No mundo colonial, as relações estabelecidas entre a Igreja e o Estado, foram representadas por um conjunto de direitos e obrigações mútuas que se sobepunham no âmbito da administração do território, materializando concretamente os desequilíbrios e as contradições entre os dois poderes. Unidos intimamente pelo regime do padroado, aos monarcas era permitido estabelecer diretrizes para a estruturação da colônia conforme suas conveniências e desejos, competindo-lhes exercer as funções administrativas das capitanias, fiscalizar impostos, fundar cidades e construir edifícios religiosos. Sob a responsabilidade da Igreja ficaram as normas referentes a essas construções e a propagação dos dogmas cristãos. Administrativamente, a Igreja se organizava, como se viu, segundo dioceses ou prelazias que eram subdivididas em paróquias31, entendidas como delimitações territoriais eclesiásticas de referência
do povo, associadas a um edifício religioso e atuando como uma espécie de distrito.
No Brasil, o status de paróquia ou freguesia dado aos arraiais não se originava da simples divisão de terras ermas, desconhecidas, como poderia ocorrer com as formações das dioceses e prelazias, mas sim com o reconhecimento, a institucionalização por parte do Estado e da Igreja, dos povoados existentes, e, portanto, de regiões habitadas. O procedimento se realizava a partir da elevação de pequenas capelas à condição de matrizes de arraiais “[...] aonde Se acha o mayor comcursso dos moradores por cauza da comviniencia das minas, e lavras donde Trabalhão”32, ou seja, a preferência era
para lugares mais populosos e que potencialmente eram tidos como lucrativos.
Uma vez concedido esse privilégio, os povoados ganhavam uma nova condição religiosa, que poderia se estender além de seus limites e alcançar outras regiões, conforme consta desta Provisão de Goiás, que solicitava assistência a todos
[...] os moradores do Arrayal de Santa Cruz, e os mais da estrada e do caminho de povoado principiando do sitio chamado das Antas incluzive, ate o Riochamado Rio Grande, Freguezes estes obrigados a matris de Santa Anna dos goyazes, e aquelles também Freguezes estes obrigados a matris de Nossa Senhorado Rozario da Meya ponte que huns, e outros se achão distantes da suas Freguezias a saber os Freguezes da Meyaponte secenta legoas, eos Freguezes de Santa Anna muitomais de cem Legoas33.
Duas eram as formas de reconhecimento ou institucionalização de um lugar: colando as capelas34,
confirmando a nomeação de um padre sustentado pelo Estado português, e garantindo recursos para a manutenção das igrejas e administração continuada “[...] com Sacramentosmais promptos”, podendo, enfim, o
29 BNRJ. Goiás. Prelazia. Coleção de escritos de Alexandre de Gusmão. Título 4º, p. 60, Códice: 03,1,023. Sobre a repartição da Prelazia de
Goyazes com os dous Bispados de São Paulo e de Marianna, e da Prelazia de Cuyabá com o Bispado de São Paulo.
30 “Não faltaram evidentemente alguns bispos que protestaram ou simplesmente não se conformavam com as imposições da metrópole, ou tiveram
dissensões com os governantes no Brasil. Alguns bispos foram até chamados a Portugal para prestarem contas de suas atuações ou simplesmente afastados da sede episcopal e exilados”. HOONAERTE, Eduardo. História da igreja do Brasil. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1992. p. 180.
31 Em sentido estrito, a paróquia era uma entidade diocesana limitada, cuja população possuía área determinada e ministros que lhe prestava
assistência espiritual. Mas, numa significação prática, embora menos freqüentemente definida, a paróquia assumia o sentido de um território.
32IPEHBC. Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle, visitador que foi das Minas de Goyaz, (1734-1824). 33 IPEHBC. Idem.
