D- Diğer Hususlar
II- AMAÇ ve HEDEFLER
O sentido de um texto sempre se instala nas relações complexas do uso da linguagem advinda das ‘formações discursivas’. É na enunciação que a memória discursiva, em conjunto com a memória histórica, retomam discursos anteriores, atualizando-os, fazendo surgir novas significações através da posição sujeito-enunciador e do contexto tempo/espaço diferenciados.
Como explica Fernandes (2005, p. 50), “a formação de um discurso resulta da combinação de diferentes discursos”. Sobre ‘formação discursiva’, Cleudemar Fernandes traz algumas discussões a partir de Pêcheux:
A noção de Formação Discursiva (FD) começa a fazer explodir a noção de máquina estrutural fechada na medida em que o dispositivo da FD está em relação paradoxal com seu “exterior”. Uma FD não é um espaço estruturalmente fechado, pois é constitutivamente invadido por elementos que vêm de outro lugar (isto é de outras (FDs) que se repetem nela, fornecendo-lhes suas evidências discursivas fundamentais). (FERNANDES, 2005, p. 51).
É possível dizer que uma FD está sempre atravessada por outras FDs e que ela tem natureza heterogênea por ser constituída por diferentes discursos, por um grupo de enunciados.
Para Foucault, os discursos são uma dispersão, pois, são formados por elementos que, não necessariamente, estão ligados por nenhum princípio de unidade. Desta forma, quando se consegue definir uma regularidade, na teia desses discursos, estamos diante de uma ‘formação discursiva’. É necessário, pois, entender essa dispersão, indo em busca das regras que regem a
formação desses discursos e encontrar essas regularidades. Sobre este assunto, Foucault discorre:
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva (FOUCAULT, 2008, p. 43).
Portanto, os domínios e fronteiras demarcadas por Foucault nos trazem o conceito de ‘formação discursiva’. Esta relação entre objetos, conceitos, transformações, posições etc., como enuncia Foucault, caracterizam a formação discursiva na sua singularidade e possibilitam a transição da dispersão para a regularidade. Assim, o conceito de formação discursiva apoia-se na dispersão, na regularidade e no primado do interdiscurso sobre o discurso e suas construções. Foucault analogicamente busca definir o enunciado em comunhão com esta visão.
Em suma, as FDs, se referem a como um dizer tem espaço em um lugar e em uma época específica que marca uma regularidade no dizer:
Refere-se ao que se pode dizer somente em determinadas épocas e espaço social, ao que tem lugar e realização a partir de condições de produção específicas, historicamente definidas; trata-se da possibilidade de explicitar como cada enunciado tem o seu lugar e sua regra de aparição (FERNANDES, 2005, p. 60).
De acordo com os preceitos da AD, as formações discursivas estão inseridas na “formação ideológica” e conforme defende Lucena (1998, p. 37): “o sujeito está sempre produzindo discurso é sempre porta-voz de uma formação discursiva” e cita: “... a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva, que determina o que se pode e se deve dizer, em determinada época, numa sociedade” (GREGOLIN, apud LUCENA 1998, p. 37).
Parafraseando Lucena (1998), diríamos que a ideologia pode ser vista como uma “visão de mundo”, uma vez que os indivíduos estão inseridos numa determinada classe social com seu conjunto de ideias que revelam a forma de compreensão que essa classe tem do mundo - ao que se pode chamar de ‘formação ideológica’.
Para a AD, a formação ideológica é que determina a formação discursiva, e é desta forma que os sujeitos adaptam seu dizer àquilo que pode ou não ser dito, em um determinado espaço e tempo, o que os faz entrar na “ordem do discurso”. Estas formações ideológicas inscrevem
posições-sujeito onde os sentidos se instauram. Isto significa que as palavras, expressões e proposições em uso recebem o seu sentido da formação discursiva na qual são produzidas. Desse modo, tais palavras, expressões ou proposições, mudam de sentido segundo as posições dos sujeitos que as empregam. Isto é, elas tomam sentido em referência a essas posições inscritas nas referidas formações ideológicas. Assim, podemos afirmar que há um intrincamento entre formações discursivas e formações ideológicas: as formações discursivas representam, na ordem do discurso as formações ideológicas que lhe correspondem. Conforme defende Fernandes (2005, p. 60): “é segundo as posições dos sujeitos que os sentidos se manifestam, em relação às formações ideológicas, nas quais essas posições se inscrevem”. Ele nos traz uma conceituação de formação ideológica:
Cada formação ideológica constitui um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem ‘ individuais’ nem ‘universais’, mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classes em conflito umas em relação às outras. (PÊCHEUX & FUCHS, apud FERNANDES, 2005, p. 60).
É o que acontece com Zé Ramalho que se insere numa época em que denunciar era proibido. Portanto o dizer nas suas canções trazem marcas de contestação a uma ‘ordem do discurso’ oficial que o identificam num lugar de oponente à formação ideológica do regime. O que lhe confere uma marca identitária de insurgente.
