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Hava aralığı, stator ve rotor kutup boyutlarının değişim aralığının belirlenmesi

2. KLASĐK ANAHTARLAMALI RELÜKTANS MOTORLARIN YAPISI,

2.7. Klasik ARM’un Manyetostatik Analizi

2.7.2. Hava aralığı, stator ve rotor kutup boyutlarının değişim aralığının belirlenmesi

A ausência de um percurso previsível para a idade adulta exige do jovem uma atitude temporal tão aberta quanto a amplitude que o horizonte temporal adquire para cada indivíduo na atualidade. E isto muda radicalmente o modo de o jovem organizar sua biografia. Se, na modernidade, a juventude permitia pensar a superposição entre identidade individual e identidade social na constituição de projetos pessoais; hoje cada um deve organizar autonomamente sua biografia e definir continuamente sua identidade.

As instituições sociais que tinham um papel preponderante na construção de sentido para as trajetórias biográficas juvenis perdem esse caráter e ocupam-se apenas de cadenciar os tempos do cotidiano. Ocorre com isso, afirma Leccardi (2005), uma separação entre trajetórias de vida, papéis sociais e vínculos com o universo institucional que conferiam uma forma estável à identidade. Impossibilitados de ancorar suas experiências no mundo das instituições sociais e políticas, a escolha e a definição dos limites depende do próprio jovem, de sua capacidade individual de construir e reconstruir continuamente os sentidos de sua experiência.

Mediante a fluidez das estruturas sociais, os jovens experimentam movimentos oscilatórios e reversíveis, verdadeiros vaivém: entram e saem do mercado de trabalho, saem da casa dos pais e retornam, abandonam e retomam os estudos, casam-se mesmo ante as dificuldades materiais e a inconstância afetiva. Pais (2005) utiliza a metáfora do ioiô para expressar este modo de os jovens cadenciarem suas existências ao se depararem com um futuro indefinido. Num cenário de imprevisibilidades, preferem as escolhas arriscadas, as rupturas e os desvios, ou seja, abrir-se às oportunidades que o instante lhes oferece.

Cultural e biologicamente instalados no tempo, enraizados no presente, os jovens forjam suas identidades fazendo frente às metamorfoses e flutuações. Inventam ritmos de entrada e saída que lhes assegurem comunicar-se com o mundo exterior, mantendo uma unidade interna. A metamorfose é a resposta mais adequada à exigência de continuidade temporal. Alterar a forma, redefinir-se reiteradas vezes no presente, anular decisões anteriormente tomadas são alguns modos de garantir a unidade e a continuidade da experiência individual e afirmar a alteridade.

Para decirlo en otros términos, la juventud es un espacio de irreversibilidad menor que la adultez porque es menor la serie de jugadas que se han realizado y mayor la que queda por hacerse, por lo que las possibilidades

abiertas son más amplias, lo cual implica una manera diferente de estar en el mundo, con percepciones y apreciaciones distintas, con abanicos de opción más amplios, y con una frecuente sensación de invulnerabilidad que deriva de esa falta de huellas previas, raiz de la que emana esa característica imagen de disponibilidad 57 (MARGULIS E URRESTI, 2002, p.10-11).

“De forma generalizada, a pessoa se converte no árbitro e regulador destas oscilações, pois é a única capaz de marcar o ritmo e a cadência”58. E isto exige dos seres humanos uma nova sabedoria. Uma sabedoria que os jovens manifestam na busca de novas relações entre o processo e criação pessoal em face da incerteza. Em sua relação com o tempo, sugere Leccardi (2005)59, os jovens não absolutizam o presente, nem se restringem a viver o aqui e agora. As expectativas no futuro, ainda que indeterminado e incerto, são projetadas e os jovens vivem esta incerteza quanto ao futuro como disponibilidade diante do acidental, do acaso.

Talvez por isso a metáfora do palimpsesto sugerida por Martín-Barbero (2005) seja também adequada para aproximarmo-nos da compreensão destes constructos identitários que desafiam nossa racionalidade. As identidades juvenis assemelham-se a estes textos nos quais um passado quase esquecido emerge nas entrelinhas do presente. As trajetórias biográficas juvenis, estes palimpsestos, se inscrevem em linhas temporais e espaciais bastante difusas, atravessam nossas conhecidas demarcações culturais, territoriais e históricas.

