inspirada em Nietzsche, a genealogia é a “metodologia” usada por Foucault para estudar o poder, se considerarmos como método um certo
modo de interrogar e um conjunto de estratégias analíticas de descrever o mundo. Ainda sobre essa questão:
Chamemos provisoriamente genealogia o acoplamento do conhecimento com as memórias locais, que permite a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais. Nesta atividade, que se pode chamar genealógica, não se trata, de modo algum, de opor a unidade abstrata da teoria à multiplicidade concreta dos fatos e de desclassificar o especulativo para lhe opor, em forma de cientificismo, o rigor de um conhecimento sistemático. Não é um empirismo nem um positivismo, no sentido habitual do termo, que permeiam o projeto genealógico. Trata se de ativar saberes locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária, que pretenderia depurá los, hierarquizá los, ordená los em nome de um conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de uma ciência detida por alguns. (FOUCAULT, 2010a, p. 171).
O principal objeto de toda genealogia é sempre o poder. Entretanto, não existe em Foucault uma teoria geral do poder. Suas análises não consideram o poder como uma realidade que possua natureza, uma essência definida por suas características universais. O poder é uma prática social e, como tal, constituída historicamente.
A concepção clássica de poder, construída pela Filosofia Política, é algo que se pode chamar de topologia, do grego $ que significa lugar. Numa determinada sociedade há lugares onde o poder se concentra e lugares onde ele não existe.
Na concepção topológica fala se em “soma zero”, ou seja, para que haja o equilíbrio social, a ordem de grandeza positiva de poder concentrado em determinado lugar deve ser igual à ordem de grandeza negativa de poder que falta nos demais espaços sociais. Caracteriza se como uma relação ativo passiva: um ou uns exercem o poder ativamente, enquanto os demais sofrem passivamente a ação do poder exercida sobre eles. Essa concepção topológica refere se a uma perspectiva macroscópica do poder, na qual, através de uma visão geral do território, é traçada a cartografia do poder.
Foucault (2010a), contudo, insatisfeito com tal conceituação propõe uma perspectiva de poder baseada em Leviatã, contra o uno, o aprioristicamente determinado, investigando suas relações sob a ótica oferecida pela microfísica do poder, contrária à noção clássica, que ao tratar da cartografia do poder estaria desvendando a sua macrofísica. Essa questão do micro e macro é deslocada para a questão do regional e nacional na fala abaixo:
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A genealogia do poder, então, age através da análise de regiões tradicionalmente deixadas de lado. A sociedade estaria enredada pelo poder, numa espécie de “tecido de renda”, cujos micronós dariam a feição do tecido social.
Nessa perspectiva já não existe a “soma zero”, pois na microfísica da dinâmica de forças encontram se outras reciprocidades e interrelações permeando os micropoderes particulares. O poder encontra se capilarizado pelo meio social e não concentrado em lugares específicos. Não há poder e não poder, mas múltiplos poderes e contra poderes. E a partir dessa teia microfísica de poderes e contra poderes é que ergue se toda a macroestrutura social.
Essa nova ótica é resultado das transformações pelas quais passou a estrutura das sociedades ocidentais contemporâneas:
Trata se, em suma, de orientar para uma concepção de poder que substitua o privilégio da lei pelo ponto de vista do objetivo, o privilégio da interdição pelo ponto de vista da eficácia tática, o privilégio da soberania pela análise de um campo múltiplo e móvel das correlações de força, onde se produzem efeitos globais, mas nunca totalmente estáveis, de dominação. O modelo estratégico, ao invés do modelo do direito. E isso, não por escolha especulativa ou preferência teórica; mas porque é efetivamente um dos traços fundamentais das sociedades ocidentais o fato de as correlações de
força que, por muito tempo tinham encontrado sua principal forma de expressão na guerra, em todas as formas de guerra, terem se investido, pouco a pouco, na ordem do poder político. (FOUCAULT, 2011, p. 97).
Não podemos conceber o poder de uma forma reducionista, restringindo o apenas e tão somente a repressão, interdição, proibição e lei,
Pois se o poder só tivesse a função de reprimir, se agisse apenas por meio da censura, da exclusão, do impedimento, do recalcamento, à maneira de um grande super ego, se apenas se exercesse de um modo negativo, ele seria muito frágil. Se ele é forte, é porque produz efeitos positivos a nível do desejo e também a nível do saber. O poder, longe de impedir o saber, o produz. (FOUCAULT, 2010a, p.148).
O poder materializa se e deixa de ser essencialmente jurídico, consolidando a necessidade de se buscar um novo olhar para melhor compreendê lo, sendo imperativo que junto à sua face negativa – poder como repressão – seja anexada também a sua face positiva – o poder como fonte de produção social. É a tecnologia do poder.
[...] Captar a instância material da sujeição enquanto constituição dos sujeitos, precisamente o contrário do que Hobbes quis fazer no Leviatã [...], formar uma vontade única, ou melhor, um corpo único, movido por uma alma que seria a soberania [...]. Portanto, em vez de formular o problema da alma central, creio que seria preciso procurar estudar os corpos periféricos e múltiplos, os corpos constituídos como sujeitos pelos efeitos do poder. (FOUCAULT, 2010a, p. 183).
