HIFZ SÜRECİ
1. Hazırlık Aşaması [45]
É importante entender o antissemitismo, pois Hitler era obcecado pela questão judaica. Segundo Hannah Arendt, a guerra foi, para ele, uma guerra contra os judeus. Hitler era o poder e sua palavra, a lei. O povo alemão inexplicavelmente abdicou de sua autonomia e o escolheu como o Führer, o guia onisciente a quem cabia cegamente obedecer. A sua obsessão pessoal, o ódio aos judeus e a ideia de uma raça ariana pura que deveria dominar o mundo, foi aquilo contra o que o nazismo se constituiu. É possível supor que Hitler, habitante de um universo de pensamentos absurdamente doentios, sem qualquer amor pelo ser humano e com uma inacreditável compulsão pela matança, escolheria com mais facilidade os judeus como ponto focal para onde todo seu ódio se direcionava, por já serem eles os objetos renitentes de um preconceito histórico.
Hannah Arendt, no prefácio à primeira parte do livro As Origens do Totalitarismo, que trata do antissemitismo, diz que este somente se tornou uma ideologia leiga no século XIX, pois antes ele possuía um caráter religioso inspirado no antagonismo de duas crenças em conflito, o judaísmo e o cristianismo.
A história do antissemitismo é antiga. Dispersos na chamada diáspora, após a destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 d.C., em toda a parte os judeus passaram a depender da proteção das autoridades não judaicas para viver. Não formavam uma classe nos países em que viviam. “Eles se situavam, socialmente falando, no vácuo”. 1 Com a queda do Império Romano, eles foram, como os povos bárbaros no início da Idade Média e que depois foram cristianizados, os únicos não-cristãos a conviver em meio à cristandade européia. Isolados, poucos, em qualquer disputa eram vulneráveis e freqüentemente objetos de ódio
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convenientemente direcionado, seja por ganância a respeito de seus bens, seja por conveniência política, seja por representarem em todos os lugares o único elemento estrangeiro e estranho, o “outro” demonizado. Por isso, de certa forma habituados às seguidas perseguições de incitação religiosa ou política que os acompanharam durante toda sua história, concebiam como previsíveis as explosões de violência de que eram vítimas, entendidas dentro da tradição religiosa judaica em termos de martirologia.
Do início do século XV até o final do XVI, ocorreu o processo de fragmentação da cristandade européia em grupos étnicos, os quais, após a Revolução Francesa, vieram a formar o sistema de estados-nações – e foi nesta fase que os próprios judeus passaram a conceber a sua diferença com as demais nações como sendo de natureza interior, e não mais só de credo. Durante o Esclarecimento, a mesma concepção alcançou os não-judeus e “ser judeu” foi desde então categorizado como uma qualidade inata, fosse como virtude, fosse como vício e teria sido esta a condição sine qua non do nascimento do antissemitismo moderno. Após conquistar o Sacro Império Romano-Germânico em 1806, Napoleão emancipou os judeus alemães, concedendo-lhes a partir de então os mesmos direitos civis recentemente outorgados aos judeus franceses.
O termo antissemitismo foi criado por Wilhelm Marr, nascido em 1819, na Alemanha. Marr embasou-o na noção de identidade racial, esta sustentada em postulados pretensamente “científicos” que afirmam que o caráter “inato” dos judeus ou semitas era oposto ao caráter nobre e puro do grupo dos arianos, composto pelos teutões e nórdicos como os alemães, os austríacos, os escandinavos, os holandeses, os ingleses, os franceses, etc. Os judeus não podiam deixar de ser o que eram; isto é, homens “inferiores moral e fisicamente”, porque a natureza, ou seja, a raça, assim havia predeterminado. Nesta preocupação com a pureza racial, o antissemitismo deixou de ser um problema religioso, pois a conversão ao cristianismo não seria capaz de limpar a mácula do “sangue judaico”, uma condição de origem racial sem possibilidade de remissão.
Zigmunt Bauman considerou, em seu livro Modernidade e Holocausto, que o antissemitismo na Alemanha não foi especialmente forte se comparado com outros países europeus. Porém, com o advento da modernidade e com a saída do confinamento dos guetos, os judeus foram apanhados no mais feroz dos conflitos históricos: o que opunha o mundo pré- moderno e a modernidade. Eles encarnaram o lado opaco de um mundo que lutava pela claridade, a ambigüidade de um mundo ansioso pela certeza.
