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Heykeltıraş Bilinci ve Bilinçdışı

Belgede Soyut heykelde imge ve imgelem (sayfa 49-53)

3. BÖLÜM HEYKELTIRAŞ, İMGELEM VE İZLEYİCİ ARASINDAKİ

3.1. Sanatçı Kişilik Olarak Heykeltıraş

3.1.1. Heykeltıraş Bilinci ve Bilinçdışı

É consenso considerar que o movimento de contestação filosófica inicia a partir da segunda metade do século XIX, sobretudo a partir de meados dos anos 1860, quando irrompe a polêmica conhecida por Questão Coimbrã (1865-66). Neste contexto, imbuídos de um ideal revolucionário, os intelectuais da nova geração entediam que a literatura deveria abordar temas vinculados à realidade do país e de maior preocupação social.

Realizar uma análise em profundidade da dita contenda não é a intenção deste trabalho, já que outros mais habilitados o fizeram.120 “A briga contra a Tróia literária de

118 QUEIROZ, 1951, p. 357. Talvez a crítica social elaborada por Antero em termos filosóficos se levante

também contra – ou como forma de contrabalançar – certa herança cultural que carrega do berço.

119 HOMEM, op. cit., p. 37.

120 Entre as referências destacam-se: FERREIRA, Alberto; MARINHO, Maria José. A questão coimbrã (Bom

senso e Bom gosto). Coleção Textos Literários. Lisboa: Editoria Comunicações, 1988; HOMEM, Amadeu Carvalho. “Para uma leitura sociológica e política da «Questão Coimbrã»”. Máthesis, nº 4, 1995, pp. 89-102; CATROGA & CARVALHO, 1996, capítulo 8, pp. 155-162; HOMEM, 2005, capítulos 4 e 5, pp. 35-56; TORGAL, Luís Reis; MENDES, José Maria Amado; CATROGA, Fernando. História da História em Portugal. Sécs. XIX-XX. Vol. 2. A História através da História. Lisboa: Temas e Debates, 1988, capítulo 3.

Castilho”,121 como Eça de Queirós chamou a Questão Coimbrã, refere-se à disputa que

colocava, de um lado, o grupo em torno de António Feliciano de Castilhos, o qual representava a tradição literária em Portugal, e de outro, os poetas conimbrenses pretensamente modernos Antero de Quental e Teófilo Braga. Os antecedentes responsáveis por dar início à contenda publicavam-se, então, na imprensa. Manuel Pinheiro Chagas proferiu, em sua tribuna no Jornal do Comércio, o ataque às Odes Modernas, de Antero, e ao livro de poemas Tempestades Sonoras, de Teófilo.122 A essa crítica somou-se a “Carta do ILL.mo E Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho ao Editor”,123 publicada em outubro de

1865, na qual, além de novas críticas aos poetas modernos, o autor sugeria a indicação de Pinheiro Chagas, seu pupilo, à vaga de professor interino na cadeira de Literatura Moderna do Curso Superior de Letras. Em última análise, fica evidente nesta Questão a perturbação da até então rígida estética estabelecida.

Inicialmente a polêmica caracterizou-se como conflito intra-literário, marcado, em termos estilísticos, pela oposição da tradição, caracterizada pelas idealizações das novelas românticas, contra a modernidade, assinalada pela poesia social engajada consoante o ideário filosófico europeu. Castilho, na referida “Carta”, levanta a oposição em termos de um modismo efêmero dos “livros novos” vs a perenidade dos modelos de inspiração clássica:

Leia embora, quem quiser, e nas más horas imite ou desfigure, certos livros novos de que pouca noticia porventura chegará aos nossos netos; mas releiam-se e meditem-se ao mesmo tempo os que de geração em geração, e ainda tão vivos e vivazes como nos dias da sua primitiva florescência, senão mais; transladem-se os eternos exemplares da Grécia antiga e da antiga Roma para a linguagem hodierna com o desvelo e respeito que merecem.124

Considera-se que foi Antero de Quental o responsável por iniciar a referida polêmica com o opúsculo publicado em novembro de 1865, ocasião em que respondia aos ataques que vinha recebendo. Sob o título de Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Excellentissimo Senhor

Antonio Feliciano de Castilho,125 em alusão à falta daquelas qualidades por Castilho, erguia a voz pela liberdade, pela verdade e pela justiça. Bradando pela independência dos escritores, acusava a crítica de atacar não uma questão literária, mas a liberdade em relação à chancela da

121 QUEIROZ, op. cit., 351.

122 Dar-se-á preferência, neste trabalho, às obras de Antero de Quental, dada a sua influencia, anteriormente

destacada, no pensamento queirosiano.

123 CASTILHO, António Feliciano. “Carta do ILL.mo E Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho ao Editor”. In:

FERREIRA; MARINHO, op. cit., pp. 81-108.

