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3. ARAŞTIRMA SONUÇLARI

3.16. HİPOTEZ MODELİ VE REGRESYON ANALİZİ KATSAYILARI

A segunda parte de A língua inatingível tem como título a frase: “Pertencemos a uma geração que assassinou os seus poetas”. A nota que a esclarece remete a um artigo de Jakobson, “A geração que desperdiçou seus poetas”, cujo ponto de partida é uma frase

atribuída a Maïakovski: “mortos e pouco me importa se é por mim ou por outrem que eles foram mortos” (apud PÊCHEUX 1981/2004, p. 125)101.

O rigor da análise pêchetiana sobre os desdobramentos políticos da história da lingüística ― desenvolvida nessa segunda parte, mas que não caberia aqui discutir ― nos leva a interrogar a presença insidiosa da primazia da luta de classes na teoria à qual Pêcheux se consagra. É essa posição que parece ser o objeto da análise feita por Milner no último capítulo de “Los nombres indistintos”, publicado em 1983, mesmo ano do suicídio de Pêcheux, e cujo título é “Una generación que se desperdició a sí mesma”102. Falta-nos elementos biográficos mais consistentes que nos auxiliariam no sentido de formular hipóteses mais seguras sobre o destino da aventura teórica de Pêcheux. As análises desenvolvidas por Michel Plon e Maldidier, no entanto, apontam na direção sugerida por Milner — embora essa análise permaneça vaga em relação a nomes e situações, preferindo vaguear em torno das generalidades de uma geração que teria completado seus vinte anos entre 1958 e 1970103.

Para Milner, o traço que unifica essa geração é um “criticismo da urgência”. Nascido da conjunção da doxa com a escassez do período do pós-guerra, esse criticismo toma novas formas a partir da expansão econômica francesa experimentada por essa geração, que busca então “um pensamento que não se reduza à opinião” (MILNER 1999, p. 138). Para esse

criticismo da urgência, “tudo era político”; mas, a partir dessa nova conjuntura, surge um

novo imperativo: “a política devia articular o mais além da urgência — desejo ou liberdade — no mais além da opinião, batizado como verdade” [...] e “ordenada por um discurso de puro simbólico” [...] (ibid, p. 138), ou seja, por uma teoria, articulada em torno de alguns nomes próprios, aos quais se poderiam associar efeitos de grupo. É o estruturalismo francês dos anos 60 e os nomes de Marx e Althusser o que imediatamente nos vêm à mente quando buscamos associar esse contexto à aventura teórica pêchetiana. Ora, segundo Milner, o que se produz na seqüência é uma dispersão. Nenhum cataclismo, nenhuma circunstância política seria suficiente para explicá-la. Simplesmente a dispersão do desenlaçamento de tudo que se enlaçou na tentativa de fazer um todo; apenas os espectros de uma impossibilidade a ser contabilizada pela loucura de uns, pelo silêncio decidido de outros ou pelo fracasso de muitas

101

JAKOBSON, Roman. A geração que esbanjou seus poetas. Trad. Sônia Gonçalves. São Paulo: Cosac Naify, 2006. A frase atribuída a Maiakovski aqui se traduz como: “Mortos – e para mim tanto faz se eu ou ele os matou” (p. 09).

102 “Uma geração que desperdiçou a si mesma”. 103

organizações que se erigiram buscando esse objetivo. Trata-se de uma geração que

desperdiçou a si mesma em seu afã de produzir o um que lhe designa a política, isto é, na

medida em que buscou sustentar-se em uma teoria que asseverava que “tudo é político”. A partir de então, conclui Milner, “’a política não é tudo’ e ‘nem tudo é política’ voltaram a ser enunciados lícitos: ao mesmo tempo, a política voltou a ser de novo disciplina regional, e a ser regida meramente pela oportunidade” (ibid, p. 146). Assim, nos encontramos uma vez mais diante do real do inconsciente e do falhamento ao infinito, nos quais buscamos balizar nossa análise daquilo que falha na aventura teórica de Pêcheux, evocando o potencial traumático do desenlaçamento que a acompanha. Em torno desse impasse, Pêcheux busca articular as saídas. Neste sentido, Milner caminha muito mais decididamente para o lado da psicanálise lacaniana, ali onde Pêcheux parece bloqueado pelas referências marxistas.

