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A “Autobiografia” de Inácio de Loyola foi ditada por ele ao Padre Luis Gonçalves da Câmara47, em Roma, de 1553 a 1555. Nela, Loyola narrou o

47Segundo a nota do tradutor António José Coelho, “O P. Luís Gonçalves da Câmara nasceu em Lisboa,

por volta do ano de 1519 e morreu em 1575. Entrou na Companhia de Jesus em Lisboa, no dia 27 de Abril de 1545. Chegou a Roma a 23 de Maio de 1553, onde recebeu o cargo de Ministro da casa, e aqui permaneceu até Outubro de 1555, data em que saiu para Portugal. Depois da morte de Santo Inácio,

percurso de sua vida até 1538, véspera da decisão tomada pelos primeiros membros da Companhia de se ligarem em uma associação de cunho permanente. Ela fornece informações sobre fatos essenciais da vida de Loyola, principalmente os chamados “anos peregrinos”. No entanto, nela só encontramos os relatos de Loyola a partir do já conhecido ferimento que sofreu em Pamplona, momento de sua conversão religiosa. A única referência ao período anterior de sua vida, quando era cavaleiro, é a alusão ao fato de que até os 26 anos de idade ele se entregara às “vaidades do mundo”.

É importante destacar certas observações inseridas em “Algumas notas prévias” e na “Introdução” da edição da “Autobiografia” traduzida pelo jesuíta António José Coelho (2005), bem como naquela traduzida pelo jesuíta Maurizio Costa [19 - -]48. Uma delas diz respeito à fidedignidade da obra, dado que sua escrita foi realizada a partir do relato de Loyola feito ao Padre Luis Câmara, que, por sua vez, fez a transcrição a partir de sua memória; assim, apesar de pairar uma possibilidade de encontrarmos um Loyola contaminado pelas interpretações de Câmara, a “Introdução” de ambas as versões nos adverte que houve um esforço por parte do segundo em não colocar nenhuma palavra a mais no texto a não ser aquelas ouvidas da boca do primeiro. Maurizio Costa nos expõe o método de composição utilizado pelo Padre Câmara:

[...] primeiramente, o ouvir a história da boca de Inácio, que expunha os fatos com tanta clareza que parecia tornar presente o passado e isto o ajudava muitíssimo a guardar em sua memória antes e fazer a transcrição depois. Em um segundo momento, imediatamente depois de cada encontro, fazia um breve resumo “com as próprias mãos”, para fixar melhor na memória tudo o que escutou e para preparar o terceiro momento, isto é, aquele da redação definitiva do texto escrita com mais calma (LOYOLA, [19 - -], p. 15).

A existência desse relato se deve à insistência junto a Loyola, particularmente da parte de Jerónimo Nadal, de que o conhecimento sobre sua vida, principalmente a partir da conversão, traria contribuições significativas para

voltou em 1558, para participar na primeira Congregação Geral, na qual foi eleito assistente de Portugal. Em 1559, teve que regressar à sua pátria, a pedido da Corte Portuguesa, para se encarregar da formação

do rei D. Sebastião.” (LOYOLA, 2005a, p. 07).

48Foram utilizadas como fontes para a elaboração desta parte duas versões da “Autobiografia” de Santo

Inácio de Loyola. Isto se justifica pelo fato de que as notas do tradutor de uma trazem informações que, muitas vezes, não encontramos na outra. A principal diferença entre as duas, além de serem feitas por tradutores diferentes, é que a que é traduzida pelo jesuíta Maurizio Costa descreve o percurso de Loyola até sua chegada em Manresa (1523), enquanto a versão traduzida pelo jesuíta António José Coelho é mais completa, chegando até o ano de 1550.

todos os jesuítas, bem como para a Companhia. Segundo Jerônimo Nadal, Loyola não só seria um fundador escolhido por Deus, mas também um modelo a ser imitado.

