O escopo metodológico para a nossa análise, além da teoria sobre a enunciação de Benveniste e da AD de Charaudeau e Maingueneau, também está integrado por aspectos da subjetividade da linguagem propostos por Kerbrat-Orecchioni (1980).
A obra de Catherine Kerbrat-Orecchioni L’énonciation de la subjectivité dans le langage (1980) nos mostra a evolução dos estudos linguísticos de Saussure a Ducrot, passando por Jakobson, Mounin, Bourdieu, Pêcheux e sobretudo Benveniste. Esse
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Às vezes, ele também se esconde de propósito, como veremos, por meio do conceito de pseudotradução, no Capítulo 2.
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passeio teórico tem como objetivo central colocar em evidência os avanços da Linguística. Se, anteriormente, considerava-se a linguagem como um meio de se transmitir uma informação que chegava intocável ao receptor, atualmente os teóricos caminham em outra direção: a comunicação autoriza uma intercompreensão parcial, e não total entre os interlocutores, como se pensava anteriormente. Percebe-se na linguagem uma subjetividade intrínseca, saindo da ilusão da objetividade acerca da linguagem, na qual uma língua é um instrumento perfeito de comunicação indo na direção de uma concepção na qual o locutor imprime sua marca no enunciado. Este locutor inscreve-se na mensagem explícita ou implicitamente e situa-se com relação a ela. Um exemplo que demarca a subjetividade da linguagem é a freqüente ocorrência de mal-entendidos entre interlocutores, pois falar é tentar fazer coincidir duas intenções significantes, o que nem sempre vem a ocorrer devido às características da linguagem atualmente admitidas (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 5-33).
Maria Paula Frota (2000), em seu livro intitulado A singularidade na escrita tradutora: linguagem e subjetividade nos estudos da tradução, na linguagem e na psicanálise, tece a seguinte consideração: “as palavras muitas vezes nos desapontam, isto é, não expressam o que queremos; ou, inversamente, expressam demais, mais do que queremos” (FROTA, 2000, p. 37-8).
Para além de sua função essencialmente pragmática, a tradução possibilita uma reflexão radical sobre a linguagem. Ao contrário da imagem de tarefa simples e fácil, o fazer tradutório esbarra em muitos núcleos intocáveis para a tradução, que é o que nos levou a investigar tal prática, recorrendo a diferentes abordagens teóricas sobre a linguagem, como essa pesquisa vinculada à Teoria da Enunciação.
A problemática da enunciação apresentada por Kerbrat-Orecchioni alcança seu cerne quando a autora analisa o caráter afetivo e avaliativo da língua, expresso por
vocábulos diversos. Como exemplos que decorrem destas elaborações identificamos os que são referenciados por ela, quando aborda os termos “afetivos” e “avaliativos” no que concerne à axiologização (apresentação de juízo de valor) e à modalização (ponto de vista do enunciador).
Quando um sujeito enunciativo encontra-se confrontado ao problema da verbalização de um objeto referencial, real ou imaginário, e que para fazê-lo deve selecionar certas unidades no estoque lexical e sintático proposto pelo código, ele tem basicamente a escolha entre dois tipos de formulações: o discurso “objetivo”, que esforça-se em apagar todo vestígio da existência de um enunciador individual; o discurso “subjetivo”, no qual o enunciador confessa-se explicitamente (“eu acho isso feio”) ou coloca-se implicitamente (“Isso é feio”) como sendo ele a fonte avaliativa da asserção. Exemplo: Num manual de geografia destinado aos alunos do curso elementar, o capítulo sobre “a França” intitula-se “Nossa doce França”. Comparada à fórmula precedente mais “normal” dentro do contexto enunciativo (discurso com pretensões científicas), a segunda fórmula é duplamente marcada subjetivamente: pelo uso do dêitico, que implica ser este um enunciador francês dirigindo-se a crianças francesas (o contexto indicando tratar-se de um “nós” inclusivo); pela utilização do adjetivo afetivo-axiológico “doce”, que enuncia um julgamento de valor, e um engajamento emocional do locutor com relação ao objeto denotado (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 70-1)30.
Conceitos que também são importantes para que o leitor entenda a análise que faremos das traduções e do texto original de Zadig e a presença subjetiva explícita ou implícita do enunciador nestes textos, referem-se às “unidades significantes cujo significado comporta o traço [subjetivo], e cuja definição semântica exige a menção de seu utilizador” (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 73).
A autora inicia sua exposição abordando os substantivos. “A maioria dos substantivos afetivos e avaliativos são derivados de verbos ou de adjetivos” (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 73), como “amor” e “beleza” derivam de “amar” e de “belo”. Acrescenta que “por suas propriedades semânticas, os axiológicos são predestinados a verem-se utilizados ironicamente — ironia esta que consiste em
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As citações da obra L’énonciation de la subjectivité dans le langage foram todas traduzidas pela autora da presente tese.
expressar sob aparente valorização um julgamento de desvalorização” (KERBRAT- ORECCHIONI, 1980, p. 77).