O passado e o futuro aparecem na memória juvenil como episódios, cada qual com seu próprio sistema temporal de referência. Contrapondo-se às referências identitárias baseadas na cultura letrada, na língua e no território, os jovens estruturam suas referências por intermédio de comunidades hermenêuticas. Configuram identidades temporais menos largas, mais precárias, contudo mais flexíveis, com uma elasticidade que lhes possibilita amalgamar ingredientes originados dos mais diversos contextos culturais, constituindo assim “[…] una identidad marcada menos por la continuidad que por una amalgama en la que aun la articulación de los tiempos largos la hacen los tiempos cortos, son ellos los que vertebran internamente el palimpsesto tanto de las sensibilidades como de los relatos que se dice la

57 “Para dizer em outros termos, a juventude é um espaço de irreversibilidade menor que a adultez porque é

menor a série de jogadas realizadas e maior a que ainda há por fazer, porque as possibilidades abertas são mais amplas, o que implica uma maneira diferente de estar no mundo, com percepções e apropriações distintas, com leques de opções mais amplos, e com uma freqüente sensação de invulnerabilidade que deriva desta falta de sinais prévios, de onde emana essa característica imagem de disponibilidade” (MARGULIS E URRESTI, 2002, p.10-11).

58 MELUCCI, 2001b, p.129, tradução nossa.

59 Leccardi (2005) refere-se a uma pesquisa recente realizada com jovens franceses e espanhóis, na qual os

jovens manifestam uma orientação biográfica definida como “estratégia de indeterminação”, uma crescente capacidade dos jovens de ler a incerteza do futuro como potencialidade e não como limite à ação.

identidad”60 (MARTÍN-BARBERO, 2002, p.34-35).

A constituição da identidade no mundo contemporâneo não se dá pela via do desejo, mas da falta. O sentimento de falta, incompletude, incerteza e indeterminação é constitutivo da vida cotidiana e é marcado ainda por um paradoxo: o fato de que é impossível não escolher. Escolher é liberdade e necessidade. Deve-se decidir o que fazer mesmo que não o saiba, deve-se decidir para onde caminhar ainda que não se tenha destino certo. Deve-se renunciar a partes de si que não correspondem ao percurso escolhido, deve-se abandonar partes da experiência que não se encaixam no hoje. A escolha é o destino e a perda é uma condição permanente.

A multiplicação dos espaços, tempos e cursos para a ação fez da perda uma condição permanente na experiência individual contemporânea. Perde-se não porque há um horizonte no qual a perda é uma das possibilidades, mas porque no curso da experiência social, o indivíduo deve sacrificar aquelas partes do eu que não se encaixam no aqui e no agora e deve renunciar àquilo que não se traduz numa ação. Perde-se porque o indivíduo, instado a construir autonomamente os significados e sentidos de sua ação, vê reduzida sua capacidade de conferir a si mesmo uma identidade estável e definida. Em suma, perde-se porque a multiplicação das oportunidades nem sempre vem acompanhada das condições materiais para sua realização.

A experiência cultural descrita por Melucci (2001b) afeta a todos os grupos sociais e grupos de idade. Mas, nos processos de construção identitária juvenis, esta experiência é mais intensa. É que, sem horizontes temporais estendidos e destituídos das condições materiais de vida, os jovens dispõem somente das condições simbólicas, de sistemas de signos e estímulos imaginários para dar respostas às perguntas identitárias. Estas possibilidades simbólicas ofertadas pelo sistema, contudo, não correspondem a experiências concretas que instituem reais limites ao indivíduo. A metáfora do nômade, evocada por Melucci (1998), é o que melhor descreve as trajetórias biográficas juvenis porque no tempo presentificado, no limite das condições sociais de insegurança e de risco e ainda, por suas desiguais condições materiais, os jovens constroem trajetórias biográficas de curtos episódios, descontínuas e indeterminadas.

Ser nômades sugere a liberdade dentro do espaço; ser nômades do presente sugere a liberdade em relação ao tempo. […] O único atributo permanente do eu é sua volatilidade. Sua estabilidade reside no mutamento perpétuo e sua

60 “[…]uma identidade marcada menos pela continuidade que por uma amálgama na qual inclusive a articulação

dos tempos largos são produzidas pelos tempos curtos, são estes que vertebram internamente o palimpsesto tanto das sensibilidades como dos relatos em que se narra a identidade” (MARTÍN-BARBERO, 2002, p.34-35).