124 Ibidem, p. 89, grifos no original.

125 QUENTAL, Antero de. “Bom Senso e Bom Gosto. Carta ao Exmo. Sr. António Feliciano de Castilho”. In:

FERREIRA, Alberto; MARINHO, Maria José. A questão coimbrã (Bom senso e Bom gosto). Coleção Textos Literários. Lisboa: Editoria Comunicações, 1988a.

oficialidade intelectual. Antero considera, assim, o trabalho livre do escritor com capacidade de cumprir a missão de assegurar o futuro das demais gerações: “é um sacerdócio, um oficio público e religioso de guarda incorruptível das ideias, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras”.126

Está claro que Antero extrapola as questões meramente literárias. Seu discurso, como ele próprio afirma, “é um dever, uma necessidade moral” 127 em favor da instituição do novo

poder espiritual na sociedade portuguesa, projeto dos intelectuais da Geração de 1870 de que vem se tratando neste trabalho. Nesse sentido, Amadeu Carvalho Homem reforça seu argumento ao considerar “o literato como um dos mais qualificados avaliadores do histórico e o texto literário como um dos mais significativos testemunhos de uma época”. E continua, atribuindo aos literatos o papel de “formadores da opinião pública e os expoentes da única consciência social verdadeiramente operante”.128

É ponto passível entre as análises historiográficas que a Questão Coimbrã não se trata apenas de polêmica literária. Amadeu Carvalho Homem a considera “o primeiro embate intelectual e cívico, com feição sistemática contra o conservantismo social que medrava à sombra do rotativismo regenerador”.129 Como superação desse estado de coisas, Antero

apontava para a necessidade da defesa, pelos intelectuais, de um ideal em consonância com o espírito filosófico da época, ecoado dos estandartes da civilização moderna – Paris, Berlim, Londres, composto por um célebre conjunto de pensadores e tradições de pensamento:

Hegel, Stuart Mill, Augusto Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, Proudhon, Littré, Feuerbach, Crezuaer, Strauss, Taine, Renan, Büchner, Quinet, a filosofia alemã, a crítica francesa, o positivismo, o naturalismo, a história, a metafísica, as imensas criações da alma moderna, espírito mesmo da nossa civilização...130

O voo filosófico de Antero colocava em xeque a sociedade portuguesa em todos os seus aspectos. Conforme já foi apontado, o movimento de contestação iniciado na segunda metade do século XIX, embora deflagrado em termos literários, levantava-se contra os valores tradicionais institucionalizados pela Igreja, pela Monarquia e sua política de efeitos nocivos e pela propriedade. Colocava-se, ainda, contra o utilitarismo considerado antiético e finalmente,

126 Ibidem, p. 114. 127 Ibidem, p. 112.

128 HOMEM, 1995, pp. 90-91.

129 HOMEM, 2005, p. 48. Alusão à Regeneração, política praticada pela Monarquia Constitucional, abordada no

capítulo 1 deste trabalho.

mas não menos importante, levantava-se contra os valores estéticos do ultra-romantismo institucionalizado, estopim que parece ter motivado o início efetivo da revolução das ideias.

Ainda em novembro de 1865, foi a vez de Teófilo Braga entrar na polêmica com texto intitulado As Theocracias Litterárias. Relance sobre o estado actual da Litteratura

Portugueza.131 Saindo em defesa de Antero de Quental, salientou o sentimento de justiça que

emanava de Bom-Senso e Bom-Gosto, baseado na “alma rectíssima de Proudhon” e na “compreensão e tenacidade de Feuerbach”.132 Teófilo utiliza-se da erudição para apontar a

existência de um movimento que intentava dar um ideal à poesia, processo que exigia a compreensão do sentido de Estética, definido como “a consciência do sentimento do belo”. Se a verdade constituía-se, conforme afirma Teófilo, como condição da noção de belo artístico, caracterizado como a comunicação espiritual do homem com o mundo, a arte poderia ser entendida, dessa forma, como manifestação detentora do “poder de dar forma, trazer à realidade da vida os sentimentos mais íntimos”133 devido ao seu poder de penetração no

espírito humano. “Daí que a Estética venha a ser a síntese de todos os esforços científicos que se procuram apossar das propriedades e qualidades do mundo material, síntese através da qual o artista se eleva à idealidade”.134 Residia, então, nas suas concepções da arte e do artista, a

razão de ser do movimento que, segundo Teófilo, pretendia modernizar a literatura portuguesa, ou seja, concedê-la um ideal que é definido como “a passagem da realidade natural para a realidade artística”.135 Sua formulação acerca da capacidade de a arte

materializar o espírito humano e colocá-lo em consonância com o mundo antecipa o pensamento de Antero presente em opúsculo publicado no mês seguinte, em dezembro de 1865.