O papel argumentativo é outro traço presente nos elementos axiológicos, como descrito a seguir:
Esta alusão ao papel argumentativo dos axiológicos conduz ao problema mais geral da relação existente entre o seu valor semântico e sua função pragmática; relação esta que aparece no fato de que a frequência dos axiológicos em geral, e suas duas categorias, positiva e negativa em particular, variará de acordo com a visada ilocutória global do discurso que dele se encarrega:
Os axiológicos serão naturalmente mais numerosos nos enunciados com vocação avaliativa do que nos enunciados com pretensões descritivas.
Os discursos com função apologética, como o discurso publicitário cuja visada pragmática consiste em tornar, para melhor vendê-lo, o produto mais atrativo, explorarão massivamente termos elogiosos existentes na língua.
Simetricamente, os discursos polêmicos caracterizam-se pelo fato que visando desqualificar um “alvo”, mobilizam com este intuito numerosos axiológicos negativos apropriados, ou “vitupendeadores” – Por exemplo, nos discursos dos adversários da linguística, o termo “jargão” [...] – e pode-se a este respeito interrogar-se sobre as relações existentes entre os conceitos de “axiológico” e de “injúria” (KERBRAT-ORECCHIONI 1980, p. 78).
O valor argumentativo dos axiológicos é pertinente por nos fornecer ferramentas de análise do conto filosófico e de suas três traduções. Devido à sua visada argumentativa, o texto de Voltaire apresenta elevada quantidade de adjetivos, verbos, substantivos e advérbios expressando juízo de valor. As três traduções oscilam na escala variável quanto ao grau expresso de subjetividade31 dos termos, no texto original e em cada versão traduzida.
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“O eixo de oposição objetivo/subjetivo não é dicotômico, mas gradual [...]: OBJETIVO amarelo pequeno SUBJETIVO bom solteiro Fonte: (KERBRAT-ORECCHIONI 1980, p. 72).
No Capítulo 4, ao expor os termos escolhidos pelas três traduções que compõem nosso corpus, procuraremos verificar em que grau de subjetividade se encontram esses mesmos termos. “Usar axiológicos é, em certa medida, falar de si” (KERBRAT- ORECCHIONI 1980, p. 82), uma vez que a fonte do julgamento avaliativo é o enunciador.
Quanto aos adjetivos, segundo Kerbrat-Orecchioni (1980, p. 84), podemos distingui-los em várias categorias, como exemplificado no seguinte esquema:
Esquema 4: Os adjetivos segundo Kerbrat-Orecchioni32 Fonte: (KERBRAT-ORECCHIONI 1980, p. 84).
De acordo com este esquema os adjetivos subjetivos33 assumem um contorno afetivo quando
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O adjetivo axiológico bien, pode ser traduzido em português por bem em “Je me sens bien / Eu me sinto bem (em boa saúde)”, por belo/bonito em “Je le trouve bien / Acho-o bonito”; distintos/comportados como em “Des gens bien /Pessoas distintas”. Adv ou adj invariável.
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Os adjetivos afetivos e axiológicos têm muito em comum, “por mecanismos psicológicos de Objetivos Subjetivos Adjetivos Afetivos Chocante Engraçado patético Avaliativos Não axiológicos Grande Longe Quente Numeroso Axiológicos Bom Belo Bem
[...] enunciam além de uma propriedade do objeto por ele determinado, uma reação emocional do sujeito falante face a este objeto. Na medida em que ele implica um comprometimento afetivo do enunciador, em que ele manifesta sua presença no seio do enunciado, eles são enunciativos34 (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 84, grifo nosso).
A expressão “o cruel assassinato” denota uma marca de enunciação, ou seja, o enunciador manifesta seu sentimento de horror diante do fato expresso. Nesse exemplo visualizamos que o adjetivo qualifica o objeto do qual se está falando e a reação emocional do sujeito que enuncia o fato (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 84-5). Em “assassinato cruel”, há uma perda emocional do adjetivo cruel. Em “a pobre casa de uma mulher pobre”, a anteposição denota sentimento de comoção do locutor, ao passo que a posposição, uma constatação mais objetiva, dedutível através dos sinais visíveis de pobreza concreta, no caso, uma propriedade do objeto, conforme citação acima: “A anteposição de um adjetivo o carrega frequentemente de afetividade” (KERBRAT- ORECCHIONI, 1980, p. 85).
