2.2. Kan Hakkında Genel Bilgiler
2.2.4. Hematolojik Parametreler
Nossa intenção, neste item, ainda quando pensamos o roteiro da entrevista, foi perceber o envolvimento das interlocutoras da pesquisa com a política estudantil. Objetivávamos captar as afetações e consequências de tal envolvimento para a constituição identitária no processo de formação inicial, visto que essa participação gera saberes, interações e experiências diversas e isso impacta os processos de inventividade.
Mas o que encontramos nos surpreendeu! Do conjunto das participantes da pesquisa apenas Paty experimentou um envolvimento com a política e a prática do movimento estudantil. Na verdade, esse envolvimento deu-se anteriormente à sua entrada no curso de Pedagogia, quando Paty ainda fazia o Ensino Médio, no Centro Federal de Educação Tecnológica/CEFET. Nessa experiência de “pouco tempo”, como ela mesma afirma, Paty foi tesoureira junto ao grupo que recebia apoio do movimento da União da Juventude Socialista/UJS, do qual ela fazia parte.
Foi esse ensaio que a mobilizou e a motivou para a possibilidade de outra participação, desta feita já como estudante universitária. Esse desejo, no âmbito da esfera acadêmica, no entanto, ficou restrito ao que Bordenave (1994) chama de “fazer parte” (p. 22), “mero ativismo imediatista, sem conseqüências” (p. 25), uma vez que Paty foi escolhida “por votação” para compor a chapa que foi vencedora, mas rapidamente evadiu-se, justificando para o grupo que “necessitava de uma maior dedicação aos estudos”.
Porém, mesmo que de forma breve e a partir de um envolvimento aparentemente sem grandes consequências, essa participação e as relações sociais e de saberes estabelecidas no seu interior inscrevem-se na história de Paty. Tal envolvimento produziu um sentido para ela que, confrontada com os outros sujeitos da pesquisa, demonstra mais substancialidade política. Em outras palavras, a relação com esse tipo de saber, que é também uma relação
consigo mesma, com outros e com visões de mundo diferenciadas (CHARLOT, 2000), possibilitou a Paty, por exemplo, “ter consciência da importância desse movimento para a vida acadêmica”. Acredita-se, entendendo Paty como sujeito, que esses saberes imbricam-se ao universo dos saberes que a constituem, dando contornos ao seu processo identitário já na formação inicial. É ela quem afirma que
mesmo com alguns entraves, posso dizer que essa participação tem ajudado muito na minha formação em relação à minha posição frente ao mundo, principalmente como pedagoga, me sinto muito responsável em dar uma contribuição para fazer um mundo melhor.
Assim sendo, mesmo considerando o rápido envolvimento e a forma de participação mais próxima do ativismo, uma vez que essa atividade não proporcionou a Paty uma grande vivência política, é inegável que ela trouxe afetações, através das quais Paty deu um sentido diferenciado ao movimento estudantil e à sua formação. Não é em vão que ela diz que “me despertava curiosidade o estilo dos integrantes, pessoas politizadas, democráticas, com mente aberta, jovens conscientes, que acima de tudo, acreditavam nos seus sonhos e na persistência de lutar por um mundo melhor”.
Pelos ditos de Paty, embora perpassados por muitos silêncios significativos de sua pouca experiência, entendemos que o movimento estudantil, como um saber complementar, traz elementos epistêmicos que produz processos de múltiplas identificações. O movimento estudantil tem uma dinâmica própria, cujo estilo de comunicação apresenta-se de forma mais massificada, haja vista este ser considerado “um movimento plural” (MESQUITA, 2004, p. 01). Um movimento que consegue congregar uma infinidade “de tribos e grupos em seu interior, desde aqueles que se manifestam através de tendências [...], geralmente ligadas a um partido” (Ibidem, p. 01), até aqueles que se declaram por interesses temáticos localizados, somados aos que se dizem ser independentes, aos anarquistas, aos militantes de minorias, entre outros (Ibid).
Seu objetivo, segundo o portal universitário Universiti49, “possibilita o envolvimento de pessoas em busca de uma reflexão que signifique mudanças e transformações”. Nesse sentido, ele é espaço político de debates e embates, tendo em vista
49 O Universiti é o portal universitário da Paraíba, e foi criado para divulgar e noticiar os eventos culturais e acadêmicos de todo o Brasil, informações sobre intercâmbios, bolsas de estudos, central de estágio, enquetes, murais, relacionar os principais estabelecimentos da cidade e oferecer dicas de sobrevivência aos universitários ingressantes. Uma forma de ligação interativa com o público universitário (www.universiti.com.br).
não apenas a leitura e a intervenção na formação do estudante, mas a prática social de vanguarda, combativa e consciente, para além dos muros da universidade.
Mas se a participação de Paty em movimentos estudantis teve um sentido para a formação e para a sua vida, gerando mudanças em suas percepções de mundo e de si, a descontinuidade desse envolvimento também nos chama a atenção. Ao indagarmos sobre essa ruptura, Paty sinaliza desaprovação ao movimento, através da censura atribuída a um fato do qual ela discorda, que era o comportamento de um grupo em relação ao destino dado ao dinheiro arrecadado pelo movimento, cujo fim, em tese, era bem definido: servir às manifestações políticas do movimento.