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povo viver “[...] como christaos, ao que o zello de Vossa Excelênciahá de atender paraficarem com grande consolação Espiritual”35; ou encomendando-as, ou seja, capelas de natureza eclesiástica, com párocos nomeados ad
tempus por ordem dos bispos, sempre havendo a possibilidade de serem removidos a qualquer momento, deixando a comunidade sem o socorro dos “[...] SacramentosSenão muitoapenas no tempo da dezobriga quando os seus Reverendos Parochos lhes envião sacerdotes para satisfazerem os preceytos quadragessimaes, ficando vivendo o mais tempo a Ley da natureza, Sem o pasto Espiritual de que necessitão parabem e consolação de suas Almas[...]”36. Em
ambos os casos, as capelas solucionavam gastos da Coroa e atendiam às imediatas solicitações comunitá- rias mediante acordos com os núcleos populacionais que deveriam assumir as despesas adicionais, com a arrecadação de tributos conhecidos como conhecenças, pés-de-altar e esmolas da bacia37. Para Fernando Torres-
Londoño38, no quadro geral da política de colonização portuguesa, as capelas encomendadas se multipli-
cavam inegavelmente mais que as coladas39, apesar dos inúmeros pedidos para colações, que era a condição
mais segura de se obter recursos para a construção de matrizes e determinação de côngruas40 para seus
párocos. Nas capelas encomendadas, diferentemente das coladas, os sacerdotes não eram “[...] selecionados por concursos e nem examinados acerca da doutrina, exigia-se apenas idoneidade moral” 41.
Às novas sedes paroquiais reservava-se o cumprimento de funções básicas, que iam desde a admi- nistração dos sacramentos, da cura das almas ou pastoral, do cuidado com o espaço de oração, com seu decoro e bom comportamento dos fiéis, até a atenção dos párocos para a não consagração de qualquer ermida ou capela sem a autorização do bispo. A paróquia era o espaço por excelência das festas religiosas, eventos que sempre se associavam a uma devoção ou a um momento especial da liturgia católica, como a quaresma ou o advento, organizados segundo um calendário religioso. Mesmo nas pouquíssimas opor- tunidades em que se comemoravam datas cívicas, as festas tinham como ponto alto o ritual religioso.
Não apenas com as atividades relacionadas ao culto e às festas religiosas se preocupavam as paróqui- as. No Brasil, coube também a esses distritos eclesiásticos a execução de inúmeras outras funções em nome do Estado. Em regiões de grandes extensões territoriais que haviam sido desbravadas por entradas e bandei- ras, a freguesia substituía a falta de autoridades e jurisdições civis, transformando-se paulatinamente em espaços burocráticos e mais voltados para as atividades do poder civil. Por intermédio do cumprimento de obrigações religiosas, como o dízimo, o governo português se fazia presente e, no âmbito judiciário, com as corriqueiras devassas. Eram as paróquias, portanto, que se encarregavam da ordem religiosa, civil e legal, como ocorria com a paróquia de Meia Ponte, que se ocupava das capelas filiais próximas à sua matriz e daquelas localizadas em povoados mais distantes que estavam sob sua jurisdição, como Jaraguá e Corumbá (Figs. 31 a 36), os pequenos arraiais de Couros e Guarinos, que, certamente, também almejavam um dia terem o estatuto de paróquia ou freguesia.
35 IPEHBC. 1734-1824. Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle, visitador que foi das Minas de Goyaz. 36 IPEHBC. 1734-1824. Idem.
37 Consistiam as conhecenças numa espécie de dízimos pessoais, cobrados pela obrigação da confissão anual e comunhão pascal e os pé-de-altar, em
ofertas voluntárias por sacramentos administrados. HOONAERT, Eduardo. História da igreja do Brasil. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 284- 286. Já esmola da bacia era “recolhida durante o sacrifício da missa, por ocasião de festas. MORAES, Cristina de Cássia Pereira. Op. Cit., 1999.
38 TORRES-LONDOÑO, Fernando. Paróquia e comunidade no Brasil. São Paulo: Paulus, 1997, p. 59.
39 Contrariando essa posição, que também é a de Hoonaerte, Cristina Moraes diz que em Goiás houve freqüentes preocupações com as colações
de suas paróquias, pois desde “1744, e com freqüência, a Mesa de Consciência e Ordens expediu determinações régias, primeiro, aos bispos do Rio de Janeiro
[...]”. Mas, neste caso, ficamos com as afirmações dos autores Torres-Londoño e Hoonaerte, por considerar ser esta uma estratégia da Coroa
para garantir sua expansão territorial, como vimos no primeiro item deste capítulo. MORAES, Cristina de Cássia Pereira. Op. Cit. , Cap. 2, p. 39.
40 Côngruas eram o sustento financeiro pago pelo padroado por meio da folha eclesiástica. 41 TORRES-LONDOÑO, Fernando. Op. Cit., p. 59.
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Fig. 31 – Imagem da Igreja do antigo Arraial de Jaraguá.
Fotos de Lorena e Carolina Boaventura.
Fig. 32 – Imagem da Igreja do antigo Arraial de Jaraguá.
Fotos de Lorena e Carolina Boaventura.
Fig. 33 – Imagem da Igreja do antigo Arraial de Jaraguá.