única definição durável é dada pela transitoriedade de cada sucessivo estado momentâneo que isto assume (BAUMAN, 2003, p.58).

Bauman (2003) assevera que Melucci (1997, 2001a, 2001b) foi um dos primeiros pensadores sociais a notar a mudança radical nas condições existenciais e também a modificação nas estratégias da definição identitária. A partir da ênfase que Melucci (2001b) confere ao aprofundamento das mudanças sociais e suas implicações para a configuração da identidade contemporânea, é possível articular sua teoria ao pensamento de Giddens (2002) e Bauman (2003, 2005)61. Sobre um aspecto estes teóricos são unânimes: a modernidade procedeu à dessacralização dos fundamentos da identidade, enviando para o agir humano e para o meio social as fontes do processo de identificação. A possibilidade outorgada ao indivíduo de pensar a si mesmo em termos individuais, de pensar seus vínculos e suas relações sociais é um legado da vida social moderna. A identidade torna-se um produto da ação consciente e resultado da auto-reflexão e a individuação é mais vivida como uma ação do que uma situação. De fato, pensarmo-nos em termos de indivíduos, demarcar fronteiras entre os níveis individual e coletivo, individual e social converteu-se em algo potencialmente disponível para o conjunto da sociedade moderna.

Todavia, na experiência cultural contemporânea, adverte Melucci (2001b), tem lugar uma transformação nos processos de construção da identidade que acarreta uma crise no conceito moderno de indivíduo. O conceito essencialista de identidade que abriga uma estrutura estável com a qual o indivíduo ou grupo se identifica ou mesmo a idéia de um sujeito ou de um ator que teria um núcleo forte definido metafisicamente desloca-se para dar lugar aos processos pelos quais o indivíduo ou o grupo constrói sua identidade. A imagem moderna do indivíduo-em-si tem se esvaziado progressivamente de suas dimensões substancialistas e vem abrindo-se para a imagem do indivíduo-como-processo que busca constantemente construir-se a si mesmo, salvaguardar seus limites, preservar suas raízes biológicas e sociais. A dificuldade deste novo indivíduo não é a de saber como mudar o curso de sua vida, mas como assegurar sua continuidade e sua unidade. A pergunta “Quem sou eu?” deve ser respondida pelo indivíduo no curso de sua existência e em virtude de um sistema de relações sociais que se mantém em estreita conexão com suas ações.

Giddens (2002) declara que muitas das características da modernidade tardia já

61 Na obra Modernidade e identidade, Giddens (2005) apresenta as principais tendências desta nova ordem social

e caracteriza as transformações culturais ocorridas no último século. Em suas análises, o autor nomeia modernidade e alta modernidade ou modernidade tardia os diferentes momentos históricos da sociedade moderna. Bauman (2005), ao responder uma entrevista conduzida (via email) por Benedetto Vecchi, empreende uma reflexão acerca da identidade, sustentando o conceito de modernidade sólida e modernidade líquida para

estavam impressas nas atividades sociais desde o advento da modernidade. Por essa razão, as mudanças descritas por Melucci (2001b) são mais qualitativas que quantitativas. Já no advento da modernidade, o descolamento das relações sociais de seus contextos locais, os processos de reorganização do espaço-tempo e o desencaixe das instituições sociais, associados ao uso regularizado dos sistemas de conhecimento transformaram o conteúdo e a natureza da vida cotidiana, estendendo a dimensão do risco, da dúvida e da incerteza para a constituição do eu.

Aceitar o risco como elemento constitutivo da identidade é admitir que nenhum aspecto de nossa atividade social segue um curso predestinado e que estamos expostos às contingências. Frente ao risco e à imprevisibilidade, o indivíduo deve preparar um curso de ações futuras em sua trajetória biográfica. Deve-se considerar não apenas um modo de vida, mas os possíveis modos de vida aos quais deve responder satisfatoriamente no desdobramento temporal da auto-identidade.

O caráter performativo da constituição identitária e a adoção de um estilo de vida assumem, na vida social moderna, um significado particular. Não basta apenas seguir um estilo de vida que se considera “adequado” à sua identidade, mas, sobretudo, deve-se escolher um conjunto de práticas que darão forma material a uma narrativa particular da auto- identidade.