No caso dos adjetivos avaliativos não axiológicos, como quente, frio, alto, baixo, não há juízo de valor, apreciativo ou depreciativo. Ao passo que os avaliativos axiológicos, tais como, “belo/feio”, “bom/mau”, por expressarem juízo de valor são duplamente subjetivos. Por este motivo é que estes adjetivos são evitados em textos “científicos”, onde os avaliativos não axiológicos proliferam devido à sua subjetividade menos evidente. Todorov (citado por Kerbrat-Orecchioni) explicita que:
[...] aquele que diz “este livro é belo” traz um julgamento de valor e introduz-se por isso mesmo entre o enunciado e seu referente; mas aquele que diz “esta árvore é grande” enuncia um julgamento do mesmo tipo, embora menos evidente, e nos informa, por exemplo, sobre seu próprio país (TODOROV apud KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 91).
participação emocional e de (des)valorização”. Há casos de termos que pertencem às duas classes, tais como “admirável”, “desprezível”, “irritante”, etc (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 85).
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Procurando marcas da visada argumentativa nos capítulos de análise, nos valeremos dos adjetivos afetivos e axiológicos, uma vez que a argumentação dá-se tanto por julgamento racional (+axiol) quanto por captação afetiva (-axiol/ +afetivo).
Um aspecto importante a ser observado nos adjetivos axiológicos são as marcas da enunciação muito mais fortes nas palavras que denotam atitude pejorativa do que naquelas que denotam valoração. Comparemos os seguintes exemplos:
Exemplo 1:
X é mais feio que Y (mais fortemente marcado) x é feio
y é feio Exemplo 2:
X é mais bonito que Y (mais fracamente marcado) x é bonito
y pode não ser bonito
Podemos depreender destes exemplos uma certa dissimetria entre os adjetivos negativos e positivos, sendo os primeiros mais marcados e os últimos apresentando maior elasticidade semântica, pois nem sempre são capazes de exprimir uma ideia de superioridade com relação ao aspecto que está sendo avaliado, pois estas comparações positivas são mais nebulosas e permitem um maior grau de sutileza. Por ter esta característica, os adjetivos positivos são mais utilizados nos enunciados que visem uma maior polidez, o que facilita ao enunciador não fazer afirmações grosseiras e taxativas (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 98).
Esta autora prossegue na sua exposição dos vocábulos subjetivos tratando dos verbos. Como as outras duas categorias, os verbos podem ser considerados subjetivos, embora seu grau de subjetividade dependa de fatores mais complexos que os adjetivos e substantivos. A análise da subjetividade dos verbos depende de:
1. Quem tece o julgamento avaliativo. Se for o locutor (L0) o verbo é
mais marcadamente subjetivo. Por exemplo, em berrar35, o
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locutor dá a entender o seu incômodo pela escolha de um verbo que exprime uma ação desagradável. Se for um actante do processo (x), como em “Eu desejo que p”, o verbo é menos marcadamente subjetivo pois quem está se expressando é o actante do enunciado.
2. Sobre o quê incide a avaliação: pode ser sobre o próprio processo, por exemplo “x está berrando”. Todos os verbos deste tipo são intrinsecamente subjetivos. Se a avaliação incidir não sobre o processo como um todo, mas sobre o objeto do processo, esta pode ser sobre uma coisa ou um indivíduo “x detesta y” ou sobre um fato expresso por uma proposição encaixada “x deseja que P”. 3. A natureza do julgamento avaliativo pode estar no domínio do axiológico (bom/ruim) ou ser um problema de modalização (verdadeiro, falso, incerto) (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 101).
Os critérios acima permitem classificar os verbos em dois tipos:
a) Verbos ocasionalmente subjetivos. Eis alguns exemplos: temer, esperar, amar, desejar, querer, detestar, pedir, perguntar, dizer, parecer, ter a impressão, etc.
b) Verbos intrinsecamente subjetivos. Tais como: berrar, feder, conseguir/fracassar, recair, reincidir, merecer, arriscar, confessar, fingir, lamentar, negar, mentir, suportar, etc.
Dos três eixos que definem o grau de subjetividade dos verbos, distinguindo verbos que são intrinsecamente subjetivos daqueles que o são ocasionalmente, o mais pertinente é o primeiro, isto é, aquele que atribui a avaliação feita pelo verbo ao agente do processo ou o sujeito enunciador (KERBRAT-ORECCHIONI, 1980, p. 100-17). Ao inscrever-se no enunciado, o locutor imprime ao verbo sua marca subjetiva, tornando este verbo intrinsecamente subjetivo.
O estudo dos verbos nos levou ao aspecto da modalização, que está radicalmente associada à classe dos advérbios. Quando um enunciador utiliza termos tais como “realmente, talvez, de fato ou provavelmente”, ele está denunciando o seu grau de adesão (forte, incerta ou oposta) ao conteúdo enunciado. Em “Provavelmente, Pedro virá”, o locutor está querendo dizer “(Eu) acho provável a vinda de Pedro”.
As considerações quanto às quatro categorias morfossintáticas nos auxiliam a detectar nos enunciados de Zadig marcas dos enunciadores, tanto no texto original quanto nos textos traduzidos, e as possíveis marcas de subjetividade do tradutor, que influíram na construção textual dos enunciadores. Nossa metodologia de análise consiste no cotejamento dos textos sob o prisma dos conceitos de Charaudeau e Kerbrat-Orecchioni aqui expostos.