Fotos de Lorena e Carolina Boaventura.
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Fig. 34 – Imagem da Igreja do antigo Arraial de Corumbá.
Fotos de Lorena e Carolina Boaventura.
Fig. 36 – Imagem do casario do antigo Arraial de Corumbá.
Fotos de Lorena e Carolina Boaventura. Fig. 35 – Imagem da Igreja do antigo Arraial de Corumbá.
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Apesar de certa resistência da Igreja de criar paróquias sob quaisquer circunstâncias, em Goiás não se verifica os prolongados trâmites burocráticos semelhantes aos que ocorreram para a institui- ção da prelazia. Ao contrário, em relação às paróquias que se ergueram nos séculos anteriores em outros locais da colônia, em Goiás, elas se multiplicaram, paralelamente à formação ou crescimento dos arraiais e aldeamentos, por todo o curso do século XVIII. A primeira paróquia foi criada na circunscrição do sul, quando se elevou à categoria de matriz a capelinha do Arraial de Santana, futura capital Vila Boa. Nesse período, ficaram sob sua jurisdição as filiais de Nossa Senhora do Pilar, de Ouro Fino; Nossa Senhora do Rosário, na Barra e a de São João, no arraial do Ferreiro.
Em 1780, a freguesia de Santana foi dividida em duas, ficando a outra no aldeamento de São José de Mossâmedes, conforme o antigo edital a seguir:
Edital pelo qual o Ex.mo R.mo Sr Bispo deste Bispado do Ro de Janro ha porbem de criar e erigir huma nova
Freguezia Com o titullo einvocação de S. Joze de Mosamedes, desmembrando a e dividindo-a da Antiga freguezia de S.Anna de Goyaz, tu do Como nelle Se contem e declara.
Dom Jozé Joaquim Justiniano Mascarenhas Castello Branco por Mizericordia Divina Bispo do Rio de Janeiro etr.a aos que oprezente Nosso Edital virem, Saude e bem ção. Como nos consta que no Lugar e Aldea de São
Joze de Mosamedes pertencente a freguezia de S. Anna de V.a boa de Goyas deste nosso Bispado Setem
extabelecido huma avultada Povoação de moradores Indios que desprezando a Barbaridade de Sua vida ecustumes Setem Segundo os principios da N.Santa Religião forão Baptizados e estão vivendo em Socied.e
cristam e civil no mesmo Lugar,cuja Povoação inda mais Se podera augmentar aproproção que forem descendo outros, e abrasarem a mesma Santa Religião e estado devida civil: e prezentemente nos fez certo o Ill.mo e Exmo
Senhor Gn.al damesma capitania de Goyas que em Conscequencia das Reaes Ordens, e Piissimas e Liberalissimas
Providencias da Raynha Fidelissíma N.Senhora já se acha Conscignada côngrua Certa de 35$ a favor da fabrica eguizamentos da Igreja da mesma Aldea, duzentos mil r.s alem da Diaria Sustentação que hé na
refferida Aldeã, p.a que haja hum Parocho, que insetáa, demaneira, que não cheguem jamais a experimentar
falta ou detrimento algum no seu Pasto Spiritual como aleas experimentarião Selhes fosem necessario recorre- rem Suas necesidades Espirituaes ao seu Antigo Parocho na capital e Sobredita Matriz de S. Anna de Villa Boa ficandolhe esta distante mais de Sinco Legoas Attendendo Nos atodas estas circunstancias e Justas couzas que ocorrem eao que nos tem propôsto omesmo Rdo Vigro collado actual em N. Prezença convindo voluntaria-
mente na desmembração devizão e ereção da Nova Parochia, na referida Aldea e Povoação de S. Joze de Mosamedes afavor detodos os Indios que nella Seachão moradores uzando da authoridade, edodireito que nos compete, e em conscequencia das Reaes ordens. Havemos porbem de erigir e criar, como pelo prezente Nosso Edital erigimos ecriamos nomesmo Lugar, ePovoação huma nova Freguezia com otitulo e invocação de S.Joze de Mosamedes desmembrandoa edividindo-a da antiga Freguezia de S. Anna de Va. 42
Nessa mesma circunscrição foram criadas outras paróquias ao longo do século XVIII: Senhor do Bom Jesus, no Arraial de Anta, que incluía as de Santa Rita e de Santo Antônio de Amaro Leite, onde viviam 2.600 almas e cuja extensão era de 85 léguas, a maior parte delas no sertão despovoado; de São Miguel, no Arraial de Tezouras, abrangendo um território de 18 léguas e contando com 200 fiéis; de Crixás, com 16 léguas e 2.900 almas; de Nossa Senhora do Pilar, no Arraial de Pilar, que ocupava