[…] a auto-identidade não é um traço distintivo, ou mesmo uma pluralidade de traços, possuído pelo indivíduo. É o eu compreendido reflexivamente pela

pessoa em termos de sua biografia. A identidade ainda supõe a continuidade no tempo e no espaço: mas a auto-identidade é essa continuidade reflexivamente interpretada pelo agente. […] Uma pessoa com um sentido razoavelmente estável de auto-identidade tem uma sensação de continuidade biográfica que é capaz de captar reflexivamente e, em maior ou menor grau, comunicar a outras pessoas. […] A identidade de uma pessoa não se encontra no seu comportamento nem – por mais importante que seja – nas reações dos outros, mas na capacidade de manter em andamento uma

narrativa particular (GIDDENS, 2002, p.54-56, grifos do autor).

Esta substancial alteração nas narrativas identitárias resume-se em três aspectos: a obrigatoriedade da escolha, a exigência da adoção de um estilo de vida e o impacto existencial da escolha sobre a vida cotidiana. A “liberdade de escolher” e a necessidade da renúncia, conjugadas à escassez de tempo, dão à incerteza uma amplitude jamais imaginada. E o sentimento de desamparo diante da incerteza é o terror mais profundo.

Com efeito, agir frente à multiplicidade de escolhas, adotar um estilo de vida é uma

tarefa complexa. Bauman (2005) sublinha que, na “modernidade sólida”, a liberdade de conceber a auto-identidade vinha acompanhada de uma confiança do indivíduo em si mesmo, nos outros e na sabedoria coletiva da sociedade (na confiabilidade de suas instruções e na durabilidade de suas instituições). Contudo, no ambiente de vida “líquido-moderno”, as identidades são a encarnação mais comum, mais aguçada, mais profunda e perturbadora da ambivalência. A sociedade e suas instituições não mais sinalizam os caminhos para os indivíduos e não são mais os árbitros de suas tentativas e erros.

Opostamente, a força e o poder das instituições baseiam-se em sua não-locabilidade, na versatilidade, na volatilidade e na imprevisibilidade de seus movimentos. As âncoras sociais que faziam parecer natural e predeterminada a identificação foram retiradas e o indivíduo deve buscar por si mesmo os substitutos válidos. “As identidades ganharam livre curso, e agora cabe ao indivíduo, homem ou mulher, capturá-las em pleno vôo, usando os seus próprios recursos e ferramentas” (BAUMAN, 2005, p.35).

Construir a identidade (ou as identidades pessoais) não se assemelha a compor um jogo de quebra-cabeças. Enquanto na “modernidade sólida”, o indivíduo tinha em mãos todas as peças necessárias à composição de “uma figura”, a auto-identidade. Na modernidade líquida, o indivíduo experimenta a construção identitária com o que tem em mãos e seu problema não é alcançar um ponto pretendido, mas saber quais pontos podem e merecem esforço para serem alcançados com as peças (meios) que tem em mãos. A caixa do quebra- cabeças não vem com o desenho, o modelo a ser seguido.

Se na “modernidade sólida” o indivíduo guiava-se por uma racionalidade instrumental, ele agora deve guiar-se por uma racionalidade do objetivo. E o mais paradoxal é que ajustar peças para formar um todo consistente e chamá-lo identidade não é, não pode e não deve ser a preocupação do indivíduo contemporâneo. Uma identidade coesa é sinal de inflexibilidade, de limitação da liberdade de escolha. Sinal de modernidade agora é “flutuar na onda das oportunidades mutáveis e de curta duração” (BAUMAN, 2005, p.60). A mudança obsessiva e compulsiva é a essência do jeito moderno de ser e a experimentação infindável é a forma assumida para a construção identitária.

Todavia, encontrar-se diante de muitas opções não significa que as escolhas estão abertas para todos. A modernidade não produz apenas oportunidades, também produz diferença, exclusão e marginalização. A potencial disfunção do capitalismo é a mudança da exploração para a exclusão. Bauman (2005) concorda e assevera que a exclusão está na base das polarizações sociais, do aprofundamento das desigualdades e do aumento da pobreza, ao ponto de criar as identidades de sub-classe, grupo de pessoas que perderam a condição de

sujeito socialmente reconhecido e tiveram o seu bios reduzido a zoe (uma vida puramente animal).