A perspectiva aberta pelo último texto de Pêcheux, O Discurso: estrutura ou

acontecimento104 — apresentado originalmente em Illinois, na Conferência “Marxismo e Interpretação da Cultura: Limites, Fronteiras, Restrições”, realizada entre os dias 8 e 12 de julho de 1983 e publicada nos EUA em 1988105 — retoma as referências teóricas que permitem ir de encontro ao acontecimento em torno do qual trabalham as discursividades e da formulação do novo programa de trabalho que então se vislumbra. As discursividades trabalham o acontecimento e sua análise determina as relações que aí se estabelecem, opondo- se à perspectiva anterior de determinação a priori do acontecimento pelas relações que um determinado estado da luta de classes seria capaz de estruturar.

A noção de “formação discursiva” tomada de empréstimo a Foucault pela análise de discurso derivou muitas vezes para a idéia de uma máquina discursiva de assujeitamento dotada de uma estrutura semiótica interna e por isso mesmo voltada à repetição: no limite, esta concepção estrutural da discursividade desembocaria em um apagamento do acontecimento, através de sua absorção em uma sobreinterpretação antecipadora (PÊCHEUX 1983/2006, p. 56).

Em sua primeira parte, o texto explora as várias facetas do enunciado “On a gagné” (“Ganhamos”), com o qual os franceses saldaram a eleição do socialista François Mitterrand à

104

PÊCHEUX, Michel. O Discurso: estrutura ou acontecimento”. 4ª ed. Trad. Eni Orlandi. Campinas: Pontes, 2006.

105

presidência do país em 10 de maio de 1981 e que ganha as ruas do país. Tal acontecimento apresenta-se, ao mesmo tempo, perfeitamente transparente em sua transposição ao espetáculo televisivo e profundamente opaco em suas irradiações laterais. Os vários enunciados que o veiculam na mídia — por exemplo, “Mitterrand é eleito presidente da república” e “A coalizão socialista-comunista se apodera da França” — “remetem (bedetung) ao mesmo fato, mas eles não constroem as mesmas significações (Sinn)” (PÊCHEUX 1983/2006, p. 20). O fato jornalístico dá prosseguimento às confrontações discursivas; ao mesmo tempo, o enunciado “On a gagné” se impõe, dentre outros possíveis, no espaço das ruas, materializando dessa forma “a metáfora popular adequada ao campo político francês” (ibid, p. 21) cada vez mais dominado pela performance e pelo espetáculo. “On a gagné” soa como manifestação de uma torcida de futebol no espaço do acontecimento político, mostrando como a memória trabalha o acontecimento, transpondo-o ao regime do espetáculo. “On a gagné veio sobredeterminar o acontecimento, sublinhando sua equivocidade” (ibid, p. 22). Ele desconstroi a univocidade lógica parafrásica, inserindo-se, por sua materialidade léxico- sintática (um pronome indefinido em posição de sujeito, ausência de complementos, função de realização do léxico verbal, etc.) “em uma rede de relações associativas implícitas [...], isto é, em uma série heterogênea de enunciados, funcionando sob diferentes registros discursivos, e com uma estabilidade lógica variável”. (ibid p. 23). Nem o sujeito do enunciado (“quem ganhou?”), nem seu complemento (“ganhou o quê?”) são evidentes e não serão questionados.

Diante disso, duas “tentações” são distinguidas por Pêcheux para “escapar à questão”: negar o equívoco do acontecimento, “fazendo-o coincidir completamente com o plano logicamente estabilizado das instituições políticas” (ibid, p. 27), ou negar o próprio

acontecimento, como se nada tivesse acontecido, tomando-o como continuidade que nada

muda. A questão que se coloca, e que essas duas alternativas tendem a excluir, é a do “estatuto das discursividades que trabalham um acontecimento, entrecruzando proposições de aparência lógica estável, susceptíveis de resposta unívoca (é sim ou não, é x ou y, etc.) e formulações irremediavelmente equívocas” (ibid, p. 28). Duas formas de apresentação do

objeto discursivo advêm daí: a- o objeto concebido como independente do enunciado que

produzimos a seu respeito; b- o objeto cujo modo de existência parece regido pela maneira com que falamos dele (ibid).

