Dadas as informações que carregam, os testamentos têm sido analisados, como afirmamos, pelas pesquisas históricas de modo geral, nelas incluídas investigações no campo da história da educação. De maneira específica, têm sido eleitos como fontes privilegiadas para se levantar índices de alfabetização e letramento em sociedades pré-estatísticas, pois, devido à presença das assinaturas, possibilitam o encontro do pesquisador com a “marca que resta”30
, considerando-se a inexistência de fontes seriais “que possam ser utilizadas para se estudar as capacidades literácitas, os usos e atribuições sociais da palavra escrita” (MORAIS, 2009, p. 60).
Cabe destacar, no entanto, ser consensual entre os estudiosos o entendimento de que a presença da assinatura de próprio punho, neste ou em outro tipo de documento, não pode ser tomada como sinônimo da capacidade de escrever, haja vista o aprendizado da leitura e da escrita ocorrer, nessas sociedades, em tempos distintos. Nas palavras de Christianni Cardoso Morais:
Os testamentos trazem as últimas disposições dos sujeitos, sua naturalidade,
filiação, os nomes dos cônjuges e filhos, às vezes, idade e […] as assinaturas
e alguns indícios da utilização da palavra escrita, comprovando que a
população em estudo atribuía valor social ao escrito […] mas é importante
considerar que as taxas de assinaturas não nos permitem medir com exatidão a população que lê, pois, no período em questão, a aprendizagem da leitura e da escrita se dava em dois momentos distintos e sucessivos. (MORAIS, 2009, p. 61).
A autora, simultaneamente, realça a potencialidade dos testamentos para o estudo das relações estabelecidas entre os sujeitos e a escrita e salienta suas limitações, ao destacar os tempos dissociados de aprendizagem da leitura em relação ao da escrita. Da mesma forma, Luiz Carlos Villalta ressaltara os tempos dissociados desses aprendizados nas sociedades do Antigo Regime, em particular, na colonial. Afirma que o aprendizado da leitura antecedia ao da escrita e, por conseguinte, os registros escritos produzidos tiverem sua gênese, teoricamente, naqueles indivíduos já leitores. Conclui, portanto, que parcelas da população iletrada, conseguindo, por vezes, apenas grafar o nome, poderiam saber ler (VILLALTA, 2007a, p. 289).
Característica comum a todo o Império Português, no referido período, o aprendizado da leitura em tempo diferente do da escrita originou leitores que não escreveram por suas próprias mãos. Certamente essa realidade pode explicar, em alguma medida, o interesse da historiografia colonial pelas práticas de leitura e, por outro lado, a existência de menor número de investigações concernentes às práticas de escrita. A utilização de inventários e testamentos como rico manancial de informações de cunho social, inclusivamente no que tange à presença de materiais indiciadores da habilidade de ler, não se fez acompanhar de pesquisas que se propusessem a compreender as formas de escrita, em uma sociedade onde o aprendizado das primeiras letras, além de posterior ao da leitura, era restrito a alguns segmentos sociais.
Entre os investigadores, há o entendimento consensual de que estudar as “capacidades de escrita”, pelo menos do próprio nome, possibilita a aproximação àqueles sujeitos capazes de ler. Os aprendizados dissociados deixaram, assim, como herança para a historiografia uma ideia não apenas de divórcio e sucessão com relação ao domínio dessas habilidades, mas, sobretudo, de hierarquia, haja vista o destacado interesse dos estudiosos pelas práticas de leitura em detrimento das de escrita.31
Seja como for, é correto afirmar que tradicionalmente os estudos preocupados em traçar taxas de alfabetização para sociedades passadas têm se debruçado sobre os testamentos e, muitas vezes, também, sobre os inventários para a realização das investigações. Da mesma forma, levando-se em consideração outras fontes nas quais as assinaturas são comuns, é assente na historiografia o entendimento de que, até mesmo entre os assinantes, se encontram sujeitos com habilidades literácitas distintas, nuançadas, com base em fatores da mais variada ordem (MAGALHÃES, 1994, p. 12-13).
Apesar de não tomarmos a assinatura como principal ferramenta metodológica, foi possível registrar sua existência, confirmada pelo “Termo de aprovação”. Para analisarmos as relações estabelecidas entre as mulheres e a escrita, as informações extraídas das fontes foram organizadas em tabela com 12 colunas, registrando a data de elaboração do testamento, o
31 Especificamente sobre a difusão da capacidade de leitura em Minas Gerais colonial, citamos como exemplos:
VILLALTA (2007b, p. 289-311). Concordamos com tal entendimento, qual seja: pela identificação dos “escreventes”, chega-se aos prováveis leitores. Entretanto, defendemos a necessidade de se investigar, de maneira mais intensa e verticalizada, as práticas de escrita que ocorreram independentemente da capacidade de autografia.
nome da testadora, a “naturalidade”, a filiação, o “estado em que se encontrava”32
(casada, solteira ou viúva), os filhos, a irmandade a que se associara, a inventariação dos bens, a posse de escravos (alforrias e/ou coartações), as assinaturas (sinal, rubrica, cruz), a referência do documento para localização no acervo e indicadores complementares.
