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Uma das características básicas da organização social dos tubarões é a separação que existe entre os sexos e entre indivíduos jovens e adultos. Esta segregação por tamanho pode ser tanto geográfica como batimétrica e protege os indivíduos neonatos do canibalismo, um comportamento relativamente comum destes animais (Springer, 1967). Dessa forma, a maioria dos tubarões, principalmente as espécies de crescimento lento, utiliza berçários, que são áreas geograficamente discretas dentro da distribuição de uma espécie, para onde as fêmeas migram por ocasião da parturição, e onde os filhotes permanecem durante os estágios iniciais do ciclo de vida (Castro, 1993; Simpfendorfer & Milward, 1993). Já as espécies de crescimento rápido dependem mais do tamanho da prole e da velocidade de crescimento nos primeiros meses de vida, pois, quanto mais rápido os neonatos crescem, menos sujeitos à pressão por predação eles ficam (Brasntetter, 1990).

Os berçários normalmente são localizados em regiões costeiras com águas relativamente quentes e rasas, com alta produtividade primária e baixa freqüência de tubarões adultos. A combinação de tais características ofereceria as vantagens seletivas de uma baixa taxa de predação, abundância de presas e hábitat apropriado para os jovens (Brasntetter, 1990; Morrissey & Gruber, 1993b; Merson & Pratt, 2001; Van der Molen & Caille, 2001).

As fêmeas param de se alimentar quando entram nos berçários, permanecendo no local normalmente apenas o tempo necessário para dar à luz. Depois disso, elas voltam a comer, muitas vezes próximas destes locais, porém em águas mais profundas. Os machos adultos raramente freqüentam os berçários (Springer, 1967). Evidências recentes sugerem que as fêmeas podem retornar ao local de nascimento para dar à luz, e que elas se reproduzem regularmente a cada dois anos nestes locais. Os machos, por sua vez, aparentemente podem freqüentar vários berçários diferentes (Feldheim et al., 2002).

A disponibilidade de berçários adequados, que são pequenos em área e que podem ser insuficientes para suportar grandes números de tubarões, constitui um dos fatores limitantes para o crescimento de uma população destes peixes. Tubarões jovens forçados a abandonar prematuramente os berçários devido à falta de

suprimento alimentar adequado estariam presumivelmente se deslocando para áreas onde estariam sujeitos a uma pressão de predação mais severa (Springer, 1967).

Os berçários de tubarões são caracterizados tanto pela presença de fêmeas grávidas quanto pela ocorrência de indivíduos neonatos portando cortes umbilicais abertos ou recentemente cicatrizados (Castro, 1993). Os berçários podem ser classificados em primários e secundários. Berçários primários são definidos como as áreas onde a parturição ocorre e onde os neonatos vivem por um determinado período de tempo, enquanto os secundários são locais e onde tubarões neonatos e jovens se alimentam e crescem até estarem próximos de atingir a maturidade. No caso de algumas espécies de Carcharhinidae os berçários primários e secundários ocorrem na mesma área (Simpfendorfer & Milward, 1993).

Existem áreas utilizadas comunitariamente como berçários por várias espécies de tubarões (Springer, 1967; Castro, 1993; Simpfendorfer & Milward 1993). A vantagem da utilização de um berçário comum é que os indivíduos adultos das espécies encontradas no local normalmente não ocorrem na área, o que reduz a predação intra e interespecífica sobre os neonatos. Uma possível desvantagem é que os neonatos estariam sujeitos a uma maior chance de competição por recursos alimentares. No entanto, alguns fatores parecem contribuir para diminuir esta competição por recursos. Um deles é que a época em que os neonatos são comuns no local coincide com o período no qual suas presas também atingem os máximos níveis de abundância. Além disso, pode haver uma certa separação sazonal ou temporal no uso do hábitat pelas espécies (Simpfendorfer & Milward, 1993).

O mapeamento e descrição de áreas de berçário e de hábitat das fases neonata, jovem e adulta são atualmente necessidades urgentes de pesquisa para fundamentar o manejo e conservação de tubarões (NMFS, 1998). A proteção dos berçários é de crucial importância para preservar as populações destes peixes, pois a manutenção de um tamanho adequado da parcela reprodutiva destas depende diretamente de uma baixa mortalidade dos indivíduos jovens (Simpfendorfer & Milward, 1993). Saber onde estão os berçários é importante para determinar as ameaças as quais estes locais estão sujeitos e tentar garantir o manejo adequado das espécies que ali ocorrem. Como normalmente ocorrem em águas costeiras, os berçários podem ser mais vulneráveis a exploração pesqueira, urbanização e poluição. Por outro lado, trechos costeiros podem ser mais fáceis de manejar e fiscalizar caso áreas de proteção sejam implantadas nos mesmos (Smale, 2002).

Até o momento, o único estudo a identificar e propor a proteção de uma área de berçário e de acasalamento de tubarões foi realizado em um Parque Nacional do Estado da Flórida, nos EUA. Investigações anteriores haviam demonstrado que as atividades reprodutivas do lambarú Ginglymostoma cirratum, ocorriam preferencialmente em um único ponto do local, com águas costeiras bastante rasas. Também foi observado que a presença e a atividade humana influenciavam negativamente a reprodução dos tubarões. Em seguida foi elaborado e posteriormente aprovado um plano de proteção e restrição de acesso ao local, incluindo sua delimitação com bóias e fechamento durante a estação reprodutiva e a implantação de um programa de educação para informar sobre a importância e vulnerabilidade daquele trecho (Carrier & Pratt, 1998).

Técnicas de marcação e liberação permitiram delinear a extensão das áreas de nascimento e de berçário, determinar os trechos de hábitat essencial e estabelecer parâmetros de história de vida básicos de Carcharhinus plumbeus neonatos e jovens na costa leste dos EUA (Merson & Pratt, 2001).

A combinação de técnicas de marcação e liberação e de telemetria ultra-sônica produziu informações a respeito da história de vida inicial de Carcharhinus limbatus e da importância dos berçários para a sobrevivência dos neonatos (Heupel & Hueter, 2002; Heupel & Simpfendorfer, 2002). O primeiro estudo corrobora a idéia de que um dos principais propósitos dos berçários é reduzir a mortalidade tubarões dos neonatos causada por predação. A evitação de predadores parece ter exercido maior influência sobre a movimentação e distribuição espacial de Carcharhinus limbatus do que a disponibilidade de alimento em certos trechos. O segundo estudo demonstrou que a maior mortalidade dos tubarões neonatos ocorre durante as 15 primeiras semanas de vida, que parece ser o período crítico para a sobrevivência desta espécie. Estas informações podem agora ser aplicadas no manejo, por exemplo, propondo-se a proibição da pesca na área do berçário e suas imediações durante este período de vida inicial.