Na edição da “Autobiografia” traduzida por Maurizio Costa, constata-se que a narração de Loyola para o Padre Câmara iniciou-se em agosto de 1553. No entanto, só pôde ser finalizada dois anos depois (1555), em duas etapas, sendo uma no mês de março e outra no início do outono, um pouco antes da morte de Loyola, em função das muitas atividades do Santo como Superior Geral da Ordem, bem como de problemas relativos aos seus adoecimentos. Ainda nessa mesma edição, em sua “Introdução”, encontramos as considerações pertinentes ao título da obra. Segundo o tradutor Maurizio Costa, a rigor ela não pode ser chamada de “Autobiografia”, já que não foi escrita pelo próprio autor. Outros títulos foram dados, como, por exemplo, “A história do Peregrino”. No entanto, optou-se por “Autobiografia”, por tradição e uso, e também para se evitarem confusões entre o texto inaciano e outros textos clássicos da espiritualidade cristã. Maurizio Costa argumenta que talvez fosse mais adequado utilizar o título dado pelo Padre Nadal – “Atos do Pai Inácio, escritos pelo Pe. Luís Gonçalves assim como recebeu da boca mesma do Padre” (“Acta Patris Ignatti, ut primum scripsit P. Ludovicus Gonzales

excipiens ex ore ipsius Patris”) – e assim justifica tal opção:

[...] Por meio deste, de fato se exprime claramente o gênero literário de descrição oral do qual o texto escrito conserva a marca, a relação existente entre Inácio e o fiel transmissor e redator da história do peregrino – o Pe. Luís Gonçalves da Câmara – e sobretudo por meio do termo “Atos”, o paralelo implícito do nosso texto com os Atos dos apóstolos. Isto que para a Igreja são os Atos dos apóstolos, são para a Companhia os Atos de Inácio: o documento fundamental sob o qual pode confrontar-se e reler a si mesma. Sob esta luz, Inácio representa, de certo modo, para a Companhia aquilo que os Apóstolos Pedro e Paulo são para a Igreja: as colunas sobre as quais se apóia, mas não o fundamento. Em uma ou outra, o único e verdadeiro fundador e senhor é Jesus Cristo. Este é o motivo principal pelo qual Inácio não quis que a Companhia fosse chamada “de Inácio”, mas “de Jesus” (LOYOLA, [19 - -], p. 13).

Maurizio Costa também nos informa que a “Autobiografia”, que chegou até os dias atuais a partir de várias cópias manuscritas, certamente se originou daquela que Padre Nadal carregava consigo em suas viagens. Essa cópia,

denominada “Texto N”, apresentava-se dividida em duas partes: uma escrita em língua espanhola e a outra em italiano. No entanto, essa cópia foi tirada de circulação pelo terceiro Padre Superior Geral, Francisco Borja (período de 1565-1572), que a considerou imperfeita, fragmentada e possibilitadora de enfraquecimento da fé. Encarregou então o Padre Pedro Ribadeneira49 de

elaborar outra. Maurizio Costa teceu as seguintes críticas à produção de Ribadeneira, que:

[...] contribuiu para a deturpação da imagem da pessoa de Inácio. Levou a uma visão triunfalista e barroca de Inácio, visto de modo unilateral como fundador e organizador genial, contra-reformista e paladino do Papa contra o crescimento do protestantismo, homem conservador e unicamente preocupado com a exata observância da lei e da virtude da obediência, inteligente mas voluntarista, racionalista, frio e calculista, esperto estrategista e conquistador dos povos ao lado do Papa, homem de grandes números e das massas (LOYOLA, [19 - -], p. 18).

A “Autobiografia” traduzida por António José Coelho, e que é a mais completa, além dos “Prólogos” escritos pelos Padres Nadal e Câmara, divide-se em 11 capítulos. Neles, acompanhamos a trajetória de cunho espiritual de Loyola, do momento de sua conversão, a partir do ferimento de guerra, até a composição das “Constituições”. Nesse percurso são detalhados também os seus esforços para se aproximar cada vez mais de Deus – utilizando-se para isso, inclusive, de penitências severas (as quais, como já sabemos, posteriormente desaconselharia a seus discípulos nas “Constituições”) –, suas experiências com a Inquisição que o perseguiu, sua trajetória acadêmica e a vivência do “Modus Parisiensis”, os lugares pelos quais peregrinou e a constituição inicial da Companhia de Jesus através do “voto de Montmartre”.

Benzer Belgeler