Extraímos dessas fontes dados mais genéricos, que permitiram classificar os sujeitos com relação à origem, ao pertencimento religioso e social (há indícios acerca da classe social à qual a mulher pertencia), se possuía bens e/ou escravos, onde vivia, e, concomitantemente, processamos a análise dos conteúdos testamentais.
Como exposto, os testamentos caracterizam-se como documentos de caráter jurídico- civil e eclesiástico que tratavam das disposições das últimas vontades dos sujeitos e revelam características da vida em sociedade. Apresentam intrínseca relação entre escrita e justiça, revelando caminhos para a concretização e o desenvolvimento das relações de poder. O texto testamental traduz o conjunto de determinações que era sistematizado na construção de discurso que, se, por um lado, se mostrava formal, por outro, emergia em sua criatividade e singularidade. No descortinar das relações e dos desejos, rastreamos informações reveladoras de como se configurou a escrita mediada. Em tal modalidade de escrita, advinda da oralidade, pesam o conhecimento sobre o contexto, a organização de ideias, além da capacidade interpretativa desenvolvida pelas mulheres, ações que, no nosso entendimento, denotam certa performance autoral.
Cumpre, mais uma vez, ressalvar que os testamentos e os inventários, não obstante propiciarem o acesso às características relativas às condições econômicas, sociais e culturais nas quais os sujeitos estavam inseridos, são, de acordo com determinada visão (DAVES, 2002), fontes limitadas no que tange à compreensão dos níveis de letramento das populações. A tradição de pesquisas no Brasil referentes às práticas de leitura e à circulação dos impressos tem se mostrado cuidadosa, ao entender que determinados indícios, como a presença de livros nos inventários, não devem ser tomados como demonstrativos dos níveis de instrução ou da possível capacidade de leitura dos agentes. A esse respeito, Chartier (1996) alerta para o fato de que tal presença (no caso de tomarmos os inventários como fontes) não diz tudo. Essa informação é incompleta, pois existem empréstimos, livros que vão e não voltam. Enfatizamos, no entanto, que nosso objetivo com a análise correlacionada dos testamentos e
32Preferimos utilizar a denominação “estado em que se encontrava”, de acordo com o que as próprias testadoras
declaravam, a utilizar “estado conjugal”, como empregado em algumas investigações, por entendermos que “estado conjugal” não contempla a situação de solteira.
alguns inventários dos familiares é conhecer aspectos das trajetórias e experiências sociais, e não somente procurar “materiais” que indiciem práticas de leitura ou de escrita.
Consideramos mais profícuo o desenvolvimento de pesquisas que expandam as concepções e as intenções que circunscrevem os processos de alfabetização/letramento para a compreensão das conexões estabelecidas entre os sujeitos e a escrita. Pelo exposto, frisamos que nossa investigação visa compreender os usos da escrita feitos pelas mulheres, originados da enunciação oral. Revisitamos, assim, a documentação cartorária, mas sob nova ótica.
Com efeito, estamos empenhados em ressaltar usos da escrita, independentemente da capacidade autográfica. Ativemo-nos, assim, ao processo de constituição do texto testamental, à análise detida das elaborações discursivas dos sujeitos. Embasados na literatura que destaca o papel da oralidade na autoria dos textos, torna-se possível perceber como diferentes mulheres, majoritariamente as não alfabetizadas, foram capazes de elaborar e redigir textos, por mãos alheias, e utilizarem-se, assim, da escrita.
Implicitamente, pretende-se afirmar que, na reprodução dos padrões discursivos e culturais impostos ou vividos na relação com o mundo letrado, as mulheres ressignificaram suas identidades e seus lugares na sociedade. No processo de formação e concretização dos espaços de vivência e das relações sociais, a não aquisição da habilidade de escrever de maneira autônoma não impossibilitou que elas procurassem formas de realização, de inserção e de participação social. Usaram a escrita sem saber escrever. Atuaram no cotidiano e conseguiram, por meio da escrita solidária, expressar valores e representações.
Para que pudéssemos demonstrar esses usos, além de compreendermos o conceito
escrita, bem como os impactos e implicações sociais gerados pela escrita, foi necessário o
estabelecimento de diálogo teórico interdisciplinar. Desta feita, a leitura de obras da linguística, da antropologia, da educação e da história tornou-se fundamental. Apesar de não mergulharmos completamente em áreas distintas do conhecimento, dados os limites e especificidades de nossa formação, foi, sem dúvida, indispensável navegarmos por outros mares, o que tentaremos evidenciar no próximo capítulo.