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2.6. Hayat Bilgisi Öğretim Programları Ve Değerler Eğitimi
A atuação dos(as) promotores(as) de Justiça também não passa despercebida e isenta de críticas. Tanto a pesquisa desenvolvida pela Conectas Direitos Humanos173, como a desenvolvida pelo CESeC174, destacam o pouco engajamento do órgão ministerial quanto à função que deveria desempenhar no combate à tortura durante as audiências de custódia.
Os dados obtidos no acompanhamento em São Paulo pelo Conectas mostram que o MP apresentou questionamentos sobre a tortura apenas em 9% dos casos, descontando-se os casos em que a própria pessoa relatou a ocorrência de
171 MAIA, 2006, p. 236.
172 BRASIL. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Recomendação nº 49, de 1 de abril de 2014, artigo 1º, inciso I.
173 CONECTAS DIREITOS HUMANOS, 2017, p. 61. 174 LEMGRUBER, 2016, p. 60.
agressão de forma espontânea (sem que ninguém perguntasse) e os casos em que o(a) magistrado(a) já havia perguntado sobre alguma violência, sendo que em um terço destes casos a Defensoria teve que refazer a pergunta ao(a) acusado(a), assim então, aparecendo o relato175.
No mesmo contexto, destacou-se o fato de que, em 80% dos casos em que houve relato de violência, os(as) promotores(as) não realizaram qualquer intervenção sobre tortura ou outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, não manifestando intenção em apurar os fatos e,
nos casos em que fizeram intervenções, 60% das suas manifestações foram apenas para justificar ou naturalizar a agressão e para contestar a versão da vítima, por vezes trazendo elementos do Boletim de Ocorrência para colocar em dúvida ou deslegitimar os seus relatos.176
O IDDD, por sua vez, aponta que, por mais que o MP seja constitucionalmente o órgão responsável pelo controle externo da atividade policial, seus integrantes demonstraram pouco ou nenhum interesse em abordar a questão da tortura, tendo em alguns casos advertido o custodiado sobre a possibilidade de cometerem o crime de denunciação caluniosa caso o que fosse relatado se comprovasse como sendo falso.177
Por vezes, a “imagem de criminoso” foi reforçada por esses agentes, ignorando os relatos de agressão trazidos ou os entendendo como necessários à atuação policial. Parecia estar presente a ideia de que havia um interesse das pessoas presas em alegar violências sofridas, como se isso fosse lhes trazer benefícios.178
Além disso, foi observado que o MP frequentemente sustenta haver presunção de veracidade da palavra dos policiais, seguindo a mesma orientação adotada pelos(as) magistrados(as), o que se denota também pelo uso do fato de haver confissões, sejam formalizadas no inquérito ou informais – apenas relatadas pelos policiais que efetuaram a prisão – para embasar os pedidos de conversão em prisão preventiva.
Ainda sobre o comportamento do órgão ministerial durante as audiências de custódia, o relatório formulado pelo Ministério da Justiça aponta que:
175 CONECTAS DIREITOS HUMANOS, 2017, p. 62. 176 Ibid., p. 62.
177 INSTITUTO DE DEFESA DO DIREITO DE DEFESA, 2016, p. 67. 178 CONECTAS DIREITOS HUMANOS, op. cit., p. 64/65.
[...] alguns promotores(as) dizem que mesmo não acreditando nos relatos dos presos, porque na maioria das vezes as violências sofridas são ‘necessárias’ diante da resistência oferecida à prisão e não seriam, portanto, maus-tratos, pedem que o juiz providencie o encaminhamento das denúncias às respectivas corregedorias apenas para evitar que eles sejam taxados de coniventes ou sejam denunciados por prevaricação.179
Registre-se que a Recomendação n. 28/2015 do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que trata especificamente da atuação do órgão ministerial nas audiências de custódia, tampouco fala sobre a questão da tortura, muito menos de que nesse momento seria fundamental que os(as) promotores(as) cumprissem seu papel constitucional de exercer o controle da atividade policial.
Com efeito, a recomendação só estabelece, de forma geral, que:
O Ministério Público brasileiro, observadas as disposições constitucionais e legais, adote as medidas administrativas necessárias para assegurar a efetiva participação de seus membros nas audiências de custódia, objetivando garantir os direitos individuais do custodiado e promover os interesses da sociedade, aderindo, ainda, aos termos de cooperação técnica firmados pelos respectivos tribunais180.
Todo esse cenário não difere do que Casara conclui ao afirmar tratar-se de um mito a ideia de imparcialidade na atuação do Ministério Público no processo penal brasileiro, apontando que:
A afirmação da existência de uma “parte imparcial”, crença comum entre os atores jurídicos, é uma contradição em seus próprios termos; tem-se nessa construção teórica, que integra o imaginário da maioria dos promotores de justiça, uma verdadeira incompatibilidade ontológica.
[...] O promotor de justiça, no processo penal, é um dos sujeitos do contraditório e atua parcialmente; o ativismo é a marca da atuação desse órgão, sempre direcionada (e, portanto, comprometida com) à confirmação da hipótese acusatória.