Para Foucault, o que determina as condições de emergência dos enunciados: é o a priori histórico e o arquivo. Foucault (2008) diz que os textos que pertencem a uma mesma formação discursiva, não comunicam apenas pelo encadeamento lógico ou pela recorrência do tema, etc. Essas diferentes obras ou textos, pertencentes a uma mesma formação discursiva, comunicam pela forma de positividade de seus discursos. Positividade vista como enxergar analiticamente as regularidades na dispersão de um enunciado. Foucault explica que assim a positividade assume o papel de a priori histórico. Este papel seria “isolar as condições de emergência dos enunciados, a lei de sua coexistência com outros, a forma específica de seu modo de ser, os princípios segundo os quais subsistem, se transformam e desaparecem”. (FOUCAULT, 2008, p.144). Foucault (2008, p.145) resume conceitualmente o a priori histórico “como o conjunto das regras que caracterizam uma prática discursiva” em um certo espaço de tempo. Estas regras de formação permitem falar de uma multiplicidade de objetos, conceitos, funções do sujeito e opções teóricas. Não é histórico como algo que determine o temporal, mas de uma história determinada porque se refere às coisas efetivamente ditas. O a
devir, ele pode dar conta de que esse discurso possa acolher, esquecer ou desconhecer determinada estrutura formal.
Foucault (2008) diz que o a priori deve levar em conta que o discurso tem vários sentidos, isto é, deve dar conta do fato de que o discurso não tem apenas um sentido ou uma verdade, mas uma história, e uma história específica que não o reconduz às leis de um devir estranho. O a priori deve estar ligado a uma história determinada, dentro da realidade e das coisas efetivamente ditas. Ele deve dar conta de que estas coisas ditas, os discursos, não têm um só sentido e por esse motivo o a priori deve enxergar as falhas abertas, as não-coerências, as dispersões do enunciado.
Foucault (2008) defende que, na densidade das práticas discursivas, nós temos sistemas que estabelecem os enunciados como acontecimentos e coisas: ‘acontecimentos’ levando em conta as condições e domínio de aparecimento desses enunciados e ‘coisas’ levando em conta a possibilidade e o campo de utilização desses enunciados. É a partir daí que Foucault adota a concepção de ‘arquivo’, e o define como um sistema de enunciados que estão ligados a acontecimentos por um lado e a coisas por outro, não se tratando da soma dos textos gerados por uma cultura que os colocaria como documentos do passado. Segundo ele “O arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares” (FOUCAULT, 2008, p. 147). É o arquivo que faz com que as coisas ditas pelos homens no decurso do tempo, não tenham surgido apenas pelas leis do pensamento ou pelo jogo das circunstâncias. É o que faz com que as coisas ditas, não se acumulem de maneira indefinida, não permitindo uma linearidade sem rupturas. O arquivo faz com que as coisas ditas (FOUCAULT, 2008, p.147) “se agrupem em figuras distintas, se componham umas com as outras segundo relações múltiplas, se mantenham ou se esfumem segundo regularidades específicas”. Foucault demonstra que o arquivo define o sistema de enunciabilidade do enunciado na raiz de seu acontecimento. Ele é o “sistema de funcionamento” do enunciado, “é o que diferencia os discursos em sua existência múltipla e os especifica em sua duração própria” (FOUCAULT, 2008, p.147). O arquivo é o elemento através do qual surgem regras de uma prática, - no caso, por exemplo, censura, interdição, na ditadura militar - que possibilitam ao enunciado se modificar regularmente e também subsistirem entre o esquecimento e a tradição. É a partir disso que Foucault (2008, p. 148) afirma que o arquivo “E o sistema geral da formação e da transformação dos enunciados” e que o mesmo se manifesta por fragmentos, regiões e níveis.
Podemos dizer que, no momento em que a memória coletiva passa a ser armazenada pelos domínios das condições do enunciado, ela se torna um arquivo. Como diz Foucault “sistema de funcionamento” do enunciado porque o arquivo passa a ser o “sistema geral de formação e da transformação dos enunciados”. Portanto, é no enunciado que a memória discursiva retorna para (re)significar, para redizer, e por isso é que Foucault diz que o a priori está ligado a uma história determinada, dentro da realidade das coisas efetivamente ditas. Por isso o a priori histórico e o arquivo é que dão conta das coisas ditas.
Pensamos, assim, que a memória coletiva pode ser vista como arquivo, como a “lei do que pode ser dito”, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares.
Como pudemos observar, o a priori e o arquivo estão intrinsecamente ligados ao ‘enunciado’. No próximo tópico, tratamos do ‘enunciado’, focalizando principalmente Foucault e seus pressupostos em ‘A Arqueologia do Saber’. Será através do enunciado, como elemento da AD, que iremos, dentro da nossa pesquisa, ‘escavar’ possibilidades de leituras plurais, vislumbrar o deslize dos ‘dizeres’, buscar o real da língua no nosso corpus e seus efeitos de sentido.