34 A separação dos judeus perdera a naturalidade dada pela religião e pela segregação territorial e social. Ao se assimilar à sociedade circundante, o judeu tornou-se um cidadão como outro qualquer, indistinguível dos demais. Uma nova naturalidade tinha que ser construída. O método moderno de traçar fronteiras foi substituir o judaísmo pela qualidade de judeu, nas palavras de Hannah Arendt2. A nova condição de ser judeu teria que se situar ao nível da lei natural, “aquilo que se é’. O homem é antes de agir e nada do que ele faça pode mudar esta condição. Esta é a essência filosófica do racismo.
Para Bauman, o racismo expressa a convicção de que certa categoria de seres humanos não pode ser incorporada à ordem racional, seja qual for o esforço que se faça. São falhas imanentes que não têm remédio, que não podem ser removidas ou retificadas e, assim, permanecerão para sempre e, por isso, a categoria ofensora deve ser eliminada.
Segundo Emmanuel Levinas, encadeado a seu corpo pela concepção racista, o homem vê rechaçado o poder de escapar de si mesmo, o que constitui a negação da liberdade de escolher sua verdade como ser humano. Somente a comunidade de sangue passa a partilhar a humanidade. Constitui-se, assim, um mundo de amos e de escravos. “Está dentro da lógica mesma do racismo uma modificação fundamental da idéia de universalidade.”3
O antissemitismo foi muito utilizado na Alemanha como pretexto para retóricas nacionalistas e para reforçar a identidade da recém-criada nação, consolidada com a vitória sobre os franceses na guerra franco-prussiana de 1870 e com a unificação dos Estados alemães, em 1871, por Bismarck. Ele apresentava os judeus às massas como a personificação do inimigo, tanto interno quanto externo, que os alemães necessitavam para cimentar a nacionalidade.
Apesar dos slogans nacionalistas, os primeiros partidos antissemitas, que surgiram nas décadas de 1870 e 1880, tiveram em toda parte o caráter de organizações supranacionais. Apoiavam-se num nacionalismo tribal com um desmedido desejo de expansão e de hegemonia do grupo nacional. Os movimentos antissemitas foram utilizados como um dos principais instrumentos com que aniquilar as fronteiras e a soberania dos estados-nações e obter, com isso, o monopólio universal dos instrumentos de violência. Calcando-se no modelo do que seria o judeu supranacional, os antissemitas almejavam um governo intereuropeu, o que na verdade significava o domínio de uma nação “acima de todas as nações”.
2Cf. Hannah ARENDT, Origens do Totalitarismo, p. 81.
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O antissemitismo, uma “corrente subterrânea da história européia [...] que corria longe da luz do público e da atenção dos homens esclarecidos”4, emergiu com uma virulência
inesperada após a derrota na Primeira Guerra Mundial e alcançou a máxima destrutividade com o nazismo.
A expansão comercial e industrial da Alemanha dera aos judeus a oportunidade de se integrar à sociedade, exercendo, geralmente com bastante sucesso, todas as atividades econômicas, profissionais e culturais. Com a entrada na civilização européia ocidental, sentiram-se libertados do antigo gueto e admiravam as conquistas culturais e científicas deste novo mundo. Consideravam-se plenamente cidadãos e patriotas. Devido à inserção alcançada dentro da sociedade alemã, os judeus, de um modo geral, não perceberam na ameaça nazista uma forma nova e a mais terrível do antissemitismo, aquele de caráter racial, que proclamava como irrevogável o veredito do sangue poluído. “Os judeus haviam podido escapar do judaísmo para a conversão; mas era impossível fugir da condição de judeu.”5
Arendt considera que é essencial compreender o antissemitismo, pois:
Os acontecimentos políticos do século XX atiraram os judeus no centro do turbilhão de eventos; a questão judaica e o antissemitismo [...] transformaram-se em agente catalisador, inicialmente, da ascensão do movimento nazista e do estabelecimento da estrutura organizacional do Terceiro Reich, no qual todo cidadão tinha de provar que não era judeu ou descendente de judeus; em seguida, de uma guerra mundial de ferocidade nunca vista, que culminou, finalmente, com o surgimento do genocídio, crime até então desconhecido em meio à civilização ocidental.6