Essa distinção remete a duas formas de conceber o real. A primeira liga-se aos espaços

sua enunciação, sob a falsa aparência de um real natural-sócio-histórico homogêneo, recoberto por proposições lógicas bipolares e coercitivas. Esse espaço coincide com aquele do “sujeito pragmático” contemporâneo, com sua imperiosa necessidade de homogeneidade lógica e de um mundo semanticamente normalizado (ibid, p. 33 – 34). Esse sujeito — continuamos seguindo as reflexões de Pêcheux — demanda um saber com o qual possa se defender do real que o ameaça, do qual emerge o fantasma de uma “ciência régia” capaz de explicitar e unificar a estrutura desse real. Ora, esse lugar de “ciência régia” é justamente aquele que foi atribuído ao Materialismo Histórico por uma geração que incluiu o próprio Pêcheux, o que agora parece se colocar em questão.

A questão é, sobretudo, a de determinar “se as coisas-a-saber saídas do marxismo são, ou não, susceptíveis de se organizar em um espaço científico coerente, integrado em uma montagem sistemática de conceitos [...] do mesmo modo que, por exemplo, a descoberta galileana pode constituir a matriz científica coerente da física, no sentido atual desse termo” (ibid, p. 37).

Diante dessa distinção, cabe perguntar, conforme assinala Pêcheux, se há “um impossível específico à história” (ibid, p. 38), marcando estruturalmente o que constituiria o

real, da mesma forma que dizemos “há um real da física”, que delimita um impossível — por

exemplo, o fato de que um corpo sempre cai conforme a lei da gravidade — e que torna possível “a montagem de instrumentos suscetíveis de aprisionarem esse real” (ibid). Essas formulações de Pêcheux colocam em xeque o real da história, no sentido pretendido por Althusser e pelo próprio Pêcheux em “Les Vérités de La Palice”, para quem o advento do marxismo produziria uma descontinuidade na apreensão do real, de forma que o real da história deixaria de ser objeto de interpretações divergentes ou contraditórias para ser constituído em processo.

Vamos parar de proteger Marx e de nos proteger nele. Vamos parar de supor que as “coisas-a-saber” que concernem ao real sócio-histórico formam um sistema estrutural, análogo à coerência conceptual-experimental galileana [...], isto é, encarando o fato de que a história é uma disciplina de interpretação e não uma física de novo tipo. (PÊCHEUX 1983/2006, p. 42).

Somos então remetidos a uma segunda forma de conceber o real, uma forma própria às disciplinas da interpretação e mais afastada dos dogmas do Materialismo Histórico, capaz de acolher o não estabilizado logicamente sem considerá-lo como um “furo no real” (PÊCHEUX 1983/2006, p. 43). Essa maneira de conceber o real, estranha à univocidade lógica, liga-se a um saber que “não se transmite, não se aprende, não se ensina” (ibid, p. 43). Em outros termos, aproximando esta fórmula do real do inconsciente que buscamos discernir, podemos dizer que o “furo no real”, que o positivismo e o marxismo forcluem em nome da “ciência”, é o ponto irradiador de uma experiência da qual uma geração procurou acolher os efeitos na estrutura. Ela desenvolveu uma prática de leitura anti-positiva fundada numa descrição dos arranjos textuais que apontavam a presença do não dito no dito, tal como Freud havia descoberto com respeito ao inconsciente e para a qual a lingüística saussuriana oferecia os meios de abordagem formal. Essa leitura era colocada a serviço de efeitos subversivos, “engajando a promessa de uma revolução cultural que colocava em causa as evidências da ordem humana como estritamente bio-social” (ibid, p. 45).

Restituir algo do trabalho específico da letra, do símbolo, do vestígio, era começar a abrir uma falha no bloco compacto das pedagogias, das tecnologias [...], dos humanismos moralizantes ou religiosos: era colocar em questão essa articulação dual do biológico com o social (excluindo o simbólico e o significante). Era um ataque dando um golpe no narcisismo (individual e coletivo) da consciência humana [...]