Paty afirma que “certo dia um grupinho pediu um dinheiro emprestado [...] e não devolveu [...], isso me entristeceu bastante e foi um dos maiores motivos de eu ter deixado o cargo de tesoureira”. Essa relação que se apresenta conflitiva, porque paradoxal aos objetivos do movimento, é que parece ter gerado a descontinuidade de Paty com o movimento. Através da narrativa, ela expressa sua angústia ao expor o comportamento negativo de um grupo de colegas, mas o faz motivo universal para afastar-se definitivamente, pelos menos até o momento da pesquisa, do movimento estudantil e de suas perspectivas políticas, processo que admira e que, segundo ela, traz importantes saberes.
Partindo dessa compreensão, esse dito pode ser analisado como um não-dito, um tipo de silêncio50, que deixa subentendido outro sentido para o fato de Paty ter deixado não só o cargo de tesoureira, mas o próprio movimento. Ela não diz das significações instituídas aos movimentos políticos que se põem na posição de vanguarda, historicamente falando. A ideia é que os sujeitos protagonistas de movimentos políticos nunca devem se corromper. Nessa perspectiva, o que fica implícito no discurso de Paty é a quebra dessa significação. Ela se desestimula motivada pela violação de um imaginário construído a partir da ideia de que tais movimentos, por serem considerados de vanguarda, são feitos por pessoas cuja reputação deve ser inquestionável.
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Orlandi (2007, 2003), a partir de uma perspectiva linguística, estabelece uma sutil diferença entre o não-dito como pressuposto do dito, o que está subentendido, e o silêncio como elemento fundante da linguagem, “silêncio como horizonte, como iminência do sentido” (2003, p.83). O não-dizer, ou o dizer subentendido, encontra-se ao longo daquilo que é dito e tem significado. Segundo Orlandi (2003, p. 83), “partimos do dizer, de suas condições e da relação com a memória, com o saber discursivo, para delinearmos as margens do não-dito que faz os contornos do dito significativamente”. O não-dito é uma forma de silêncio. Outra é o silêncio constitutivo da linguagem e vice-versa, que ocorre porque não há silêncio sem linguagem, nem linguagem que não traga em si a necessidade do silêncio. Assim considerando, o silêncio é fundador da significação, fato que o faz não ser vazio de sentido. Portanto, o sentido desse silêncio deve ser buscado nas pistas e nos traços deixados pelas “fissuras, rupturas, falhas, [é aí] que ele se mostra fugazmente” (2007, p. 46).
O silêncio que atravessa as palavras permite identificar, de um lado, a fragilidade de Paty, uma vez que ela não se posiciona e não toma partido contra a atitude negativa do grupo, fato que fortaleceria o movimento. Do outro, a fragilidade do próprio movimento, quando, a partir de integrantes corruptos, ele se enfraquece. Por isso já é possível dizer que no Brasil constrói-se a ideia de que todos os que chegam ao poder corrompem-se, discurso que pode quebrar o imaginário social construído, a duras penas, de que outro mundo é possível através das lutas organizadas pelos movimentos sociais de vanguarda.
As demais participantes da pesquisa mantiveram-se distantes do movimento estudantil, realidade que as levou a silenciar completamente, quando indagadas, durante a entrevista, sobre a participação em movimentos de política estudantil. Algumas ainda conseguiram justificar a não participação, atribuindo à falta de tempo o motivo principal, como é o caso de Anita, quando afirma que “como já falei meu tempo é limitado”, e Áurea, que diz, “é complicado falar desse envolvimento, pois eu nunca tive tempo”. As outras sequer falaram sobre tal possibilidade.
Esse silenciamento deixa emergir mais de uma interpretação. Uma cabível é a que leva em conta o histórico de vida das estudantes, interlocutoras da pesquisa, visto que elas não sinalizam quaisquer envolvimentos significativos, e de qualquer natureza, com os movimentos sociais de caráter político. Outra interpretação é a de que os processos formativos ocorridos em todos os níveis de ensino, particularmente na formação universitária, não são suficientes para despertar o sentido da participação política com vistas ao crescimento pessoal, formativo e de intervenção social.
Assim, o processo de produção dos sentidos advém, de um lado, da falta de implicação das estudantes com esse tipo de atividade geradora de experiências e saberes diversos. Na verdade, esse silenciamento é constitutivo de um sujeito que se sente desobrigado da construção social desse saber, que é, por natureza, uma atividade criadora de um indivíduo complexo, porque afetado por linguagens e relações sociais múltiplas e dimensões simbólicas e políticas variadas.
Por outro lado, a formação escolar, em especial a universitária, não os torna seres suficientemente implicados com a materialidade da dimensão social e política que também os constitui enquanto indivíduos. Nesse sentido, o princípio da formação pode estar centrado unicamente no campo da produção dos conteúdos profissionais, esquecendo a elaboração e a apropriação de conteúdos e valores culturais e simbólicos, os quais possam permitir o aprendizado resultado dessa complexa rede de saberes, característica do momento em que
vivemos. Na verdade, podemos estar esquecendo o pedido de Freire (1996) de educar para a humanização.
Em síntese, a ausência de relação com esse tipo de saber pode inibir o desenvolvimento de uma configuração histórica do indivíduo social e político inventivo, que opera rupturas a depender das ordens e das exigências institucionais, conforme sugere Elias (1994) e Kaufmann (2005). Estamos dizendo que o silêncio em relação a esse tipo de saber inibe a construção identitária, no sentido de um percurso inventivo, ainda que alternado por períodos de estabilidade, o qual possa permitir a formação de uma rede de relações que deixe interpenetrar passado, presente e futuro (CHARLOT, 2000).