[…] a identificação é também um fator poderoso na estratificação, uma de suas dimensões mais divisivas e fortemente diferenciadoras. Num dos pólos da hierarquia global emergente estão aqueles que constituem e desarticulam as suas identidades mais ou menos à própria vontade, escolhendo-as no leque de ofertas extraordinariamente amplo, de abrangência planetária. No outro pólo se abarrotam aqueles que tiveram negado o acesso à escolha da identidade, que não têm direito de manifestar as suas preferências e que no final se vêem oprimidos por identidades aplicadas e impostas por outros – identidades de que eles próprios se ressentem, mas não têm permissão de abandonar nem das quais conseguem se livrar. Identidades que esteriotipam, humilham, desumanizam, estigmatizam… (BAUMAN, 2005, p. 44, grifo do autor).

Abrir-se a um “[…] constante processo de negociação entre as diversas partes do eu, tempos diversos do eu e ambientes ou sistemas diversos de relações […]” é a prerrogativa para responder à “[…] multiplicidade e contraditoriedade de elementos que nos compõem em cada momento” (MELUCCI, 2004, p.67). Porém, é o que confere aos indivíduos a autonomia necessária para serem sujeitos de sua ação. Os processos de individualização atestam a emergência de um ator social que produz sentido para aquilo que diz e faz através de suas interações, que fala de si com um certo sentido de unidade e de permanência, ainda que estejam multiplicadas as facetas de sua identidade.

A perspectiva apontada aqui remete à responsabilidade atribuída ao indivíduo de definir os horizontes, reconhecer os limites e possibilidades de um campo de relações que constitui sua própria identidade. Com isso, o processo de negociação é, para o sociólogo, a tarefa mais árdua para o indivíduo. A negociação é o contínuo reajustamento da perspectiva temporal e da capacidade individual ao tecer – no presente – a ligação entre memória e projeto. Neste processo, nada é definitivamente perdido porque também nada é adquirido. Os processos de individualização resultam num tipo de subjetivação e de interiorização da identidade que é profundamente social.

Pensar a identidade em termos de possibilidades e limites é também indagar pelos modos como esta se forma e se mantém. Decerto, as respostas oferecidas pela sociedade e o pressuposto metafísico da unidade do sujeito moderno já não comportam pessoas e grupos imersos em processos de fragmentação e multiplicação identitários que referem a si mesmos como sujeitos de ação. Nos sistemas modernos, o sujeito era definido pela interiorização do social e a separação entre ator e sistema era evidente. A identidade moderna constituía-se pela existência de um sujeito, sua delimitação em relação aos outros e a capacidade de reconhecer

e ser reconhecido por esses outros. Até aqui, as interações primárias, as instituições de socialização tinham papel fundamental na experiência do sujeito, de tal modo que era impossível separar os aspectos individuais das raízes relacionais e sociais identitárias. Eis aí a outra ponta da linha reflexiva tecida por Melucci (2001b, 2004).

Melucci (2001b; 2004) ressalta que os recursos disponibilizados para a individualização, ou identização (como prefere o autor), fazem com que os processos de construção do significado da experiência sejam cada vez mais uma prerrogativa dos atores individuais. O sentido da ação – que nos sistemas tradicionais e modernos estava depositado em outro lugar – é produzido e reconhecido pelo indivíduo. O que Melucci (2001b) sugere e Dubet (1994) assegura é que a experiência individual agora construída pelo ator não é resultante de uma lógica de ação, mas de combinatórias subjetivas de elementos objetivos.

Para Dubet (1994), a sociedade não é mais estruturada por um princípio de coerência interna, regido pelos sistemas de integração e de competição e pela cultura. Na sociedade pós- industrial, cada um destes sistemas tem sua própria lógica e se define sobre um campo e um espaço particular. Numa sociedade em que a dispersão das lógicas de ação torna-se a regra, as condutas sociais não são redutíveis à pura aplicação de códigos interiorizados nem podem ser explicadas pelo encadeamento de escolhas estratégicas que fazem da ação uma decisão racional. Só podem ser compreendidas como “[…] condutas individuais e coletivas dominadas pela heterogeneidade de princípios constitutivos e pela atividade dos indivíduos que devem construir o sentido de suas práticas no seio desta mesma heterogeneidade” (p.15). Se os atores são obrigados a gerir diversas lógicas de ação, é porque o lugar onde isto ocorre –

Benzer Belgeler