Em uma palavra: a revolução cultural estruturalista não deixou de fazer pesar uma suspeita absolutamente explícita sobre o registro do psicológico (e sobre as psicologias do ‘ego’, da ‘consciência’, do ‘comportamento’ ou do ‘sujeito epistêmico’) [...] (PÊCHEUX 1983/2006, p. 45 - 46).

No entanto, essa pretendida revolução cultural estruturalista acabou desembocando, segundo Pêcheux, em uma nova forma de narcisismo teórico, o “narcisismo da estrutura”. Em outros termos, ela desembocou em uma forma de sobre-interpretação que “faz valer o teórico como uma espécie de meta-língua” e que funciona, a partir de então, como um dispositivo de tradução, transpondo os enunciados empíricos vulgares em enunciados estruturais- conceptuais.

É antes de tudo esta posição de desvio teórico, seus ares de discurso sem sujeito, simulando os processos matemáticos, que conferiu às abordagens

estruturais esta aparência de nova “ciência régia”, negando como de hábito sua própria posição interpretativa (PÊCHEUX 1983/2006, p. 47).

Delineia-se, assim, a partir dessa “revisão crítica” pêchetiana, uma reconversão do olhar e da escuta na direção das “circulações cotidianas” e do “ordinário do sentido”.

Eu sublinharia o extremo interesse de uma aproximação, teórica e de procedimentos, entre as “práticas da linguagem ordinária” (na perspectiva anti-positivista que se pode tirar da obra de Wittgenstein) e as práticas de “leitura” de arranjos discursivo-textuais (oriundos de abordagens estruturais) (PÊCHEUX 1983/2006, p. 49).

Trata-se de uma posição de trabalho a ser explicitada. Podemos dizer que aqui se esboça uma maneira de conceber o espaço no qual gravita a análise do discurso da terceira

época, uma vez liberada do jugo de qualquer “ciência régia” que condiciona essa análise à

ilusão de que “sempre se pode saber do que se fala [...] negando o ato de interpretação no próprio momento em que ele aparece” (ibid p. 55). A análise do discurso só pode ser concebida nesse espaço que se movimenta entre a materialidade do discurso e o ordinário do sentido, a descrição e a interpretação, o acontecimento e a estrutura, uma vez afastado o fantasma da articulação que a dominava na primeira e segunda época da AAD. Denise Maldidier (2003, p. 78) lembra o “estatuto paradoxal” da análise do discurso, “situada por

essência à margem”, no mesmo momento em que ela ganha algum “direito de cidadania” no

terreno universitário ao ser reconhecida como disciplina da lingüística, no início dos anos 80. Paradoxalmente, descreve a figura de Pêcheux como um “solitário”, em meio às batalhas institucionais, “cercado de mil amigos” (ibid).

Desde janeiro de 82 a idéia de um colóquio sobre o “ordinário do sentido” que devia levar o nome de “Materialidades discursivas II” esteve no centro dos debates [...] No horizonte do colóquio projetado, a figura de Wittgenstein e a questão da linguagem ordinária, mais amplamente ainda, a “tradição anglo- saxônica” que queríamos confrontar com a “cultura européia”. Um grande projeto! Falamos durante muito tempo dele. O colóquio, previsto inicialmente para a primavera de 1983 nunca se realizou (MALDIDIER 2003, p. 80 – 81).

Essa última formulação pêchetiana não teve tempo de ser desenvolvida. Certamente podemos reconhecer seus traços em muitas das “novas tendências da análise do discursivo”106 que se seguiram. Mas, de um modo geral, como reconhecem os seus colaboradores mais íntimos, a proposta como um todo se apagou com o desaparecimento do próprio Pêcheux, cuja presença, “sempre lá”, desempenhava a função de um catalisador de idéias, partilhando leituras e fazendo-as circular em notas escritas (MALDIDIER 2003, p.80).

