As normas jurídicas gerais e abstratas de estrutura hipotético-condicional apresentam, tanto em seu suposto84 ou antecedente como em seu consequente ou prescritor, duas classes. Projetando suas extensões sobre o plano da linguagem social delimita-se a classe dos eventos e relações juridicamente relevantes.
No plano das normas gerais
“(...) teremos apenas a indicação de classes com as notas que um acontecimento precisa ter para ser considerado fato jurídico (no antecedente), implicando a indicação de classes com as notas que uma relação tem de ter para ser considerada como relação jurídica (no consequente). Um enunciado conotativo implicando outro enunciado conotativo.”85
Enquanto isso, no plano concreto teremos
“(...) um enunciado protocolar denotativo, que se obteve pela redução à unidade das classes de notas (conotação) do antecedente da regra geral e abstrata, implicando outro enunciado, também protocolar e denotativo, construído pela redução à unidade das classes de notas (conotação) do consequente da norma geral e abstrata. Enunciados conotativos: antecedente e consequente da norma geral e abstrata; enunciados denotativos: antecedente e consequente da norma individual e concreta.”86
Escorados nestas premissas epistemológicas é que advertimos, desde já, que o antecedente de norma abstrata não contém “fatos”,87
e sim predicados identificativos de ocorrências factuais. Esta ocorrência, quando relatada em linguagem competente, constitui o que denominamos fato jurídico.
O antecedente normativo, como todo conceito,88 é seletor de propriedades e redutor de complexidades. Compõe-se da conjunção dos critérios material, espacial e temporal. O
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Como o antecedente das normas jurídicas abstratas não se submete aos valores “verdadeiro” ou “falso”, entendemos desnecessária qualificá-lo como de possível ocorrência.
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CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência. 2ª ed. rev. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 129.
86
CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência, p. 129.
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Quando nos referirmos a fatos previstos no antecedente de norma abstrata, estaremos utilizando-o nesta acepção: previsão dos atributos que a classe “x” (plano concreto) deverá ostentar para ser subclasse própria da classe “X” (plano abstrato). Utilizaremos esta terminologia, mesmo não sendo a mais indicada, para facilitar o discurso.
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“Todos os conceitos, antes de mais nada, são contraconceitos, assim como cada fato será um contrafato e cada significação uma contra-significação. Apresentam-se como seletores de propriedades, e os antecedentes normativos, conceitos jurídicos que são, elegem aspectos determinados, promovendo cortes no fato bruto tomado como ponto de referência para as
critério material é constituído pela associação de um verbo (pessoal e transitivo) e seu complemento, que, necessariamente, deve representar uma conduta de possível realização (sob o prisma lógico,89 não fático90 ou jurídico91) por sujeito-de-direito e que consista em um dar (não-dar), fazer (não-fazer) ou ser (não-ser): conduta esta desvinculada de qualquer espécie de coordenada espacial e temporal.
O critério espacial comporta os elementos necessários e suficientes à identificação do local que o fato deverá ocorrer para ser considerado juridicamente relevante. Coincide, no mais das vezes,92 com o âmbito territorial93 da entidade tributante que o produziu. Já o critério temporal da hipótese tributária consiste no dado que, atuando sobre o critério material, permite limitar-lhe no tempo.94
Constituído o fato jurídico dá-se origem, mediante aplicação do fenômeno da imputação normativa, ao consequente ou prescritor (proposição-consequente). Este, em razão do disposto no artigo 3° do Código Tributário Nacional, alberga espécie de relação jurídica de consequências normativas. E essa seletividade tem caráter eminentemente axiológico” (CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário, linguagem e método, p. 132).
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Mantendo coerência com as premissas já adotadas neste texto, principalmente a de que a linguagem cria sua própria realidade e que não há relação (suficiente ou necessária) entre eventos e fatos, entendemos que o “possível”, assim como o “real”, é uma construção de sentido e como toda e qualquer construção de sentido dá-se num universo linguístico. Conduta de impossível ocorrência, portanto, é aquela sobre a qual não podemos falar (emitir proposições), e não aquela que não possa ocorrer factualmente (em um universo extra-linguístico).
90
O termo fático refere-se ao mundo extra-linguístico: este sim irrelevante para aferir-se a possibilidade ou não de uma conduta realizar-se (linguisticamente).
91
Com isso afastamos, dentre as condutas ditas impossíveis, aquelas marcadas pelo modal proibido [que pressupõem a possibilidade de sua ocorrência (enquanto constituição em linguagem)].
92
“Art. 102. A legislação tributária dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios vigora, no País, fora dos respectivos territórios, nos limites em que lhe reconheçam extraterritorialidade os convênios de que participem, ou do que disponham esta ou outras leis de normas gerais expedidas pela União.”
93
Abordando o fenômeno da substituição tributária e a eficácia extraterritorial de norma instituidora do ICMS, assim decidiu o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA: “Já no plano extraterritorial a norma interna de um Estado-membro somente tem eficácia extraterritorial, na medida e nos limites estipulados pelos entes políticos em instrumento normativo próprio, no caso os convênios de ICMS que, em alguns casos a depender da matéria neles veiculada, têm estatura de lei complementar. Nesse sentido é o art. 102 do CTN que transcrevo: (…) Portanto, o Estado do Rio de Janeiro não pode exigir a comprovação do recolhimento de ICMS por substituta tributária em operação interestadual se não celebrou convênio normativo com o ente federativo no qual se encontra situado o substituto tributário. Resta-lhe cobrar o imposto do adquirente das mercadorias, pois para o Estado fluminense aqui se inicia o ciclo de circulação do bem e, por conseguinte, a exigência fiscal reclamada. (...)” (STJ, 2ª T., REsp 1.103.234/RJ, rel. Min. Eliana Calmon, DJe 14.10.2009).
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Não há, repise-se, uma relação de equivalência necessária entre o critério temporal da hipótese normativa e o prazo de vigência da respectiva norma jurídico-tributária.
cunho patrimonial onde se encontram enlaçados sujeito ativo (titular do direito subjetivo de exigir o cumprimento de determinada prestação) e sujeito passivo (pessoa obrigada a cumpri- la).
Relação jurídica, portanto, exige a produção de norma concreta. Relação jurídico- tributária, complemente-se, requer a edição de norma individual e concreta. Decorrentemente, a violação a direito subjetivo do contribuinte requer a produção de ao menos duas normas jurídicas individuais e concretas (com o mesmo antecedente ou que o antecedente do segundo seja subclasse do antecedente do primeiro): a primeira outorgando ao sujeito-de-direito “X” o direito subjetivo “Y‟” e a segunda negando ao sujeito-de-direito “X” o direito subjetivo “Y‟”.
A composição interna da relação jurídico-tributária, como toda relação jurídica, requer a presença de pelo menos três elementos: sujeito ativo, sujeito passivo e objeto, ligados como se fosse uma só entidade.
Para que se possa cogitar da existência de relação jurídico-tributária, faz-se necessário que todos os elementos acima consignados estejam presentes. A ausência de apenas um deles proibirá95 o seu nascimento.
Em razão justamente dessas referências é que podemos atestar, categoricamente, a homogeneidade sintática das normas de estrutura hipotético-condicional e daquelas definidas por PAULO DE BARROS CARVALHO como normas jurídicas lato sensu:96 notadamente pelo fato de que esta classificação adotou, como critério diferenciador (discrimen), a composição sintática de cada uma delas.