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uma área de 12 léguas e tinha uma filial em Guarinos, a três léguas, somando um total 4.600 fiéis; de São José, no Arraial do Tocantins, com as capelas filiais em Santa Rita, Amaro Leite e Nossa Senhora da Abadia do Moquém, cobrindo 11 léguas e onde viviam 4.000 almas; Nossa Senhora da Conceição, no Arraial de Santa Cruz, com 80 léguas de sertão despovoado e onde viviam 1.200 fiéis; de Santa Luzia, no Arraial do mesmo nome, com capelas filiais em Santo Antônio dos Montes Claros, a nove léguas da matriz, e em Couros, distante 24 léguas. Ainda, a matriz Nossa Senhora do Rosário, em Meia Ponte, e suas capelas filiais de Nossa Senhora da Penha, no Arraial de Jaraguá; Nossa Senhora do Rosário do Rio do Peixe, Santo Antônio da Serra Negra e Nossa Senhora da Penha, no Arraial de Corumbá, numa extensão de 32 léguas e com 5.000 fiéis; Nossa Senhora da Conceição, em Traíras, com 5.000 almas e filiais em Água Quente, a oito léguas; em Cocal, a quatro léguas; e em Serra Negra, a 15 léguas (esta pertencente a uma fazenda); freguesia do Descoberto, com a matriz Nossa Senhora das Necessidades; do aldeamento do Rio das Velhas, com a matriz de Santana; Nossa Senhora do Desterro do Desemboque e de São Domingos do Araxá43.
Destas, as três últimas se localizavam na região do antigo Sertão da Farinha Podre, local de freqüentes conflitos fronteiriços com Minas Gerais no Setecentos. Espaço de grande concentração de índios e de poucos brancos colonizadores, suas datas de fundação são de difícil precisão. Mas de acordo com Sampaio44, a paróquia do Desemboque já contava com padres nomeados para o exercí-
cio de suas atividades desde 1768. Para a paróquia de Araxá, o Padre José Correia Leitão, Visitador Ordinário e Vigário Geral da Capitania, redigiu um edital informando que, por sua determinação, um vigário passaria, a partir de 1795, “[...] a celebrar o Santo ofício da Missa e fazer suas funções eclesiásticas para fundar o direito de posseção e jurisdição” 45.
A mais antiga matriz e de maior particularidade dessa região foi a paróquia da Aldeia de Santana, criada em 1750, com recursos do governo, para assistir exclusivamente os índios aldeados que se instalaram ao longo da Estrada do Anhangüera. Inicialmente, foi entregue aos cuidados dos jesuítas, e, com a expulsão deles, essa aldeia e as demais passaram para a Vigária Perpétua, atendidas por clérigos do hábito de São Pedro. A partir de 1776, outros povoados próximos, formados por não índios, também passaram a ser atendidos pela paróquia dessa aldeia.
Do bispado do Pará fizeram parte, entre outras, as freguesias: matriz de São Félix, no arraial de mesmo nome e com as filiais Nossa Senhora do Carmo, distante a três léguas, e Capela da Chapada, a seis léguas; de Natividade, com a igreja de Nossa Senhora da Natividade, e, sob sua jurisdição, a capela do Arraial das Almas, a 20 léguas; a do Carmo, com a matriz Nossa Senhora do Monte do Carmo; da Conceição, com a matriz Nossa Senhora da Conceição da Barra da Palma; das Almas, com a igreja Nossa Senhora dos Remédios e filiais em São Domingos e no Morro do Cha- péu; e as freguesias do Cavalcante e de Flores46.
43 Mapa das freguesias da Capitania de Goiás e suas capelas filiais, as distâncias em que estas estão daquelas, a que bispado pertencem, tudo
averiguado no ano de 1783. In: BERTRAN, Paulo (org.) Notícia geral da Capitania de Goiás. V.1. Goiânia/ Brasília: UCG, UFG, Solo Editores, 1997, p. 93 e MORAES, Cristina de Cássia Pereira. Op. Cit., p. 21.
44 SAMPAIO, Antônio Borges. apud: VALE, Marília Maria Brasileiro Teixeira. Op. Cit., p. 47
45 Livro de Provisões e outros atos das Freguesias da Capitania de Goiás, 1795-1816. apud: VALE, Marília Maria Brasileiro Teixeira, p. 51. 46 Livro de Provisões e outros atos das Freguesias da Capitania de Goiás, 1795-1816. Idem.