A perspectiva de trabalho postulada por Pêcheux na terceira época da AAD pode ser formulada como uma abertura ao acontecimento discursivo, ali onde uma grade de leitura tende a fechá-lo na estrutura de uma série ou a incorporá-lo a um determinado “corpus”, como uma espécie de “transcendental histórico” antecipador do discurso em questão. Pois, se por um lado, todo discurso está inserido nas redes de memória e nos trajetos sociais nos quais ele irrompe, por outro lado,

[...] todo discurso marca a possibilidade de uma desestruturação- reestruturação dessas redes e trajetos: todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas fileiras sócio-históricas de identificação, na medida em que ele constitui ao mesmo tempo um efeito dessas filiações e um trabalho (mais ou menos consciente, deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas determinações inconscientes) de deslocamento no seu espaço: não há identificação plenamente bem sucedida, isto é, ligação sócio- histórica que não seja afetada, de uma maneira ou de outra, por uma “infelicidade” no sentido performativo do termo — isto é, por um “erro de pessoa”, isto é, sobre o outro, objeto da identificação. (ibid, p. 56).

Reencontramos, aqui, o acontecimento emergente de um ato interpretativo referido a uma “tomada de posição” a ser suportada pelo sujeito. Essa emergência do sujeito não está submetida a nenhum cálculo, mas ligada à dimensão ética da responsabilidade evocada por Pêcheux ao final da retificação Só há causa do que claudica como o primado prático do

inconsciente, segundo o qual é preciso ousar pensar por si mesmo.

106

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas: Pontes, 1997. O autor evoca aqui o “sucesso da análise do discurso” associada à “escola francesa”. É curioso contrastar esse destino com aquilo que aparentemente fracassa na aventura teórica de Pêcheux e que podemos designar a partir de uma posição sempre ligada àquilo que resiste, do lado do real da língua, à prática escolar da explicação de textos na tradição francesa.

Nosso próximo e último passo, que concerne à questão do sujeito no discurso segundo a perspectiva de Lacan no Seminário, livro 17, realiza aparentemente um salto que terá que ser justificado de acordo com o nosso objetivo. Mencionamos, em nossa introdução, o silêncio de Pêcheux com relação à teoria lacaniana dos discursos. Esse silêncio não deixa de apontar que o “discurso”, como objeto teórico que interessa tanto à análise do discurso quanto à psicanálise, é um objeto equívoco, amplo demais, difícil de contornar. Simplesmente deveríamos renunciar à tarefa de tentar conciliar ou fazer convergir suas diferentes abordagens e perspectivas, deixando claro que sua apreensão em campos disciplinares diferenciados modifica o próprio estatuto do objeto, nada mais restando que sua homonímia. Prolongaríamos assim esse silêncio, fazendo-o perdurar em nome da prudência e da especificidade dos campos disciplinares. A alternativa, para contornar tamanha dificuldade em fazer dialogar as duas perspectivas, seria tomar esse silêncio não como um signo da não- relação entre elas, mas como um sintoma que, para além do simples desconhecimento que poderia justificá-lo, aponta para aquilo que, não podendo ser aproximado sem provocar uma significativa desestabilização, permanece localizado prudentemente à distância.

É essa distância que queremos encurtar, limitando inicialmente nossa abordagem a uma questão específica onde essa aproximação pode ser tentada, embora com reservas, mantendo no foco o ponto enigmático em que a aventura teórica de Pêcheux se silencia, remetendo ao esforço interpretativo de Lacan no Seminário, livro 17, sobre a especificidade do “discurso do mestre” na contemporaneidade. Portanto, nos manteremos restritos a dois aspectos: 1- a definição lacaniana do discurso como laço social e a estrutura discursiva do

Discurso do Mestre, em sua homologia com o discurso do inconsciente; 2- as possíveis

transformações na forma de organização do laço social na contemporaneidade, que Lacan localiza no acontecimento representado pela ascensão do objeto a ao zênite social, e suas repercussões na estrutura. Essa aproximação vale a pena ser tentada, se levamos em consideração o fato de que a reflexão sobre o discurso em Pêcheux também pode ser definida como uma tentativa de localizar o funcionamento do que Lacan chama o discurso do mestre e das respostas possíveis do sujeito à interpelação ideológica que funda o laço social.

CAPÍTULO 5

O sujeito no discurso: Lacan, além de Pêcheux

Benzer Belgeler