Assim, o poder não está mais no topo, mas na base das relações sociais. É mais fruto da ação e das correlações de força que se concretizam em meio à multiplicidade de indivíduos que se fazem sujeitos justamente através das relações de poder, do que da ação unilateral de um soberano, que exerce despoticamente o poder em detrimento da legião de súditos, rompendo definitivamente com sua concepção clássica como ; uma vez que não se pode concebê lo como materializado num determinado
lugar ou lugares específicos, mas diluído pelo tecido social, em uma espécie de onipresença do poder.
O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca é o alvo inerte ou consentido do poder; são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. (FOUCAULT, 2010a, p. 183).
Dada a complexidade que a multiplicidade de forças traz para o âmbito das relações de poder, essa perspectiva com a qual dialogo afasta se da lógica formal para além do sim e do não, dos binarismos, ou da dialética hegeliana limitada à tríade tese/antítese/síntese. Muitas vezes as correlações não são diretas e imediatas e o esquema clássico de causa e efeito é obscurecido até perder o sentido completamente.
Vejo o poder como a multiplicidade das correlações de forças imanentes ao domínio onde se exercem e que são constitutivas de sua organização. Sua condição de possibilidade, ao invés de vir de um foco único do qual irradiam as linhas de fuga, vem justamente da instabilidade das correlações de força que estão constantemente ensejando novos equilíbrios, novos estados de poder.
Quando o concebo numa certa sociedade, estou vislumbrando a arquitetura particular dessas correlações determinantes em tal sociedade, baseadas nos múltiplos micropoderes que enredam seu tecido nesse momento especifico.
Para compreender todas essas suas implicações, faço uma síntese dos cinco corolários sobre o poder apresentados por Gallo (2004):
1°) O poder se exerce. O que significa dizer que ele não é algo que se conquista, que se possua ou que se perca, mas algo que todos os indivíduos exercem e sofrem, numa força de
coesão que mantém o universo unido.
2°) As relações de poder são imanentes.
O poder é interno a todo e qualquer tipo de relação social, emanado dela, sendo seu efeito imediato. Foucault, nesse aspecto, reage diretamente a Marx: “as relações de poder não estão em posição de superestrutura, em um simples papel de proibição ou recondução; possuem, lá onde atuam, um papel diretamente produtor” (FOUCAULT, 2011, p.90).
3°) O poder vem de baixo.
O esquema do dominador dominado é insuficiente para descrever a relação de poder. A complexidade desse tipo de relação abomina essa dualidade simplista, pois múltiplas são as correlações de forças que atuam numa determinada relação de poder. Examinando microscopicamente é possível verificar que são essas correlações de forças que sustentam os macropoderes que percebemos de forma mais imediata.
4°) As relações de poder são intencionais.
O poder é sempre estratégico, o que equivale a dizer que é guiado por metas e objetivos, obedecendo a uma certa lógica e possuindo uma racionalidade interna que o dirige.
5°) Se há poder, há resistência.
Essa é a condição de sua existência; assim a resistência não vem de fora, não é exterior ao poder, mas faz parte do próprio jogo de sua existência. Um poder só se define em relação a um ou vários contrapoderes – a resistência. A resistência dos contrapoderes obedece às mesmas regras dos poderes, sendo intencional, mas não subjetiva.
Quadro 5 – Síntese dos cinco corolários sobre o poder apresentados por Gallo (2004).
Esses corolários representam a onipresença do poder:
Não porque tenha o privilégio de agrupar tudo sob sua invencível unidade, mas porque se produz a cada instante, em todos os pontos. O poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provem de todos os lugares. [...] O poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada (Foucault, 2009b, p. 89).
Desse modo, a universidade funciona como uma eficiente dobradiça capaz de articular os poderes que nela circulam com os saberes que a engessam e aí se ensinam, sejam eles pedagógicos ou não. De um modo geral, é preciso perceber como algo se tornou verdade para determinado grupo ou sociedade e para uma determinada época, como foi possível formar tal racionalidade, considerando que num dado momento histórico existe um conjunto de regras e princípios que predominam e que possibilitam que certas coisas – e não outras – sejam ditas. Esses jogos de poder e verdade determinam os modos de sujeição que devem operar para que um certo modelo possa prevalecer. O recorte a seguir expõe essa situação:
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Pensar como estamos sendo governados é precípuo para compreender o que vem acontecendo no mundo, em particular nas instituições de ensino e em torno dos seus programas de pós graduação. Reconheço a multiplicidade de configurações que o ensino superior pode assumir, mas reitero que tais configurações desenvolvem se sobre um pano de fundo comum a todas elas, um dispositivo neoliberal estratégico na produção de subjetividades.
Ciente disso, não posso e nem quero contribuir para que a educação continue a ser reduzida a eventuais automatismos institucionais e ideológicos e/ou a procedimentos didático metodológicos. A educação precisa pulsar a sociedade em suas múltiplas configurações e em seus processos vitais de ressignificação, reinvenção e transformação.