[...] como pretender que esse órgão, com a atribuição constitucional de acusar, também seja imparcial?181
Essa parcialidade se comprova quando se constata que, nas audiências de custódia, os(as) promotores(as) pedem com frequentemente e sem maiores fundamentos a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva182, não sendo de se esperar que, repentinamente, consigam assumir uma posição imparcial de fiscais da lei.
Salo de Carvalho aponta o predomínio de uma postura corporativa e
179 BALLESTEROS, 2016, p. 54.
180 BRASIL. CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. Recomendação nº 28, de 22 de setembro de 2015. Dispõe sobre a atuação dos membros do Ministério Público nas “audiências de custódia”. DOU, Seção 1, p. 73. Brasília, 14 out. 2015.
181 CASARA, Processo Penal do Espetáculo, 2015, p. 169. 182 CONECTAS DIREITOS HUMANOS, 2017, p. 65.
conservadora acerca da política e da sociedade por grande parte dos integrantes da instituição183, para isso, baseia-se em pesquisa datada de 2005 que traçou um perfil
político-criminal dos membros do Ministério Público Gaúcho184.
A pesquisa aponta que os(as) procuradores(as) e promotores(as) questionados(as) sobre o motivo pelo qual escolheram a carreira no Ministério Público, em ordem de prioridades, optaram em 57,7% pela crença na função social da instituição, como segunda opção se destaca, além da função social do MP (20,2%), a atuação no combate à criminalidade com 30,8% das indicações e a atuação na defesa de direitos difusos e coletivos, com 20,2%.185
Sobre as opções político-criminais, 54,4%, ou seja, mais da metade dos entrevistados, identificaram-se com a política de “tolerância zero”, em segundo lugar, vem o “funcionalismo penal” com 26,9% de adesão, e, por último, o “Garantismo Penal” com apenas 8,2%186.
Além disso, 43,8% dos entrevistados afirmaram que a legislação brasileira seria excessivamente branda, com benefícios processuais ao réu, penas curtas, etc., o que dificultaria a contenção da criminalidade187, tendo 82% concordado com a expansão do Direito Penal, a fim de tutelar bens jurídicos ameaçados frente aos novos riscos sociais188.
Os dados não se mostram apartados do que foi colhido em pesquisa realizada 5 anos depois no Distrito Federal, onde, quanto à idade de imputabilidade penal, um percentual significativo (31,7%) considerou necessário reduzi-la para 16 anos189. Além disso, 67,6% mostraram-se de acordo com a afirmação de que “a legislação penal e processual penal brasileira é excessivamente branda, dificultando
183 CARVALHO, Salo de. O Papel dos Atores do Sistema Penal na Era do Punitivismo: O
Exemplo Privilegiado da Aplicação da Pena. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, p. 100-102.
184 WEINGARTNER NETO, Jayme; AZEVEDO, Rodrigo Ghiringhelli de. Perfil Socioprofissional e Concepções de Política Criminal do Ministério Público Gaúcho. In: VIII CONGRESSO LUSO- AFRO-BRASILEIRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 2004, Coimbra. A Questão Social no Novo Milénio.
Coimbra: Ces, 2004, p.15-22. Disponível em:
<http://www.ces.uc.pt/lab2004/inscricao/pdfs/painel36/RodrigoAzevedo_JaymeNeto.pdf>. Acesso em: 07 jun. 2017.
185 Ibid., p. 15. 186 Ibid., p. 15-16. 187 Ibid., p. 20. 188 Ibid., p. 21.
189 AZEVEDO, Rodrigo Ghiringhelli de. Escola Superior do Ministério Público da União. Perfil Socioprofissional e Concepções de Política Criminal do Ministério Público Federal. Brasília, 2010, p. 42. Disponível em: <http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/7/docs/perfil_socioprofissional- ebook.pdf>. Acesso em: 06 jun. 2017.
a contenção da criminalidade”190, quanto, 71,2% mostraram-se favoráveis à
expansão do direito penal191.
Para Azevedo, esse perfil recrudescedor demonstra haver “uma valorização das práticas exclusivamente retributivas na área penal e a falta de investimento institucional no controle e persecução à violência policial”192, o que,
decerto, se reflete na atuação cotidiana dos integrantes da instituição na participação em audiências de custódia.
Em verdade, a experiência pessoal da pesquisadora não destoou do quadro descrito, sendo observado que em nenhum momento o integrante do Ministério Público abandonou sua posição de acusador, ainda que se trate de momento pré-processual.
Embora seja também seu papel, fica claro que os(as) promotores(as) de justiça não estão preparados para desempenhar a contento a dupla função que possuem, pois, enquanto representam a sociedade para promoverem a persecução penal daquele que, alegadamente, violou a ordem jurídica, também a representam para manter essa mesma ordem, garantindo ao indivíduo processado a fluência de seus direitos constitucionais.
Inobstante, a compartimentalização das funções dentro da instituição parece dar a ideia de que não cabe aos promotores(as) em atuação nas audiências de custódia também realizarem o controle externo da atividade policial, diante da existência de colegas com essa atribuição. Essa concepção equivocada ignora que se trata de uma função institucional do Ministério Público, devendo seus integrantes atuarem como um só corpo e se responsabilizarem pelo dever atribuído à instituição pela Constituição Federal.
3.4 A tímida atuação da Defesa diante da importância de seu papel