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Conforme as orientações resultantes da citada Conferência de Tbilisi, a educação ambiental para o meio rural deve contribuir para a conservação e a exploração racionais da terra, das riquezas florestais, recursos hídricos etc., como também para a melhoria das condições de vida de seus habitantes, proporcionando o desenvolvimento socioeconômico e cultural, além de favorecer o contato entre os diversos segmentos da população (Brasil, 1997).

Em suma, a educação ambiental deve favorecer para o fortalecimento do espírito crítico, para que as pessoas apóiem as medidas ambientais que realmente atendam às suas necessidades e ao desejo de melhorar a qualidade do meio ambiente e da sua própria existência.

Pelicioni (1998) aponta que, segundo a concepção construtivista de ensino-aprendizagem, as intervenções educativas devem ser estruturadas a partir dos conhecimentos apresentados pelos educandos, os quais serão os fundamentos da construção de novos conceitos, abordagens ou habilidades.

Na educação ambiental, a autora3 enfatiza a necessidade de trabalharem-se as intervenções educativas de forma participativa, processual, interdisciplinar, tendo como base tripé composto pela construção de conhecimentos, desenvolvimento de

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PELICIONI, A. F. Palestra intitulada “Educação ambiental com estudantes: percepções e práticas ambientais”, proferida no I Curso de Educação Ambiental, realizado em 24/04/98, em Botucatu-SP, e promovido pela UNESP e Prefeitura Municipal de Botucatu.

habilidades e reforço de valores éticos e afins, com vistas à consecução de práticas ambientalmente sustentáveis.

Pelicioni chama a atenção para a última conferência internacional de educação ambiental, a Conferência Internacional Ambiente e Sociedade: Educação e Sensibilização do Público para a Sustentabilidade, realizada em Tessalônica (Grécia), em 1997, na qual se enfatiza que o conceito de sustentabilidade deve abarcar não só o meio ambiente como também a pobreza, o assentamento, a saúde, a segurança alimentar, a democracia, os direitos humanos e a paz. Resulta assim, em um imperativo moral e ético, no qual a diversidade cultural e o conhecimento tradicional devem ser respeitados.

Para que isso ocorra, a Declaração ressalta ainda a necessidade de reconhecer-se que a educação e consciência pública adequadas constituem os pilares da sustentabilidade, junto com a legislação, a economia e a tecnologia, requerendo a coordenação e integração de esforços em numerosos setores fundamentais e uma mudança rápida e radical de condutas e estilos de vida, incluindo-se os padrões de produção e consumo.

O trabalho de educação ambiental com as comunidades indígenas, diante do processo por elas vivenciado na fricção interétnica, tem o papel fundamental de possibilitar o resgate de seus valores sócioculturais, quando necessário, e de estimular sua participação consciente na proteção do meio ambiente em seus territórios. Para tanto, deve-se procurar ampliar a compreensão por parte dessas comunidades, de forma reflexiva e problematizadora, a respeito das interrelações entre o meio ambiente e a qualidade de vida nas atuais circunstâncias, caracterizadas por novos elementos, promovendo o intercâmbio de seus conhecimentos, com o objetivo da sustentabilidade.

Pelicioni (1996) registra que perfil semelhante de trabalho ocorreu em 1994, durante o Primeiro Curso de Capacitação de Agentes Indígenas de Saúde, promovido pela Fundação Nacional de Saúde, Coordenação Regional de São Paulo-SP, e a Fundação Nacional do Índio, Administração Executiva Regional de Bauru-SP, que possibilitou aos educandos, das etnias Guarani, Terena, Kaingang e Krenak, identificar alternativas e suscitar ações de intervenção em questões específicas como agricultura, saúde, saneamento básico, destinação de lixo e outras, a partir do levantamento de seus conhecimentos e práticas diárias, hábitos alimentares, entre outros, e da reflexão crítica sobre as causas da degradação do meio ambiente, que ameaçam a sua qualidade de vida.

De acordo com Moraes (2000), cabe ressaltar que as intervenções educativas junto às comunidades indígenas devem, necessariamente, levar em conta o seu mundo mítico, como é o caso, a título de exemplo, em relação aos Guarani, sobre o Mito do Dilúvio, que foi contado a Curt Nimuendaju pelos Apapokuva-Guarani, no início do século, e relatado por Clastres (1990), demonstrando claramente uma vertente de entendimento de meio ambiente por parte desses povos indígenas: “Eles retomaram o caminho e novamente

questionaram Guyraypoty: - Este lugar resistirá ? Assim respondeu ele aos seus filhos: - Este lugar, dizem, é a montanha que detém o mar. Ela é, dizem, destinada a subsistir. Então, instalaram-se nela.” A referida montanha é a Serra do Mar, a qual se encontra no

ambiente do sagrado entre os Guarani.

Corrobora nessa perspectiva de educação escolar indígena a citação feita por Covizzi (2000)4 de Walter Ong, autor de “Oralidade e Cultura Escrita: a tecnologização da palavra”, em cujo trabalho desponta o fato de que nas práticas orais originárias, a escrita reestrutura o pensamento, pois ocorrem diferenças de mentalidade entre culturas orais e escritas. Uma das características básicas é que os povos de culturas orais são muito mais operacionais e os de culturas escritas são mais conceituais.

Ressalta o autor que o pensamento numa cultura oral está preso na comunicação, daí o relevante papel exercido pela memória. Porém, o fato de serem culturas ágrafas não significa que não pensem, produzem e analisem conhecimentos. A cultura oral é mais agregativa do que analítica, havendo equilíbrio temporal em termos de descarte de memórias, no caso para aquelas que não sejam relevantes para o momento.

Para Pelicioni (2000)5, a educação ambiental é vetor para a melhor abordagem com vistas às transformações políticas reivindicatórias rumo à justiça social, pretendidas junto à comunidade indígena saudável e auto-sustentável, onde de forma participativa na interface com a sociedade envolvente possa exigir direitos e cumprir deveres.

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COVIZZI, L. M. Mesa-Redonda “A’Anga Etê: Pensamento Mítico e Práticas Guaranis e seus Modelos”, Ameríndia 2000, em 02/05/2000, Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Araraquara, São Paulo, Brasil. Comunicação pessoal, 2000.

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PELICIONI, M. C. F. Palestra intitulada “ Educação Ambiental e Comunidade Indígena Saudável”, proferida no Seminário Regional de Desenvolvimento Sustentável em Terras Indígenas, realizado no período de 23 a 27/10/2000, em Agudos-SP, e promovido pelo Dept. de Desenvolvimento Comunitário da FUNAI, em Brasília-DF, em conjunto com o Serviço de Patrimônio Indígena e Meio Ambiente da AER de Bauru – FUNAI.

Dessa forma, continua a autora, o desenvolvimento de ações é estimulado a fim de preparar o indígena para a compreensão dos principais problemas contemporâneos, suas causas e efeitos associados a uma relação equilibrada com o meio ambiente. O conceito de comunidade saudável contempla o uso sustentável dos recursos, promoção do desenvolvimento econômico sustentável, melhoria das condições de saúde, preservação da cultura local, manutenção e reconstrução do ecossistema e melhoria da qualidade de vida, entre outros fatores.

Por sua vez, conclui que uma comunidade indígena saudável, dentro dessas perspectivas, é aquela que detém recursos naturais que lhe permitem a sobrevivência física e cultural, portanto, vida de índio, saudável, como seus ancestrais, por meio de seus usos, costumes e tradições, com direitos garantidos a terra, possibilitando assim, condições dignas de vida para as gerações atuais e futuras.

Benzer Belgeler