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Quanto ao processo de colação dessas matrizes, ao que parece, ele acompanhou as mesmas dinâmicas verificadas em outras regiões da colônia: lentas e tortuosas. Inicialmente, os pedidos eram encaminhados pelos proponentes à Mesa de Consciência e Ordens e, posteriormente, enviados para os bispos das dioceses, para que fizessem uma consulta por escrito ao pároco da freguesia interessada. Esse parecer voltava então ao Bispo e deste, novamente para a Mesa de Consciência e Ordens.
É possível encontrar um quadro geral das condições das paróquias goianas em um documen- to de janeiro de 1768, feito a pedido do governador João Manuel de Almeida e dirigido ao seu Provedor, já que para se conhecer melhor esse território era necessário levantar “[...] as informaçoens das Igrejas com a individuação que a ordem de Vossa Magestade insinuava [...]” 47. Segundo o levantamento,
apresentado em uma lista, acreditava-se que tudo estava exato “[...] e que só se differe [diferia] pouco no numero dos moradores de alguns Arrayais que nunca se pode aviriguar com total certeza em Parochias tão extenças onde mais he a gente que habia pelo campo que a que está nos Povoados” 48.
Na jurisdição do Rio de Janeiro, havia
[...] sinco coladas que são Santa Cruz, Anta, Pillar, chrixas, e São Joze, e as outras as aprezento o Reverendo Bispo que vem a ser a desta Villa, Meya Ponte, Trahyras, e Santa Luzia, mas são as de mayor rendimento de toda a Capitania principalmente a desta Villa, Trahyras, e Meya Ponte, as quaes merecem ser coladas para a grandeza de Vossa Magestade ter com que fazer mercês a Ecleziásticos de distintas Letras e meressimentos [...] 49.
Nos parágrafos seguintes, o documento apresenta ainda recomendações para a não colação da distante paróquia de São Miguel de Tesouras, por encontrar-se despovoada em função da presen- ça de dos índios Caiapó e Xavante nas proximidades.
Na circunscrição pertencente ao bispado do Pará, a lista aponta o quanto a situação dessa região se diferenciava da jurisdição anterior, pois não possuía sequer uma igreja colada e “[...] todas as aprezenta o Reverendo Bispo mas com a differença que as duas principais que são a da Natividade, e São Felix he por aprezentação sua, e as outras que são de tênue rendimento as aprezentão os vigários da vara por faculdade que lhes concede o mesmo Reverendo Bispo ou o Governador do Bispado50. Mesmo diante de tais circunstâncias,
sugeria-se que essas duas maiores, em função de seus rendimentos, pudessem ser coladas, assim como as de “[...] Nossa Senhora do Rozario das Flores e São Felix de Cantalicio da Barra da Palma por serem no Sertão onde há fazendas de gado estabelecidas”51.
Pode-se observar ainda que, além da geografia eclesiástica da região norte da Capitania de Goiás, identificada por um reduzido número de paróquias, suas grandes extensões territoriais estavam relaci- onadas também aos mecanismos que orientavam a formação das paróquias goianas. As fundações
47 AHU. Goiás. Doc. 1534, 1768. Cópia de uma Carta de João Manuel de Almeida. Projeto Resgate Barão do Rio Branco. Goiânia: IPHEBC 48 AHU. Goiás. Doc. 1534, 1768. Idem
49 AHU. Goiás. Doc. 1534, 1768. Idem. 50 AHU. Goiás. Doc. 1534, 1768. Idem. 51 AHU. Goiás. Doc. 1534, 1768. Idem.
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desses territórios da fé se erguiam e se colavam, basicamente, quando os interesses da Igreja se articu- lavam mais estreitamente com a política de colonização da Coroa portuguesa, particularmente na época da consolidação do Tratado de Madri. A lista das paróquias elaborada pelo Cônego Trindade corrobora essa conclusão, quando se vê a constituição de algumas paróquias goianas.
A Freguesia da Sé de Goiás foi criada pelo Bispo do Rio de Janeiro, D. Fr. Antonio de Guadelupe pelos anos de 1726 a 1736.» [...] As Minas de Meia Ponte aparecem no cenário histórico já no ano de 1727, mas só em março de 1732 é que vamos encontrar o Pe José Frias de Vasconcelos, seu primeiro capelão.