Trata-se do texto intitulado A Dignidade das Letras e as Litteraturas Officiaes.136 Nesse, uma vez mais, Antero evoca os valores da razão, da justiça, da verdade, da liberdade e da dignidade de pensamento. Insiste que sem liberdade e independência não há forma possível de criação literária, nem de preparação do espírito para a transformação necessária: “o escritor

131BRAGA, Teófilo. “As Teocracias Literárias. Relance sobre o Estado Actual da Literatura Portuguesa”. In:

FERREIRA, Alberto; MARINHO, Maria José. A questão coimbrã (Bom senso e Bom gosto). Coleção Textos Literários. Lisboa: Editoria Comunicações, 1988.

132 Ibidem, p. 135. 133 Ibidem, p. 137.

134 HOMEM, op. cit., p. 50. 135 BRAGA, op. cit., p. 137.

136 QUENTAL, Antero de. “A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais”. In: FERREIRA, Alberto;

MARINHO, Maria José. A questão coimbrã (Bom senso e Bom gosto). Coleção Textos Literários. Lisboa: Editoria Comunicações, 1988b.

quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, intemerato e incorruptível”.137 Respeitadas essas condições, a

literatura poderia cumprir seu papel revolucionário, na medida em que se caracterizaria como veículo de transformação capaz de acessar o espírito do homem. Mostrar-se-ia apta, dessa forma, segundo Antero, a assegurar o futuro graças a sua ampla capacidade de penetrar no indivíduo e na sociedade:

lembremo-nos que a literatura, porque se dirige ao coração, à inteligência, à imaginação e até aos sentidos, toma o homem por todos os lados; toca por isso em todos os interesses, todas as ideias, todos os sentimentos; influi no indivíduo como na sociedade, na família como na praça pública; dispõe os espíritos; determina certas correntes de opinião; combate ou abre caminho a certas tendências; e não é muito dizer que é ela quem prepara o berço aonde se há-de receber esse misterioso filho do tempo – o futuro.138

Conforme se depreende, tanto Teófilo quanto Antero destacam o poder que detém a arte de penetrar no espírito humano. Lançam, dessa forma, uma espécie de vaticínio acerca de uma suposta missão da literatura como agente capaz de oferecer condições para a transformação da realidade. Mais que isso, depositam sobre ela a responsabilidade pelo “património sagrado da humanidade – o futuro”.139 Suas intenções concedem, assim, papel

nuclear ao tempo, e consequentemente, à história, como processo infinito no qual se observa o desenvolvimento das transformações nos diversos níveis da sociedade. Trata-se, com se vê, da perspectiva temporal de análise da história apontada neste trabalho.

As inclinações teóricas, estéticas e culturais presentes nos textos de Antero de Quental e Teófilo Braga adquirirão uma dimensão propriamente política quando suas intenções desembocarem na ideia, nascida no ambiente do Cenáculo,140 de realização das Conferências

Democráticas do Casino Lisbonense, em maio de 1871.141 O testemunho de Eça de Queirós revela a atmosfera das reuniões informais que caracterizaram o Cenáculo: “sob a influência de Antero [...] começámos à noite a estudar Proudhon, nos três tomos da Justiça e a Revolução

137 Ibidem, p. 148. 138 Ibidem, p. 152.

139 QUENTAL, 1988a, p. 114.

140 Por Cenáculo designam-se as reuniões realizadas por um grupo de intelectuais em Lisboa, Coimbra ou no

Porto. Segundo Amadeu Carvalho Homem, Eça de Queirós frequentava as reuniões realizadas no quarto de Jaime Batalha Reis, localizado num prédio na travessa do Guarda-Mor, no Bairro Alto em Lisboa. Segundo o autor, também frequentavam o quarto nomes como Manuel de Arriaga, Salomão Sárraga, Antero de Quental, Oliveira Martins, José Fontana, Augusto Soromenho, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, entre outros. Do Cenáculo teria surgido também a ideia de criação d’As Farpas (HOMEM, op. cit).

141 A polêmica ainda se estendeu com os textos Literatura Hoje, de Ramalho Ortigão, e Vaidades Irritadas e

Irritantes, de Camilo Castelo Branco, ambos publicados já em 1866, os quais não serão utilizados pois entende- se que os textos de Antero de Quental e Teófilo Braga atendem aos interesses deste trabalho.

na Igreja [...]. E do Cenáculo [...] nasceram as Conferências do Casino”.142 Antero de

Quental, desde que começou a participar das referidas reuniões em 1868, procurava implantar no ainda conservador Portugal as prerrogativas da Internacional Socialista.143 Colaborava com seus anseios a conjuntura europeia dos anos 1870 e 1871, que enfileirava acontecimentos cujas consequências agitavam o continente: a guerra franco-prussiana, a unificação italiana e os combates sangrentos na capital francesa. A proclamação da Comuna de Paris a 18 de março de 1871, na França, configurou-se, então, para Antero, como o estopim que faltava para fazer acender na opinião pública portuguesa a chama da revolução.

Belgede Soyut heykelde imge ve imgelem (sayfa 49-53)

Benzer Belgeler